2009/10/05

A Mulher do Viajante no Tempo - Audrey Niffenegger

Este título sempre me despertou alguma curiosidade que me deparava com ele, mas a verdade é que nunca me senti impelido a lê-lo... Até há 2 semanas atrás, quando vi o trailer para o filme baseado na obra de Niffenegger que deve estar por aí a estrear mais dia menos dia (acho que nos EUA já estreou) e ficar complestamente confuso com aquilo tudo de ele estar casado com a mulher, mas desaparecer de vez em quando, deixando-a sozinha.

Ora bem, na semana passada fui à biblioteca e, ao fazer a pesquisa na base de dados, vi que exisita o livro. Não resisit a trazê-lo comigo. E não é que o despachei duma assentada? Apesar de ser um livro com 400 e tal páginas, entusiasmou-me aquela ideia de Henry (a personagem principal e que viaja no tempo) viver a vida desordenadamente. Apesar de não ter percebido uma ou outra passagem do livro, tudo faz sentido! Tenho de tirar o chapéu a esta Audrey Niffenengger, porque ela realmente conseguiu ter uma ideia fantástica (a de um homem a viajar no tempo, ao encontro daquela que virá a ser a sua mulher no futuro dela) e, acima de tudo, por ter conseguido transmiti-la da melhor forma possível.

Claro que se trata de uma história romanticazeca a puxar para o melodramático lá mais para o fim (e isso provavelmente vai ser enfatizado - infelizmente - no filme, com quase toda a certeza). Mas o resto está bastante interessante e podemos tirar bastante sumo destas quase-filosóficas considerações sobre as relações humanas (o amor, especificamente) inserido (ou não) no tempo cronológico.

Não sou de gostar deste tipo de romances, mas tenho de admitir que a autora me conseguiu "seduzir".

8 estrelas

2009/08/01

Contos de Beedle o Bardo - J.K. Rowling

Um livro para crianças nascido muito provavelmente graças ao último livro da série Harry Potter (uma espécie de spin off literária), no qual se fazem referências a uns contos populares infantis do mundo dos feiticeiros, nomeadamente "O Conto dos Três Irmãos", o qual tem consequências para a narrativa do livro em questão.

O que mais me agradou neste livro não foram tanto as histórias, mas sim o humor (aqui veiculado pelas notas do Professor Albus Dumbledore) a que Rowling já nos habituou na série do Harry Potter. É engraçado e lê-se num instantinho (uma hora, se tanto). Um livro que não exige muito de nós, mas que nos deixa com a sensação de saciedade por mais histórias relacionadas com o mundo mágico criado pela autora.

7 estrelas

2009/07/29

Se Isto é um Homem - Primo Levi

Relato de um italiano judeu, preso num campo de concentração perto de Auschwitz. É um retrato cru, directo e, ao mesmo tempo, simples da vida de um homem que viveu aquele horror e teve a sorte de sobreviver. Para além de descrever as atrocidades vividas/presenciadas, consegue descrever as coisas simples, as pequenas vitórias e as histórias dos que se cruzaram no seu caminho.

Esta época da História mundiasl é das que mais me horroriza e atemoriza. E, por mais filmes que veja e por mais livros que leia acerca deste tema, nunca hei-de conseguir compreender tamanha crueldade.

"Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem."

2009/07/23

O Diário de Zlata - Zlata Filipović

No geral, gostei bastante deste livro. Já tinha ouvido falar dele (quem não terá ouvido?) e tinha algum interesse em lê-lo. Acabei por ficar foi bastante surpreendido com esta "personagem" que é a Zlata Filipović, que realmente existiu e que de facto escreveu um diário que acabou por se tornar num dos mais importantes documentos da Guerra que arrasou a ex-Jugoslávia. É incrível vermos nestas páginas que uma criança de apenas 11-12 anos tinha um discernimento tão grande sobre o que a rodeava:

"Quinta-Feira, 19 de Novembro de 1992
(...) Entre os meus colegas, os meus amigos, a nossa família, há sérvios, croatas, muçulmanos. É um grupo muito misturado, e eu nunca soube quem era sérvio, quem era croata, quem era muçulmano. Agora, a política meteu o nariz e pôs um «S» nos sérvios, um «M» nos muçulmanos e um «C» nos croatas. Quer separá-los. E para escrever essas letras, usou o pior, o mais negro dos lápis. O lápis da guerra, que só escreve infelicidade e morte."

Para mim foi ainda mais interessante ler este livro, pois eu próprio, em 2007 (mais de 10 anos depois da guerra!), tive oportunidade de visitar Sarajevo e ver com os meus próprios olhos a destruição que uma guerra originada pela mesma razão estúpida de sempre (o nacionalismo, sempre o nacionalismo) provocou, levando a que inocentes sofressem desnecessariamente.

"Segunda-Feira, 29 de Junho de 1992 Dear Mimmy, ESTOU FARTA DOS TIROS DOS CANHÕES! E DOS OBUSES! E DOS MORTOS! E DO DESESPERO! E DA FOME! E DA TRISTEZA! E DO MEDO! A minha vida é isto! Não se pode criticar uma estudante inocente, de 11 anos, por querer viver. Uma estudante que já não vai à escola, que não tem alegria, que não tem as emoções dos estudantes. Uma criança que já não brinca, que não tem amigos, nem sol, nem pássaros, nem natureza, nem frutos, nem chocolates, nem bombons, só um bocadinho de leite em pó. Em resumo, uma criança que não tem infância, uma criança da guerra. Agora é que de facto compreendo que estou a viver uma guerra, que sou testemunha de uma guerra suja e repugnante (...)"

Gostei de ler este livro, por ser uma leitura em que é fácil embrenharmo-nos.

7,5 estrelas

2009/07/15

Breve História de Quase Tudo - Bill Bryson

Este livro está para a ciência como o Mundo de Sofia está para a filosofia:
dois excelentes livros que são óptimas obras introdutórias.
A Breve história tem um condão: o de nos fazer desconfiar. De nos ajudar a perceber que o que se sabe em termos de ciência é muito, muito pouco. Perceber que muitas teorias que são intocáveis para a cultura dominante são na realidade intangíveis, por falta de provas que as sustentem.

E é bom que assim seja, é saudável. Sempre que no mundo científico se teve certeza de alguma coisa só com grande esforço se conseguiu avançar, normalmente pela negação completa da crença que se tinha formado.

Confesso que já me cansam um pouco os livros de divulgação científica, porque me parecem cada vez mais parecidos uns com os outros. Cada vez mais dizem a mesma coisa e sempre a mesma coisa como se nada mais houvesse a dizer - se não havia para quê escrevê-lo?
Até os episódios anedóticos são tantas vezes os mesmos!
Por outro lado fazem falta bons livros de ciência que expliquem em linguagem simples o estado da arte nas diversas ciências. Mas era importante que fossem livros com profundidade, porque de outra forma ficamos sempre pela mesma conversa, não sentimos que adiante alguma coisa.
Este livro, fugindo àquele primeiro exemplo de livro repetitivo, também é demaisado generalista para ter a profundidade de que falo.
Nele aprendi algumas coisas e puz em causa muitas outras. É um livro inspirador, fruto de uma pesquisa enorme. E isso sente-se a par e passo.
Vale mesmo a pema lê-lo.

A última tentação de Cristo - Nikos Kazantzakis

Este livro está carregado de duas coisas que inundam a Bíblia: poesia e alegoria.
Talvez por isso mesmo, por este misturar de naturezas, tenha sido tão mal recebido pela Igreja Católica.
Não se trata de um livro histórico, nem pretende sê-lo e qualquer coincidência entre as persoagens que o habitam e as homónimas da Bíblia é mera coincidência: o seu valor é meramente simbólico.
Sendo tudo isto verdade, parece que ir buscar a história de Cristo é um abuso. Parece ter sido esse o entendimento da Igreja. Mas não. O livro é, do início ao fim, uma reflexão profunda, uma interpretação honesta da história de Cristo. Com honesta não quero dizer correcta, isso é outro assunto. Mas parece-me que o livro - e o filme - não merecia uma resposta tão primária.
Vejo no livro, como antes já tinha visto no filme, a mão de alguém que se procura aproximar de Cristo, entendê-lo profundamente. Alguns pontos são muito curiosos: Jesus fugindo a sete pés do seu destino. As figuras de Pedro, de Paulo, a propriamente dita última tentação, são bons motivos para fazer esta leitura.
Muito obrigado, Anamae!

2009/06/24

Budapeste - Chico Buarque

Um livro que conta a sua própria história. A ideia de circularidade, que tanto me agrada, revela-se no final.

Linguagem simples, fluida. Lê-se de uma assentada.

Conta-se a história de um escritor que, de forma anónima, empresta os seus escritos a outros para que estes possam publicar obras/textos de qualidade como sendo suas. Personagem contraditória, ou melhor, que vive uma contradição interior. Por um lado, gosta do anonimato mas, por outro, não suporta que os que lhe são próximos elogiem os falsos autores do trabalho que na verdade é seu. Acaba por viver num espaço algures entre a realidade e a ficção, entre aquilo que é e escreve e aquilo que representa ver ou não livros assinados com o seu nome.

Confuso? Talvez, mas garanto que o livro não deixa espaço para confusões. Definitivamente, uma agradável surpresa.

2009/06/12

Um Estranho em Goa - José Eduardo Agualusa

Livro cheio de uma mistura de culturas que nos transporta pelo mundo lusófono sem sairmos do nosso próprio sofá. Interessante e misteriosa intriga onde o narrador se vê envolvido. Ou será: onde o próprio narrador se envolve? Move-o a curiosidade.

Agradaram-me as descrições, breves mas bem direccionadas: dos locais, das pessoas/personagens, dos hábitos do dia-a-dia. São os pormenores, como a descrição de uma simples refeição por exemplo, que tornam a história verosímil, apesar de nunca sabermos ao certo se o que “vemos” desfilar à nossa frente é realidade (ainda que só na vida das personagens) ou fantasia.

Livro rico em referências bibliográficas e musicais, certamente úteis para descobrir mais um pouco acerca da Índia. Tivesse eu tempo e possibilidade de viajar fisicamente até lá e lê-los-ia e ouvi-los-ia a todos avidamente.

Encantador. No sentido original, na medida em que lança sobre nós um feitiço e nos deixa inebriados com os cheiros, o calor e os sons típicos de locais quentes como a Índia, o Brasil ou África.

“Nenhuma moeda tem apenas um lado. Assim como não há vida sem morte nem luz sem sombra, da mesma forma o bem não faz qualquer sentido se não houver o mal.”

2009/06/05

As Velas Ardem Até ao Fim - Sándor Márai

Já tinha ouvido falar deste livro (ou melhor, já tinha ouvido o título deste livro algures), apesar de não saber ao certo do que tratava. Mas por se tratar de um autor húngaro, tinha imensa curiosidade em lê-lo.

Para não estragar a surpresa a quem venha a ler o livro, não me posso alongar muito na história, podendo apenas dizer que se trata da história de uma amizade. Não de uma amizade passageira, mas sim de uma amizade profunda entre dois homens que se conheceram nos finais do século XIX, no Império Austro-Húngaro, e que se reencontram muito tempo depois.

O livro está muito bem escrito e, apesar de não parecer muito verosímil (com capítulos seguidos narrados em monólogo, o que nos faz pensar estar a ver um filme de Manoel de Oliveira ou de Ingmar Bergman), acaba por ser muito interessante, pois além de levantar algumas questões filosóficas acerca da ideia de Amizade, ainda nos faz ponderar, de maneira mais pragmática graças aos acontecimentos que depois nos são narrados, se realmente a Amizade existe e se a tudo resiste. Diria que, neste aspecto, o livro acaba por dar uma visão pessimista disso mesmo.

Em termos literários, este é um livro difícil (algumas pessoas dirão 'enfadonho'), pois não acontece (ou demora a acontecer) alguma coisa que justifique o estarmos a lê-lo. Mas como está tão bem escrito, e após a curiosidade inicial, alcançamos a velocidade de cruzeiro e só conseguimos descansar quando chegamos ao momento em que "as velas arderam até ao fim".

Gostei. Acho que este livro vale a pena!

8 estrelas

Crónica de uma Serva - Margaret Atwood

Custa-me sempre começar um livro cuja acção não se passe num tempo real. Já assim me aconteceu com Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. No entanto, depois de ultrapassado esse obstáculo, percebem-se a ironia do texto e as “lições” que dele podemos tirar, por exemplo, no que diz respeito ao modo como nos relacionamos com os outros e ao modo como usamos levianamente a liberdade de que dispomos.

Porém, neste livro, com uma história original passada numa época futura, pós-feminista, apreciei sobretudo a estrutura. Há uma comunicação constante entre a narradora participante e quem a lê/ouve. Esta técnica agrada-me sempre. E há, ainda, o relato dos acontecimentos, que têm lugar no tempo da acção, intercalado com o relato das memórias da personagem que, inevitavelmente, nos fazem reflectir sobre o papel da mulher na sociedade.

2009/05/16

O Velho que Lia Romances de Amor - Luis Sepúlveda

E ao terceiro livro que leio de Sepúlveda, rendo-me. Agora sim, percebo por que razão é tão falado este livro (e por que tanta gente gosta dele e de Sepúlveda).

No passado li História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar (um livro com uma mensagem universalista de tolerância para os que são diferentes de nós, mais direccionado para o público infantil) e também Encontro de Amor num País em Guerra (um livro com diversos contos sobre variadíssimos temas, especialmente o amor), mas nenhum me tinha feito fica absolutamente fã do autor. Com este O Velho que Lia Romances de Amor Luis Sepúlveda conseguiu surpreender-me e muito!

Encontramos aqui a história de uma aldeiazinha perdida nos confins da selva amazónica, onde habita um velho viúvo que gosta de ler romances de amor, daqueles "de chorar rios de lágrimas" e "com pessoas que se amam mesmo" e ainda que "sofrem muito", mas sempre com "desfechos felizes". As peripécias vão levar a que este velho, conhecedor da selva, seja obrigado a internar-se nela para trazer paz aos restantes habitantes de El Idilio. Mas com uma forte consciência ecológica e de respeito pela natureza, ele nunca mais será o mesmo depois de cumprir a sua missão.

Não sei se se pode dizer que há nesta história alguns ecos do mais que famoso O Velho e o Mar (não só no título, mas também na demanda levada a cabo por ambos os velhos), mas devo dizer que enquanto o livro do Hemingway não me diz nada, o livro de Sepúlveda conseguiu cativar-me completamente.

10 estrelas

2009/04/16

Cândido - Voltaire

Este foi um dos livros mais divertidos que li nos últimos tempos. Nele, Voltaire insurge-se contra o optimismo simplista e as utopias.

«- Que é isso de optimismo? - perguntou Cacambo.
- Ai! - respondeu Cândido -, é a teimosia de sustentar que tudo está bem quando tudo está mal.»

É interessantíssimo ver a crítica mordaz do filósofo francês à "metafísico-teológico-cosmolólogonigologia" (visando sobretudo os filósofos alemães Leibniz e Wolff) e satirizando a ideia de que «quantos mais males particulares houver, mais o bem geral aumentará», visto que «as coisas não podem ser de outra maneira: porque, tendo tudo sido feito para um fim, necessariamente o foi para o melhor dos fins». Curioso é também a personagem principal, no seu périplo pelo mundo, chegar à cidade de Lisboa no fatídico dia 1 de Novembro de 1755 e assistir ao famoso terramoto.

«Enfim, menina, tenho experiência, conheço o mundo. Podeis entreter-vos a pedir a todos os passageiros do navio que contem a sua história, e não encontrareis um só que não maldiga a sua vida e se não julgue muitas vezes o mais infeliz dos homens. Se assim não for, deitem-me ao mar de cabeça para baixo.»

Só não leva mais estrelas, porque sinceramente estava à espera de um livro um bocadinho melhor (tal era a expectativa que tinha em relação a ele) e não tão semelhante ao O Ingénuo.

7 estrelas

2009/04/07

À Procura de Sana - Richard Zimler

Como apreciador da saga Zarco que sou, não posso dizer que este livro me tenha empolgado tanto como O Último Cabalista de Lisboa, Goa ou o Guardião da Aurora e, claro, A Sétima Porta.

No geral, gostei. Na realidade, não tinha grande curiosidade em ler este livro, mas após alguma "insistência" de uma amiga (que me disse para o ler, mas que me avisou que não era tão bom como os outros), decidi-me a dar-lhe alguma atenção. Pelo facto de não estar à espera de uma grande obra literária, as expectativas acabaram por ser superadas.

É uma história um bocado complexa (e a determinadas alturas um pouco desinteressante, especialmente quando é narrada a história da infância de Sana, por exemplo), mas o senhor Zimler já nos habituou a isso mesmo, não é verdade? O que acabou por me cativar mais neste livro foi mais o "ambiente" do que propriamente a história da busca de Sana. Ou seja, achei bastante interessante o retrato das relações entre palestinianos e israelitas e tudo o que está implicado, mais do que do resto (telefonemas e viagens para aqui e para ali e sei lá mais o quê). Quem gosta do Zimler, não se sentirá defraudado com este livro. Mas a quem não conhecer (ou não gostar), não recomendo que este seja um primeiro livro.

7 estrelas

2009/04/06

O Último Minuto na Vida de S. - Miguel Real

A grande interrogação que surge quando lemos o título deste livro é: mas afinal, que significará aquele "ésse ponto"? O que será, ou melhor, quem será, a pessoa a que se refere aquela letra?

Ainda demoramos algum tempo a perceber quem será "ésse ponto" mas após as primeiras pistas, não restam dúvidas. Para não estragar a surpresa a futuros leitores (porque julgo que um dos méritos do livro é precisamente fazer-nos descobrir que personagem é), só posso dizer que é surpreendente a revelação da pessoa que é e que nunca será nomeada no texto (nem ela, nem as pessoas mais próximas que a acompanham), mas de que todos já ouvimos falar quase de certeza, por esta ser uma história sobejamente conhecida.

E no entanto... No entanto, o que não é sobejamente conhecido é o amor que vemos retratado ao longo das páginas deste livro, um amor fortíssimo, mas condenado a não sobreviver. Num espaço de 60 segundos, a vida de "ésse ponto" passa-lhe à frente dos olhos, misturando passado com presente, até ao momento derradeiro. Este é um livro para ler com atenção, não fosse ele também o retrato de um Portugal mergulhado numa ditadura e incapaz de se modernizar (europeízar) após da queda da mesma.

Já tinha ouvido falar de Miguel Real, mas não tinha grande curiosidade em ler nada dele. Agora sei que isso era um erro, pois acabei por ficar bastante surpreendido com a maneira de escrever dele e, só por isso, valeu a pena o tempo que lhe dediquei. E fiquei com vontade de ler mais (apesar de os outros livros parecerem romances históricos pesadões) - Quem sabe se também quanto a isso não estarei igualmente enganado?

7 estrelas

2009/03/17

Nocturno Indiano - Antonio Tabucchi

«- Mas não é um romance - protestei eu -, é um bocado aqui outro ali, não há sequer uma verdadeira história, são apenas fragmentos de uma história (...)»

Este foi o segundo livro que li de Antonio Tabucchi e, apesar de não ter gostado tanto como o Afirma Pereira (mas acho que isso seria muito difícil...), foi uma leitura muito interessante. A narrativa é contada de uma forma que me atraiu particularmente, já que nós, enquanto leitores, somos completamente apanhados desprevenidos à medida que vamos avançando de capítulo em capítulo. Isso acontece especialmente no capítulo final. Acho que é precisamente isso que destaco (essa capacidade de nos deixar completamente desorientados, como se nós próprios estivéssemos a realizar naquele momento uma viagem, tal qual o "protagonista", não do ponto de vista físico ao subcontinente indiano, mas uma viagem à narrativa desordenada daquelas personagens), a par de raras serem as explicações que nos são fornecidas. Afinal, o que faz aquele Português na Índia? E por que razão foi aquele Italiano atrás dele? Quem são Isabel e Magda? Serão aqueles dois homens amigos, ou isso é coisa do passado? Este é um livro de interrogações que não têm resposta. Só nos é dado ver o que «está dentro da moldura» e não nos é dado ver o que aconteceu para lá dela.

A Índia presta-se muito a este tipo de exercício, não é? O de ir em busca de uma identidade que se desconhece ou que está oculta. Esta história fez-me precisamente recordar alguns filmes que já tive oportunidade de ver e que se podem relacionar com ela (The Darjeeling Limited, Lezioni di Volo, etc.) e até mesmo alguns livros que já li.

Entre as 8 e as 9 estrelas

2009/03/05

Não matem o bébé! - Kenzaburo Oé

É difícil falar deste livro sem dizer toda a história, porque a história não é muita.
O livro não trata de um dilema, embora ele esteja sempre presente e acabe por se resolver. Ao mesmo tempo é um livro onde as decisões, as motivações as intenções nunca são inteiramente explícitas, embora o pareçam. Fica sempre algo mais, algo por dizer, algo por fazer. Nunca pode ser tão simples, apesar de obstinadamente o ser, de sucessivamente o ser. Até que.
E mais não posso dizer. Talvez isto não seja muito claro, talvez seja estranho, mas é assim mesmo, este livro, estranho. O livro exibe um distanciamento por parte dos personagens que não parece ser muito normal, no entanto todas as personagens o parecem assumir como se fosse. Então das duas uma: ou todo o livro é pura e simplesmente inverosímil, o que me parece difícil de aceitar, ou mostra uma mentalidade de fundo muito diversa daquela a que estamos habituados. Acredito mais nisto, e isso é o que mais me impressionou, o que mais fica desta leitura: uma mentalidade muito diferente.

2009/03/03

A sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafon

Este livro deixa-me sentimentos muito diversos. Por um lado é um livro com pormenores muito interessantes: o Cemitério dos Livros Esquecidos, o Fermin, dão um colorido delicioso ao livro. Por outro lado há algumas inconsistências, alguns non sequitur que eram bem escusados. O pai de Daniel é uma figura apagadíssima e embora esperemos sempre, a qualquer momento, uma revelação, ela nunca acontece. Por outro lado, o prometido é de vidro: o Cemitério é secretíssimo mas o Daniel fala dele a torto e a direito. Também Fumero acaba por ser uma figura absolutamente plana e desinteressante, parece roubados aos vilões de banda desenhada. E é uam pena, porque ela representa um tipo de personagem que merecia outro tratamento, outra reflexão, outra profundidade, pelo peso que tem na memória colectiva espanhola, como aliás na portuguesa.Ao mesmo tempo há alguns pormenores da história algo previsíveis. Mas desses não posso dizer mais sem dizer tudo. Por outro lado descrições que variam entre o perfeito e o excessivo, sendo que a linha é, por vezes ténue. É apenas um dos aspectos queirosiano deste romance. E mais não digo a este propósito. Gostei de o ler e, sendo o primeiro livro que leio do autor, espero que outros livros venham a confirmar o muito que este livro apenas promete. Obrigado à Pentax.

8/10 estrelas

2009/02/11

Notas de cozinha de Leonardo da Vinci - Shelag & Jonathan Routh

Gostei muito deste livro. Ele contém uma introdução geral, que fala de Leonardo da Vinci e da respectiva época e que dá um belíssimo mote para a leitura que se segue. Quanto ao Código em si, trata-se de um livro da época de Leonardo e que lhe é atribuído, embora não tenha ainda sido possível estabelecer com certezas a autoria. Gostei muitíssimo de o ler, por muitas razões. Em primeiro lugar, porque nos dá uma ideia de época muito interessante: o que se comia, como se comia, como se organizavam os castelos, o modo de vida. Em segundo lugar, pelo vislumbre do despontar de determinados utensílios de todos os dias, coisas que sempre ali estiveram mas que um dia foram "inventadas". Por último, pela visão muito curiosa da vida de Leonardo. Acho que todos nós somos conduzidos para a imagem do génio, de um Leonardo que não falha nada, que faz os desenhos mais perfeitos, mais subtis, mais fantásticos mesmo num vulgar bloco de notas. Um Leonardo que inventa uma coisa nova todos os dias, uma peça central de onde deriva toda a cultura europeia, de uma ou de outra forma. Este livro mostra um Leonardo diferente, mais humano, que apesar das muitas falhas que teve nunca deixou de tentar. Acredito que foi isso que fez a sua magnitude.

2009/02/10

O Carteiro de Pablo Neruda - Antonio Skármeta

A literatura sul-americana tem destas coisas: quando menos estamos à espera, consegue surpreender-nos pelos melhores motivos.

Este foi, sem dúvida, o melhor livro que li durante o mês de Janeiro. Aliás, passou já para a lista das recomendações, onde estão todos os livros que considero que valem a pena serem lidos. Antonio Skármeta tem uma fantástica capacidade em contar uma história simples, mas ternurenta, vvalendo-se de uma linguagem castiça e que prende desde o início ao fim. O livro tem o tamanho ideal. Felizmente que Skármeta teve consciência em não se alongar demasiado, correndo o risco de tornar maçadora uma história tão bela, acerca da admiração de um carteiro pelo poeta mais famoso do seu país... Ou será da admiração do poeta mais famoso do seu país pelo seu carteiro (um pobre de espírito, mas com um rico coração)?

10 estrelas.

2009/01/24

A Vida Secreta das Abelhas - Sue Monk Kidd

Bem, sempre que olhava para a estante, não sei porquê, este livro sobressaía em relação aos outros... Acho que o título me estava a deixar bastante curioso, por isso não resisti a pegar-lhe e a lê-lo duma assentada.

E não é que me surpreendeu? Não sei bem do que é que estava à espera de encontrar nestas páginas, mas de facto as minhas expectativas foram sobejamente superadas. Se primeiro pensava que era um livro levezinho e mais direccionado para o público feminino, enganei-me. Esta história de Sue Monk Kidd vai mais longe do que aquilo que se está à espera, especialmente graças ao pano de fundo histórico utilizado pela autora: década de 60 na Carolina do Sul (um dos Estados segregacionistas e mais racistas dos EUA). As personagens são vítimas de preconceito e injustiça (que hoje nos parecem absolutmanete ridículos e que custa a acreditar que há apenas 50 anos era o que acontecia na principal nação "civilizadora" do mundo). Acho que foi isso que acabei por apreciar mais no livro todo.

Depois temos a parte mais romântica da história: Lily e a sua demanda pela felicidade. Claro que acaba tudo por soar a cliché, além de parecer demasiado folhetinesco e inverosímil, mas pronto, nada que não consigamos perdoar à Sue Monk Kidd, pois, apesar de uma ou outra passagem menos bem conseguida, ela até tem jeito a contar a história.

Concluindo: não dei o tempo a ler este livro como mal empregue, pois no fundo fiquei surpreendido pela história que conta. Não é o meu livro favorito de sempre, mas acho que o relembrarei um dia mais tarde como um livro interessante.

8 estrelas

2009/01/19

Passeios Aleatórios pela ciência do dia a dia - Nuno Crato

Este livro contém diversas crónicas originalmente publicadas no Expresso. São muito interessantes e contêm curiosidades que não sabia. Mas é um livro relativamente pobre, uma obra de divulgação que fica pela superficialidade típica das crónicas de meia dúzia de linhas semanais. Não está em causa a grande qualidade do Nuno Crato como comunicador - que é patente - está em causa mais uma vez a diferença abissal entre um livro de ciência e uma colectânea de crónicas, que a meu ver deveria ser bem identificadas como tal na capa.

2009/01/18

O Périplo de Baldassare - Amin Maalouf

Acabei hoje mesmo de ler um livro de um autor com cujo nome me tenho deparado com muita frequência ultimamente. E foi sem dúvida uma leitura bastante agradável.

O livro conta a história de um homem que parte numa viagem pelo Mediterrâneo (e não só) em busca de um livro que atenuará os efeitos nefastos do Ano da Besta (1666). Este é o mote para que Amin Maalouf nos faça viajar pelas superstições europeias e médio-orientais, reconstituindo, não com grande rigor, mas ainda assim de forma satisfatória, todo o ambiente social, cultural e resligioso de meados do século XVII, na Europa e especialmente no Médio Oriente, dominado pelos Otomanos.

Claro que parece um pouco irrealista que a viagem de Baldassare seja motivada apenas pela crença supersticiosa de que um livro salve aquele que o possui, e além disso os acontecimentos que impelem o nosso protagonista a viajar cada vez para mais longe sucedem-se de forma algo inverosímil ou até mesmo folhetinesca. Mas conseguimos perfeitamente perdoar isso ao nosso amigo Maalouf, pois se há coisa em que ele tem jeito, é a narrar uma história e, por mais inverosímil que seja, não desilude em nada.

8 estrelas

2009/01/17

Uma Casa no Fim do Mundo - Michael Cunningham

Bem, devo dizer que ler este livro foi como um murro no estômago. Achei-o um bocadinho superior ao As Horas (livro do mesmo autor, bem mais famoso graças ao filme do mesmo nome e que valeu a Nicole Kidman o Óscar de melhor actriz em 2002), que também já tive oportunidade de ler, e que é, apesar de tudo, igualmente original.

A primeira parte desta livro foi a que realmente me surpreendeu pela forma como os acontecimentos são narrados... Se bem que na segunda parte continuam a ser abordados temas polémicos (SIDA, comportamentos sexuais promíscuos, o amor entre três pessoas, duas delas do mesmo sexo), julgo que não está tão bem arranjada como a primeira, o que torna o ritmo do livro um pouco mais lento, ainda que não necessariamente menos interessante.

No que respeita às personagens, Clare foi a que me pareceu menos verosímil, aquela que tinha uma identidade mais fictícia e sem a profundidade da personagem de Jonathan ou de Alice. Também Bobby acabou por me desiludir um pouco, pois estava à espera que fosse ele a personagem-chave da narrativa. No entanto, devo dizer que, se calhar, o mérito de Michael Cunningham está precisamente no facto de não haver uma personagem que se sobreponha às restantes e cada uma, à sua maneira, constrói uma história contada na primeira pessoa, mas em diferentes perspectivas, como a construção lenta de um puzzle. De facto, admiro qualquer autor que consegue a proeza de escrever um livro inteiro na primeira pessoa do singular, sendo que este Uma Casa no Fim do Mundo vai ainda mais longe com quatro eus a desenrolar o emaranhado novelo da(s) sua(s) vida(s).

Nota especial ainda para o facto da importância das músicas que vão sendo referidas ao longo do livro. É interessante ir confrontando a letra de cada uma com a parte da história em que está inserida para perceber que não foram ali postas ao acaso.

Sem dúvida que este Michael Cunningham foi uma agradável surpresa. Há já muito tempo que um autor americano não me surpreendia desta maneira (acho que o Dan Brown e companhia nos fazem esquecer que os EUA também têm bons escritores).

Por todas essas razões, acho que este é um livro bastante interessante e que vale a pena ler.

9 estrelas

2009/01/15

Os 12 livros que tenciono ler em 2009

Este ano tenciono ler, não necessariamente por esta ordem:

1. Guerrilla Learning, John Gatto
2. A última tentação de Cristo, Nikos Kazantzakis
3. O meu Michael, Amos Oz
4. Não matem o bébé, Kenzaburo Oé
5. Os Jardins da memória, Ohran Pamuk
6. Cultivo de Setas y Trufas, Garcia Rollan
7. Plantas Silvestres Comestibles
8. Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson
9. A matemática das coisas, Nuno Crato
10. Este ofício de poeta, Jorge Luís Borges
11. Diário I, Miguel Torga
12. Do Espiritual na Arte, Wassily Kandinsky
13. Para Sempre, Vergílio Ferreira
14. A Terra e o Cosmos, Isac Asimov
15. O rochedo de Tanios, Amin Maalouf
16. O Guia do Pai, Kevin Nelson
17. O que farias se tivesses um pincel mágico que desse vida a tudo o que pintasses?, Jane M. Healy
18. Breve História dos Tractores em Ucraniano, Marina Lewycka
20. Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami
21. A vida do Irmão Roger, Kathryn Spink
22. Santo António de Lisboa, Ervino Helmle
23. A ilusão da economia, Karl Polanyi
24. Religião, Estado e Martírio no Islão, Ira M Lapidus e Farhad Khosrokhavar
25. Conversas no Adro da Igreja, JacquesGaillot e Eugene Drewermann
26. Ética, Espinosa
27. Minha vida e minhas experiencias com a verdade, Mohandas Karamchand Gandhi

2009/01/14

2009 Aqui vamos nós!

Os meus objectivos literários para este ano:

Desfazer-me da TBR* sem que isso signifique necessariamente desfazer a tbr, ou seja, ler os livros.

Eleger 12 livros que não quero deixar de ler este ano e lê-los.

Ler mais livros de ciência, filosofia e humanidades, por contraposição à ficção.

Ler pelo menos 2 livros por mês, de preferência 3. Seria extraordinário se chegasse a 1 por semana.

Fazer bons comentários, ainda a fresco, quer nas JE´s quer no Companhia das Letras.

* tbr é a lista de livros para ler (to be read). Reservo essa designação para os livro do Bookcrossing.

2008/10/13

Zorro - Isabel Allende

Devo começar por dizer que este foi o terceiro livro de Isabel Allende que li (tentei ler igualmente Paula, mas das duas vezes que o iniciei não consegui levar até ao fim a leitura) e penso que foi aquele de que mais gostei até hoje. No entanto, devo dizer que não me encantou totalmente. É verdade que o livro não é extremamente mau, mas também não é excepcionalmente bom. É-nos aqui oferecida uma história que não nos deixa deslumbrados e que não deixa de ser um pouco romance de cordel... As personagens são completamente estereotipadas, não faltando os bons malandros, as donzelas virgens e castas à espera de serem salvas por um qualquer príncipe encantado, os maus mesmo muito maus (que, por serem maus, só sabem fazer maldades, além de cheirarem mal) e os bons absolutamente virtuosos (que sentem escrúpulos no derramamento de sangue, mesmo enquanto lutam pela justiça).

Não faltam ainda muitas aventuras, tanto por terra, como por mar, em contacto com índios, ciganos, piratas, e todas as outras personagens que estamos habituados a ver num livro que se desenvolva na primeira metade do século XIX no Novo Mundo. Que canseira! Mas de alguma maneira Diego tinha de aprender todas as habilidades possíveis e imaginárias (desde o simples truque de ilusionismo de algibeita, até às complicadas acrobacias circenses) se desejava ser um Zorro que se prezasse...

Considerei a parte da infância de Diego bastante empolgante, mas o resto do livro (principalmente a partir do momento em que vai para Espanha) torna-se algo chato, não nos sendo nada mais que uma mera sucessão de acontecimentos, alguns interessantes, outros nem tanto, não passando de bocejos prolongados. O que é um problema para mim, já que não consigo ler na diagonal e saltar as partes mais desinteressantes de seja qual for o livro.

Enfim, permanece em mim a sensação de que Isabel Allende é um pouco sobrevalorizada enquanto escritora, mas o apelido terá sempre o seu peso. Em todo o caso, gostei deste livro por a autora se ter cingido mais ao real e não se aventurar pelo fantástico (como aconteceu n' A Cidade dos Deuses Selvagens, livro que detestei).

Não sei... Aí por volta das 7 estrelas.

2008/10/06

O Último Cabalista de Lisboa - Richard Zimler

Decidi iniciar com esta posta uma série de quatro apontamentos sobre um dos autores que tive o prazer de conhecer este ano: Richard Zimler. Uma amiga falou-me deste autor e, ao fazê-lo, deu-me a conhecer o facto de haver 4 livros que andavam à volta de diferentes ramos de uma família de judeus portugueses. Se curiosidade de ler os livros deste autor eu já tinha, esse foi o principal impulso para iniciar a "árdua" tarefa (mas muito agradável) de ler esses 4 livros de Richard Zimler. E mais do que ler, acho que os devorei! Para terem uma noção, acabei de ler O Último Cabalista de Lisboa no princípio de Agosto, dez (!) dias depois já tinha terminado o Goa ou o Guardião da Aurora e no segundo dia de Setembro já tinha despachado o Meia-Noite ou o Princípio do Mundo. A Sétima Porta acabei-a no princípio de Outubro.

Comecemos pelo princípio. Richard Zimler é um escritor norte-americano naturalizado português e radicado actualmente no Porto. Decidiu escrever sobre uma família de judeus portugueses. No entanto, não o fez de forma convencional. Imaginou vários ramos da família ao longo da História e, assim, escreveu a saga da família Zarco desde o início do século XVI até aos finais do século XX. Confusos?

A história da família Zarco começa com o livro O Último Cabalista de Lisboa, policial ambientado no século XVI que, para além de nos dar o mote para os restantes livros, relata de forma um pouco cruel (mas, por isso mesmo, realista), algo que tem sido afastado dos manuais de História: o massacre de judeus que ocorreu na capital portuguesa em 1506, incitado pelos dominicanos no Rossio. Foram mortos nesses dias de Páscoa cerca de 2000 judeus por serem os "culpados" da seca que grassava na cidade.

Esse é o ambiente, mas não o fulcral da narrativa. Berequias Zarco, jovem cristão-novo, descobre o seu tio assassinado no esconderijo da sua casa, em Alfama. Isso leva-o (a ele e a nós, felizmente, diria eu) a passear por uma Lisboa ainda agarrada à ignorância medieval numa busca incessante pelo assassino, enquanto os cristãos-velhos se vão entretendo a queimar judeus ou a decapitá-los.

O que é fantástico de ver neste relato é a capacidade incrível de um escritor norte-americano conseguir reconstruir a Lisboa da época e também os seus arrabaldes (Campolide, Benfica, Belém), mas também o facto de inventar uma história que, não sendo absolutamente verosímil, não deixa de ser interessante. É verdade que existem demasiadas personagens (o que pode confundir um pouco a leitura; a mim confundiu, pois por vezes eram resgatadas na narrativa personagens que tinham aparecido anteriormente, mas que eu já tinha esquecido), mas isso acaba por servir da melhor forma a história, tornando-a mais credível.

Este foi um dos meus livros preferidos da saga Zarco. Porque se passa em Lisboa, porque está magistralmente bem escrito (tudo na primeira pessoa, uma das formas de narrar mais difíceis de concretizar), porque agarra desde o princípio até ao fim, porque trata de um assunto sério nas entrelinhas, porque, apesar disso, consegue ter alguns momentos bastante humorísticos (veja-se o encontro de Berequias com o ferreiro de Benfica), enfim... porque sim. Gostei muito de ler este livro e, por isso, não posso deixar de recomendar a sua leitura.

9,5 estrelas

2008/09/23

Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto - Mário de Carvalho

Este foi o segundo livro que li de Mário de Carvalho. O primeiro havia sido A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho. Com ambos os livros foi fantástico descobrir que a literatura portuguesa contemporânea ainda tem capacidade de nos surpreender desta forma.

Desengane-se aquele que acredita nas palavras do narrador quando afirma que quer que este livro seja "mui sisudo e composto". Antes pelo contrário, de sisudo nada tem. Dei comigo a dar valentes gargalhadas, comedidas, porém, porque me encontrava em locais públicos quando lia esta prosa bem disposta. Algumas passagens são hilariantes, como por exemplo aquela em que Eduarda não sabe o que significa 'hediondo' e 'pejorativo'.

Quanto à história em si, não vou dizer que é a mais original que li nos últimos tempos (resumindo: o reencontro de dois colegas da faculdade muitos anos após se terem conhecido, numa altura em que estão a passar por uma crise de meia-idade), mas julgo que isso acaba por provar que, mais importante que contar uma história, é a maneira como ela é contada.

De facto, surpreendeu-me muito esta maneira inovadora de narrar uma história em que, o narrador, omnisciente e omnipotente, acaba por não intervir de forma nenhuma, qual deus demasiado preguiçoso para se imiscuir das desgraças humanas, limitando-se a contar-nos a história, não se abstendo, porém, de fazer os seus comentários, mais do que irónicos e mordazes, terrivelmente cómicos. Penso que só lendo o livro é que se percebe o que quero dizer, já que não faz muito sentido transcrever para aqui parágrafos inteiros que o demonstrem.

Este não terá sido o melhor livro que li nos últimos tempos, mas foi sem dúvida aquele que me surpreendeu mais. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever. Recomendo a sua leitura, para que se fique a conhecer um tipo de humor verdadeiramente delicioso, que não necessita de recorrer ao brejeiro para nos fazer rir.

2008/07/25

A 25ª Hora, C. Virgil Gheorghiu

Este livro conta a história de Iohan Moritz, agricultor romeno que é requisitado para trabalhos forçados, como se fosse judeu - que não é. A odisseia porque ele passa é... indiscritível: prisioneiro, soldado, desertor, prisioneiro... enfim, uma odisseia que lhe é imposta por vários Estados sucessivamente, por vários domínios, por vários exércitos.
Este é um daqueles livros que não deve mesmo perder-se.
E isto por diversas razões: Não só porque está muito bem escrito, não só porque a história é interessante, mas também pelo seu valor como documento histórico e como reflexão sobre a nossa sociedade.

Com efeito, no que diz respeito ao holocausto é um documento histórico impressionante. O que mais me chocou ao longo de todo o livro, como uma nota de pedal, ao longo de toda a harmonia do livro, é que ninguém contesta que a personagem principal fosse presa se ele fosse judeu... apenas se reclama que ele não , e que consequentemente a sua prisão era uma injustiça. Note-se que este movimento conjunto das personagens nada parece ter de intencional por parte do autor, que é bastante mais explícito quanto ás contradições que quer por em evidência. Esta nota simplesmente perpassa todas as personagens e a forma como elas actuam.

Por outro lado, este livro faz uma descrição e crítica da "sociedade técnica ocidental", conceito que também define. Neste sentido, este livro é uma reflexão extraordinária, no que tem de actual. A sociedade técnica ocidental de que fala Gheorghiou é hoje em dia uma constante nos mais pequenos assuntos da nossa vida, desde as relações com as empresas até à relação com as administrações públicas, os call centers, os protocolos, médicos e não só... Não quero entrar em grandes pormenores porque não poderia fazê-lo com a competência do autor, mas quero apenas dizer que este livro é para mim um livro essencial para a compreensão da nossa sociedade.

Além disto queria ainda chamar a atenção para um pormenor: trata-se de uma tradução feita pelo Vitorino Nemésio, também ela muito interessante na forma como utiliza o português.

2008/07/07

Todos os Nomes - José Saramago

Para ser sincero, sempre gostei muito dos livros de Saramago que li, uns mais (A Jangada de Pedra, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Memorial do Convento, sendo que este está entre os 10 livros que mais gostei de ler até hoje), outros menos (História do Cerco de Lisboa) e outros assim-assim (O Ano da Morte de Ricardo Reis). No entanto, este Todos os Nomes terei de o colocar entre aqueles que gostei menos, não por ser pior que os outros, mas por uma questão de gosto pessoal.

A certa altura, diz o Sr. José (personagem principal deste livro) ao seu tecto (!) o seguinte: "Vivia em paz antes desta obsessão absurda, andar à procura de uma mulher que nem sabe que existo" (pág.158). Precisamente! Quem é que se lembra de escrever um livro sobre um homem que trabalha numa Conservatória Geral do Registo Civil e que, de repente, se sente impelido a procurar uma mulher da qual não sabe nada e, chegado ao fim, pouco fica a saber dela? Essa é a premissa do livro, a qual não achei especialmente genial, o que me fez ficar com o pé atrás à medida que ia lendo o livro.

No entanto, não se pense que só encontrei aqui aspectos negativos. De facto, houve alguns aspectos do ponto de vista literário e não só que me agradaram. Achei curioso todo o espaço físico em que a história foi ambientada, numa cidade cujo nome nunca ficamos a saber, onde existe um cemitério gigantesco e de estranha configuração e uma Conservatória Geral do Registo Civil enorme e em constante expansão. Eu diria, não sei porquê, que esta história se passa por alturas dos anos 30, talvez porque Saramago imprima esse universo às suas obras, quando não é declarada a data exacta dos acontecimentos que narra.Também não deixa de ser interessante o facto de Saramago ter conseguido escrever um livro em que a única personagem que tem efectivamente nome seja o Sr. José (penso que no Ensaio Sobre a Cegueira, livro que pretendo ler brevemente, vai ainda mais longe a absolutamente ninguém que lá surge tem nome!).

Depois achei também interessantes algumas críticas subjacentes à organização hierárquica do trabalho ("A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de uma categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte."), à fama, à burocracia, até mesmo aos debates estéreis entre a elite cultural, a par de muitas outras e diversas considerações sobre a morte ("O que está para além da morte, nunca ninguém viu nem verá, de tantos que para lá foram, nunca nenhum voltou cá") e, mais especificamente sobre o suicídio (representado pelo pastor que o Sr. José encontra no cemitério) e de todo um pessimismo que atravessa o livro, a que Saramago de certo modo, já nos foi habituando. "(...) o que deves pensar é os pesadelos da infância nunca se realizam, muito menos se realizam os sonhos".
No entanto, isto tudo não foi suficiente para que, no geral, o livro me agradasse e o considerasse uma das melhores leituras dos últimos tempos. No fundo, esta é a história de um homem que inicia uma busca por uma mulher que nunca encontrará, para além de contar inúmeras situações e episódios completamente desnecessários e maçudos, que nada acrescentam (bons exemplos disso são o diálogo absurdo entre o Sr. José e o enfermeiro ou quando ele assalta a escola e fica lá a dormir uma noite), para além de longos parágrafos em que não abunda a pontuação.

Quero, contudo, deixar aqui a salvaguarda que considero Saramago um dos autores mais inspirados na literartura portuguesa contemporânea. É um facto que não gostei muito deste livro, mas é de salientar que o mesmo foi publicado em 1997, o ano anterior em que o autor recebeu o Prémio Nobel, pelo que inevitavelmente faz parte das obras que contribuíram para que ele o recebesse. E sem dúvida que mereceu receber o referido prémio. Ler Saramago é algo que não me cansarei de recomendar, porque vale sempre a pena, quanto mias não seja para conhecer a sua maneira de escrever, que se adora ou se detesta.

6 estrelas

2008/06/24

Inês de Portugal - João Aguiar

Como já tive oportunidade de dizer anteriormente, o primeiro livro de João Aguiar que li foi A Voz dos Deuses. Para dizer a verdade, não gostei muito desse livro, ainda para mais porque já tinha ouvido alguns elogios ao autor e até tinha uma certa curiosidade em lê-lo. Ora bem, se não tinha percebido os elogios com A Voz dos Deuses, percebi-os com a Inês de Portugal. Verdade seja dita que aquele livro foi o primeiro romance do escritor, pelo que talvez não seja representativo de toda a sua restante obra. E de facto, assim penso, pois ao contrário daquele, adorei ler este livro.

Muito bem escrito, eu arriscaria dizer que este foi um dos melhores livros que li nos últimos meses. Nos últimos tempos li dois livros que tratavam o mesmo assunto que este, mas nenhum dos dois me deixou preso até ao final para saber como iria tudo acabar. Digamos que a história de Inês e Pedro é sobejamente conhecida e que, por isso, pode deixar pouco espaço à inovação. Mas aqui isso não acontece, pois a forma como a história é narrada (Inês já está morta e apenas tomamos contacto com ela através de analepses que nos transportam ao passado) permite uma visão nova de toda a história e até mesmo das personagens. Veja-se o caso de Pedro que, como é habitual, é aqui abordado de forma bastante dramática e amargurada. Contudo, vai-se um bocadinho mais longe, na sua sede de justiça (ou será melhor dizer 'vingança'?). Mais do que justiceiro, ele é cruel e isso deve-se ao facto de lhe terem tirado a mulher que mais amava em vida. E Inês? O cálculo político também aqui está visivelmente presente, mas como não nos deixarmos enternecer por tal figura, mero peão num jogo de xadrez de alcance muito mais difícil de explicar, porque muito mais vasto que isso, do que a simples ambição de ser rainha?

9 estrelas

O Milagre Segundo Salomé, José Rodrigues Miguéis

A primeira vez que tive contacto com José Rodrigues Miguéis foi há alguns anitos, quando andava na escola secundária. O autor fora professor nessa escola lisboeta e, na comemoração de um aniversário qualquer (teria sido da sua morte ou do seu nascimento?), expuseram no átrio principal do primeio andar todos os seus livros editados. Lembro-me vagamente de o professor de Português ter recomendado a leitura de alguns dos seus livros a título individual (uma vez que não é obrigatório no programa escolar do secundário). Entre os livros expostos, encontrava-se O Milagre Segundo Salomé... O título ficou-me no ouvido. Milagre? Segundo Salomé? Escusado será dizer que fiquei curioso para saber do que se tratava, até que estreeou um filme com o mesmo nome e que lançou alguma luz sobre o tema abordado no livro: uma reinterpretação do milagre de Fátima, não remetesse o livro para os inícios dos "anos loucos".

O Milagre Segundo Salomé é um livro dividido em 2 volumes e nele encontramos vários planos (a adolescência de Severino Zambujeira, algures em finais do século XIX; os artigos de jornal de Gabriel Arcanjo; e a história de Salomé propriamente dita, desde a sua chegada a Lisboa, o bordel, o seu encontro com Zambujeira e finalmente com Gabriel, não esquecendo o "milagre"). Como se percebe, todos os planos acabam por se entrecruzar e, enquanto que a vida de Salomé se apresenta mais interessante (ainda que algo prolixa demais), a infância e os artigos de jornal de Gabriel Arcanjo parecem deslocados e algo desnecessários para a história de fundo que se pretende contar.

Enfim... Considero que este livro está muito bem escrito. No entanto, não posso dizer que este tenha sido um dos melhores livros que li até hoje. Para isso contribuiu o facto de José Rodrigues Miguéis perder muito tempo com contextualiazações históricas demasiado pormenorizadas. Se por um lado, não é desnecessária uma contextualização histórica de toda a Primeira República, por outro acho que isso acaba por tornar muito maçuda a leitura do livro, dando-se demasiada importância a factos que desmotivam para o resto da história. É igualmente pena que os nomes das personagens e dos locais não tenham sido mantidas, embora o autor tenha afirmado que esta sua obra não tinha qualquer objectivo iconoclasta

Como conclusão, o que posso dizer é que este é um daqueles livros que, na minha opinião, estão bem escritos e que trabalham uma ideia muito boa, mas não da melhor forma. O que quero dizer é que José Rodrigues Miguéis poderia ter aproveitado melhor esta ideia de "reintrepretação" das aparições de Fátima (e uma forma interessante teria sido mesmo não alterando o nome da localidade em que se deu o referido "milagre", bem como das restantes personagens).

entre as 5 e as 6 estrelas

2008/06/23

A Voz dos Deuses - João Aguiar

Ouvi falar pela primeira vez deste livro e fiquei muito curioso por causa do tema que tratava... A vida e história de Viriato. Em conversa com uma amiga minha que está a tirar um curso em que tem de ler obras de literatura portuguesa posteriores a 1974, fiquei a saber que esta era uma das leituras "obrigatórias" (não gosto nada da palavra "obrigatório" quando se refere à leitura). Como eu já andava bastante curioso em relação a este livro, as dicas que ela me foi dando acerca dele impeliram-me a ir requisitá-lo à biblioteca e mergulhar no século II a.C., altura em que a Península Ibérica estava dividida em diversas tribos e em que os romanos lutavam para as dominar.

Este livro foi o primeiro romance de João Aguiar, o que de certa maneira pode explicar a razão pela qual a msua maneira de escrever não me ter encantado muito por aí além. De facto, não achei que estivesse escrito de forma inovadora ou até mesmo interessante, do ponto de vista literário. Trata-se de uma história normalzinha, sem nada de significante a realçar: Tôngio, sacerdote do Templo de Endovélico (um dos principais locais de culto ibéricos à época a que a narrativa nos remete) conta, no fim da sua vida, a forma como nasceu, cresceu e viveu numa Península Ibérica invadida pelos romanos, na tentativa de expandirem o seu Império até ao Atlântico. Vai daí, deambula pela Península até encontrar Viriato, famosa figura de que todos nós estamos habituados a ouvir falar desde que somos pequenos e ao qual é dado o epíteto de fundador, mais mítico que histórico, da nacionalidade portuguesa (como se à época houvesse essa coisa dos nacionalismos e como se ele imaginasse que alguma vez aqui, no extremo ocidental da Península, haveria de se formar um país chamado Portugal).

Curioso é o facto de João Aguiar, logo na advertência inicial, dar conta de que o seu objectivo com esta história é retratar um Viriato não mítico, mas mais de acordo com aquilo que se pode extrair dos documentos históricos que existem e que falam desta personagem tão famosa. Ora, o que acaba por acontecer é precisamente o contrário. João Aguiar faz-nos tomar contacto com um herói romantizado que almejava ser rei de toda a Ibéria e que é simultaneamente um general exímio, um diplomata exemplar, sóbrio no que respeitava a reclamar para si os espólios de guerra, fidelíssimo à sua mulher, entre outros aspectos do seu carácter que o tornavam... perfeito.

Pois bem, o resultado final ficou um pouco aquém daquilo que eu estava à espera, mas aparentemente essa foi precisamente a razão pela qual se incluiu esta obra numa cadeira que trata de literatura portuguesa pós-1974.

7 estrelas (para ser bonzinho)

2008/06/11

Bons Augúrios - Neil Gaiman & Terry Pratchett

Como prometido há já bastante tempo, aqui fica a pseudo-crítica a mais um livro de Neil Gaiman que li em Abril passado, desta feita o Bons Augúrios, escrito a meias com outro autor de referência do fantástico, Terry Pratchett.

Ora bem, este livro não deixa de ser engraçado, como é o exemplo de atribuir a invenção da nouvelle cuisine à Fome (um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse) aquando de uma visita a Paris. Eu incluo esse 'episódio', na primeira parte do livro (até aí cerca da página 100), o qual não seixa de ser muito divertido e com um humor negro muito refinado e simultaneamente muito bem disposto. A partir daí, o livro deixa de entreter e divertir para se tornar verdadeiramente um bocejo, salvando-se apenas as notas de rodapé (que mantêm o tom humorístico do princípio do livro) e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (figuras que demonstram verdadeira capacidade de imaginação por parte dos autores, que os souberam adaptar muito bem a esta realidade em que o Anti-Cristo está vivo entre os seres humanos). No que a essas 4 figuras respeita, há apenas que fazer uma pequena correcção: o terceiro Cavaleiro do Apocalipse (aqui representado pela Poluição, mas originalmente a Pestilência) deveria transportar consigo um arco (e não uma coroa, como aqui acontece), para ser coerente com os versículos 4-6 do Capítulo 6 do Livro do Apocalipse. Mas isso não é grave, pois como já tive oportunidade de dizer, são os únicos rasgos de criatividade nestas 300 e tal páginas.

Este não foi, sem dúvida um dos melhores livros que tive oportunidade de ler nos últimos tempos, no entanto o que eventualmente saliento nele, para além do tom bem-diposto em que está escrito e que já referi, é o facto curioso de que a abordagem ao Mal nunca se poderá fazer sem a abordagem ao Bem. Crowley um demónio? Parecia tão anjo quanto Aziráfalo!

Além disso, o livro não deixa de ser interessante também por ser, a determinadas alturas, bastante crítico e mordaz, por exemplo, para com as cadeias americanas de fast food ou até mesmo para com os seres humanos como nós, como se pode atentar na seguinte citação: "Porque o cérebro humano não está equipado para ver a Guerra, a Fome, a Poluição e a Morte, quando não querem ser vistas, e aperfeiçoou a tal ponto essa capacidade que, muitas vezes consegue manter essa cegueira mesmo quando estão por todo o lado ao seu redor".

Vale a pena ler este livro, se para ele se tiver paciência.

7 estrelas (se tantas merece)

2008/04/12

A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias - Tim Burton

Li este livro de uma assentada, claro! Escusado será dizer que gostei bastante (conhecendo já uma grande parte do trabalho cinematográfico de Tim Burton, sou aquilo a que se pode chamar um praticamente-fã do realizador). É incrível como Tim Burton consegue criar estas histórias (e não estórias como vem na capa do livro - fica a nota feita) de inadaptados que no fundo não têm culpa nenhuma de o ser. Pior mesmo só o facto de serem a maior parte das vezes rejeitados pelos próprios pais e, no fim, por todos os que os rodeiam. Nenhuma das histórias termina com um final feliz. Não há qualquer tipo de redenção e acho que é isso mesmo que diferencia o Tim Burton de todos os outros. Trata os assuntos da morte e da dor tão prosaicamente como outro qualquer autor/realizador trataria o tema do amor. É a inversão quase total dos valores que estamos acostumados a aceitar como garantidos. Aqui não há amor, há o contrário do amor, há "desamor"... Nem os pais amam os seus filhos (num dos contos, chega-se mesmo ao absurdo máximo que é o próprio pai comer o filho para se curar de um problema de impotência), desajustados do mundo sem culpa alguma ("O Rapaz Robô", "A Morte Melancólica do Rapaz Ostra", "O Rapaz Múmia", "O Bebé Âncora") nem os inadaptados amam quem os ama a eles ("A Rapariga Lixo") ou, se os amam, é um amor impossível ("Palitinho e Fosforina Apaixonados", "A Rapariga Vodu"). E há os que são simplesmente inadaptados e vivem (e/ou morrem) sozinhos e tristes ("O Rapaz Nódoa", "A Rapariga que se Transformou numa Cama", "Roy, o Rapaz Pesticida", "A Rainha das Almofadas de Alfinetes", Cabeça de Melancia", "Crispim, o Hediondo Rapaz Pinguim", "O Rapaz Torresmo"). Estranho é igualmente o facto de algumas histórias serem ambientadas na época do Natal, precisamente aquela em que supostamente estamos mais sensíveis aos actos de caridade e amor.

Nota especial também para as ilustrações que ajudam a complementar os poemas (ou será que são os poemas que complementam as ilustrações?). Muito interessante este livro.

7 estrelas

2008/04/06

A Praia - Alex Garland

Demorei mais tempo a acabar este livro do que aquele que à partida seria necessário, mas isso deveu-se ao facto de me ter deixado levar calmamente pela escrita deste Alex Garland. Convenhamos: esta não é uma grande obra-prima literária (nem pouco mais ou menos), mas está escrita de tal forma que nos deixa agarrados desde a primeira frase até à última, muito graças à quantidade incrível de acontecimentos. Por estas razões, não é de estranhar que passado tão pouco tempo após a publicação deste livro, ele tenha sido adaptado ao cinema. E percebe-se perfeitamente que foi escrito no início da década de 90, graças às referências a filmes e especialmente aos jogos de vídeo: quem não se lembra de jogar o Street Fighter, o Super Mario ou o Sonic? Além disso, é ali abordado um tema que começou a tornar-se pertinente naquela altura e que hoje sentimos cada vez mais na pele, que é o do turismo de massa (a este propósito, as observações de Richard no que respeita a ser um viajante são também muito interessantes e dignas de nota).

Infelizmente já vi o filme protagonizado pelo Leonardo DiCaprio mais de uma vez, por isso esta leitura foi sempre um bocado contaminada pelas imagens e pelo que eu já sabia que ia acontecer. No entanto, foi sempre deixado espaço à surpresa, na medida em que nem tudo foi mantido igual na transposição para o grande ecrã. Além disso, consegui perfeitamente dissociar a imagem do Leonardo ao Richard! Preferi muito mais o Richard britânico e moreno do que o americano loiro e de olhos azuis. Em todo o caso, e acho que isto só acontece porque já tinha visto o filme antes de ler o livro - caso contrário seria um feroz crítico de tamanhas liberdades - não acho que as alterações tenham desvirtuado muito a história. Bem, talvez exceptue desta observação os apontamentos românticos e sexuais que não existem na versão literária, o que não deixa de mostrar que o filme foi feito mais a pensar em encher o olho aos adolescentes com as hormonas aos saltos do que propriamente para bem da Sétima Arte.

Julgo que este livro não deva ser incluído junto daqueles que tratam sobre a intrínseca maldade humana (tal como O Deus das Moscas), como me fizeram crer quando mo aconselharam. No entanto, não deixa de surpreender um pouco a violência dos capítulos finais. A única personagem com quem simpatizei verdadeiramente foi Étienne, o mais sensato do grupo. Todos os outros me pareceram excêntricos (Unhygienix), calculistas (Sal), desinteressantes (Keaty), loucos (Richard). Estranho é também a associação que Alex Garland faz entre a Praia e a Guerra do Vietname, fazendo surgir do nada (ou melhor, da loucura de Richard) a personagem Daffy. Sinceramente, acho que não cheguei a perceber muito bem essa associação...

Quanto à ideia de viver num sítio paradisíaco longe de tudo e de todos pode ser bastante apelativa, mas não sei se gostaria de passar pela experiência. Talvez por um curto espaço de tempo fosse interessante, mas poderia tornar-se rapidamente aborrecido. Além disso, como fica ali provado, o paraíso de facto não existe.

7 estrelas

2008/03/10

Neverwhere, Na Terra do Nada - Neil Gaiman

Neil Gaiman anda nos últimos tempos na boca do mundo. É até comum referirem-se a este autor como o mais adaptado ao mundo do cinema. De facto, ele é autor de um livro que recentemente foi adaptado ao grande ecrã com Michelle Pfeiffer, Robert de Niro e Clare Danes nos principais papéis. O filme chama-se "Stardust" e tenho a certeza que já muita gente ouviu falar dele.

Deste autor, a primeira coisa que li foi Sandman (uma BD que sei que me agradou bastante, mas que teria de voltar a ler para me relembrar da história toda) já aqui há uns tempinhos. Posteriormente viria a ler também a BD 1603 - uma adaptação dos heróis da Marvel ao século XVII que faz uma grande misturada (até extra-terrestres lá aparecem), juntando o Daredevil com o Quarteto Fantástico e X-Men, não esquecendo Thor e o Capitão América, mas que não deixa de ter o seu interesse para quem gosta de comics.

Apesar de o autor ter inicaido carreira com argumentos para BD, também escreve livros (e muitos) e como tem tantas opiniões a seu favor, decidi "mergulhar" na sua obra. Vai daí, fui até à biblioteca e requisitei Coraline e a Porta Secreta (livro juvenil de que não guardo grandes memórias) e, mais tarde, o tal Stardust - O Mistério da Estrela Cadente e Neverwhere - Na Terra do Nada. Este terminei-o na semana passada.

Sinceramente, não posso dizer que não gostei dos livros. No entanto, sempre que leio um dos seus livros fico reticente quanto a afirmar categoricamente que gostei. É que não me parece que ele escreva assim muito bem. A sensação com que fico mesmo é a de que são livros escritos para crianças, talvez pelas histórias em si (o narrador é não ominisciente, pelo que nos conta tudo em tempo real, sem se adiantar com explicações ou o que quer que seja, e a personagem principal - que entra invariavelmente num mundo mágico, muito diferente do mundo normal em que anteriormente habitava - e à qual é sempre exigida uma demanda para que consiga regressar à realidade, entendida aqui como a felicidade - embora no fim acabe por descobrir que a felicidade afinal não é aquilo que desejou ao longo do livro todo - é sempre tratada pelas restantes personagens mágicas como uma criança ingénua à qual não vale a pena explicar nada). Bem, quanto ao facto de os livros serem para crianças, é melhor reformular, pois isso não será totalmente verdade... É que certas passagens chegam mesmo a ser um bocadinho violentas (orelhas cortadas, dedos partidos, mortes, etc).

De falta de imaginação não podemos acusar este Neil Gaiman. E a ela podemos perfeitamente acrescentar o seu sentido de humor (bastante sarcástico, um humor negro bastante bem conseguido), que é o que faz com que, se dúvidas houvesse, se deixe de suspeitar que o livro foi escrito para crianças.

O próximo livro que lerei do Neil Gaiman será Bons Augúrios (escrito a meias com Terry Pratchett). É que embora ainda não esteja rendido ao autor e à sua maneira de escrever, os seus livros são de fácil leitura e entretêm bastante. Quanto mais não seja, servem para descansar os neurónios de leituras mais exigentes.

entre as 6 e as 7 estrelas

2008/02/26

Os Casos do Beco das Sardinheiras - Mário de Carvalho

Este é um pequeno livro de contos cheio de humor, recheado de personagens tipicamente alfacinhas, que têm tanto de verosímil como as pequenas histórias têm de inverosímil. A mim agradam-me estas pequenas incursões pelo fantástico, mas ao mesmo tempo gosto de ver no fantástico o espelho de algo mais concreto e, às vezes, isso escapa-me neste livro. Cria-se a oportunidade mas não se segue por ela até ao fim, cria-se o esboço mas falha a imagem. Mas, claro, isso sou eu a complicar, a querer ainda melhor, mais que óptimo. E este livro não é assim. É um livro simples, com personagens simples e histórias simples. É um lindo postal ilustrado de uma Lisboa mourisca, labiríntica, cheia de becos e, claro, de sardinheiras.
Querer mais que isto, está claro, é já confundir género humano com Manuel Germano...

Inés da Minh'Alma - Isabel Allende

Este livro foi para mim o reencontro com a grande escritora da Casa dos Espíritos, do Plano Infinito, do Paula. Senti-a um pouco mais perdida, mais repetida, nos Contos de Eva Luna, no Retrato a Sépia, na Filha da Fortuna. Não gostei da trilogia juvenil que escreveu. Achei interessante o Zorro, embora não tivesse a força de escrita daqueles primeiros livros.

Este Inés é um épico e, melhor ainda, um épico biográfico. Essa noção de tangibilidade das personagens e dos acontecimentos, misturada com ambiente mágico e fantástico que é próprio desta escritora fazem deste um grande livro.
Deu-me um enorme gosto lê-lo, li-o com sofreguidão, como já há muito tempo não lia.
Não é fácil escrever assim, com este rigor e ao mesmo tempo com esta capacidade. Percebe-se claramente que há uma enorme recolha de dados por trás deste livro. A mim fez-me lembrar, precisamente pela informação histórica, a Guerra do Fim do Mundo do Vargas Llosa.

2008/02/09

Sul - Viagens, Miguel Sousa Tavares

Ultimamente tenho andado numa fase em que pouca paciência tenho para as leituras. E, além disso, não sei bem porquê, mas ultimamente só tenho conseguido ler fora de casa (transportes públicos, bancos de jardins, cafés - desde que não sejam muito barulhentos - enfim, qualquer sítio que não seja em casa). Por essas razões, recomendaram-me que lesse livros de viagens. Numa das minhas idas à biblioteca vi lá este livro de MST e como já tinha ouvido falar dele, decidi trazê-lo comigo. Chegado ao fim da sua leitura, posso tirar as seguintes conclusões:

- Trata-se de um livro algo irregular, com diversos textos interessantíssimos e outros que não são nada de extraordinário. Por exemplo, o primeiro texto (o da Amazónia), não me conseguiu prender o interesse. De tal maneira que quase pensei em ler as restantes crónicas de viagens mais na diagonal, sem dar propriamente muita atenção ao que estaria ali escrito. No entanto, os capítulos seguintes foram a pouco e pouco conquistando o meu interesse e, embora tenham continuado a surgir banalidades de estilo jornalístico ao longo do livro, os textos tornaram-se mais entusiasmantes.
- Gostei bastante dos capítulos dedicados às antigas colónias portuguesas. Arrebatou-me o texto "Goa, o sonho impossível", assim como "Um rio há-de correr em Cabo Verde" e "São Tomé e Príncipe: as ilhas maltratadas". Ficou verdadeiramente a vontade de visitar aqueles lugares que parecem tão próximos, mas que estão tão distantes. "Alhambra: os jardins de Alá" também tem o seu interesse, já os textos relativos ao Brasil e à Costa do Marfim não me encantaram.
- A principal razão pela qual não terei gostado tanto deste livro talvez tenha sido porque encontramos aqui, na sua maioria (11 textos de 12) a repescagem de reportagens publicadas na revista Grande Reportagem nos anos 90 (dirigida na altura por ele próprio). Até que ponto se se justifica a edição de um livro propositadamente para as reunir, uma vez que, com o passar do tempo, tudo isto soará (já começa a soar) antigo (da mesma maneira que uma notícia de um jornal se torna antiga)?
- O texto mais bem conseguido é, na minha opinião, o último "A pista para Tamanrasset", verdadeira viagem, mais do que ao e pelo deserto, ao íntimo dele próprio. É neste texto que conseguimos sentir o verdadeiro espírito de aventura e sentimento de desapego total (aos bens materiais e aos bens humanos) que uma viagem implica. Um espírito de aventura que, mais do que nos levar ao nosso destino, nos leva ao interior de nós mesmos. A viagem que vale mesmo a pena realizar. A viagem que se tem vontade de repetir.

7 estrelas

2008/02/03

Equador, Miguel Sousa Tavares

Li o Equador do Miguel Sousa Tavares (a edição ilustrada com postais da época) há já algum tempo e, como foi um livro de que gostei bastante, decidi vir aqui deixar a minha humilde opinião sobre o referido livro.

No geral, gostei bastante. A princípio pensava que ia demorar imenso tempo a acabá-lo, mas até nem demorei assim tanto. Julgo que terá sido porque MST acaba por escrever de uma forma, se por um lado demasiado prolixa e, porventura, descabida (ex: "dotada de atributos que o vasto decote do seu berrante vestido verde abundantemente documentava"), por outro bastante vívida e interessante.

Quanto à personagem principal, é o típico herói bem-parecido, bon-vivant, um verdadeiro gentleman, com o qual não podemos deixar de sentir empatia. No entanto, isso limita demasiado o seu desenvolvimento enquanto personagem, porque a torna plana e entediantemente previsível.

Há ainda uma série de episódios ao longo do livro, os quais, embora ajudem a enquadrar a história, são demasiado longos ou surgem após momentos-chave da narrativa, tornando-a pesada e tirando-lhe ritmo (exemplo disso são as vicissitudes do cônsul britânico ou o julgamento dos serviçais fugidos). Além disso, certos episódios são um tanto ou quanto desnecessários (a visita nocturna ao quarto da proprietárias de uma das roças) ou então previsíveis (os excessos de Ann quando estamos quase a chegar ao fim da história). Mas verdade seja dita que, por outro lado, o acontecimento derradeiro é bastante surpreendente, embora após reflexão se chegue facilmente à conclusão de que a história não podia terminar de maneira diferente... Infelizmente...

Pontos positivos: o tema abordado (resquícios de escravatura na mais pequena colónia portuguesa em África) é mesmo muito bom. Portugal, ainda que "nação civilizadora" está ali representado de forma desencantada e pessimista, verdadeiro retrato do Portugal de inicíos do século XX(I?).
O que chateia um pouquinho no livro é somente o facto de MST querer passar-se, quase à força, por Eça, quando na realidade o mestre é difícil (senão impossível) de igualar.

Em suma: gostei do que li, se bem que fiquei com a pequena sensação de que poderia ter sido melhor. Em todo o caso, não me arrependo do tempo que dispensei a este livro.

8 estrelas (ou será 9? estou indeciso)

2008/02/01

O Mesmo Mar, Amos Oz

Eu arriscaria dizer que as opiniões das pessoas que lêem este livro se poderão dividir entre: aqueles que perceberam o que leram e gostaram, aqueles que perceberam e não gostaram e aqueles que pouco perceberam e mesmo assim gostaram. Eu incluo-me neste último grupo.

Este livro é uma autêntica manta de retalhos, bocados de textos que formam um padrão quase disconexo, mas mesmo assim ligados uns aos outros pelos fios da imaginação (ou será da loucura?) deste autor israelita. Os vários planos narrativos da história intersectam-se todos, inclusive o do narrador (que é assumidamente o autor) que, de forma muito estranha, também participa na acção que ele próprio narra, interagindo com as personagens (ou melhor, as personagens interagem com ele) por ele não-criadas.Tudo é estranho neste livro: Nadia, apesar de morta, continua presente, e mantém ou manteve uma relação quase incestuosa com Rico, o qual por sua vez abandonou a namorada e partiu para o Tibete, e por quem Albert acabará por se apaixonar. Tudo está relacionado entre si, por mais absurdo (ou será surreal) que seja. É uma história que não tem princípio, nem fim, ou em que o fim não é o fim e o princípio dificilmente é o princípio. Cada um que a ler que escolha a opção que mais lhe agradar...

No fundo, gostei bastante deste livro por ser esta coisa meio esquisita, em que o que é pode não ser e em que o que não é, não será. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever.

8 estrelas

2008/01/27

O Códex 632 - José Rodrigues dos Santos

Olá caros amigos amantes das letras. Cá estou eu de novo, desta vez para falar de um livro que, com rigor, não posso dizer que li. Antes mo leram. E quem? Pois nem mais nem menos que o actor português Ricardo Carriço.

O Códex 632 foi o primeiro audiolivro que tive oportunidade de escutar e como gostei bastante da história, não resisti a vir aqui deixar uma breve opinião sobre ele. Para começar, há que salientar que apesar de à primeira vista parecer, este livro não é bem como os do Dan Brown. Sim, é verdade que a personagem principal é um professor universitário. E sim, é verdade que é um especialista em criptografia. E também é verdade que é tratado aqui um tema que se pretende totalmente novo, mas que no fundo já não é assim tão novidade nos mais elevados meios académicos. (Se não leram o livro e não se importam de saber de que trata a história, vejam a título de exemplo este livro de Patrocínio Ribeiro, publicado pela primeira vez em 1927, no qual são referidos os mesmo documentos de que JRS faz uso para compor a sua história).

Mas voltando ao que estava a dizer, embora possamos fazer alguns exercícios de intertextualidade com os livros do Dan Brown, é injusto dizer que se trata do mesmo tipo de literatura. A dizer a verdade, não temos aqui uma corrida contra o tempo (nos livros do Dan Brown, o Robert Langdon consegue resolver todos os mistérios em pouco mais que 24 horas, não sem antes ter de despistar os maus que o querem matar). Não temos aqui um inimigo (pelo menos declarado) que ameace a vida do protagonista. O protagonista não está "disponível" para o amor inconsequente, uma vez que é casado e, surpresa das surpresas, tem uma filha com síndrome de Down! Digo surpresa das supresas, porque este não é de facto o herói típico que estamos à espera de encontrar nas páginas de um livro, ou na tela do cinema (e ainda bem, o livro e a credibilidade do autor só têm a ganhar com isso), embora seja jovem e garboso e não seja indiferente às bombas sexuais suecas que lhe surgem pelo caminho.

Para além disto tudo, é curioso que JRS não se fique pela História e também faça incursões por áreas muito mais abrangentes e interessantes, tais como a Filosofia (como manobra de diversão, claro, para encher umas quantas páginas, quando até era bastante fácil perceber o enigma, pelo menos para quem está habituado a ler e anda atento aos títulos dos livros por aí existentes), pela História das Religiões (nada de muito aprofundado, mas já que está de visita a Jerusalém aproveita-se...), pela Gastronomia (a descrição dos vários pratos que vai comendo nos sítios por onde vai passando não são de todo essenciais para o desenvolvimento da narrativa, mas não deixa de ser interessante), pela Medicina (no que respeita à doença da filha) entre outros exemplos.

Curioso é também o facto de ambientar as diferentes conversas que vai tendo com as diferentes personagens em monumentos ou locais importantes da História portuguesa ou lisboeta. Ele podia falar com eles em qualquer café da cidade, mas combina n'A Brasileira ou no Nicola; no Mosteiro dos Jerónimos, no Castelo de S.Jorge, na Quinta da Regaleira ou no Convento de Cristo em Tomar... Tendo este livro sido traduzido para várias línguas (e estando já previsto um filme baseado nele) parece-me que não foi de todo "inocente" a escolha desses locais, mas ainda bem. Ao menos assim os não portugueses ficam a saber um pouco mais da cultura portuguesa e não lhes faz mal nenhum.

Para concluir, devo dizer que acho que este livro, acima de tudo, demonstra que JRS fez um longo e aprofundado trabalho de casa, dando a conhecer ao grande público um assunto que
curiosamente não está de todo divulgado e que é bastante apelativo ao nosso patriotismo. E tirando uma ou outra parte em que o livro parece deter-se em coisas desinteressantes e que nada acrescentam à história, é bastante cativante. O final decepciona um pouco (e duplamente!), mas depois de reflectirmos sobre a história, não nos sentimos de todo defraudados. Vale a pena.

9 estrelas

2008/01/11

A Relíquia - Eça de Queirós

Caros amigos da Companhia das Letras. Depois de ter sido convidado pelo NCD a colaborar com este blog (o que tentarei fazer sempre que achar conveniente), aqui fica o meu primeiro contributo. A ideia deste espaço é precisamente a troca de ideias e opiniões sobre as leituras que vamos fazendo, por isso não se acanhem e comentem, rebatam, divirtam-se acima de tudo.

Que rica Relíquia que Eça nos oferece nestas pouco mais de 250 páginas. Como de resto, já nos tem habituado em todos os outros seus livros, o autor escreve de maneira absolutamente irrepreensível. A adjectivação inesperada, a crítica social, seja ela directa (através da boca das personagens) ou indirecta (através dos próprios actos das personagens em determinadas situaçõeS), veio reforçar a ideia de que este é realmente um dos meus autores portugueses preferidos de sempre.

No entanto, temo bem que este não seja o livro de Eça de Queirós que mais gostei de ler até hoje. Para isso, contribuiu grande parte do corpo central do livro, especialmente a "jornada ao passado" (como lhe chama Topsius), ou seja, o sonho do Teodorico Raposo à Jerusalém de Jesus. Toda a narração é, sem desprimor para a capacidade narrativa de Eça, maçadoramente desinteressante. Exceptua-se apenas a sua parte final, em que um Eça descrente e ateu, republicano e liberal, narra "a lenda inicial do Cristianismo", o mesmo é dizer a (não) ressureição de Cristo.

Este Teodorico Raposo, a personagem principal, é sem dúvida uma das personagens mais castiças que já tive oportunidade de conhecer. Um fanfarrão, muito orgulhoso das suas barbas viris, mulherengo inveterado, mas mais convencido que bem sucedido (como acabam por demonstrar as infidelidades das mulheres com quem vai conseguindo ter relações amorosas), mas acima de tudo, é ridiculamente cómico. A única coisa que chega a chocar mais nesta personagem rocambolesca é o facto de ser tão interesseiro ao ponto de querer "apressar a obra lenta da morte", chegando mesmo a dar-lhe ganas de "espancar aquela velha". É verdade que ninguém merece uma tia como aquela "horrenda" D.Patrocínio, mas desejar tal sorte à senhora, teria como inevitável desfecho aquele que realmente acaba por suceder. Ainda vemos, quase no fim da história, uma espécie de redenção do ilustre mentiroso, mas não é que Teodorico, mesmo depois de ser visitado pela própria consciência, não aprendeu a lição? (Como não poderia deixar de ser, ou não fosse Eça o mestre na descrição das ironias - pelo menos daquelas em que nos deixamos cair - da vida).

8 estrelas

2007/11/30

O Pequeno Ditador - Javier Urra e A criança e a Disciplina - Brazelton e Sparrow

Já tinha ouvido falar muito bem deste autor e deste livro. É escrito por um psicólogo, sobre crianças e adolescentes malcriados, e porque malcriados, ditadores.
O livro levanta problemas graves. Tão graves que o autor qualifica este tipo de deseducação como maus tratos infantis. E penso que faz bem. Aliás, o autor indica várias situações em que esta deseducação deriva em violência.
Porém, não foi um livro de que eu tivesse gostado ou que tivesse lido com prazer ou proveito. O texto é disperso, confuso, repetitivo. Tenho a sensação - mas claro que posso estar enganado - que o autor terá escrito artigos ou crónicas de jornal sobre estes temas e que foi dessa amálgama, revista e alterada certamente, aumentada talvez, que retirou as extensíssimas 400 páginas com que nos brinda.
Mas o problema principal é que o autor não tem muito para dizer, ou, se tem, diz pouco. Identifica o problema, dá algumas coordenadas genéricas, mas nunca por nunca desce ao concreto, à vida de todos os dias. Indica problemas mas não os resolve. Diz que é preciso por limites mas não exemplifica como é que isso se faz. Se o cavalo vai com o freio nos dentes, serve de bem pouco dizer para puxar as rédeas.
Ficamos com a noção de um livro cheio de moralismos, de preconceitos subreptícios, de ideias politicamente correctas, mas muito, muito pouco prático na sua abordagem, o que não deixa de ser estranho (ou talvez não) tendo em conta o currículo do autor. Nunca me canso de verificar como são perigosos os preconceitos politicamente correctos.
Não posso deixar de fazer a comparação com outro livro, também sobre disciplina, muitíssimo mais modesto, com cerca de um quarto do tamanho deste, e que aborda também o assunto da disciplina de uma forma rigorosa, interessante e, sobretudo, prática. O livro A criança e a Disciplina de Berry Brazelton e Joshua Sparrow, com as devidas diferenças - este destina-se a uma intervenção mais precoce - contrasta claramente com o Pequeno Ditador. É uma importante ajuda para pais e futuros pais, na maravilhosa tarefa de educar os filhos. Longe de dizer o que é que os pais andam a fazer mal, Brazelton e Sparrow vão bem mais longe e explicam o que fazer e como fazer. Os meus parabéns obrigados a estes dois autores.

2007/11/29

A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz

Há autores ímpares. Este é um deles. Tem uma ironia subtil embora seja sério naquilo que escreve. Tem uma escrita muito fresca embora faça, por vezes grandes descrições - que são, paradoxalmente, um importante contributo do narrador para a acção. É um clássico de uma actualidade impressionante. Cada vez que leio um livro do Eça pergunto-me sempre como é possível que tenha deixado passar tantos anos sem ler este livro. Adorei ler a Ilustre Casa de Ramires. Como sempre, fiquei motivado para ler mais e mais Eça.

Diário Escríptico

A ideia partiu do meu irmão: quer um texto por dia. Não importa o tamanho o tema é livre e à falta de tema que conte o dia da personagem que entender.

Muito bem. Vamos a isso. É já a seguir, num blog aqui ao lado.

Uma citação atribuída ao Einstein

If you want your children to be intelligent, read them fairy tales. If you want them to be more intelligent, read them more fairy tales.

(obrigado SoniaCarvalho)

2007/11/07

Cemitério de Pianos

Tinha uma espectativa bastante elevada quando comprei este livro, afinal sou fâ incondicional da poesia de Peixoto e, embora algumas das suas crónicas no JL me deixem uma pontinha de desilusão, estava muito curiosa em relação a este tão publicitado livro.


Francisco Lázaro (personagem inspirado no primeiro português a correr a maratona Olímpica em Estocolmo no ano de 1912, que morreu de insolação ao fim dos primeiros 30 quilómetros), é o centro deste romance, tudo o resto gira elípticamente em redor desta família em sequências alternadas e muito ritmadas.

O livro começa com uma atmosfera pesadíssima, diria mesmo macabra que, embora se vá diluindo, se respira em toda a leitura. Esta sabor azedo é-nos dado por esta família que nos vai revelando catátrofe atrás de catástrofe o alcoolismo, a traição, a violência doméstica, o ciúme, a tristeza, a insegurança, as carências afectivas e a morte, sempre a morte.

Apesar de tudo não posso dizer que não gostei do livro. Gostei muito de algumas ideias como a neta que conversa com o narrador, seu avô falecido, embora me pareça que não passa disso mesmo, uma ideia engraçada mas que se mostra infrutífera no desenrolar do livro. Há também um certo optimismo, apesar de tudo, na renovação expressada na metáfora do título, e nos próprios pianos "mortos" que guardam peças que renovarão outros e na forma cadenciada com que a família se renova. E claro, o ritmo dado pela forma alternada (em alguns momentos quase Lobo Antuniesca) com que avô e neto nos são revelados, levando mesmo em algumas alturas à confusão entre os vários tempos e espaços.

Feitas as contas não gostei muito. As expectativas eram demasiado altas? A atmosfera é demasiado negra para mim? O livro é mesmo um flop?

Deixarei no ar para quem quiser responder.

Continuem em boa companhia!

Desafio da página 161

Então, respondendo ao desafio, aqui está a minha contribuição:

"You'r that sort", he said confidently.

Na verdade nem era preciso ele dizer, eu já desconfiava! ; )

Só falta agora lançar o desafio a mais cinco leitores que nos façam boa companhia...

2007/07/11

Meme da pag. 161

a Loca diz que não passa a ninguém mas depois passou.

Desafio da página 161, segundo estas regras:

1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Colocar a frase no blog
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo
6. Passar o desafio a cinco pessoas.

And the winner is "Se tal objectivo não fôr alcançado, o desenvolvimento da sociedade da informação poderá tornar-se num poderoso factor de exclusão social."

O que é grave, já se vê.

Passo ao resto da Companhia e já chega e mais a quem quiser passar por cá. Quem já respondeu, faça favor de pôr um link nos comentários!

2007/02/27

Em nome do bem comum - Arundhaty Roy

Este livro fala das barragens na India e de como estas grandes engenharias põem em causa o país que lá existe, com o sacrifício daqueles que o habitam. Vale muito a pena lê-lo e reflectir sobre ele.

2007/02/14

Leitores.2


As vestes brancas, a barba cuidada, branca também. Os padrões abstractos, enchendo todo o espaço, criando o espaço à sua passagem, à sua expansão. Sentado no chão, contra o rebordo de uma parede. Não é na parede o seu apoio. Toda a imagem é concentração. Os olhos perdendo-se no que contemplam. Megulhado. A palavra nas mãos, os olhos na palavra.

A Cor da Felicidade - Wei-Wei

Este foi um livro de que gostei muitíssimo. A estrutura é, de alguma forma, típica: a mesma família em duas gerações distintas, que vivem e ilustram dois momentos distintos do mesmo país e que se vão aproximando para um desenlace. A China Tradicional e a China Maoísta. Está muito bem escrito, com descrições muito curiosas de costumes e tradições chinesas e descrições muito fortes e envolventes. Emocionante, interessante, denso sem deixar de ser leve. Gostei mesmo.

Intérpetre de Enfermidades - Jhumpa Lahiri

Magnífico livro!: É um livro de contos que reflecte realidades indianas, sejam elas passadas na Índia ou em comunidades emigrantes. O livro é de uma acidez desconcertante por vezes, mas constrói personagens muito credíveis. Gostei particularmente dos contos Intérprete de Enfermidades e do 'Um problema temporário'. Não é por acaso que um dá o nome ao livro e o outro o abre. Merecidíssimos, os prémios que recolheu.

Obrigado Patiblue!

70 historinhas, Carlos Drumond de Andrade

Gostei de lereste livro. O autor mostra uma facilidade em criar situações e enredos verdadeiramente deliciosa. Por vezes as personagens são um pouco estereotipadas, mas penso que isso é um recurso intencional, para evitar a sua construção e permitir um texto mais sintético. Fica porém a sensação de um mosaico de estilhaços, de fragmentos de escrita. Como se algumas das histórias, para serem consequentes, tivessem de continuar.

Mas gostei muito, repito.

O Impressionista - Hari Kunzru

Este livro foi uma excelente surpresa. A história é verosímil, por muito estranha, por muito dura que seja. A personagem principal torna-se, por força das circunstâncias, um camaleão que se adapta às mais diversas situações. Desta forma, o impressionista é um título rigoroso, muito bem escolhido, tal como todo o livro é muito bem construído, de uma forma igualmente rigorosa.

Faz-nos pensar até que ponto somos a nossa situação.

Gostei muitíssimo de o ler. Obrigado Tuanita.

2007/02/13

Leitores e letras


Iniciamos um novo tema visual: a par de livros e bibliotecas, leitores e letras.

Para começar bem fica um retrato de Chardin, acompanhado de um texto sobre este "leitor incomum".

A ideia partiu de um post da PA.

Sugestões de imagens aceitam-se e agradecem-se.

Quatro, não, cinco livros terminados de rajada.

Demoraram imenso a ler, mas quando terminaram foi todos ao mesmo tempo.

Foram eles: Platero e eu, The time traveler, O impressionista e Não te deixarei morrer, David Crockett e 70 historinhas.

Nos próximos dias farei as respectivas apreciações.

P.S. Aproveitarei ainda para fazer posts de alguns bons livros de 2006, ainda não referidos

2007/01/03

O Estrangeiro - Albert Camus

É a história de Meursault, um homem que vive uma vida, que talvez não devesse ser contada. Pois ele vive vazio de emoções, incapaz de sentir amor, saudade, ódio, medo, ou qualquer outra emoção. A sua vida vai-se desenrolando como se ele fosse um estrangeiro, não em relação a um país, mas em relação à humanidade. No fim o crime que comete não o leva ao fim da sua vida, o que leva ao seu fim é a falta de qualquer emoção aquando da morte da sua mãe. Mostrando-nos Camus que tudo o que fazemos num determinado momento se reflecte durante o resto da nossa vida. Outro ponto curioso deste livro é que a sua história é suspensa, ou seja, nós não sabemos o passado de Meursault, a história começa este personagem a afirmar que “Hoje a mãe morreu”, e Camus, não nos dá nenhuma pista do passado de Meursault. O mesmo acontece com o fim, nós podemos supor o que se vai acontecer, apenas supor porque o autor deixa em aberto o que acontece a Meursault.
Um livro que sempre me despertou a atenção, mas que por ironia do destino nunca tive a oportunidade de ler. Bem, pelo menos até à 1 mês atrás, altura em que o encontrei à venda e não perdi a oportunidade.
A experiência não começou nada bem, por devido a uma grande dose de insensatez, o editor decidiu colocar um critica feita por Jean-Paul Sartre como introdução. Um grande erro, porque a critica de Sartre é aquilo que uma critica deve ser, contando partes do livro, dando-nos conta de sequência, dando-nos conta do que Sartre considera os pontos-chave, a sua interpretação e levando-nos a antever parte do final da obra. Ou seja, antes de ler o livro, eu já sabia o que ia acontecer. Assim à medida que eu ia lendo O Estrangeiro a minha única interrogação era quando é que isto ou aquilo ia acontecer. Enfim, uma grande falta de sensatez, que mata o grande prazer de ler um livro, que é o prazer da descoberta.
O livro em si é estranho em parte devido “àquilo” que Sartre caracteriza como “uma escrita cheia de silêncios”. È o primeiro livro do estudo do absurdo que irá acompanhar Camus durante grande parte da sua carreira.

2006/10/07

O Pêndulo de Foucault – Umberto Eco

Um grupo de amigos decide fazer um estudo. Um estudo de todas as teorias esotéricas que pululam pela imaginação da civilização. Procuram conhecer “estórias” da Maçonaria, dos Rosa-Cruzes, dos Templários, etc. Enfim de todas as sociedades secretas que chamam a curiosidade tão normal, das coisas ditas “secretas”. A grande particularidade do estudo feito pelas personagens é que grande parte do que escrevem é fruto da sua imaginação, ou seja, eles próprios vão construindo o fundamento destas sociedades e utilizando uma lógica muito própria eles vão criando ligações entre tudo o que é esotérico, criando assim um mundo fictício. Até que o impensável acontece, esse mundo existe e eles acabam por se emaranhar nesse mundo, que nada mais é do que a concretização da sua ficção…pode parecer estranho isto que eu disse, para se perceber melhor, só lendo o livro.
Umberto Eco escreveu mais um excelente livro, que nos mostra a visão que ele tem dos esoterismos, sociedades secretas e teorias da conspiração. Que todos não passam de criações de homens sem fé, que têm que sentir um “mundo próprio”, cheio de mistérios tangíveis só por uns eleitos, para que a sua crença faça sentido. Fazendo da vida uma busca infinita de um conhecimento fantástico, que quando se chega a uma meta descobre-se que essa meta foi apenas uma etapa e que esse conhecimento afinal está mais além, sempre mais além. Claro que mais uma vez, Umberto Eco, não perde a oportunidade de voltar a mostrar qual a sua visão de Deus, como aliás faz em vários dos seus livros.
Um livro magnífico, muito denso, mesmo complicado de ler em certos pontos, em que duas passagens são essenciais, mas que no fim todo faz objectivamente sentido, uma obra de mestre que vale a pena ser lida.
Como última consideração apraz-me fazer uma pequena provocação, dizendo que tenho a certeza que Dan Brown leu o O Pêndulo de Foucault, só foi pena que tenha parado a meio…

2006/09/18

Alafce?! Prefiro rúcula!

Nunca escrevi, aqui no Companhia, comentários negativos sobre um livro ou autor do qual não goste. Foi uma opção que tomei logo no início de não mal dizer, afinal posso até não gostar, mas há de certeza quem goste e como se costuma dizer “gostos são gostos” ou “o que seria do amarelo se não fosse o mau gosto” e por aí adiante.

Na verdade repugnou-me um bocado a ideia de eu, que não sou nenhuma especialista, vir aqui dizer mal do que outros escreveram e alguém publicou. O que, a juntar à insegurança de nascença, sempre apoiada pela frase familiar “esta miúda tem cá um mau feitio!”, me fez sempre recuar perante a ideia de assumir as minhas desventuras literárias por escrito e à vista de quantos por aqui passam.

No entanto, chame-lhe mau feitio quem assim o entender, algo abalou estas convicções este fim-de-semana...

Alface... conhecem?

Eu desconhecia, ao que parece é o pseudónimo de João Alfacinha da Silva, emprestaram-me o último livro dele, “A mais nova profissão do mundo”, com a melhor das intenções - “vais ficar surpreendida, pelo que dizem é uma descoberta, reinventa o Português e é divertidíssimo.” - expectativas elevadas portanto, pensei eu que desconfio sempre do que os críticos da nossa praça dizem até prova em contrário. Já 'de pé atrás' pego no livro e começo a ler os pequenos contos, tentando disfarçar a desilusão crescente no meu espírito (afinal o livro tinha sido comprado pelo meu marido, com a intenção de o lermos no fim-de-semana que se cria de boa disposição).

Avancei, li mais uma, outra, e ainda outra à procura do tal “português reinventado e divertidíssimo”, mas nada... a meio do livro acabei por desistir “isto, de facto, não faz mesmo o meu estilo e quanto ao português a única coisa que encontro é o uso corrente de uma linguagem brejeira, vulgar, e expressões ordinarias, que compreendo seja muito divertido para alguns, mas a mim, não me diz nada”, e passei para o meu “Kafka – Na corda bamba” mas não sem um certo amargo de boca e uma interrogação que não me largava, terei sido presunçosa?

A resposta veio em breve quando o meu marido, depois de uma tentativa de descobrir o escritor do século pousou silenciosamente o livro na mesa de cabeceira e sussurou “de facto não tem nada de especial”.

Mau feitio ou não Alface, não faz o meu género!

Continuem em Boa Companhia!

2006/09/13

70 histórinhas - Carlos Drummond de Andrade



Esta é uma compilação de contos dos mais variados temas e de todos os géneros. É um livro 'leve', facil de ler, daqueles que todos (ou quase todos) conseguem, sem esforço, começar e acabar.

Pessoalmente gosto muito de Contos e, embora algumas das histórias aqui apresentadas não cheguem às duas páginas de texto, todas têm uma estrutura lógica, o que prova que não é a quantidade que conta, mas sim a mestria com que se consegue relatar um acontecimento sem entrar em grandes enredos novelescos que, às vezes, só complicam e não beneficiam em nada a obra.

De todas estas 'histórinhas', como lhes chama o autor, a que me ficou a ecoar na cabeça dias sem fim (quiça por identificação com os personagens) foi a segunda 'Nascer' que conta a história de um casal...

"O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado(...) tudo isto o menino tinha, mas não havia nascido." Pág. 5

Como a maioria de compilações de Contos, é um livro tão agradável como inconstante, capaz de nos levar do riso ao amargo de boca num simples virar de página. Vale a pena ler.

Continuem em 'boa Companhia'!

2006/09/04

Astronomia

Fica uma indicação de excelentes imagens de livros antigos sobre astronomia. São ilustrações maravilhosas. Obras de arte, sem dúvida.

Livros e bibliotecas

Sem qualquer objectivo de originalidade, mas apenas pelo muito que gosto do tema, vou iniciar aqui no blog uma pequenina colecção de imagens sobre livros e bibliotecas. Começo com a Vieira da Silva e uma das suas brilhantes bibliotecas. Estão todos convidados a sugerir novas imagens!

Editado para acrescentar: ó pra ele o centésimo post do Companhia!

2006/08/16

António no outro lado do mundo - Malachy Doyle

É um livro engraçado, com umas excelentes ilustrações. A história não tem o mesmo nível das ilustrações mas apenas porque estas últimas são deslumbrantes.

Terapia do Amor Conjugal - Valerio Albiseti

O livro está preparado como uma reflexão e ao mesmo tempo um programa terapeutico sobre o casamento. Gostei de o ler, e penso que é muito útil para ser lido por casais que estejam a passar fases difíceis.
Este não é um qualquer livro de auto-ajuda, assente em vulgaridades e vacuidades. Com um discurso muito centrado na experiência do autor na terapia de inúmeros casais, as suas propostas não só fazem sentido como parecem ir ao essencial de uma forma muito acutilante: o desenvolvimento de competências de comunicação no casal, o valor da verdade, o crescimento comum, são pontos marcantes deste livro que podem ajudar a limar arestas e a construir melhores relações.

Vendidas - Zana Muhsen

Este livro é muito interessante, nas questões que coloca. É uma narração na primeira pessoa, da história de duas irmãs que vão parar ao Iemen.
Mais do que a brutalidade da ideia de alguém vender as próprias filhas, coloca-se aqui um problema de direitos humanos e de liberdade.
Uma visão superficial das relações entre civiliações pode levar-nos a partir do princípio que haverá entendimento mínimo em relação a determinadas matérias, que parecem adquiridas: direitos do Homem, igualdade entre sexos, liberdade.
O problema é que claramente não é assim. Será que estes valores - que nos parecem essenciais - não são superiores à "civilização" ou "maneira de viver" de um regime que não os respeite?
Que formas de pressão podem ser utilizadas nesse sentido?

Pensamentos Secretos - David Lodge

Os livros do David Lodge desenvolvem em mim uma verdadeira relação de amor-ódio.

Por um lado eu gosto imenso da sua forma de escrever:
- é um escritor informado (nota-se que os livros dele passam por uma pesquisa e uma reflexão profundas)o que vai sendo pouco habitual na maior parte dos livros e autores que para aí andam;

- é um escritor versátil quanto à forma (escreve através de diálogos, cartas, diários, guiões, narrações na terceira pessoa, etc), o que dá novas dimensões aos seus livros, na medida em que apresenta "diferentes lados" da história, vistos das perspectivas de outras tantas personagens;

- é um escritor cheio de humor, de um humor mordaz, difícil por vezes, por vezes amargo, irónico. Não são muitos os escritores sérios que sabem rir-se de si e das suas personagens. David Lodge é, a este nível um excelente cómico!

Por outro lado, parece-me que a sua visão do mundo, da religião, da sexualidade, pretendendo mostrar-se madura , é, na realidade, simplesmente distorcida. Todas as relações monogâmicas tendem a "evoluir" para o adultério, todos os crentes são velhos ou se o não são andam com dúvidas e se não andam com dúvidas é porque ainda não leu o suficiente. É um universo de relações muito áridas, muito superficiais e, ao mesmo tempo, muito insatisfeito. Não há personagens felizes nos livros do David Lodge.

Porque será?

2006/08/11

To Kill a Mockingbird - Harper Lee

Estava um pouco apreensivo, quanto ao meu inglês (e sobretudo quanto ao meu americano!) mas surpreendentemente o livro tornou-se claro como água! As primeiras páginas talvez tenham sido um pouco mais lentas, mas depois, quando embalei não conseguia despegar.

Foi um livro que gostei imenso de ler. É daqueles que entrará para a minha lista de favoritos sem a menor dúvida. Daqueles que gostava de ser lembrado por recomendar aos meus filhos.

Há três registos distintos que gostei particularmente no livro.

A crónica de costumes, onde ressalta a questão do racismo, parece uma realidade tão distante e tão antiga que quando às tantas há uma referência ao Einstein senti aquilo como um anacronismo. Depois realizei que não, não havia qualquer anacronismo: era no sec. XX que a acção se passava.

A infância e a forma como a narradora escreve desde uma mentalidade infantil. Está muitíssimo bem escrito, sob este ponto de vista. São poucos os escritores que o conseguem fazer bem. Assim de repente só me ocorre o José Mauro de Vasconcelos!

E finalmente, aquela figura parental. Impressionante a forma como educa e como se relaciona. Este tema é-me muito caro, hoje em dia, e o Atticus é uma personagem - tenta-me escrever uma personalidade - muito completa.

Gostei muito de ler este livro, Conto, mais uma vez muito obrigado.

Livro da Treta - Filipe Homem Fonseca; Eduardo Madeira; Rui Cardoso Martins

É verdade que estas não são as personagens que eu mais gosto dos actores que as encarnam - o António Feio e o José Pedro Gomes. Mas isto diz mais da qualidade destes actores que fizeram outra personagens ainda melhores - veja-se o Arte, o Último a Rir, o Jantar de Idiotas - do que propriamente deste livro. Aliás é do livro, e não das peças que eu estava a falar, não era? Mas na realidade são indissociáveis: uma pessoa lê os diálogos como se estivesse a ouvir estes dois actores.

O livro é óptimo, verdadeiramente hilariante. Altamente desaconselhado para ler em sítios públicos. Dei por mim várias vezes a não conseguir conter o riso. O que vale é que não me importo: rir é bom.

O regresso do Menino Nicolau - Sempé/Goscinny

Aqui está um livro que eu adorei. Não traz novidades, é um facto: o menino Nicolau continua igual a si próprio tal como os seus colegas de escola. Mas é exactamente assim que eu gosto deles! Foi delicioso, voltar a estas peripécias, das crianças e dos adultos! É que muitas vezes os motivos de confusão não estão nas crianças mas nos professores e encarregados ou mesmo nos pais. Neste contexto, há verdadeiras pérolas neste livro.

Fico ansioso pelo nº 2 - Eu sou o maior - que já tenho lá em casa. Estou só a espaçá-los um bocadinho - para durar mais!

Optimismo - Francesco Alberoni

Eu esperava uma monografia sobre o optimismo, saiu-me uma colecção de crónicas "morais" (?). Eu esperava uma reflexão profunda e cuidada, saiu-me um conjunto de lugares comuns que exploram assuntos tão interessantes como saber se as nossas impressões à primeira visata estão ou não correctas... para chegar à conclusão que às vezes sim, às vezes não. Os exemplos, as inferências são de uma displicência que me fazem colocar em causa não apenas o texto mas o próprio autor. Quem pensa assim neste livro, como pode ter modelos de pensamento rigorosos e racionais noutros livros?
Ao mesmo tempo tenho que dizer que os textos são assim uma mistura de calda de açucar com canja de galinha que não chega propriamente a merecer discordância. Ninguém discorda de um discurso vago, assente no senso comum. Mas para quê lê-lo? Se o livro fosse maior, tinha focado a meio. Tem essa qualidade: é pequeno.
Sinceramente, não gostei do livro e foi para mim uma enorme desilusão porque já ouvi bons comentários sobre outros livros dele, que ainda não me dei ao trabalho de ler. Mas depois deste fiquei sem muita vontade...

Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma - Irene Lisboa

Este foi daqueles livros de que sempre fui ouvindo falar, mas que nunca tinha lido. Sinceramente, não gostei. Talvez seja um documento interessante, enquanto testemunho de uma particular forma de vida, de uma mentalidade do início do século passado. Mas como livro, não me entusiasmou. Fica o título, de que gosto imenso, os contos deixaram-me esta mesma sensação: "Uma mão cheia de nada... "

O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo - Germano Almeida

Gostei da escrita escorreita do Germano de Almeida - que não conhecia. O livro é engraçado, as personagens curiosas. O final é que não me parece particularmente conseguido: o livro morre de causa natural, sem que nada se desenlace, como se tivesse acabado o papel. É pena. Mas é uma leitura agradável, sem dúvida! Fiquei com vontade de ler outros livros do mesmo autor.

2006/08/08

A Misteriosa Chama da Rainha Loana - Umberto Eco

O tema deste livro é a história de Yamo, um homem que acorda após um AVC. Quando recupera lembra-se de tudo sobre história, literatura, cinema, música, pois toda a memória semântica de Yamo está perfeita. O único problema é que não se lembra de si próprio, ou da sua família, amigos e colegas, em suma, não se lembra da sua própria história. Encorajado por sua mulher, parte ao encontro da sua vida para a casa dos seus avós, onde não voltava desde a morte dos seus país e avô. Ai no meio de brinquedos, livros de banda desenhada e discos de vinil de 78 rotações tenta reencontrar-se. Uma sucessão de acontecimentos levam Yamo a uma recaída e sofre outro AVC, mas desta vez mais forte. É durante o seu coma que se recorda de tudo e volta a reencontrar-se com a sua história, levando-nos a viver as aventuras da sua infância e a história do período da queda de Mussolini. Fazendo no meio de tudo isto, o leitor sentir um pouco da cultura dos meados da década de 40.
Eu já sabia que Umberto Eco é um dos poucos que pinta com as palavras! E esta obra é bom exemplo disso mesmo, pois as imagens que nos são descritas nada devem às gravuras do livro. Penso até que a presença das gravuras servem para reafirmar a genialidade e superioridade da escrita de Umberto Eco. De referir, que ao contrário de outros livro de Umberto Eco que eu li, este é aquele que tem a escrita menos densa, sendo portanto de mais fácil leitura.

2006/07/27

O sumiço da Santa, uma história de feitiçaria – Jorge Amado

Este livro só podia ser deste autor. Capítulos curtos, ao sambar da pena, sempre brincando, requebrando os temas, sem pressas e com muito humor. Sinceramente, este é daqueles escritores que eu invejo, pela capacidade de escrever do nada, com um encolher de ombros, deixando-nos impressões fortes, como se nada fosse.
O romance é muito divertido, por vezes sinto que perco um pouco o pé por desconhecer pessoalmente a realidade de que ele fala, a Bahia e todos os seus mitos. Ele também não explica muito, como se o mistério fosse o mais importante e mesmo assim, quase nada, quase nada, deixa para lá, entra no ritmo, dois para cá dois para lá: isso aqui é um pedacinho de Brasil, desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz ...

2006/07/21

O Senhor Ferdinand - Agnès Guldemont e Carll Cneut



Este livro em belíssimas ilustrações, não posso dizer o mesmo da história. A este nível ficamos sempre à espera de algo que se perdeu e que continua perdido ad infinitum.
Nenhuma das linguagens - nem a visual nem a verbal - me parecem adequadas para crianças.

Catarina e o urso sem rumo pelo mundo - Christiane Pieper


Este livro é um encanto. Tem ilustrações deliciosas e vale sobretudo por elas: são vivas, expressivas, interessantes! A história sofre (ou participa?) da falta de rumo da Catarina (e do urso) mas quem é que disse que todos os passeios servem para chegar a algum lugar? Era tão bom às vezes poder sair, assim, com a companhia de um urso amigo, sem rumo pelo mundo... :)

Editado para acrescentar: o meu filho, que tem 22 meses, já me anda a ensinar a ler livros. Ontem ensinou-me que este livro se pode ler com o corpo, imitando as posturas da Catarina (ele) e do Urso (eu!). Nunca tal me teria passado pela cabeça. As virtualidades de um olhar sem preconceitos!

O Confessor - Daniel Silva

este livro é um policial mediano: não traz novidades; não deixa saudades.
O enredo é bastante óbvio e o desenlace também.
A propósito da história ressaltam duas ideias, repetidas à exaustão:
a) o silêncio do Vaticano quanto ao holocausto;
b) a justificação do Estado de Israel.
Nenhuma das questões em causa é tão simples como o autor quer fazer parecer. A "desculpa" de que estamos perante um romance também não colhe: quem quer fazer um romance histórico - e não há dúvidas quanto a tais pretensões neste caso - deve ser exacto quanto aos dados que promove e às teorias que defende. Neste livro não há rigor histórico Apenas páginas e páginas de propaganda.

Talvez um dia se escreva um livro sobre o silêncio do Ocidente diante do conflito do Médio Oriente.

Se eu fosse muito alto – texto de António Mota ilustrações de André Letria

Este livro tem a enorme virtualidade de nos pôr a imaginar. Um texto muito simples – uma ou duas frases por ilustração, ilustrações curiosas, bem dispostas e fica no ar esta pergunta: se fosses muito alto, o que é que fazias?

Este é um tipo de pergunta que estimula muitíssimo a imaginação. O tipo de variações são virtualmente ilimitadas: se eu fosse muito baixo, se eu voasse, se eu fosse um animal, se eu fosse rei, se eu fosse pai, se eu fosse... e por aí adiante. Estes exercícios obrigam as crianças a uma ginástica mental óptima: chama-se imaginação. Neste caso obriga-os a colocar-se naquela situação e a imaginar como seria o mundo para elas nesse caso. Os pais até podem fazer a história ao desafio: cada um dá uma ideia do que faria ou aconteceria naquela situação.

Gostei deste livro ainda por outra coisa: é que a maior parte das coisas que o autor faria, se fosse alto, era pôr a sua altura ao serviço dos outros: compôr antenas, limpar chaminés, apanhar balões... e esta ideia é muito interessante, também, para explorar com os miúdos: o autor se tivesse aquela qualidade punha-a ao serviço. E tu? Quais são as tuas qualidades? Como é que as podes pôr ao serviço? As características de cada um podem até parecer ser defeitos e tornarem-se qualidades, se encontrarmos a sua utilidade, a forma de as pôr ao serviço. É uma questão de optimismo: se uma garrafa estiver completamente vazia, um optimista não se concentra nesse vazio mas na possibilidade de mandar com ela uma mensagem, de com ela recolher água na fonte, de todas as utilidades que ela pode trazer.

O Meu e o Teu


Este fantástico livro é para se visto de olhos bem abertos (como dizia o outro) para não deixar escapar nem um bocadinho da genialidade das ilustrações de Almud Kunert que joga com o texto de Peter Geißler às mil maravilhas.
Não é um livro vulgar, não se limita à primeira vista de olhos, é para ser visto e relido várias vezes, e, ainda assim, até encontrarmos o "Meu" e o conseguirmos distinguir do "Teu" serão necessárias muitas visitas!
Também não é um livro para os mais ortodoxos (é possível que se percam no meio de tanta liberdade criativa e de interpretação). Quanto aos outros, mais novos ou mais velhos, mais literatos ou menos, mais artísticos ou azelhas, enfim, aqueles que ainda não perderam o dom de sonhar com os olhos abertos, esses sim vão, sem dúvida deliciar-se com esta busca!
"O Teu não gosta de se deixar encontrar.
O Meu posso atar."
"O Teu sabe ler livros grandes.
O Meu, antes era pequeno"
Uma belíssima edição d'O Bichinho de Conto, a não perder.
Continuem, sempre, em boa companhia!

2006/07/18

Os Lugares de Maria - Margarida Botelho

Os lugares de Maria são maravilhosos. É um livro para crianças muito bem ilustrado que abre caixinhas mágicas com palavras diferentes feitas de números e desenhos. São caixas muito diferentes, as que se dizem e as que se vêem. As que se lêem e as que se ouvem. Muitíssimo recomendado. Todos devíamos ter caixas daquelas!

2006/07/17

Ainda nada?



"De manhã, bem cedo o Senhor Luís abriu um buraco ENORME na terra(...)"

Imaginem que plantam uma semente na terra e que têm tanta, tanta, mas tanta vontade de a ver crescer que não querem perder nem um bocadinho do seu crescimento...

Assim estava o senhor Luís, cheinho de vontade de ver a sua semente creser e virar flor! Mas de tanto esperar a sua paciência começou a faltar e a cada manhã que a ela se abeirava maior era o seu desânimo: "Ainda nada?"

Esta é uma história para ensinar a esperar que o tempo corra e com ele as mudanças aconteçam. Para miúdos e graúdos, para contar, inventar, acrescentar, brincar, enfim... ler de preferência em voz alta e bem acompanhado!

De Christian Voltz com ilustrações bem ao estilo da Kalandraka.

Comtinuem em boa Companhia!

2006/06/28

Fiz das Pernas Coração


Esta é uma antologia de Contos Tradicionais Portugueses, ‘nascidos’ da tradição oral cada vez mais adormecida nos nossos dias. Alguns destes contos fazem mesmo parte da memória de histórias contadas durante a infância do autor (José António Gomes) por ‘tias’ e outras figuras que tanta falta fazem hoje no imaginário das nossas crianças.

É um livro engraçado pela diversidade e originalidade de contos onde coabitam saudavelmente os ‘tontos’ tão comuns na nossa literatura oral, com o com as Mouras e os seus encantos. É de referir que o autor é do Algarve e a infância algarvia adivinha-se nas suas escolhas, coisa que não prejudica em nada o livro, até porque o próprio faz referência à sua terra natal.

“Na selecção dos textos, procurei contemplar diferentes tipos de narrativas, nomeadamente os contos de encantamento, as histórias de animais, as lendas e as facécias. Sendo esta última uma categoria em que a nossa tradição oral é, a meu ver, particularmente rica, optei por lhe dar algum relevo, na convicção também de que o carácter jocoso e burlesco de tais contos poderia conferir à colectânea uma tonalidade mais humorística do que é habitual em obras deste tipo.” Pág. 4

Dos contos deste livro, deixo uma refência especial para dois que, a mim, me encantaram.
“As Senhoras da Mantinha de Seda” - Pág. 27
“Conto da Pêra de Ouro” - Pág. 33


Continuem em boa companhia!

2006/06/22

Um ano em boa companhia

Este é um blog de letras e não de números mas, ainda assim aqui fica: ao final de um ano de existência (passou no último dia 14) mais de 3.200 entradas. Não está mal de todo.

Agora, ao soprar as velas, gostava de pedir mais participação, mais comentários, mais livros. Espero que seja do interesse de quem nos lê, gostava de ter maior feed-back.

Sei alguns dos erros que temos: posts muito espaçados, com uma avalanche repentina quando há tempo para isso. Vamos tentar ser mais constantes.

Para que saibam: gostámos muito de estar na vossa companhia.

Coelhinho branco - Conto popular adaptado por Xosé Ballesteros

É a história da formiga rabiga, sem tirar nem pôr. Eu gosto da história, menos das ilustrações. E pronto, pouco mais a dizer.

2006/06/21

Eu não tenho sono e não vou para a cama - Lauren Child

Uma história sobre uma menina difícil de fazer chegar à cama. Ilustrações muito ao estilo pop, não deixa contudo de ser um livro engraçado, mas sem muito sumo para espremer. Afinal, também aí bastante pop. A capa promete mais do que dá. Pop?

Carlota Barbosa, a bruxa medrosa - Layn Marlow

Um livro sobre medos e coragem. Sobre como os medos nos podem perturbar e como os momentos de decisão nos podem ajudar a ultrapassar os medos. Quero que o meu filho o leia, não faço questão que o tenha.

Onde perdeu a lua o riso? – Miriam Sanchez

Não gostei particularmente deste livro. Joga à volta do trocadilho entre o nome do astro (lua) e o de uma menina (lua), que perdeu – esta última e não aquela – o riso.
O trocadilho é um bocadinho forçado, já que lua não é propriamente um nome usual para dar às crianças e tão pouco é bem explorado ao longo do livro (não se desenvolvem paralelismos entre a menina e astro que justifiquem aquela identificação). É, apesar de tudo, um livro que fala das relações familiares, em particular entre irmãos, de uma forma agradável. Mas fica aquém daquilo que promete.

A Maior Flor do Mundo - José Saramago

Quando li alguns dos seus romances, pensei que Saramago seria um bom escritor de contos, visto que tinha boas ideias que esticava à exaustão, sem extrair delas tudo o que elas poderiam dar. Veja-se o exemplo do Ensaio sobre a Cegueira ou de Todos os Nomes. Com a Maior Flor do Mundo verifico que não é verdade. A maior flor do mundo, é um livro cansado: desenvolve-se numa estrutura circular, cansada de tanto ser usada, usa imagens cansadas, não traz nada de novo, nada de nada. Talvez a dificuldade seja escrever para crianças, talvez a dificuldade seja ser simples – que é sempre tão difícil. Se escreve contos assim, antes os romances, que dariam bons contos e deram romances sofríveis.

Histórias para contar em 1 minuto e ½ - Isabel Stilwell, com a colaboração especial de Francisco e Madalena Stilwell

Este é um livro muito inteligente. Histórias simples e curtas – como prometido – com uma lógica muito própria das crianças, mais simples, mais directa mas também menos realista do que a lógica “adulta”. Dou um exemplo: o que fazer se o pai tem um chefe de quem não gosta e o filho um professor de educação física de quem não gosta? É simples e óbvio: o professor troca de lugar com o pai e ficam todos felizes!
Ao mesmo tempo, e sempre fugindo à tentação das histórias moralistas, o livro vai resolvendo pequeninas questões: o medo do escuro, as birras á noite, não ter nada para vestir – apesar dos armários estarem cheios. É um livro a guardar perto de nós. Uma última nota: o Manual de instruções é muito interessante.
Outra nota ainda, esta já não sobre o livro: a edição é muito boa, de uma editora que eu não conhecia mas que espero que mantenha este nível de qualidade, literária e de edição.

Tio Lobo – Conto popular adaptado por Xosé Ballesteros

Este é daqueles livros inexplicáveis. Como é que uma história desta se forma? É suposto ser um conto popular... como é que uma história de tanto mau gosto não morre, já não digo à nascença mas pelo menos à terceira... vá, à quarta vez que é contada? E mais: porque é que alguém se lembra de a adaptar para um livro? É que sinceramente, uma história destas é daquelas que eu não quero que os meus filhos leiam! Pães com cimento lá dentro? Bolinhos de excremento de burro? Água de poças a saber a urina de cão? O lobo acaba a comer a menina, mas talvez isso não seja tão dramático como o medo que é inspirado pela sua ameaça... a menina vai-se deitar e não consegue dormir à espera do lobo.
Sinceramente, fiquei perplexo. Depois vi o nome da colecção e não pode deixar de rir com a ironia... chama-se livros para sonhar!

Avós – Chema Heras

Um livro delicioso, sobre uma história de amor para toda a vida. O envelhecimento e a relação amorosa. Apresentado de uma forma muito simples, muito bonita, sob a forma de uma lenga-lenga, as comparações são de uma originalidade e de uma frescura muito ternas. As ilustrações são muitíssimo cuidadas e sugestivas.
Uma história de valores sem falar de valores, que procura o essencial, que às vezes queremos esconder. Vale mesmo a pena.

Conspiração – Dan Brown

Estou a ficar francamente farto deste senhor. Não é que ele escreva mal aquilo que escreve, mas escreve sempre igual. Por isso está a tornar-se previsível, cada vez mais previsível. Comprei o Código Da Vinci, que li com gosto. Também o considero, como o Cardeal Patriarca de Lisboa, “um policial bem urdido”. Também o considero, como ele, um livro falacioso, de um ponto de vista teológico. O que me espanta é que se espere tanto de um autor que não tem qualquer autoridade nesta matéria e de um livro de ficção.
Depois li – não comprei - o Anjos e Demónios que achei burlesco. O estilo de escrita é o mesmo, o enredo é de uma proximidade exasperante, a única diferença – para muitíssimo pior está - no final, espalhafatoso, hollywoodesco, americanado.
Pura literatura de aeroporto.
A Conspiração – curiosamente lido em grande parte em Aeroportos – é fiel ao seu autor: a história é a mesma, as personagens andam muito próximas, o mau da fita é o mais óbvio, sinceramente, é tão idêntico aos outros que nem se pode dizer que decepcione.
Há dias em que me apetece comer hamburgueres. Faz sentido queixar-me de não me servirem bife da vazia? Os hamburgueres sabem sempre ao mesmo. E depois?
O que eu não estou disposto a fazer – e já não fiz com este livro – é comprar um hamburguer ao preço de um bife ou mais caro, e ainda dizer que é a melhor coisa que já comi. Não: é junk food e ponto final.
A Conspiração é literatura de plástico, feita para formato de bolso. Só é pena ser tamanho bigmac – e estou a falar da extensão do texto, não da edição, feita como se de um livro a sério se tratasse.

Casamento para um tempo novo - Antonio Vasquez

Este é mais um livro da colecção “Fazer família”. É nalguns pontos um livro bem escrito e inteligente. Noutros “tropeça” no enunciar de ideias esparsas sem as fundamentar ou delas retirar consequências. De todo o modo é um bom livro, um livro que vale a pena ler, por quem está a preparar-se ou a viver um casamento. Como sempre, poderá não se concordar com todas as ideias descritas, mas também é um facto que um livro onde se concorda com todas as ideias descritas raramente significa um apoio ou uma ajuda: torna-se demasiado complacente, conformado, conformista. Poderá até – quem sabe? – chegar a best-seller! Este livro não corre esse perigo.

Ensinar a pensar - António Jiménez Guerrero

É um assunto que me preocupa imenso, a perda de capacidade crítica que noto nas pessoas. As pessoas não aprendem a pensar, têm preguiça de pensar e caem em erros e omissões facílimas de desmontar.
Grande parte deste problema tem sem dúvida a haver com a incapacidade de compreender e se expressar em português.

Mas outra grande parte tem a ver com falta de bases lógicas e com aceitação acrítica dos argumentos, sem questionar as suas permissas de base.

Não posso dizer que concorde com cada palavra do que está escrito neste livro, mas também é um facto que ele tem muitos méritos. Desde logo, o mérito de abordar este tema, tão inusual nos dias de hoje. Também o facto de estar escrito de forma simples com variadíssimos exemplos ajuda uma fácil leitura e aquisição do seu conteúdo. Finalmente, as técnicas descritas são, na sua maioria muito úteis.

Tem também alguns defeitos: por vezes parte de um sistema algo “fechado” de abordagem das coisas e deixa algumas “promessas por cumprir”. Gostaria de ter visto mais desenvolvidos algumas questões como por exemplo a das falácias e da sua desmontagem, ou outras abordagens como a do pensamento criativo, a imaginação, a capacidade de descrição.

Quem lida diariamente com miúdos sabe até que ponto estas capacidades estão pouco estimuladas e consequentemente pouco exercitada e pouco desenvolvidas.

Outros autores falam, a este propósito em obesidade mental.

2006/06/16

A criança em ruínas


Foi pela voz de um grande contador de histórias ( Filipe Lopes ) que conheci a poesia de José Luís Peixoto e posso dizer que o “embate” foi forte. O Filipe leu o poema “na hora de pôr a mesa, éramos cinco” e eu fiquei atordoada, apertando as mãos à força das lágrimas que teimavam em espreitar (acho que não fui muito bem sucedida no disfarce...). Daí à leitura integral do livro foi “o passo de um anão”...

Posso dizer que a leitura não é simples e está longe de ligeira (o que, na minha opinião, só abona a favor do livro). Pelo contrário, é trabalhosa e requer uma grande envolvência, quase íntima, com cada palavra.

Este livro não se deixa florir com o simples gesto de folhear as páginas, é preciso tempo para ler até ouvir o ritmo certo de cada estrofe, que não se impõe, deixa-se descobrir a quem o quer encontrar. Mas não essa, afinal, a magia da verdadeira Poesia?!

É como se José Luís Peixoto quisesse ter a certeza que quem lê os seus poemas se dá ao trabalho de realmente os ‘ouvir’. O hábito de ler silenciosamente é razoavelmente recente e no caso deste livro, e porque não dizer em todos (ou pelo menos quase todos) essa modernidade fez perder parte do encanto do texto escrito. Dá muito mais trabalho e é muito mais difícil ouvir palavras ditas de lábios cerrados...

Como sempre, tive de lutar com a minha dificuldade em escolher uma pequena amostra “Como isolar um sabor de um bolo de várias camadas feito?” A escolha inicial era o poema que já referi, mas essa por tão óbvia peca pela facilidade. Assim deixo aqui este raminho de cheiros para aguçar o apetite.

“ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre no
mesmo sítio se fecharmos os olhos
serás sempre tu e tu que me ensinarás
a nadar seremos sempre nós sob
o sol morno de julho e o véu ténue
do nosso silêncio será sempre o
teu e o teu e o meu sorrizo a cair (...)” Pág. 14
Continuem em "boa Companhia"!

2006/06/01

O Fio Da Navalha - Somerset Maugham

Laurence Darrel é um combatente da primeira guerra mundial que viu morrer o seu melhor amigo por ele. Este choque provocou em Larry o desejo de compreender o sentido da vida e partir da vida confortável que o conformismo lhe oferecia. Desfaz o noivado com Isabel e parte por esse mundo fora. Na busca do seu objectivo começa por frequentar obsessivamente bibliotecas, vive num mosteiro, trabalha numa mina de carvão, trabalha como lavrador à jorna e chega até a viver na Índia como eremita onde atinge a "iluminação".
Os outros personagens representam os outros contrastes do mundo, desde aqueles que consideram a cultura uma posse exclusiva de uma elite estanque, em que ser culto é uma condição que se deve ao “status” e não por ter conhecimentos, considerando todos fora da sua esfera como pobres analfabetos. Até aqueles que buscam a autodestruição devido às agruras que a vida lhes ofereceu. Maugham expõem aqui toda a mesquinhez e futilidade de um “jet-set” do inicio do século XX, cujo sofrimento é banal e insignificante face a quem realmente sofre e que também por isso, caminhava a passos largos para a decadência, numa América do Norte e Europa em constante mudança e instabilidade.
Numa visão mais ampla este livro é um confronto de um mundo velho contra aquilo em que se transforma, um instável mundo novo que busca novos caminhos em diferentes direcções. Partindo desde o fim do primeiro conflito mundial e os “loucos anos vinte”, passando pela crise de 29 e chegando até aos meados da década de 30 do século XX.
O autor Somerset Maugham é um dos personagens que estabelece a ponte entre todos os outros personagens numa escrita fantástica, que nada deixa ao acaso. Brinca com todos os pormenores, mas sem fazer descrições maçadoras, conseguindo fazer com que o leitor sinta todos os ambientes descritos no livro, que acaba por se tornar numa agradável companhia.

2006/05/31

A Invenção do Dia Claro - Almada Negreiros


O meu maior problema com este comentário é lutar contra a vontade emergente de transcrever na totalidade os textos de Almada sem deixar uma só palavra de fora. Isto porque o livro é um todo formado por III Partes seguidas pelas "Démarches para a Invenção" e acompanhadas por "Confidencias mais Intimidades Geraes" que, se tiradas do seu contexto perdem não só em significado, como em termos rítmicos e até metafóricos. Além disso, a minha vontade era mesmo partilhar com todos o prazer imenso que retiro desta leitura!
Assim, e na impossibilidade de vos deixar aqui a imensidão poética deste 'dia claro', derramo apenas um pouco do muito que nos dá a beber Almada Negreiros, apenas o necessário para humedecer os lábios de vontade de ler o todo desta belíssima edição fac-similada do "primeiro milhar" impresso "aos trinta dias do mez de novembro de mil novecentos e vinte e um, nas Oficinas da Sociedade Nacional de Tipografia".
"Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido."
Pág. 11 (O Livro)
" O preço de uma pessôa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessôas . As palavras dançam nos olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um."
Pág. 19 (As Palvras)
" Quando copiei pela ultima vez a Invenção do Dia Claro, sobejou uma frase que não me recordo a que alturas pertence. A frase é esta:
Ha systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não ha systemas para saber amar!"
Pág. 44 (Uma frase que sobejou)
Para finalizar, que o dia já vai alto, gostava muito de deixar mais um cheirinho, o magnífico texto "A Verdade" (Pág. 45) mas como é extenso (e antes que acabe mesmo por copiar todo o livro) terei de me ficar pela menção da sua genialidade!
Continuem em boa companhia!

2006/05/18

Se Numa Noite de Inverno Um Viajante - Italo Calvino



É um livro diferente de todos os livros que li até agora. Entra-nos pelas folhas fora (sim é mesmo isso que quero dizer) sem pedir licença e trata-nos por tu.
"Estás a comecer a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um Viajante de Italo Calvino. Descontrai. Recolhe-te." (Pág.7)
Depois envolve-nos numa teia de histórias, personagens, lugares, cheiros, sabores e, enquanto se vai perdendo neste enredo de enredos (o que acaba mesmo por acontecer) começam a adivinhar-se os verdadeiros personagens - O Livro, A Editora, e por último o leitor e a leitora. E, embora a certa altura seja inevitavel que uma certa frustração nos comece a afastar a vontade de continuar a ler, vale a pena mantermo-nos fieis e ficarmos até ao fim.
"Ler (...) é sempre isto: há uma coisa que ali está, uma coisa feita de escrita, um objecto sólido, material, que não se pode alterar, e através dessa coisa comparamo-nos com outra coisa qualquer que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é só pensável, imaginável, ou porque existiu e já não existe (...) ou que não está presente porque ainda não existe (...) ler é ir ao encontro de qualquer coisa que está para ser e que ainda ninguém sabe o que será..." (pág. 63)
Fiquem em boa companhia!

2006/05/15

Un papá a la medida - Davide Calí


















Esta é a história de uma mamã estupenda e da procura de um papá que esteja à altura das suas qualidades...

Essa busca começa com um anúncio nos Classificados que (caso estivesse traduzido em Português) diria o seguinte:

"Procura-se Papá tão estupendo como a Mamã, quem não tiver as qualidades necessárias escusa de aparecer"

É um livro delicioso, daqueles que se lêm com todos os sentidos! É daqueles que pede para ser contado com o livro bem pertinho para que quem ouve se possa maravilhar com as belíssimas ilustrações de Anna Laura Cantone.

Continuem em Boa Companhia!



Canto de Mim Mesmo - Walt Whitman

Gostei, não posso dizer que tenha delirado. Tem momentos francamente bons.

De alguma forma tenho que admitir: é uma realidade que sinto alheia.

2006/05/10

Eu não fui - Christian Voltz

Este livro é daquelas histórias em cadeia que explica em poucos minutos porque é que tudo está ligado a tudo, dando um exemplo.
A história é simples, as ilustrações são deliciosas... aconselho vivamente!

O Circo da Lua - André Gago

Este livro é muito interessante, não apenas pelas ilustrações, que são muito boas, mas sobretudo por uma história que mostra como podemos escolher o melhor ao pior desde que saibamos construí-lo. Diz-nos a análise SWOT que todas as ameaças são oportunidades. Há pouco tempo lia que as pessoas a quem tudo corre bem são as que conseguem aproveitar melhor as circunstâncias. Este livro diz isso mesmo, com imagens e mensagens adaptadas à idade a que se destina. Não gostei muito da parte do lobo. Paciência. Mas vale a pena lê-lo!

Estorvo - Chico Buarque

Esperava mais e melhor, confesso. É um artista bem mais completo quando compõe.

O pai no tecto - Maria Teresa Maia Gonzales

O livro está muito engraçado e o tema diz-me muito. A autora faz um truque que resulta muito bem: começar por explicar que o Tito não é um miúdo vulgar. Isto permite-lhe uma série de liberdades que de outra forma se tornariam fantasiosas. De resto está muito bem escrito, muito acessível, ou não fosse este um livro "infanto-juvenil". É daqueles que faço questão que conste da estante dos meus filhos. Um pormenor técnico, em particular: a autora domina muito bem os diálogos!

2006/05/04

The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton

Já tenho este comentário 'pensado' há algum tempo, mas deparo-me sempre com uma dúvida existencial incontornável:

-Como explicar o que sinto sobre este livro?!

Para mim este pequeníssimo livro é genial embora de uma crueldade mordaz, é fantástico (em toda a amplitude da palavra) embora não deixe de ser bizarro, posso mesmo dizer que chega a ser mórbido sem, contudo, deixar de ser simplesmente lindo...

Mas esta é a minha opinião ou melhor, esta é provavelmente a opinião de todos os que se identificam com o imaginário do homem que criou filmes, como por exemplo, Big Fish, Eduardo Mãos de Tesoura, O Estranho de Mundo de Jack ou A Noiva Cadáver...

E os outros, o que acharão os outros (aquelas pessoas estranhíssimas que não estão dentro da órbita deste planeta fantástico povoado por seres estranhos e onde a maldade é vizinha do acaso, que por sua vez é irmão da beleza...)?!

Bem, na verdade, a opinião desses é-me indiferente...

Fiquem em boa companhia!

2006/05/03

Grávida no Coração - Paula Pinto da Silva


Publicado pela Campo das Letras, este livro vai directo ao assunto: de que massa se faz a maternidade e a paternidade. A leitura do livro é muito rápida, o texto sintético, organizado em pequenos diálogos mãe/filho. Aconselho vivamente. A mim tocou-me muito. A outros não, pelos vistos. Concedo que as ideias não são novas: são provavelmente tão velhas como a maternidade e a paternidade mas - que querem? - é exactamente assim que eu me sinto - grávido no coração - em relação a todos aqueles que assumi como filhos.

2006/04/26

José Afonso - Textos e Canções

Esta é uma referência que não poderia deixar de fazer. Com ela festejo Abril e a liberdade de ler, publicar ou tão pouco comentar.

É uma compilação da obra poética de José Afonso organizada cronologicamente (por Elfriede Engelmayer) que nos presenteia, não só com os poemas que nos povoam o imaginário colectivo das Canções de Intervenção, mas com tantos outros textos/poemas 'não musicados' e, por isso desconhecidos.

A leitura destes últimos, permite um olhar muito mais profundo, mais íntimo e a descoberta do poeta para além do cantor.
"A possibilidade de acesso à obra de um artista é a condição «material» para que elenos seja presente(...)" (Nota Prévia - Pág. 8)

Aqui deixo um cheirinho (de alecrim) :

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
investe
perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se e organiza-se

A palavra precisa de ternura

(A Palavra - Pág. 151)

***** ***** ***** *****

Nefretite não tinha papeira
Tuthankamon apetite
Já minha avó me dizia
Olha que a sopa arrefece

Nos funerais de antanho
As capicuas gritavam
E às escuras na cozinha
Já as galinhas dormiam

Manolo era o rei do fandango
Do fandaguilho picado
Maria se fores ao baile
Leva o casaco castanho

O rei João era dos tesos
Chamavam-lhe João dos Quintos
Lá na terra brasileira
Vinham quintais de Ouro Preto

Em suma a soma interessava
A quem interessa algum dia
De lingotes e pimentas
Ainda vamos ao fundo

Lá para o reino da Arábia
Havia amêndoas aos centos
Que grande rebaldaria
E a Palestina às escuras

Os Sheikes israelitas
Já que estou com a mão na massa
Lembram-me os Sheikes das fitas
Que dão porrada a quem passa
(Nefretite não tinha papeira - Venham mais cinco- Pág. 242)

Fiquem em boa companhia!

2006/04/20

Quando Nietzsche chorou - Irvin D. Yalom


Há muito que dizer sobre este livro e o seu escritor Irvin D.Yalom, que eu desconhecia em completo. Tentarei ser concisa (coisa que me é difícil) e não estragar futuras leituras...

Começo por dizer que a leitura se torna, eventualmente, mais estimulante para quem já se encontrou com Nietzche e, em algum ponto da sua vida, teve o tempo e a vontade necessários para conhecer o Super-Homem e o Zaratustra. Mas, por outro lado, quem os desconhece ficará, por ventura, com vontade de os procurar.

Adorei a discussão filosófica transversal a todo o livro, que desvenda aos poucos o estranho, cruel e áspero Nietzche "É preciso ter caos e frenesim dentro de si para dar à luz uma estrela dançarina." (Pág.191)
Eu diria mesmo que é este o ponto alto do livro, a dialéctica entre o homem que matou Deus e leva esse peso às costas e o homem comum (que "tem mulher e filho e tralha e tal") com as questões e dúvidas existenciais comuns dos homens de quarenta anos. E essa discussão é feita, magistralmente, mantendo a força dos monólogos intercalados nos diálogos, dando-nos a possibilidade de 'ouvir' cada interveniente sem perder o seu diálogo interior.

Claro que a rota final do livro é uma verdadeira montanha-russa de emoções, mas quanto a mim acaba por pecar um pouco pelo simplismo com que é dada a volta final.

Pareceu-me que a questão da 'descoberta de um tratamento para o desespero através da conversa’ e a participação de um tal aspirante a médico de nome Freud funcionam mais como estandartes publicitários para o romance do que propriamente parte integrante da acção.

A abordagem das relações humanas, como a amizade, o amor e a sexualidade baseadas numa relação de poder dominante/dominado; a solidão e a capacidade de viver em sociedade sem nos deixarmos 'levar ou afogar' por ela são, para mim, as verdadeiras pérolas deste livro.

Fiquem em 'boa companhia'!

Adeus às Armas


Um excelente retrato de duas vidas por trás da primeira guerra mundial. Há quem diga que este livro foi inspirado na própria vida de Hemingway e na sua passagem pela primeira grande guerra, eu pessoalmente acredito que sim, especialmente devido à forte carga de sentimentos transmitida, em especial nas últimas linhas da obra. Confesso que inicialmente achei que a obra era um quanto tanto fraca, achava especialmente que os diálogos iniciais eram fracos e repetitivos, mas à medida que vamos avançando o interesse vai aumentando e compreendemos que os diálogos não são fracos, são apenas aquilo que têm que ser, incisivos e densos.
Devo também dizer que achei estranho o facto de ao ler este livro ir encontrando umas certas semelhanças com outra obra comentada neste blog. Uma obra que gostei bastante, mas que depois de ler o “Adeus às Armas” senti uma certa desilusão, porque me pareceu que José Rodrigues dos Santos mostra um profundo conhecimento da obra de Hemingway, ou pelo menos desta obra de Hemingway
Mas deixo para os nossos leitores a curiosidade e o juízo. Termino dizendo que esta foi a 3ª obra de Hemingway que li e que até agora gostei de todas. Como as anteriores “Adeus às Armas” vale a pena.

2006/04/18

Ish - Peter Reynolds


Bem, esta é a primeira vez que faço companhia às letras (ou será, tenho a companhia das letras?!) e por isso estou um tanto perdida sem saber bem que letras escolher para acompanhar as que por aqui costumam passar...

Assim, escolhi a companhia de um livro que me mostrou que não devemos ter medo de tentar, de avançar, de nos mostrar. Se isto não for bem um Post, será certamente um "quase-post"!


Em espanhol chama-se 'Cuasi', em português seria (caso estivesse traduzido) 'Quase' e é a história de um menino que adora desenhar mas que um dia, provocado pelo gozo do seu irmão mais velho, percebe que não consegue desenhar as coisas como elas realmente são e decide pousar o lápis. Até que a sua irmã mais nova...

É um livro aparentemente infantil (como quase todos os que assim são classificados), mas que leva uma mensagem que toca a todos. Não tem muitas letras, é certo, é óptimo para contar (ou ler) eu diria mesmo que é daquelas histórias - sucesso garantido.

Obrigada pelo convite e fiquem em boa companhia!

2006/04/04

Gaveta das nuvens - José Gomes Ferreira

Leitura muitíssimo agradável, mostra bem a enorme cultura deste autor. É verdade que este livro não é tão fácil quanto a sua ficção. Porém, é aqui que se percebe o quanto não está escrito nas entrelinhas das suas linhas! É assim que se percebe com quantas leituras se faz um escritor! Gostei muito deste livro. O autor está inteirinho lá, e eu gosto muito deste autor.

Harry Potter e o Príncipe Mestiço - J.K.Rowning

É impressão minha ou os Harry Potter estão a melhorar cada vez mais? Que bom haver leituras assim, que não exigem demasiado de nós e das quais nós não exigimos demasiado, mas que até nos prendem e são divertidas!

O Lado Negro da Internet - Ivo Dias de Sousa

O livro lê-se muito bem. A letra é grande, como eu gosto neste tipo de livros, o discurso é muito arrumado, ao que ajudam os esquemas no final de cada capítulo. Tem algumas ideias interessantes, ainda que muitas vezes eleja o óbvio, o senso comum, a discurso quase científico. Não gostei muito dos comentários finais de cada capítulo, não pelo seu conteúdo mas talvez porque já não houvesse muito mais para dizer (nalguns casos talvez nunca tenha havido).

De todo o modo, gostei de ter lido este livro. Ajudou-me a criticar algumas coisas, a ver a evolução histórica de outras, a pensar outras ainda. É particularmente interessante ver que, efectivamente, as maiores "ameaças" da net são também as suas oportunidades mais emergentes.

DOIDÃO - José Mauro de Vasconcelos

Talvez a minha leitura tenha sido afectada por não ter lido o livro de uma penada, apesar de ele ser pequenino. Mas já houve histórias do JMV que me tocaram mais.

Em abono do livro algumas notas: a personagem central é muito bonita, grande, não se contém no espaço nem no tempo da narrativa. Os barcos, a geografia, a falta de laços dão-lhe uma dimensão especial. As temáticas do namoro e da relação com o pai, como sempre, abordadas com uma enorme ternura. Finalmente, notar que este livro não é sentimentalista.

Valeu muito a pena tê-lo lido. Veio confirmar o óbvio: o enorme escritor que é o JMV.

Intensidade - Dean Koontz

Gostei muitíssimo de ler este livro. Recomendo-o vivamente.

Não é um policial, uma vez que não há qualquer mistério a resolver, não se pode dizer que tenha muitas surpresas, porque tudo parece desenrolar-se naturalmente, ligeira excepção aos veados da história, que eram dispensáveis.
Ainda assim a tensão é constante, vibrante, crescente.

Intenso.

Gostei muito, fiquei com vontade de conhecer melhor este autor.

Conselhos do Coração - Dalai Lama

Este livro não me trouxe grandes novidades.

Gostei muito da maneira como está escrito, por ser uma forma simples, divertida, leve de falar com rigor da vida de cada um.
Penso que a Igreja, em especial a Igreja Católica tem muito a aprender com esta forma simples de escrever. É óbvio que não é um texto para iniciados. É um texto dirigido a "leigos e gentios". É um texto muito inteligente.

E = mc2 - A Biografia da Equação mais Famosa do Mundo - David Bodanis

Este livro é excepcional.
Excepcional por ser um livro de ciência acessível a qualquer leigo.
Excepcional por conseguir colocar os cientistas como parte da própria ciência.
Excepcional por fazer parecer trivial, óbvias, as maiores descobertas científicas da humanidade.

Fiquei várias vezes a pensar "mas como é que eles não pensaram nisto antes"?

Fiquei no entanto com algumas dúvidas e curiosidades. Mas sei que as limitações são minhas. Para ir além disto, eu teria de ter outros conhecimentos, muitos mais conhecimentos.

Por exemplo, a questão da velocidade: ainda não percebi muito bem porque é que temos este limite de velocidade: a da luz.
Por exemplo, a transformação da energia em massa, parece muito para além daquilo que efectivamente consigo imaginar. (Curiosamente o contrário, a transformação da massa em energia, já me é relativamente fácil de aceitar)
Por exemplo, os efeitos da velocidade sobre os passageiros e os elementos estáticos fora do veículo...

É o costume... quando percebemos um pouco mais temos muito mais perguntas!!!!

Paraíso na Outra Esquina - Mario Vargas Llosa

Este não é um dos livros do MVL de que mais gostei. Está bem escrito, é uma boa recolha, as duas figuras principais são interessantes. Mas... os capítulos tornam-se um pouco repetitivos, a história do Paul Gaugin foi uma completa decepção para mim e falta talvez uma certa unidade à obra. De facto, é difícil encontrar palavras-chave que justifiquem a divisão dos capítulos. A estrutura do livro é muito simples, A-B-A-B-A-B, que depois se divide em A-A' E B-B'-B''. Ou seja Flora - Paul que depois se distingue Flora actual - Flora anterior e Paul actual, Paul anterior, um quadro de Paul.

Foi interessante de ler. Apreciei sobretudo a descrição do trabalho na época de Flora. Gostaria de ter visto as suas histórias um pouco mais entrelaçadas, penso que isso não seria difícil, apoiado em ideias chave para cada binómio A-B.

O travo mais amargo do livro é, sem dúvida a vida do Paul Gaugin. Pintor brilhante, esse tipo era um completo idiota, irresponsável, criminoso. Que pena ter lido o livro, estragou-mo um pouquinho dos quadros.

Origens - Amin Maalouf

Gostei muito deste livro. Deixou-me a pensar nos meus e nas suas histórias, naquelas que eu já deixei perder e nas que ainda posso recuperar.
Gostei também do Médio Oriente que podia ter sido, de que o autor quer falar, ao referir-se ao seu avô.
Tive pena que a história se cingisse a um homem - ou melhor a uma geração. Esperava, pelo início, que o autor tivesse ido além, procurasse outras gerações, deixasse um retrato de família mais completo.
Gostei particularmente da história cubana da família e da sua visita a essa história.

O início fez-me pensar um pouco nas histórias de família que deixamos entregues à erosão da "tradição oral". Restam-me dois avós e é tanto que eu desconheço das minhas origens. Tantas histórias que ouço, ainda hoje pela primeira vez. Tantas que eu ouço e relembro sem que verdadeiramente as conhecesse...! Há que aproveitar as vozes dos vivos enquanto as podemos ouvir. Depois apenas restarão as vozes dos mortos, e nem todos temos uma mala de arquivo familiar escrupulosamente desarrumado!

Pequeno Formato - Eugénio de Andrade

Não, não me encheu as medidas. Não é que eu ache que os poemas tenham que ser grandes. Não têm. Mas é que estes poemas são esboços de algumas ideias que EA desenvolveu com muito maior brilhantismo noutros poemas. Por isso, estes poemas sabem a pouco, falta-lhes qualquer coisa, para se ouvir inteira a voz do poeta. Parecem ecos, breves e ligeiramente distorcidos. Este livro é uma boa demonstração de como é difícil escrever um bom poema, se o confrontarmos com alguns outros poemas de EA.

Vendedor de Passados - José Eduardo Agualusa

Este livro parte de uma proposição muito interessante. As suas personagens são muito cuidadosamente pensadas e a ideia de uma nação sem passado, onde o passado é construído é, de facto curiosa. O final fica áquem do resto do livro, mas apenas porque não consegue atingir a excelencia. O melhor que eu li do Agualusa, sem dúvida.

Deus das Formigas Deus das Estrelas - Remy Chauvin

Agradabilíssima leitura! Um livro de divulgação científica interessantíssimo, recheado de pequenas maravilhas do nosso mundo.
Muito interessante a sua forma de chegar a Deus.
Embora nunca o tenha lido completamente, este livro fez-me lembrar o Universo Inteligente, de Fred Hoyle. Será certamente uma das minhas leituras seguintes, e fica desde já disponível (logo que eu o encontre) para quem queira completar este livro com aquele Universo Inteligente.

Vinho Mágico - Joanne Harris

A ideia é engraçada, o desenvolvimento é mediano... porque será que fiquei sempre, durante todo o livro com a sensação de que faltava qualquer coisa, uma leve sensação de que aquela ideia não era nova e que a forma como era recontada (ou requentada?) não demonstrava qualquer brilhantismo? De todo o modo, não posso dizer que tenha sido uma perda de tempo... soube a pouco, só isso. Não posso dizer que me desiludiu, porque não estava à espera de muito mais.

Historia dos Açores - Visão Geral (secs xv a xix) - Luís Mendonça

Uma visão geral, como o próprio autor indica, pouco aprofundada e por vezes algo tendenciosa.

Ajudou-me a fazer um apanhado geral da história dos Açores, mas não é um livro que eu possa recomendar. Demasiado miserabilista, fica-se sempre com a ideia de que os Açores se desenvolveram apesar da sua classe dirigente e contra ela - o que me parece um disparate completo.

Uma Cana de Pesca para o meu Avô - Gao Xingjian

Gostei deste livro, embora de forma desigual. O livro é constituído por contos, os quais apresentam técnicas de escrita muito desiguais. Em especial gostei do Acidente e também (menos) da Caimbra. Alguns são ainda muito difíceis para mim (Instantâneos).

Na Noite do Ventre, o Diamante - Moacir Sclair

Que agradável surpresa! O escritor é novo para mim. Gostei muito da forma como a narrativa se vai desenvolvendo, das histórias por trás da história. Fiquei a saber uma série de curiosidades, como por exemplo a profissão de Spinosa ou a origem da palávra Túlipa.

Não gostei particularmente do fim, embora admita que não deixa de ser um final curioso.

Gostei muito, também, da ideia da editora: um livro para cada dedo da mão. Gostava de ler os restantes dedos, confesso.

Crimes exemplares - Max Aub

Não gosto da Antígona. São raros os livros desta editora que eu possa dizer que me interessem.
Este livro, confirmando inteiramente a regra, não deixa porém de ser a excepção. A descrição crua de diversos crimes, agresssões, homicídios, confere-lhe características de agressividade muito forte, de uma forma absolutamente gratuita.
Porém há que dizer duas coisas em seu favor: em primeiro lugar, que este livro é um documento interessante, que nos mostra o quanto a vida é efémera (e todos aschamos de uma forma ou de outra que ela dura a eternidade dos nossos dias). Em segundo lugar, que a escrita que os testemunhos são muito intensos. Breves trechos muito impressivos - ou não fosse o facto de cada um deles significar um homicídio. Impressionam sobretudo aqueles relatos em que claramente não houve premeditação. Houve alguém que teve um "momentary lapse of reason".

O pior é termos a sensação que podia acontecer a todos, estar de qualquer dos lados: dos que morrem e dos que matam.

Uma história suja - Luís Sepúlveda

Em primeiro lugar, este livro não é o que parece: publicados ou não, estes textos têm estruturas de crónicas, estão marcados pelo contexto cronológico em que foram feitos e têm destinatários directos, ainda que indeterminados. Isto para mim foi uma primeira nota de desencanto: esperava um livro heterogéneo, com apontamentos diversos, pensamentos, contos, esboços, aquilo que a contracapa promete. Na realidade encontro um apanhado de crónicas, cuja estrutura é , em grande parte muito semelhante, cujas imagens são em grande parte muito semelhantes, até as piadas e as comparações se repetem.

Diz a contracapa que "LS não é um escritor neutro". Obviamente tem razão.

Independentemente de se concordar ou não com algumas das referências, críticas e opiniões do autor, fica claro que essas críticas são feitas com apelo à paixão muito mais do que à razão, ao sentimento muito mais do que ao argumento, ao fait divers muito mais do que ao facto.

LS não é um escritor neutro e as suas opiniões perdem força por causa disso. E não mereciam, muitas delas não mereciam perder força pela falta de lucidez, pela parcialidade com que estão formuladas.

Gostei particularmente das crónicas "Desculpe, D. Miguel", "As palavras e a razão" "O enigma das percentagens e dos pontos" e "Acerca da Luz"

Diário - Sebastião da Gama

Gostei muito de ler este livro. Sebastião da Gma era claramente uma pessoa especial, diferente. A forma como organizava as suas aulas faria com que os seus alunos se interessassem mais, dessem mais de si.Tenho dúvidas se algumas das suas estratégias, dos seus apelos, funcionariam com os miúdos de hoje. Penso que havia alguns conceitos sub-entendidos à relação professor-aluno, à forma como os alunos entendiam a escola, que se poderam ter degradado entretanto.

De todo o modo, penso que há muito de bom a retirar deste livro. Para falar a verdade, gostei tanto dele que quero que um dia destes faça parte da minha biblioteca pessoal.

O país do Carnaval*Cacau*Suor

Este livro recolhe alguns dos primeiros contos de Jorge Amado. Excelente exemplo de uma escrita marcada pelo neo-realismo quase panfletário, não deixa por isso de ser um livro muitíssimo interessante na forma como revela um construtor de personagens excelentes. Gostei em particular de Suor, pelas suas múltiplas personagens, a quem o autor não chega por vezes a dedicar uma página. É impressionante como, ainda assim, as mostra vivas, complexas, interessantes. Grande escritor, este Jorge Amado, num livro que não é tão grande como ele.

A descrição de uma luta - Franz Kafka

Eu gosto muito deste autor, mas não posso dizer que este livro me tenha enchido as medidas. Em minha opinião, este é daqueles livros que nunca deveria ter sido publicado, porque não estava pronto para isso. Mais: a sê-lo, deveria sempre ser acompanhado de um ensaio crítico que ajudasse à leitura do mesmo. É demasiado denso, com muitas pontas perdidas. Deixo uma palavra-chave, que me acompanhou, de forma imperfeita, ao longo do livro: sexualidade.

Gostava sinceramente de poder ler comentários de quem já o tenha lido.

Jaime Bunda, Agente Secreto - Pepetela

Livro bem-disposto e engraçado, faz um retrato muito interessante da sociedade angolana.

Não se pode dizer que o policial seja muito interessante, mas afinal, ele é só um pretexto.
Depois seguem-se dois registos, mais profundos, por esta ordem.

A paródia aos policiais encarnada - e bastante encarnada - em Jaime Bunda, o anti-herói.

A sociedade angolana, a viver em paralelo a ela própria , o Roque Santeiro, o mercado a sério, paralelo aos mercados oficiais, menos sériosm concerteza.

Gostei muito. O Pepetela já me vai habituando a isso.

2006/01/16

Terapia - David Lodge

Há várias razões pelas quais os livros me interessam: uma boa história, uma boa escrita, boa pesquisa histórica, boa mensagem.

Em David Lodge há uma razão fundamental pela qual eu o leio: o excelente humor, inteligente, tenso, denso, profundo com que ele escreve.

Além disto os livros dele juntam algo que vai sendo cada vez mais extraordinário nos tempos que correm: uma excelente cultura, com particular referência à literatura inglesa.

Neste livro ele demonstra um pouco de tudo isto. E muito mais.

O início do livro é de tal forma enfadonho (embora divertido) que estive quase a deixá-lo a meio. Precisamente no momento em que me preparava para dizer "não aguento mais" o livro faz uma enorme viragem (no final da primeira parte) e eu percebo finalmente um artifício, uma figura de estilo que até hoje desconhecia na literatura: a de escrever de tal forma que se induza no leitor o estado de alma que permita compreender o enredo.

Daí por diante o livro ganha asas: tudo o que se passa de seguida é alucinantemente interessante, e vários dias atrasámo o pequeno-almoço até aos limites do razoável para poder terminá-lo.

Brilhante.

2006/01/11

A Desgraça - J.M. Coetzee

Todos os desiquilíbrios n'A Desgraça são contidos. Tudo na sua proporção, peso e medida para não ficar grotesco ou lamechas. E no entanto mantém sempre o mesmo tom ácido, desafiante, rufia (ia dizer: que caracteriza a personagem principal, mas não é verdade - caracteriza todas as personagens, todo o livro).

Lê-se de uma penada, com gosto, com vontade de chegar ao fim. Mas o fim tem precisamente este toque ácido que acompanha todo o livro. Não se sente que desenvolva. Como se David fosse o único ponto estático.

É um livro estranho: queria que não fosse assim, mas percebo que este era, talvez o único caminho que não o desvirtuasse, que não traísse David na sua miséria autoinfligida.

A temática do morto/matado é, sem dúvida, central a este texto.

Talvez fizesse sentido falar também de castigo-perdão-misericórdia. Os castigos autoinflingidos. A forma como o perdão permite seguir em frente apesar das desgraças, construir sobre os escombros. Não falo da misericórdia. Desvendaria demasiado para quem não tenha lido. Digo só que me parece uma palavra chave deste livro, posta em sistema com as outras duas.

Ficou aquém do que eu esperava quanto ao retrato da África do Sul. Foi muto além como escritor. Que força nas personagens!

Excelente livro.

2006/01/04

A arte da guerra - Sun Tzu

Li em e-book e em inglês, sistema MReader. Gostei do sistema, porque permite ouvir o livro e acompanhá-lo no texto. Isto torna a leitura mais rápida, embora se aplique sobretudo a livros não literários, já que nos outros há que ter em atenção as pausas, as entoações, que a voz monocórdica do MR não permite. Gostei deste sistema, para livros técnicos.
A arte da guerra é um livro interessante. O problema é tentar-se extrapolar dele demasiado. É um livro de instrução militar. Qualquer extrapolação é mera coincidência ou, em alguns casos, a afloração de uma regra de prudência mais lata.
Faz lembrar o Príncipe do Maquiavel.

"Viena" e "Amsterdão" - Guias American Express

A propósito da viagem a Viena e Amsterdão duas excelentes referências no apoio a essa viagem. Os guias da AE são, como sempre, óptimos. Sobretudo quando se vai com poucos dias, eles permitem-nos dividir as cidades em partes, planear cada dia e aproveitar ao máximo os pormenores.
Porém, pela primeira vez notei algumas falhas: edifícios interessantes que não estão assinalados, percursos de eléctrico que não estão descritos e deviam estar. Estes guias (em particular o de Viena) merecia ser revisto.

A árvore dos tesouros - Henri Gougaud

Livro de contos de todo o mundo. A recolha é interessante e a leitura é fácil. Fica por fazer a leitura global da obra ou dos critérios que a ela presidiram: procurou-se a unidade dos temas? a sua diversidade? a representação de uma (de cada) particular visão do mundo?
A julgar pelas zonas do globo que conheço melhor, nada disto. E nada mais. Por isso, é um punhado de gãos de areia por sedimentar: não fazem uma praia, porque são apenas uma ínfima parte da praia, não fazem uma pedra por não terem unidade. E depois do vento da memória, o que fica?

História Secreta de uma Novela - Mário Vargas Llosa (BM)

Trata-se de uma pequena comunicação, revista para publicação, onde o autor descreve as imagens chave da sua novela A Casa Verde. O interesse é obviamente maior para aqueles que leram aquela novela (como é o meu caso) e de preferência que a leram há pouco tempo e por isso têm um memória freca das suas impressões (o que não é o meu caso).
Leitura muito agradável (e curta).

2005/11/23

Nenhum Olhar - José Luís Peixoto

Uma escrita finamente urdida, escolhida palavra a palavra. As imagens são impressivas, nem sempre bonitas, nem sempre alegres, mas sempre fortes. Isto é o que podemos dizer de bom sobre o livro. Tudo o resto é a história de uma oportunidade perdida: personagens que se perdem em embrião, uma péssima utilização de diferentes narradores, cuja identidade nos é dada pela sua posição na história e não por uma diferente forma de expressão.

Uma escrita triste, uma história triste, uma opção pela tristeza, falando sempre do que corre mal mais do que do que corre bem, enfatizando os problemas, os dramas, a tristeza. É um livro deprimido.

A capa é muito bem escolhida (dá gosto passear um livro com uma capa tão bonita) e curiosamente a escrita de JLP tem afinidades claras com a pintura de Paula Rego no que ambas têm de cuidado, de força e de tristeza, de uma tristeza intencional, irremível, irreal.

Não, não gostei, sobretudo porque podia ter gostado muito.

2005/11/14

Memorias de Mis Putas Tristes

Sinceramente, não gostei. Não gostei do tema, não gostei do branqueamento de comportamentos pedófilos, não gostei da escrita, não gostei das personagens, não gostei da história (será que a tem?)
Ficamos sempre à espera de um momento de rasgo, de uma centelha de génio. Nada. Começo a duvidar que o Cem Anos de Solidão tenha sido escrito por Garcia Marquez.

2005/10/31


Verão Perigoso

Desde criança que gosto de tourada e talvez por essa razão Verão Perigoso tenha sido o primeiro livro de Ernest Hemingway que eu li. Um bom ensaio, em que Hemingway descreve a Espanha da década de 50 e em particular as touradas. A razão de ser deste livro explica-se pelo convite feito pela conceituada revista Life para Hemingway fazer a cobertura do confronto entre António Ordóñes e Luís Miguel Dominguin, dois dos maiores toureiros de todos os tempos, que se iriam defrontar no Verão de 53. Um pequeno aparte para referir que este foi o derradeiro livro de Hemingway.
A forma como está escrito, com excelentes descrições, como convém a qualquer ensaio, faz com que o leitor possa “sentir” a Espanha de 50 e o fervor que Hemingway sentia pelas touradas. Para quem gosta de tourada ou para quem gosta do ambiente mediterrânico, dois factores pelos quais eu sinto um encanto muito particular, este é certamente um livro a não perder.

De Profundis, Valsa Lenta

Ensaio publicado em 1997, De Profundis, Valsa Lenta é um livro muito particular escrito por José Cardoso Pires. Muito particular porque foi escrito depois de José Cardoso Pires ter recuperado de um acidente vascular cerebral. Talvez a única obra, é definitivamente a única que eu li, em que a pessoa que sobreviveu a um AVC decidiu escrever sobre esta experiência que deve ser certamente angustiante e dolorosa. Desde que li este livro que o considerei como um dos melhores ensaios que já li, tanto pela forma como está escrito, de uma forma sóbria que demonstra que o génio de José Cardoso Pires não saiu afectado, como pelo tema em questão e a vontade de descrever algo a que poucos sobrevivem. Mas para além do que eu posso dizer deste livro, penso que os dois prémios que a obra recebeu, o “Prémio D. Dinis” e o “ Prémio da Critica” atribuído pela Associação Internacional de Críticos Literários, demonstram a qualidade deste livro.

2005/10/10

Bookcrossing

A ideia do bookcrossing é a partilha dos nossos livros e de experiências sobre os livros. Como é que isto se faz é demasiado longo para explicar mas para quem gosta de livros (e se não gosta está no blog errado) fica esta indicação. Boas leituras!

Já agora fica a indicação de um site explicativo em português

Fantasia para dois coronéis e uma piscina - Mário de Carvalho

Livro verdadeiramente delicioso, com um humor subtilíssimo. As personagens são fabulosamente construídas e as situações muitíssimo bem narradas. Pequeninos pedaços das nossas realidades e das nossas histórias. Só para dar um exemplo: casar um dos capitães de Abril com uma latifundiária alentejana é muito mais do que verosímil: é um retrato de época.

Vale muito a pena.

2005/09/10

Fernão Capelo Gaivota


“… tu tens a liberdade de ser tu próprio, o teu verdadeiro eu, aqui e agora; nada se pode interpor no teu caminho…”

Um pequeno grande livro é o mínimo que se pode dizer de “Fernão Capelo Gaivota” de Richard Bach. É a história de uma gaivota que decidiu aprender a voar, não se limitando a viver para comer, mas a voar para alargar o seu conhecimento. Excluída por ser considerada diferente e por ir contra as regras estabelecidas, Fernão Capelo Gaivota viaja e alarga os seus horizontes. Um dia percebe que mais gaivotas gostavam de aprender a voar e por isso ensina-as os segredos do voo, até que consegue fazer com que todas aprendam e que continuem a evoluir.
O voo que Fernão Capelo Gaivota queria é o inconformismo com as regras pré estabelecidas que nos limitam o conhecimento e a vontade de querer saber sempre mais, algo natural em todos os Homens, mas que devido a várias barreiras em que a principal é o auto-conformismo, acabam por matar essa condição natural. Este pequeno conto de Richard Bach tem a intenção de fazer perceber as pessoas que este conformismo não é natural e que deve ser abandonado. Os Homens devem usar as "asas" que Deus lhes deu para voar, voar até onde a imaginação alcança, até ao infinito!

2005/09/01

Baudolino

Baudolino é mais um magnifico livro de Umberto Eco. Um livro como outros deste autor, em que as descrições sobre a vida real da Idade Média são simplesmente brilhantes. Onde os acontecimentos reais estão presentes ao lado da fantasia.
O fio condutor deste livro é a história e as aventuras de Baudolino, um plebeu com uma imaginação prodigiosa, nascido na Franscheta, e que por ironia irá integrar a corte do Sacro-Império como filho adoptivo do Imperador Frederico, o Barba Roxa.
Durante as aventuras de Baudolino e os seus amigos podemos contemplar a História real das lutas entre Frederico e o Papa, as cruzadas, a tomada de Constantinopla e etc…. Podemos também saborear as mitologias da época que culminam com a busca do Reino do Prestes João.
Um livro que qualquer pessoa que goste da Idade Media ou simplesmente de uma boa história deve ler.

2005/08/18

Da Carta de Taizé 2005 III

"No Evangelho, podemos descobrir esta realidade surpreendente: Deus não provoca nem medo nem inquietação, Deus só pode amar-nos.

Pela presença do seu Espírito Santo, Deus vem transfigurar os nossos corações.

E através de uma oração muito simples, podemos pressentir que nunca estamos sós: o Espírito Santo é em nós o amparo de uma comunhão com Deus, não apenas por um instante, mas até à vida que não tem fim."

Irmão Roger de Taizé

Da Carta de Taizé 2005 II

"É verdade que ao longo da história, os cristãos conheceram múltiplos abalos: surgiram separações entre os que, afinal, se referiam ao mesmo Deus de amor.

Restabelecer a comunhão é hoje urgente, não se pode adiar permanentemente até ao fim dos tempos.15 Será que fazemos tudo para que os cristãos despertem para o espírito de comunhão?16

Há cristãos que, sem mais demoras, vivem já em comunhão uns com os outros onde quer que estejam, muito humildemente, de forma muito simples.17

Através da sua própria vida, desejam tornar Cristo presente a muitos outros. Sabem que a Igreja não existe para ela própria mas para o mundo, para depositar nele um fermento de paz."

Irmão Roger de Taizé

Da Carta de Taizé 2005 I

"Vivemos num período em que muitos se interrogam: o que é a fé? A fé é uma confiança muito simples em Deus, um indispensável impulso de confiança, permanentemente retomado ao longo da vida.
Em cada um de nós, pode haver dúvidas. Elas não têm nada de inquietante. Queremos sobretudo ouvir Cristo murmurar nos nossos corações: «Tens hesitações? Não te inquietes, pois o Espírito Santo permanece em ti.»
Há quem tenha feito esta descoberta surpreendente: o amor de Deus pode também desabrochar num coração marcado pela dúvida."

Irmão Roger de Taizé

2005/08/16

Irmão Roger de Taizé


Não são só os responsáveis dos povos que constroem o
futuro.O mais humilde dos humildes pode contribuir para a
construção de um futuro de paz e de confiança.
Por muito poucos meios que tenhamos, Deus concede-
nos levar reconciliação aonde há oposições e esperança
aonde há inquietação. Convida-nos a tornarmos acessível,
através da nossa vida, a sua própria compaixão pelo ser
humano.
Se houver jovens que se tornem, através da sua própria
vida, artesãos de paz, haverá luz à sua volta.

Irmão Roger de Taizé, da Carta de Taizé 2004

Por ocasião da sua morte, recordo a confiança e a paz do seu sorriso, a força da sua oração, a simpatia da sua presença.

Para conhecer a Comunidade de Taizé

2005/08/14

Recordar Aljubarrota

"Olha: por seu conselho e ousadia
De Deus guiada só, e de santa estrela,
Só pode o que impossível parecia:
Vencer o povo ingente de Castela.
Vês, por indústria, esforço e valentia,
Outro estrago e vitória clara e bela,
Na gente, assim feroz como infinita,
Que entre o Tarteso e Goadiana habita?” (Os Lusíadas, Canto VIII)


Apenas para recordar o 14 de Agosto de 1385.

2005/08/11

Com a cabeça na Lua

Um site muito curioso, sobre o nosso satélite natural

Garfield

Entre o trabalho, a família e os amigos, Agosto não tem deixado muito tempo para letras.
Só fica tempo para as coisas instantâneas, como o Garfield, editado agora a acompanhar um jornal.

Fica uma tira, para abrir o apetite.

2005/08/02


“A Filha do Capitão”

Este é o título da última obra de José Rodrigues dos Santos. Um livro que nos conta o romance entre um Capitão do CEP e uma Belga. As descrições do percurso de cada uma destas personagens até ao seu encontro durante a Primeira Grande Guerra são excelentes. Durante a leitura torna-se evidente que o autor fez bastante trabalho de pesquisa, pois descrever a vida nas trincheiras não é fácil, tal como não é fácil descrever detalhadamente a vida rural de Portugal do séc. XIX.
Concluo dizendo apenas que este é um excelente livro que vale a pena ler.

António Manuel P. Silvério Guimarães

2005/08/01

Tanta mãos, a mesma Primavera

Este título pertence a um conjunto de poesia inédita (chamo-lhe assim porque os próprios editores reconhecem que não é uma colectânea de poemas nem uma antologia de autores) tão má, mas tão má que a torna caricatural. É verdade que os editores se despojam de pretensões mas o facto é que, para algumas editoras, a edição é já uma afirmação de pretensão. Significa uma escolha. Significa que aquele livro é suficientemente bom para receber a chancela daquela editora. Nada disto se passa na Oficina do Livro, que publica livros como se fossem revistas, para serem vendidos ao lado de revistas e para se consumirem como revistas. Aproveitam-se dois ou três poemas. Escolhi este, que me parece destoar completamente dos restantes, pela sua qualidade.


A sombra da mão

Rasguei tantos papéis
Tantos lumes
Só para o poema ser luz
E nele ver
A sombra da minha mão.

Izidro Alves

2005/07/29

Madre Teresa de Calcutá III - Aborto

"O mundo que Deus nos deu é mais do que suficiente, segundo os cientistas e pesquisadores, para todos; existe riqueza mais que de sobra para todos. Só é questão de reparti-la bem, sem egoísmo. O aborto pode ser combatido mediante a adoção. Quem não quiser as crianças que vão nascer, que as dê a mim. Não rejeitarei uma só delas. Encontrarei uns pais para elas. Ninguém tem o direito de matar um ser humano que vai nascer: nem o pai, nem a mãe, nem o Estado, nem o médico. Ninguém. Nunca, jamais, em nenhum caso. Se todo o dinheiro que se gasta para matar fosse gasto em fazer que as pessoas vivessem, todos os seres humanos vivos e os que vêm ao mundo viveriam muito bem e muito felizes. Um país que permite o aborto é um país muito pobre, porque tem medo de uma criança, e o medo é sempre uma grande pobreza."

Renovo este voto, em meu nome e da minha família: Quem não quiser as crianças que vão nascer, que as dê a mim. Não rejeitarei uma só delas.

Madre Teresa de Calcutá II - Família

"Na família ama-se como Deus ama: é um amor de partilha. Na família experimenta-se a alegria de amar e de se amar uns aos outros. Na família experimenta-se a alegria de amar e de se amar uns aos outros. Na família deve-se aprender a rezar em conjunto. O fruto da oração é a fé, o fruto da fé é o amor, o fruto do amor é o serviço e o fruto do serviço é a paz."
Madre Teresa de Calcutá

2005/07/20

Madre Teresa de Calcutá

Estou a ler um livro que, mais que uma biografia, é uma recolha de apontamentos dispersos, pensamentos, orações da Madre Teresa. Muito interessante, fácil de ler, nada aborrecido.
Recomendo vivamente.

Quem mexeu no meu queijo? - Dr. Spencer Jonhson

Resisiti durante muito tempo a esta livro. Odeio, por norma, livro que são vendidos como pipocas: normalmente enchem muito mas não alimentam.
Tenho que dar o braço a torcer. O livro é simples e prático, e acredito que pode ajudar a olhar para a vida de outra maneira. Não contém verdades absolutas, não vai revolucionar nada, levá-lo ao extremo seria obviamente um exagero, mas pode ser uma boa ajuda para rever a nossa vida e as nossas atitudes.
Vale a pena ler.

2005/07/06

Pouco tempo para letras.

Apesar dos dias maiores, muitas coisas para fazer, o dia termina lentamente mas falta sempre mais uma hora. Tenho lido a colecção do Público "Os Poemas da Minha Vida" embora me concentre não tenha interesse em todas as personalidades convidadas a publicar a sua antologia. Não deixa de ser curioso ver até que ponto determinados poemas se adaptam a cada um dos percursos e carácteres em causa.
Além disto, um livro de pequeno contos, para preparar o sono "A árvore dos tesouros", uma recolha de lendas e contos do mundo inteiro. Alguns são interessantes, outros nem por isso.
Li entretanto o "Outono do Patriarca", do Gabriel Garcia Marquez, pequena novela da qual não gostei. Das várias coisas que li dele apenas sobressai um livro, sendo que esse é monumental. Falo, naturalmente, dos "Cem anos de Solidão".

2005/06/14

O ponto final de Eugénio de Andrade

Amanhã será dia de luto nacional pelo enterro de um político. Hoje é o enterro de um grande poeta português. Foi decretado dia de cinzento nacional.

Ficam as amoras, o fruto mais bravio, que não pede licença à terra.

As Amoras

O meu país sabe às amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul

Eugénio de Andrade