2010/12/02

A Viagem do Elefante - José Saramago

Terminada a leitura deste livro, fiquei com a ideia de que estava à espera de algo diferente. De facto, foi um livro que não me surpreendeu tanto como eu gostaria que me surpreendesse. A história tem tanto potencial...

Não é que Saramago não a saiba aproveitar. No entanto, aqui como em quase todos os seus romances (à excepção de 3 ou, quanto muito, 4) o autor perde-se na narração e à medida que nos vamos aproximando do fim da história, fica a sensação de que perdeu demasiado tempo com prolixidades desnecessárias para depois acabar tudo atabalhoadamente. Saramago deixa-nos com aquela vaga sensação de que estivemos quase a chegar ao patamar do sublime, mas que, por falta de gasolina, ficámos a meio caminho.

Não quero ser injusto e dizer que este livro não vale a pena ser lido. Antes pelo contrário, é até um dos melhores que dele li nos últimos tempos. De facto, há sempre umas quantas passagens que são muito interessantes (veja-se as perspicazes observações da personagem Subhro), e ninguém como Saramago para narrar acontecimentos como se os tivesse presenciado, mas com os olhos do presente, não sem deixar cair aqui e ali umas pitadinhas, qual sal e pimenta nos seus romances, dos seus tão característicos sarcasmo e ironia. Ah, neste sentido não podemos deixar de acrescentar o engraçado que é ver Saramago atirar umas quantas farpas à Igreja Católica. Que zangado que ele andava com ela para o fim da vida...

Enfim, um bom livro, mas não um livro memorável.

7 estrelas

2010/05/21

O Mundo de Sofia - Jostein Gaarder

E as minhas expectativas não saíram frustradas! De Jostein Gaarder já li A Rapariga das Laranjas, mas sinceramente o autor norueguês não me convenceu com ele. No entanto, com O Mundo de Sofia consegui perceber por que se tornou tão famoso este escritor.

A primeira vez que ouvi falar deste livro foi por altura do 10º ano, quando a minha professora de Introdução à Filosofia nos deu excertos dos primeiros capítulos, acerca do que faz um verdadeiro filósofo. Foi essa lembrança que me fez ter sempre uma imensa curiosidade em lê-lo. E agora que já está lido, posso dizer que gostei bastante desta viagem pela História da Filosofia Ocidental, desde os filósofos pré-socráticos, até aos existencialistas de meados do século XX.

(se não gostarem de spoilers, evitem ler o próximo parágrafo)

Porém... Devo dizer que fiquei um pouco surpreendido com a reviravolta a meio da narrativa, quando ficamos a saber que tudo brota da mente de um soldado das forças de paz estacionadas no Líbano em 1990. Mais estranho seria difícil e para se ter a noção de quão estranho é, só mesmo lendo o livro! Claro que compreendo que essa opção surja no preciso momento em que se fala de Berkeley, tendo como objectivo fazer-nos (a nós, os leitores) pensar sobre o mundo que nos rodeia (será isto tudo real?), mas torna a história esquisita, além de não estar em concordância com o seu início (por que é que só a meio é que a Sofia começa a ver personagens estranhas, e não logo desde o início?). Também não gostei especialmente do final, com Alberto e Sofia a vaguear por aí, pois não me pareceu uma conclusão satisfatória para as personagens.

(fim dos spoilers)

Mas uma coisa é certa: adorei esta súmula da Filosofia Ocidental, enquadrada historicamente, transmitida de uma forma claríssima. Senti que faltaram alguns filósofos que, mesmo não sendo importantíssimos, ajudariam a estabelecer e compreender melhor as matrizes por que se pauta a nossa cultura, nomeadamente no que ao plano político diz respeito (Maquiavel, Hobbes, Nietzsche). Por outro lado, pareceu-me estranha a inclusão de Charles Darwin e de Freud num curso de Filosofia, apesar de perceber que eles lá estão, assim como o capítulo final, o do Big Bang, para relativizar a nossa importância e a nossa concepção do ser humano no universo.Enfim, quanto ao conteúdo, acho que muito se pode extrair deste livro e é por isso que acho que vale muito a pena lê-lo.

8 estrelas

2010/04/14

Os Anagramas de Varsóvia

É certo que as temáticas de Zimler parecem ser sempre as mesmas, mas tenho de confessar que continuo a gostar muito deste autor. Além disso, as épocas e os locais são sempre diferentes e isso permite-nos distanciarmo-nos de eventuais repetições. E uma história empolgante e emocionante como esta é sempre um bom motivo para ler um livro. No entanto, o meu preferido continua a ser Goa ou o Guardião da Aurora.

2010/01/27

A Viagem do Elefante - José Saramago

O título do livro é elucidativo: conta-nos a viagem que o elefante Salomão faz de Lisboa até Viena, acompanhado pelo seu cornaca.

Gostei sobretudo daquilo de que gosto sempre em Saramago: o constante interpelar do leitor e a provocação. Agradou-me ainda a história de amizade entre o elefante e subhro e a caracterização indirecta de Salomão que o torna muito próximo de um ser humano.

No entanto, ao contrário dos últimos romances que li deste autor, este não é um livro que nos deixe ansiosos por saber o final. Em vez disso, permite-nos ler devagar, sem pressa de chegar ao fim da viagem (a deles e a nossa).

2009/10/05

A Mulher do Viajante no Tempo - Audrey Niffenegger

Este título sempre me despertou alguma curiosidade cada vez que me deparava com ele, mas a verdade é que nunca me senti impelido a lê-lo... Até há 2 semanas atrás, quando vi o trailer para o filme, que deve estar por aí a estrear mais dia menos dia (acho que nos EUA já estreou) e ficar completamente confuso com aquilo tudo de ele estar casado com a mulher, mas desaparecer de vez em quando, deixando-a sozinha.

Ora bem, na semana passada fui à biblioteca e, ao fazer a pesquisa na base de dados, vi que existia lá o livro. Não resisti a trazê-lo comigo. E não é que o despachei duma assentada? Apesar de ser um livro com 400 e tal páginas, entusiasmou-me aquela ideia de Henry (a personagem principal e que viaja no tempo) viver a vida desordenadamente. Apesar de não ter percebido uma ou outra passagem do livro, tudo faz sentido! Tenho de tirar o chapéu a esta Audrey Niffenengger, porque ela realmente conseguiu ter uma ideia fantástica (a de um homem a viajar no tempo, ao encontro daquela que virá a ser a sua mulher no futuro dela, mas no presente dele) e, acima de tudo, por ter conseguido transmiti-la da melhor forma possível.

Claro que se trata de uma história romanticazeca a puxar para o melodramático lá mais para o fim (e isso vai ser enfatizado - infelizmente - no filme, com quase toda a certeza). Mas o resto está bastante interessante e podemos tirar bastante sumo destas quase-filosóficas considerações sobre as relações humanas (o amor, especificamente) inserido (ou não) no tempo cronológico.

Não sou de gostar deste tipo de romances, mas tenho de admitir que a autora me conseguiu "seduzir".

8 estrelas

2009/08/01

Contos de Beedle o Bardo - J.K. Rowling

Um livro para crianças nascido muito provavelmente graças ao último livro da série Harry Potter (uma espécie de spin off literária), no qual se fazem referências a uns contos populares infantis do mundo dos feiticeiros, nomeadamente "O Conto dos Três Irmãos", o qual tem consequências para a narrativa do livro em questão.

O que mais me agradou neste livro não foram tanto as histórias, mas sim o humor (aqui veiculado pelas notas do Professor Albus Dumbledore) a que Rowling já nos habituou na série do Harry Potter. É engraçado e lê-se num instantinho (uma hora, se tanto). Um livro que não exige muito de nós, mas que nos deixa com a sensação de saciedade por mais histórias relacionadas com o mundo mágico criado pela autora.

7 estrelas

2009/07/29

Se Isto é um Homem - Primo Levi

Relato de um italiano judeu, preso num campo de concentração perto de Auschwitz. É um retrato cru, directo e, ao mesmo tempo, simples da vida de um homem que viveu aquele horror e teve a sorte de sobreviver. Para além de descrever as atrocidades vividas/presenciadas, consegue descrever as coisas simples, as pequenas vitórias e as histórias dos que se cruzaram no seu caminho.

Esta época da História mundiasl é das que mais me horroriza e atemoriza. E, por mais filmes que veja e por mais livros que leia acerca deste tema, nunca hei-de conseguir compreender tamanha crueldade.

"Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem."

2009/07/23

O Diário de Zlata - Zlata Filipović

No geral, gostei bastante deste livro. Já tinha ouvido falar dele (quem não terá ouvido?) e tinha algum interesse em lê-lo. Acabei por ficar foi bastante surpreendido com esta "personagem" que é a Zlata Filipović, que realmente existiu e que de facto escreveu um diário que acabou por se tornar num dos mais importantes documentos da Guerra que arrasou a ex-Jugoslávia. É incrível vermos nestas páginas que uma criança de apenas 11-12 anos tinha um discernimento tão grande sobre o que a rodeava:

"Quinta-Feira, 19 de Novembro de 1992
(...) Entre os meus colegas, os meus amigos, a nossa família, há sérvios, croatas, muçulmanos. É um grupo muito misturado, e eu nunca soube quem era sérvio, quem era croata, quem era muçulmano. Agora, a política meteu o nariz e pôs um «S» nos sérvios, um «M» nos muçulmanos e um «C» nos croatas. Quer separá-los. E para escrever essas letras, usou o pior, o mais negro dos lápis. O lápis da guerra, que só escreve infelicidade e morte."

Para mim foi ainda mais interessante ler este livro, pois eu próprio, em 2007 (mais de 10 anos depois da guerra!), tive oportunidade de visitar Sarajevo e ver com os meus próprios olhos a destruição que uma guerra originada pela mesma razão estúpida de sempre (o nacionalismo, sempre o nacionalismo) provocou, levando a que inocentes sofressem desnecessariamente.

"Segunda-Feira, 29 de Junho de 1992 Dear Mimmy, ESTOU FARTA DOS TIROS DOS CANHÕES! E DOS OBUSES! E DOS MORTOS! E DO DESESPERO! E DA FOME! E DA TRISTEZA! E DO MEDO! A minha vida é isto! Não se pode criticar uma estudante inocente, de 11 anos, por querer viver. Uma estudante que já não vai à escola, que não tem alegria, que não tem as emoções dos estudantes. Uma criança que já não brinca, que não tem amigos, nem sol, nem pássaros, nem natureza, nem frutos, nem chocolates, nem bombons, só um bocadinho de leite em pó. Em resumo, uma criança que não tem infância, uma criança da guerra. Agora é que de facto compreendo que estou a viver uma guerra, que sou testemunha de uma guerra suja e repugnante (...)"

Gostei de ler este livro, por ser uma leitura em que é fácil embrenharmo-nos.

7,5 estrelas

2009/07/15

Breve História de Quase Tudo - Bill Bryson

Este livro está para a ciência como o Mundo de Sofia está para a filosofia:
dois excelentes livros que são óptimas obras introdutórias.
A Breve história tem um condão: o de nos fazer desconfiar. De nos ajudar a perceber que o que se sabe em termos de ciência é muito, muito pouco. Perceber que muitas teorias que são intocáveis para a cultura dominante são na realidade intangíveis, por falta de provas que as sustentem.

E é bom que assim seja, é saudável. Sempre que no mundo científico se teve certeza de alguma coisa só com grande esforço se conseguiu avançar, normalmente pela negação completa da crença que se tinha formado.

Confesso que já me cansam um pouco os livros de divulgação científica, porque me parecem cada vez mais parecidos uns com os outros. Cada vez mais dizem a mesma coisa e sempre a mesma coisa como se nada mais houvesse a dizer - se não havia para quê escrevê-lo?
Até os episódios anedóticos são tantas vezes os mesmos!
Por outro lado fazem falta bons livros de ciência que expliquem em linguagem simples o estado da arte nas diversas ciências. Mas era importante que fossem livros com profundidade, porque de outra forma ficamos sempre pela mesma conversa, não sentimos que adiante alguma coisa.
Este livro, fugindo àquele primeiro exemplo de livro repetitivo, também é demaisado generalista para ter a profundidade de que falo.
Nele aprendi algumas coisas e puz em causa muitas outras. É um livro inspirador, fruto de uma pesquisa enorme. E isso sente-se a par e passo.
Vale mesmo a pema lê-lo.

A última tentação de Cristo - Nikos Kazantzakis

Este livro está carregado de duas coisas que inundam a Bíblia: poesia e alegoria.
Talvez por isso mesmo, por este misturar de naturezas, tenha sido tão mal recebido pela Igreja Católica.
Não se trata de um livro histórico, nem pretende sê-lo e qualquer coincidência entre as persoagens que o habitam e as homónimas da Bíblia é mera coincidência: o seu valor é meramente simbólico.
Sendo tudo isto verdade, parece que ir buscar a história de Cristo é um abuso. Parece ter sido esse o entendimento da Igreja. Mas não. O livro é, do início ao fim, uma reflexão profunda, uma interpretação honesta da história de Cristo. Com honesta não quero dizer correcta, isso é outro assunto. Mas parece-me que o livro - e o filme - não merecia uma resposta tão primária.
Vejo no livro, como antes já tinha visto no filme, a mão de alguém que se procura aproximar de Cristo, entendê-lo profundamente. Alguns pontos são muito curiosos: Jesus fugindo a sete pés do seu destino. As figuras de Pedro, de Paulo, a propriamente dita última tentação, são bons motivos para fazer esta leitura.
Muito obrigado, Anamae!

2009/06/24

Budapeste - Chico Buarque

Um livro que conta a sua própria história. A ideia de circularidade, que tanto me agrada, revela-se no final.

Linguagem simples, fluida. Lê-se de uma assentada.

Conta-se a história de um escritor que, de forma anónima, empresta os seus escritos a outros para que estes possam publicar obras/textos de qualidade como sendo suas. Personagem contraditória, ou melhor, que vive uma contradição interior. Por um lado, gosta do anonimato mas, por outro, não suporta que os que lhe são próximos elogiem os falsos autores do trabalho que na verdade é seu. Acaba por viver num espaço algures entre a realidade e a ficção, entre aquilo que é e escreve e aquilo que representa ver ou não livros assinados com o seu nome.

Confuso? Talvez, mas garanto que o livro não deixa espaço para confusões. Definitivamente, uma agradável surpresa.

2009/06/12

Um Estranho em Goa - José Eduardo Agualusa

Livro cheio de uma mistura de culturas que nos transporta pelo mundo lusófono sem sairmos do nosso próprio sofá. Interessante e misteriosa intriga onde o narrador se vê envolvido. Ou será: onde o próprio narrador se envolve? Move-o a curiosidade.

Agradaram-me as descrições, breves mas bem direccionadas: dos locais, das pessoas/personagens, dos hábitos do dia-a-dia. São os pormenores, como a descrição de uma simples refeição por exemplo, que tornam a história verosímil, apesar de nunca sabermos ao certo se o que “vemos” desfilar à nossa frente é realidade (ainda que só na vida das personagens) ou fantasia.

Livro rico em referências bibliográficas e musicais, certamente úteis para descobrir mais um pouco acerca da Índia. Tivesse eu tempo e possibilidade de viajar fisicamente até lá e lê-los-ia e ouvi-los-ia a todos avidamente.

Encantador. No sentido original, na medida em que lança sobre nós um feitiço e nos deixa inebriados com os cheiros, o calor e os sons típicos de locais quentes como a Índia, o Brasil ou África.

“Nenhuma moeda tem apenas um lado. Assim como não há vida sem morte nem luz sem sombra, da mesma forma o bem não faz qualquer sentido se não houver o mal.”

2009/06/05

As Velas Ardem Até ao Fim - Sándor Márai

Já tinha ouvido falar deste livro (ou melhor, já tinha ouvido o título deste livro algures), apesar de não saber ao certo do que tratava. Mas por se tratar de um autor húngaro, tinha imensa curiosidade em lê-lo.

Para não estragar a surpresa a quem venha a ler o livro, não me posso alongar muito na história, podendo apenas dizer que se trata da história de uma amizade. Não de uma amizade passageira, mas sim de uma amizade profunda entre dois homens que se conheceram nos finais do século XIX, no Império Austro-Húngaro, e que se reencontram muito tempo depois.

O livro está muito bem escrito e, apesar de não parecer muito verosímil (com capítulos seguidos narrados em monólogo, o que nos faz pensar estar a ver um filme de Manoel de Oliveira ou de Ingmar Bergman), acaba por ser muito interessante, pois além de levantar algumas questões filosóficas acerca da ideia de Amizade, ainda nos faz ponderar, de maneira mais pragmática graças aos acontecimentos que depois nos são narrados, se realmente a Amizade existe e se a tudo resiste. Diria que, neste aspecto, o livro acaba por dar uma visão pessimista disso mesmo.

Em termos literários, este é um livro difícil (algumas pessoas dirão 'enfadonho'), pois não acontece (ou demora a acontecer) alguma coisa que justifique o estarmos a lê-lo. Mas como está tão bem escrito, e após a curiosidade inicial, alcançamos a velocidade de cruzeiro e só conseguimos descansar quando chegamos ao momento em que "as velas arderam até ao fim".

Gostei. Acho que este livro vale a pena!

8 estrelas

Crónica de uma Serva - Margaret Atwood

Custa-me sempre começar um livro cuja acção não se passe num tempo real. Já assim me aconteceu com Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. No entanto, depois de ultrapassado esse obstáculo, percebem-se a ironia do texto e as “lições” que dele podemos tirar, por exemplo, no que diz respeito ao modo como nos relacionamos com os outros e ao modo como usamos levianamente a liberdade de que dispomos.

Porém, neste livro, com uma história original passada numa época futura, pós-feminista, apreciei sobretudo a estrutura. Há uma comunicação constante entre a narradora participante e quem a lê/ouve. Esta técnica agrada-me sempre. E há, ainda, o relato dos acontecimentos, que têm lugar no tempo da acção, intercalado com o relato das memórias da personagem que, inevitavelmente, nos fazem reflectir sobre o papel da mulher na sociedade.

2009/05/16

O Velho que Lia Romances de Amor - Luis Sepúlveda

E ao terceiro livro que leio de Sepúlveda, rendo-me. Agora sim, percebo por que razão é tão falado este livro (e por que tanta gente gosta dele e de Sepúlveda).

No passado li História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar (um livro com uma mensagem universalista de tolerância para os que são diferentes de nós, mais direccionado para o público infantil) e também Encontro de Amor num País em Guerra (um livro com diversos contos sobre variadíssimos temas, especialmente o amor), mas nenhum me tinha feito fica absolutamente fã do autor. Com este O Velho que Lia Romances de Amor Luis Sepúlveda conseguiu surpreender-me e muito!

Encontramos aqui a história de uma aldeiazinha perdida nos confins da selva amazónica, onde habita um velho viúvo que gosta de ler romances de amor, daqueles "de chorar rios de lágrimas" e "com pessoas que se amam mesmo" e ainda que "sofrem muito", mas sempre com "desfechos felizes". As peripécias vão levar a que este velho, conhecedor da selva, seja obrigado a internar-se nela para trazer paz aos restantes habitantes de El Idilio. Mas com uma forte consciência ecológica e de respeito pela natureza, ele nunca mais será o mesmo depois de cumprir a sua missão.

Não sei se se pode dizer que há nesta história alguns ecos do mais que famoso O Velho e o Mar (não só no título, mas também na demanda levada a cabo por ambos os velhos), mas devo dizer que enquanto o livro do Hemingway não me diz nada, o livro de Sepúlveda conseguiu cativar-me completamente.

10 estrelas

2009/04/16

Cândido - Voltaire

Este foi um dos livros mais divertidos que li nos últimos tempos. Nele, Voltaire insurge-se contra o optimismo simplista e as utopias.

«- Que é isso de optimismo? - perguntou Cacambo.
- Ai! - respondeu Cândido -, é a teimosia de sustentar que tudo está bem quando tudo está mal.»

É interessantíssimo ver a crítica mordaz do filósofo francês à "metafísico-teológico-cosmolólogonigologia" (visando sobretudo os filósofos alemães Leibniz e Wolff) e satirizando a ideia de que «quantos mais males particulares houver, mais o bem geral aumentará», visto que «as coisas não podem ser de outra maneira: porque, tendo tudo sido feito para um fim, necessariamente o foi para o melhor dos fins». Curioso é também a personagem principal, no seu périplo pelo mundo, chegar à cidade de Lisboa no fatídico dia 1 de Novembro de 1755 e assistir ao famoso terramoto.

«Enfim, menina, tenho experiência, conheço o mundo. Podeis entreter-vos a pedir a todos os passageiros do navio que contem a sua história, e não encontrareis um só que não maldiga a sua vida e se não julgue muitas vezes o mais infeliz dos homens. Se assim não for, deitem-me ao mar de cabeça para baixo.»

Só não leva mais estrelas, porque sinceramente estava à espera de um livro um bocadinho melhor (tal era a expectativa que tinha em relação a ele) e não tão semelhante ao O Ingénuo.

7 estrelas

2009/04/07

À Procura de Sana - Richard Zimler

Como apreciador da saga Zarco que sou, não posso dizer que este livro me tenha empolgado tanto como O Último Cabalista de Lisboa, Goa ou o Guardião da Aurora e, claro, A Sétima Porta.

No geral, gostei. Na realidade, não tinha grande curiosidade em ler este livro, mas após alguma "insistência" de uma amiga (que me disse para o ler, mas que me avisou que não era tão bom como os outros), decidi-me a dar-lhe alguma atenção. Pelo facto de não estar à espera de uma grande obra literária, as expectativas acabaram por ser superadas.

É uma história um bocado complexa (e a determinadas alturas um pouco desinteressante, especialmente quando é narrada a história da infância de Sana, por exemplo), mas o senhor Zimler já nos habituou a isso mesmo, não é verdade? O que acabou por me cativar mais neste livro foi mais o "ambiente" do que propriamente a história da busca de Sana. Ou seja, achei bastante interessante o retrato das relações entre palestinianos e israelitas e tudo o que está implicado, mais do que do resto (telefonemas e viagens para aqui e para ali e sei lá mais o quê). Quem gosta do Zimler, não se sentirá defraudado com este livro. Mas a quem não conhecer (ou não gostar), não recomendo que este seja um primeiro livro.

7 estrelas

2009/04/06

O Último Minuto na Vida de S. - Miguel Real

A grande interrogação que surge quando lemos o título deste livro é: mas afinal, que significará aquele "ésse ponto"? O que será, ou melhor, quem será, a pessoa a que se refere aquela letra?

Ainda demoramos algum tempo a perceber quem será "ésse ponto" mas após as primeiras pistas, não restam dúvidas. Para não estragar a surpresa a futuros leitores (porque julgo que um dos méritos do livro é precisamente fazer-nos descobrir que personagem é), só posso dizer que é surpreendente a revelação da pessoa que é e que nunca será nomeada no texto (nem ela, nem as pessoas mais próximas que a acompanham), mas de que todos já ouvimos falar quase de certeza, por esta ser uma história sobejamente conhecida.

E no entanto... No entanto, o que não é sobejamente conhecido é o amor que vemos retratado ao longo das páginas deste livro, um amor fortíssimo, mas condenado a não sobreviver. Num espaço de 60 segundos, a vida de "ésse ponto" passa-lhe à frente dos olhos, misturando passado com presente, até ao momento derradeiro. Este é um livro para ler com atenção, não fosse ele também o retrato de um Portugal mergulhado numa ditadura e incapaz de se modernizar (europeízar) após da queda da mesma.

Já tinha ouvido falar de Miguel Real, mas não tinha grande curiosidade em ler nada dele. Agora sei que isso era um erro, pois acabei por ficar bastante surpreendido com a maneira de escrever dele e, só por isso, valeu a pena o tempo que lhe dediquei. E fiquei com vontade de ler mais (apesar de os outros livros parecerem romances históricos pesadões) - Quem sabe se também quanto a isso não estarei igualmente enganado?

7 estrelas

2009/03/17

Nocturno Indiano - Antonio Tabucchi

«- Mas não é um romance - protestei eu -, é um bocado aqui outro ali, não há sequer uma verdadeira história, são apenas fragmentos de uma história (...)»

Este foi o segundo livro que li de Antonio Tabucchi e, apesar de não ter gostado tanto como o Afirma Pereira (mas acho que isso seria muito difícil...), foi uma leitura muito interessante. A narrativa é contada de uma forma que me atraiu particularmente, já que nós, enquanto leitores, somos completamente apanhados desprevenidos à medida que vamos avançando de capítulo em capítulo. Isso acontece especialmente no capítulo final. Acho que é precisamente isso que destaco (essa capacidade de nos deixar completamente desorientados, como se nós próprios estivéssemos a realizar naquele momento uma viagem, tal qual o "protagonista", não do ponto de vista físico ao subcontinente indiano, mas uma viagem à narrativa desordenada daquelas personagens), a par de raras serem as explicações que nos são fornecidas. Afinal, o que faz aquele Português na Índia? E por que razão foi aquele Italiano atrás dele? Quem são Isabel e Magda? Serão aqueles dois homens amigos, ou isso é coisa do passado? Este é um livro de interrogações que não têm resposta. Só nos é dado ver o que «está dentro da moldura» e não nos é dado ver o que aconteceu para lá dela.

A Índia presta-se muito a este tipo de exercício, não é? O de ir em busca de uma identidade que se desconhece ou que está oculta. Esta história fez-me precisamente recordar alguns filmes que já tive oportunidade de ver e que se podem relacionar com ela (The Darjeeling Limited, Lezioni di Volo, etc.) e até mesmo alguns livros que já li.

Entre as 8 e as 9 estrelas

2009/03/05

Não matem o bébé! - Kenzaburo Oé

É difícil falar deste livro sem dizer toda a história, porque a história não é muita.
O livro não trata de um dilema, embora ele esteja sempre presente e acabe por se resolver. Ao mesmo tempo é um livro onde as decisões, as motivações as intenções nunca são inteiramente explícitas, embora o pareçam. Fica sempre algo mais, algo por dizer, algo por fazer. Nunca pode ser tão simples, apesar de obstinadamente o ser, de sucessivamente o ser. Até que.
E mais não posso dizer. Talvez isto não seja muito claro, talvez seja estranho, mas é assim mesmo, este livro, estranho. O livro exibe um distanciamento por parte dos personagens que não parece ser muito normal, no entanto todas as personagens o parecem assumir como se fosse. Então das duas uma: ou todo o livro é pura e simplesmente inverosímil, o que me parece difícil de aceitar, ou mostra uma mentalidade de fundo muito diversa daquela a que estamos habituados. Acredito mais nisto, e isso é o que mais me impressionou, o que mais fica desta leitura: uma mentalidade muito diferente.

2009/03/03

A sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafon

Este livro deixa-me sentimentos muito diversos. Por um lado é um livro com pormenores muito interessantes: o Cemitério dos Livros Esquecidos, o Fermin, dão um colorido delicioso ao livro. Por outro lado há algumas inconsistências, alguns non sequitur que eram bem escusados. O pai de Daniel é uma figura apagadíssima e embora esperemos sempre, a qualquer momento, uma revelação, ela nunca acontece. Por outro lado, o prometido é de vidro: o Cemitério é secretíssimo mas o Daniel fala dele a torto e a direito. Também Fumero acaba por ser uma figura absolutamente plana e desinteressante, parece roubados aos vilões de banda desenhada. E é uam pena, porque ela representa um tipo de personagem que merecia outro tratamento, outra reflexão, outra profundidade, pelo peso que tem na memória colectiva espanhola, como aliás na portuguesa.Ao mesmo tempo há alguns pormenores da história algo previsíveis. Mas desses não posso dizer mais sem dizer tudo. Por outro lado descrições que variam entre o perfeito e o excessivo, sendo que a linha é, por vezes ténue. É apenas um dos aspectos queirosiano deste romance. E mais não digo a este propósito. Gostei de o ler e, sendo o primeiro livro que leio do autor, espero que outros livros venham a confirmar o muito que este livro apenas promete. Obrigado à Pentax.

8/10 estrelas

2009/02/11

Notas de cozinha de Leonardo da Vinci - Shelag & Jonathan Routh

Gostei muito deste livro. Ele contém uma introdução geral, que fala de Leonardo da Vinci e da respectiva época e que dá um belíssimo mote para a leitura que se segue. Quanto ao Código em si, trata-se de um livro da época de Leonardo e que lhe é atribuído, embora não tenha ainda sido possível estabelecer com certezas a autoria. Gostei muitíssimo de o ler, por muitas razões. Em primeiro lugar, porque nos dá uma ideia de época muito interessante: o que se comia, como se comia, como se organizavam os castelos, o modo de vida. Em segundo lugar, pelo vislumbre do despontar de determinados utensílios de todos os dias, coisas que sempre ali estiveram mas que um dia foram "inventadas". Por último, pela visão muito curiosa da vida de Leonardo. Acho que todos nós somos conduzidos para a imagem do génio, de um Leonardo que não falha nada, que faz os desenhos mais perfeitos, mais subtis, mais fantásticos mesmo num vulgar bloco de notas. Um Leonardo que inventa uma coisa nova todos os dias, uma peça central de onde deriva toda a cultura europeia, de uma ou de outra forma. Este livro mostra um Leonardo diferente, mais humano, que apesar das muitas falhas que teve nunca deixou de tentar. Acredito que foi isso que fez a sua magnitude.

2009/02/10

O Carteiro de Pablo Neruda - Antonio Skármeta

A literatura sul-americana tem destas coisas: quando menos estamos à espera, consegue surpreender-nos pelos melhores motivos.

Este foi, sem dúvida, o melhor livro que li durante o mês de Janeiro. Aliás, passou já para a lista das recomendações, onde estão todos os livros que considero que valem a pena serem lidos. Antonio Skármeta tem uma fantástica capacidade em contar uma história simples, mas ternurenta, vvalendo-se de uma linguagem castiça e que prende desde o início ao fim. O livro tem o tamanho ideal. Felizmente que Skármeta teve consciência em não se alongar demasiado, correndo o risco de tornar maçadora uma história tão bela, acerca da admiração de um carteiro pelo poeta mais famoso do seu país... Ou será da admiração do poeta mais famoso do seu país pelo seu carteiro (um pobre de espírito, mas com um rico coração)?

10 estrelas.

2009/01/24

A Vida Secreta das Abelhas - Sue Monk Kidd

Bem, sempre que olhava para a estante, não sei porquê, este livro sobressaía em relação aos outros... Acho que o título me estava a deixar bastante curioso, por isso não resisti a pegar-lhe e a lê-lo duma assentada.

E não é que me surpreendeu? Não sei bem do que é que estava à espera de encontrar nestas páginas, mas de facto as minhas expectativas foram sobejamente superadas. Se primeiro pensava que era um livro levezinho e mais direccionado para o público feminino, enganei-me. Esta história de Sue Monk Kidd vai mais longe do que aquilo que se está à espera, especialmente graças ao pano de fundo histórico utilizado pela autora: década de 60 na Carolina do Sul (um dos Estados segregacionistas e mais racistas dos EUA). As personagens são vítimas de preconceito e injustiça (que hoje nos parecem absolutmanete ridículos e que custa a acreditar que há apenas 50 anos era o que acontecia na principal nação "civilizadora" do mundo). Acho que foi isso que acabei por apreciar mais no livro todo.

Depois temos a parte mais romântica da história: Lily e a sua demanda pela felicidade. Claro que acaba tudo por soar a cliché, além de parecer demasiado folhetinesco e inverosímil, mas pronto, nada que não consigamos perdoar à Sue Monk Kidd, pois, apesar de uma ou outra passagem menos bem conseguida, ela até tem jeito a contar a história.

Concluindo: não dei o tempo a ler este livro como mal empregue, pois no fundo fiquei surpreendido pela história que conta. Não é o meu livro favorito de sempre, mas acho que o relembrarei um dia mais tarde como um livro interessante.

8 estrelas

2009/01/19

Passeios Aleatórios pela ciência do dia a dia - Nuno Crato

Este livro contém diversas crónicas originalmente publicadas no Expresso. São muito interessantes e contêm curiosidades que não sabia. Mas é um livro relativamente pobre, uma obra de divulgação que fica pela superficialidade típica das crónicas de meia dúzia de linhas semanais. Não está em causa a grande qualidade do Nuno Crato como comunicador - que é patente - está em causa mais uma vez a diferença abissal entre um livro de ciência e uma colectânea de crónicas, que a meu ver deveria ser bem identificadas como tal na capa.

2009/01/18

O Périplo de Baldassare - Amin Maalouf

Acabei hoje mesmo de ler um livro de um autor com cujo nome me tenho deparado com muita frequência ultimamente. E foi sem dúvida uma leitura bastante agradável.

O livro conta a história de um homem que parte numa viagem pelo Mediterrâneo (e não só) em busca de um livro que atenuará os efeitos nefastos do Ano da Besta (1666). Este é o mote para que Amin Maalouf nos faça viajar pelas superstições europeias e médio-orientais, reconstituindo, não com grande rigor, mas ainda assim de forma satisfatória, todo o ambiente social, cultural e resligioso de meados do século XVII, na Europa e especialmente no Médio Oriente, dominado pelos Otomanos.

Claro que parece um pouco irrealista que a viagem de Baldassare seja motivada apenas pela crença supersticiosa de que um livro salve aquele que o possui, e além disso os acontecimentos que impelem o nosso protagonista a viajar cada vez para mais longe sucedem-se de forma algo inverosímil ou até mesmo folhetinesca. Mas conseguimos perfeitamente perdoar isso ao nosso amigo Maalouf, pois se há coisa em que ele tem jeito, é a narrar uma história e, por mais inverosímil que seja, não desilude em nada.

8 estrelas

2009/01/17

Uma Casa no Fim do Mundo - Michael Cunningham

Bem, devo dizer que ler este livro foi como um murro no estômago. Achei-o um bocadinho superior ao As Horas (livro do mesmo autor, bem mais famoso graças ao filme do mesmo nome e que valeu a Nicole Kidman o Óscar de melhor actriz em 2002), que também já tive oportunidade de ler, e que é, apesar de tudo, igualmente original.

A primeira parte desta livro foi a que realmente me surpreendeu pela forma como os acontecimentos são narrados... Se bem que na segunda parte continuam a ser abordados temas polémicos (SIDA, comportamentos sexuais promíscuos, o amor entre três pessoas, duas delas do mesmo sexo), julgo que não está tão bem arranjada como a primeira, o que torna o ritmo do livro um pouco mais lento, ainda que não necessariamente menos interessante.

No que respeita às personagens, Clare foi a que me pareceu menos verosímil, aquela que tinha uma identidade mais fictícia e sem a profundidade da personagem de Jonathan ou de Alice. Também Bobby acabou por me desiludir um pouco, pois estava à espera que fosse ele a personagem-chave da narrativa. No entanto, devo dizer que, se calhar, o mérito de Michael Cunningham está precisamente no facto de não haver uma personagem que se sobreponha às restantes e cada uma, à sua maneira, constrói uma história contada na primeira pessoa, mas em diferentes perspectivas, como a construção lenta de um puzzle. De facto, admiro qualquer autor que consegue a proeza de escrever um livro inteiro na primeira pessoa do singular, sendo que este Uma Casa no Fim do Mundo vai ainda mais longe com quatro eus a desenrolar o emaranhado novelo da(s) sua(s) vida(s).

Nota especial ainda para o facto da importância das músicas que vão sendo referidas ao longo do livro. É interessante ir confrontando a letra de cada uma com a parte da história em que está inserida para perceber que não foram ali postas ao acaso.

Sem dúvida que este Michael Cunningham foi uma agradável surpresa. Há já muito tempo que um autor americano não me surpreendia desta maneira (acho que o Dan Brown e companhia nos fazem esquecer que os EUA também têm bons escritores).

Por todas essas razões, acho que este é um livro bastante interessante e que vale a pena ler.

9 estrelas

2009/01/15

Os 12 livros que tenciono ler em 2009

Este ano tenciono ler, não necessariamente por esta ordem:

1. Guerrilla Learning, John Gatto
2. A última tentação de Cristo, Nikos Kazantzakis
3. O meu Michael, Amos Oz
4. Não matem o bébé, Kenzaburo Oé
5. Os Jardins da memória, Ohran Pamuk
6. Cultivo de Setas y Trufas, Garcia Rollan
7. Plantas Silvestres Comestibles
8. Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson
9. A matemática das coisas, Nuno Crato
10. Este ofício de poeta, Jorge Luís Borges
11. Diário I, Miguel Torga
12. Do Espiritual na Arte, Wassily Kandinsky
13. Para Sempre, Vergílio Ferreira
14. A Terra e o Cosmos, Isac Asimov
15. O rochedo de Tanios, Amin Maalouf
16. O Guia do Pai, Kevin Nelson
17. O que farias se tivesses um pincel mágico que desse vida a tudo o que pintasses?, Jane M. Healy
18. Breve História dos Tractores em Ucraniano, Marina Lewycka
20. Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami
21. A vida do Irmão Roger, Kathryn Spink
22. Santo António de Lisboa, Ervino Helmle
23. A ilusão da economia, Karl Polanyi
24. Religião, Estado e Martírio no Islão, Ira M Lapidus e Farhad Khosrokhavar
25. Conversas no Adro da Igreja, JacquesGaillot e Eugene Drewermann
26. Ética, Espinosa
27. Minha vida e minhas experiencias com a verdade, Mohandas Karamchand Gandhi

2009/01/14

2009 Aqui vamos nós!

Os meus objectivos literários para este ano:

Desfazer-me da TBR* sem que isso signifique necessariamente desfazer a tbr, ou seja, ler os livros.

Eleger 12 livros que não quero deixar de ler este ano e lê-los.

Ler mais livros de ciência, filosofia e humanidades, por contraposição à ficção.

Ler pelo menos 2 livros por mês, de preferência 3. Seria extraordinário se chegasse a 1 por semana.

Fazer bons comentários, ainda a fresco, quer nas JE´s quer no Companhia das Letras.

* tbr é a lista de livros para ler (to be read). Reservo essa designação para os livro do Bookcrossing.

2008/10/13

Zorro - Isabel Allende

Devo começar por dizer que este foi o terceiro livro de Isabel Allende que li (tentei ler igualmente Paula, mas das duas vezes que o iniciei não consegui levar até ao fim a leitura) e penso que foi aquele de que mais gostei até hoje. No entanto, devo dizer que não me encantou totalmente. É verdade que o livro não é extremamente mau, mas também não é excepcionalmente bom. É-nos aqui oferecida uma história que não nos deixa deslumbrados e que não deixa de ser um pouco romance de cordel... As personagens são completamente estereotipadas, não faltando os bons malandros, as donzelas virgens e castas à espera de serem salvas por um qualquer príncipe encantado, os maus mesmo muito maus (que, por serem maus, só sabem fazer maldades, além de cheirarem mal) e os bons absolutamente virtuosos (que sentem escrúpulos no derramamento de sangue, mesmo enquanto lutam pela justiça).

Não faltam ainda muitas aventuras, tanto por terra, como por mar, em contacto com índios, ciganos, piratas, e todas as outras personagens que estamos habituados a ver num livro que se desenvolva na primeira metade do século XIX no Novo Mundo. Que canseira! Mas de alguma maneira Diego tinha de aprender todas as habilidades possíveis e imaginárias (desde o simples truque de ilusionismo de algibeita, até às complicadas acrobacias circenses) se desejava ser um Zorro que se prezasse...

Considerei a parte da infância de Diego bastante empolgante, mas o resto do livro (principalmente a partir do momento em que vai para Espanha) torna-se algo chato, não nos sendo nada mais que uma mera sucessão de acontecimentos, alguns interessantes, outros nem tanto, não passando de bocejos prolongados. O que é um problema para mim, já que não consigo ler na diagonal e saltar as partes mais desinteressantes de seja qual for o livro.

Enfim, permanece em mim a sensação de que Isabel Allende é um pouco sobrevalorizada enquanto escritora, mas o apelido terá sempre o seu peso. Em todo o caso, gostei deste livro por a autora se ter cingido mais ao real e não se aventurar pelo fantástico (como aconteceu n' A Cidade dos Deuses Selvagens, livro que detestei).

Não sei... Aí por volta das 7 estrelas.

2008/10/06

O Último Cabalista de Lisboa - Richard Zimler

Decidi iniciar com esta posta uma série de quatro apontamentos sobre um dos autores que tive o prazer de conhecer este ano: Richard Zimler. Uma amiga falou-me deste autor e, ao fazê-lo, deu-me a conhecer o facto de haver 4 livros que andavam à volta de diferentes ramos de uma família de judeus portugueses. Se curiosidade de ler os livros deste autor eu já tinha, esse foi o principal impulso para iniciar a "árdua" tarefa (mas muito agradável) de ler esses 4 livros de Richard Zimler. E mais do que ler, acho que os devorei! Para terem uma noção, acabei de ler O Último Cabalista de Lisboa no princípio de Agosto, dez (!) dias depois já tinha terminado o Goa ou o Guardião da Aurora e no segundo dia de Setembro já tinha despachado o Meia-Noite ou o Princípio do Mundo. A Sétima Porta acabei-a no princípio de Outubro.

Comecemos pelo princípio. Richard Zimler é um escritor norte-americano naturalizado português e radicado actualmente no Porto. Decidiu escrever sobre uma família de judeus portugueses. No entanto, não o fez de forma convencional. Imaginou vários ramos da família ao longo da História e, assim, escreveu a saga da família Zarco desde o início do século XVI até aos finais do século XX. Confusos?

A história da família Zarco começa com o livro O Último Cabalista de Lisboa, policial ambientado no século XVI que, para além de nos dar o mote para os restantes livros, relata de forma um pouco cruel (mas, por isso mesmo, realista), algo que tem sido afastado dos manuais de História: o massacre de judeus que ocorreu na capital portuguesa em 1506, incitado pelos dominicanos no Rossio. Foram mortos nesses dias de Páscoa cerca de 2000 judeus por serem os "culpados" da seca que grassava na cidade.

Esse é o ambiente, mas não o fulcral da narrativa. Berequias Zarco, jovem cristão-novo, descobre o seu tio assassinado no esconderijo da sua casa, em Alfama. Isso leva-o (a ele e a nós, felizmente, diria eu) a passear por uma Lisboa ainda agarrada à ignorância medieval numa busca incessante pelo assassino, enquanto os cristãos-velhos se vão entretendo a queimar judeus ou a decapitá-los.

O que é fantástico de ver neste relato é a capacidade incrível de um escritor norte-americano conseguir reconstruir a Lisboa da época e também os seus arrabaldes (Campolide, Benfica, Belém), mas também o facto de inventar uma história que, não sendo absolutamente verosímil, não deixa de ser interessante. É verdade que existem demasiadas personagens (o que pode confundir um pouco a leitura; a mim confundiu, pois por vezes eram resgatadas na narrativa personagens que tinham aparecido anteriormente, mas que eu já tinha esquecido), mas isso acaba por servir da melhor forma a história, tornando-a mais credível.

Este foi um dos meus livros preferidos da saga Zarco. Porque se passa em Lisboa, porque está magistralmente bem escrito (tudo na primeira pessoa, uma das formas de narrar mais difíceis de concretizar), porque agarra desde o princípio até ao fim, porque trata de um assunto sério nas entrelinhas, porque, apesar disso, consegue ter alguns momentos bastante humorísticos (veja-se o encontro de Berequias com o ferreiro de Benfica), enfim... porque sim. Gostei muito de ler este livro e, por isso, não posso deixar de recomendar a sua leitura.

9,5 estrelas

2008/09/23

Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto - Mário de Carvalho

Este foi o segundo livro que li de Mário de Carvalho. O primeiro havia sido A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho. Com ambos os livros foi fantástico descobrir que a literatura portuguesa contemporânea ainda tem capacidade de nos surpreender desta forma.

Desengane-se aquele que acredita nas palavras do narrador quando afirma que quer que este livro seja "mui sisudo e composto". Antes pelo contrário, de sisudo nada tem. Dei comigo a dar valentes gargalhadas, comedidas, porém, porque me encontrava em locais públicos quando lia esta prosa bem disposta. Algumas passagens são hilariantes, como por exemplo aquela em que Eduarda não sabe o que significa 'hediondo' e 'pejorativo'.

Quanto à história em si, não vou dizer que é a mais original que li nos últimos tempos (resumindo: o reencontro de dois colegas da faculdade muitos anos após se terem conhecido, numa altura em que estão a passar por uma crise de meia-idade), mas julgo que isso acaba por provar que, mais importante que contar uma história, é a maneira como ela é contada.

De facto, surpreendeu-me muito esta maneira inovadora de narrar uma história em que, o narrador, omnisciente e omnipotente, acaba por não intervir de forma nenhuma, qual deus demasiado preguiçoso para se imiscuir das desgraças humanas, limitando-se a contar-nos a história, não se abstendo, porém, de fazer os seus comentários, mais do que irónicos e mordazes, terrivelmente cómicos. Penso que só lendo o livro é que se percebe o que quero dizer, já que não faz muito sentido transcrever para aqui parágrafos inteiros que o demonstrem.

Este não terá sido o melhor livro que li nos últimos tempos, mas foi sem dúvida aquele que me surpreendeu mais. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever. Recomendo a sua leitura, para que se fique a conhecer um tipo de humor verdadeiramente delicioso, que não necessita de recorrer ao brejeiro para nos fazer rir.

2008/07/25

A 25ª Hora, C. Virgil Gheorghiu

Este livro conta a história de Iohan Moritz, agricultor romeno que é requisitado para trabalhos forçados, como se fosse judeu - que não é. A odisseia porque ele passa é... indiscritível: prisioneiro, soldado, desertor, prisioneiro... enfim, uma odisseia que lhe é imposta por vários Estados sucessivamente, por vários domínios, por vários exércitos.
Este é um daqueles livros que não deve mesmo perder-se.
E isto por diversas razões: Não só porque está muito bem escrito, não só porque a história é interessante, mas também pelo seu valor como documento histórico e como reflexão sobre a nossa sociedade.

Com efeito, no que diz respeito ao holocausto é um documento histórico impressionante. O que mais me chocou ao longo de todo o livro, como uma nota de pedal, ao longo de toda a harmonia do livro, é que ninguém contesta que a personagem principal fosse presa se ele fosse judeu... apenas se reclama que ele não , e que consequentemente a sua prisão era uma injustiça. Note-se que este movimento conjunto das personagens nada parece ter de intencional por parte do autor, que é bastante mais explícito quanto ás contradições que quer por em evidência. Esta nota simplesmente perpassa todas as personagens e a forma como elas actuam.

Por outro lado, este livro faz uma descrição e crítica da "sociedade técnica ocidental", conceito que também define. Neste sentido, este livro é uma reflexão extraordinária, no que tem de actual. A sociedade técnica ocidental de que fala Gheorghiou é hoje em dia uma constante nos mais pequenos assuntos da nossa vida, desde as relações com as empresas até à relação com as administrações públicas, os call centers, os protocolos, médicos e não só... Não quero entrar em grandes pormenores porque não poderia fazê-lo com a competência do autor, mas quero apenas dizer que este livro é para mim um livro essencial para a compreensão da nossa sociedade.

Além disto queria ainda chamar a atenção para um pormenor: trata-se de uma tradução feita pelo Vitorino Nemésio, também ela muito interessante na forma como utiliza o português.

2008/07/07

Todos os Nomes - José Saramago

Para ser sincero, sempre gostei muito dos livros de Saramago que li, uns mais (A Jangada de Pedra, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Memorial do Convento, sendo que este está entre os 10 livros que mais gostei de ler até hoje), outros menos (História do Cerco de Lisboa) e outros assim-assim (O Ano da Morte de Ricardo Reis). No entanto, este Todos os Nomes terei de o colocar entre aqueles que gostei menos, não por ser pior que os outros, mas por uma questão de gosto pessoal.

A certa altura, diz o Sr. José (personagem principal deste livro) ao seu tecto (!) o seguinte: "Vivia em paz antes desta obsessão absurda, andar à procura de uma mulher que nem sabe que existo" (pág.158). Precisamente! Quem é que se lembra de escrever um livro sobre um homem que trabalha numa Conservatória Geral do Registo Civil e que, de repente, se sente impelido a procurar uma mulher da qual não sabe nada e, chegado ao fim, pouco fica a saber dela? Essa é a premissa do livro, a qual não achei especialmente genial, o que me fez ficar com o pé atrás à medida que ia lendo o livro.

No entanto, não se pense que só encontrei aqui aspectos negativos. De facto, houve alguns aspectos do ponto de vista literário e não só que me agradaram. Achei curioso todo o espaço físico em que a história foi ambientada, numa cidade cujo nome nunca ficamos a saber, onde existe um cemitério gigantesco e de estranha configuração e uma Conservatória Geral do Registo Civil enorme e em constante expansão. Eu diria, não sei porquê, que esta história se passa por alturas dos anos 30, talvez porque Saramago imprima esse universo às suas obras, quando não é declarada a data exacta dos acontecimentos que narra.Também não deixa de ser interessante o facto de Saramago ter conseguido escrever um livro em que a única personagem que tem efectivamente nome seja o Sr. José (penso que no Ensaio Sobre a Cegueira, livro que pretendo ler brevemente, vai ainda mais longe a absolutamente ninguém que lá surge tem nome!).

Depois achei também interessantes algumas críticas subjacentes à organização hierárquica do trabalho ("A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de uma categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte."), à fama, à burocracia, até mesmo aos debates estéreis entre a elite cultural, a par de muitas outras e diversas considerações sobre a morte ("O que está para além da morte, nunca ninguém viu nem verá, de tantos que para lá foram, nunca nenhum voltou cá") e, mais especificamente sobre o suicídio (representado pelo pastor que o Sr. José encontra no cemitério) e de todo um pessimismo que atravessa o livro, a que Saramago de certo modo, já nos foi habituando. "(...) o que deves pensar é os pesadelos da infância nunca se realizam, muito menos se realizam os sonhos".
No entanto, isto tudo não foi suficiente para que, no geral, o livro me agradasse e o considerasse uma das melhores leituras dos últimos tempos. No fundo, esta é a história de um homem que inicia uma busca por uma mulher que nunca encontrará, para além de contar inúmeras situações e episódios completamente desnecessários e maçudos, que nada acrescentam (bons exemplos disso são o diálogo absurdo entre o Sr. José e o enfermeiro ou quando ele assalta a escola e fica lá a dormir uma noite), para além de longos parágrafos em que não abunda a pontuação.

Quero, contudo, deixar aqui a salvaguarda que considero Saramago um dos autores mais inspirados na literartura portuguesa contemporânea. É um facto que não gostei muito deste livro, mas é de salientar que o mesmo foi publicado em 1997, o ano anterior em que o autor recebeu o Prémio Nobel, pelo que inevitavelmente faz parte das obras que contribuíram para que ele o recebesse. E sem dúvida que mereceu receber o referido prémio. Ler Saramago é algo que não me cansarei de recomendar, porque vale sempre a pena, quanto mias não seja para conhecer a sua maneira de escrever, que se adora ou se detesta.

6 estrelas

2008/06/24

Inês de Portugal - João Aguiar

Como já tive oportunidade de dizer anteriormente, o primeiro livro de João Aguiar que li foi A Voz dos Deuses. Para dizer a verdade, não gostei muito desse livro, ainda para mais porque já tinha ouvido alguns elogios ao autor e até tinha uma certa curiosidade em lê-lo. Ora bem, se não tinha percebido os elogios com A Voz dos Deuses, percebi-os com a Inês de Portugal. Verdade seja dita que aquele livro foi o primeiro romance do escritor, pelo que talvez não seja representativo de toda a sua restante obra. E de facto, assim penso, pois ao contrário daquele, adorei ler este livro.

Muito bem escrito, eu arriscaria dizer que este foi um dos melhores livros que li nos últimos meses. Nos últimos tempos li dois livros que tratavam o mesmo assunto que este, mas nenhum dos dois me deixou preso até ao final para saber como iria tudo acabar. Digamos que a história de Inês e Pedro é sobejamente conhecida e que, por isso, pode deixar pouco espaço à inovação. Mas aqui isso não acontece, pois a forma como a história é narrada (Inês já está morta e apenas tomamos contacto com ela através de analepses que nos transportam ao passado) permite uma visão nova de toda a história e até mesmo das personagens. Veja-se o caso de Pedro que, como é habitual, é aqui abordado de forma bastante dramática e amargurada. Contudo, vai-se um bocadinho mais longe, na sua sede de justiça (ou será melhor dizer 'vingança'?). Mais do que justiceiro, ele é cruel e isso deve-se ao facto de lhe terem tirado a mulher que mais amava em vida. E Inês? O cálculo político também aqui está visivelmente presente, mas como não nos deixarmos enternecer por tal figura, mero peão num jogo de xadrez de alcance muito mais difícil de explicar, porque muito mais vasto que isso, do que a simples ambição de ser rainha?

9 estrelas

O Milagre Segundo Salomé, José Rodrigues Miguéis

A primeira vez que tive contacto com José Rodrigues Miguéis foi há alguns anitos, quando andava na escola secundária. O autor fora professor nessa escola lisboeta e, na comemoração de um aniversário qualquer (teria sido da sua morte ou do seu nascimento?), expuseram no átrio principal do primeio andar todos os seus livros editados. Lembro-me vagamente de o professor de Português ter recomendado a leitura de alguns dos seus livros a título individual (uma vez que não é obrigatório no programa escolar do secundário). Entre os livros expostos, encontrava-se O Milagre Segundo Salomé... O título ficou-me no ouvido. Milagre? Segundo Salomé? Escusado será dizer que fiquei curioso para saber do que se tratava, até que estreeou um filme com o mesmo nome e que lançou alguma luz sobre o tema abordado no livro: uma reinterpretação do milagre de Fátima, não remetesse o livro para os inícios dos "anos loucos".

O Milagre Segundo Salomé é um livro dividido em 2 volumes e nele encontramos vários planos (a adolescência de Severino Zambujeira, algures em finais do século XIX; os artigos de jornal de Gabriel Arcanjo; e a história de Salomé propriamente dita, desde a sua chegada a Lisboa, o bordel, o seu encontro com Zambujeira e finalmente com Gabriel, não esquecendo o "milagre"). Como se percebe, todos os planos acabam por se entrecruzar e, enquanto que a vida de Salomé se apresenta mais interessante (ainda que algo prolixa demais), a infância e os artigos de jornal de Gabriel Arcanjo parecem deslocados e algo desnecessários para a história de fundo que se pretende contar.

Enfim... Considero que este livro está muito bem escrito. No entanto, não posso dizer que este tenha sido um dos melhores livros que li até hoje. Para isso contribuiu o facto de José Rodrigues Miguéis perder muito tempo com contextualiazações históricas demasiado pormenorizadas. Se por um lado, não é desnecessária uma contextualização histórica de toda a Primeira República, por outro acho que isso acaba por tornar muito maçuda a leitura do livro, dando-se demasiada importância a factos que desmotivam para o resto da história. É igualmente pena que os nomes das personagens e dos locais não tenham sido mantidas, embora o autor tenha afirmado que esta sua obra não tinha qualquer objectivo iconoclasta

Como conclusão, o que posso dizer é que este é um daqueles livros que, na minha opinião, estão bem escritos e que trabalham uma ideia muito boa, mas não da melhor forma. O que quero dizer é que José Rodrigues Miguéis poderia ter aproveitado melhor esta ideia de "reintrepretação" das aparições de Fátima (e uma forma interessante teria sido mesmo não alterando o nome da localidade em que se deu o referido "milagre", bem como das restantes personagens).

entre as 5 e as 6 estrelas

2008/06/23

A Voz dos Deuses - João Aguiar

Ouvi falar pela primeira vez deste livro e fiquei muito curioso por causa do tema que tratava... A vida e história de Viriato. Em conversa com uma amiga minha que está a tirar um curso em que tem de ler obras de literatura portuguesa posteriores a 1974, fiquei a saber que esta era uma das leituras "obrigatórias" (não gosto nada da palavra "obrigatório" quando se refere à leitura). Como eu já andava bastante curioso em relação a este livro, as dicas que ela me foi dando acerca dele impeliram-me a ir requisitá-lo à biblioteca e mergulhar no século II a.C., altura em que a Península Ibérica estava dividida em diversas tribos e em que os romanos lutavam para as dominar.

Este livro foi o primeiro romance de João Aguiar, o que de certa maneira pode explicar a razão pela qual a msua maneira de escrever não me ter encantado muito por aí além. De facto, não achei que estivesse escrito de forma inovadora ou até mesmo interessante, do ponto de vista literário. Trata-se de uma história normalzinha, sem nada de significante a realçar: Tôngio, sacerdote do Templo de Endovélico (um dos principais locais de culto ibéricos à época a que a narrativa nos remete) conta, no fim da sua vida, a forma como nasceu, cresceu e viveu numa Península Ibérica invadida pelos romanos, na tentativa de expandirem o seu Império até ao Atlântico. Vai daí, deambula pela Península até encontrar Viriato, famosa figura de que todos nós estamos habituados a ouvir falar desde que somos pequenos e ao qual é dado o epíteto de fundador, mais mítico que histórico, da nacionalidade portuguesa (como se à época houvesse essa coisa dos nacionalismos e como se ele imaginasse que alguma vez aqui, no extremo ocidental da Península, haveria de se formar um país chamado Portugal).

Curioso é o facto de João Aguiar, logo na advertência inicial, dar conta de que o seu objectivo com esta história é retratar um Viriato não mítico, mas mais de acordo com aquilo que se pode extrair dos documentos históricos que existem e que falam desta personagem tão famosa. Ora, o que acaba por acontecer é precisamente o contrário. João Aguiar faz-nos tomar contacto com um herói romantizado que almejava ser rei de toda a Ibéria e que é simultaneamente um general exímio, um diplomata exemplar, sóbrio no que respeitava a reclamar para si os espólios de guerra, fidelíssimo à sua mulher, entre outros aspectos do seu carácter que o tornavam... perfeito.

Pois bem, o resultado final ficou um pouco aquém daquilo que eu estava à espera, mas aparentemente essa foi precisamente a razão pela qual se incluiu esta obra numa cadeira que trata de literatura portuguesa pós-1974.

7 estrelas (para ser bonzinho)

2008/06/11

Bons Augúrios - Neil Gaiman & Terry Pratchett

Como prometido há já bastante tempo, aqui fica a pseudo-crítica a mais um livro de Neil Gaiman que li em Abril passado, desta feita o Bons Augúrios, escrito a meias com outro autor de referência do fantástico, Terry Pratchett.

Ora bem, este livro não deixa de ser engraçado, como é o exemplo de atribuir a invenção da nouvelle cuisine à Fome (um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse) aquando de uma visita a Paris. Eu incluo esse 'episódio', na primeira parte do livro (até aí cerca da página 100), o qual não seixa de ser muito divertido e com um humor negro muito refinado e simultaneamente muito bem disposto. A partir daí, o livro deixa de entreter e divertir para se tornar verdadeiramente um bocejo, salvando-se apenas as notas de rodapé (que mantêm o tom humorístico do princípio do livro) e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (figuras que demonstram verdadeira capacidade de imaginação por parte dos autores, que os souberam adaptar muito bem a esta realidade em que o Anti-Cristo está vivo entre os seres humanos). No que a essas 4 figuras respeita, há apenas que fazer uma pequena correcção: o terceiro Cavaleiro do Apocalipse (aqui representado pela Poluição, mas originalmente a Pestilência) deveria transportar consigo um arco (e não uma coroa, como aqui acontece), para ser coerente com os versículos 4-6 do Capítulo 6 do Livro do Apocalipse. Mas isso não é grave, pois como já tive oportunidade de dizer, são os únicos rasgos de criatividade nestas 300 e tal páginas.

Este não foi, sem dúvida um dos melhores livros que tive oportunidade de ler nos últimos tempos, no entanto o que eventualmente saliento nele, para além do tom bem-diposto em que está escrito e que já referi, é o facto curioso de que a abordagem ao Mal nunca se poderá fazer sem a abordagem ao Bem. Crowley um demónio? Parecia tão anjo quanto Aziráfalo!

Além disso, o livro não deixa de ser interessante também por ser, a determinadas alturas, bastante crítico e mordaz, por exemplo, para com as cadeias americanas de fast food ou até mesmo para com os seres humanos como nós, como se pode atentar na seguinte citação: "Porque o cérebro humano não está equipado para ver a Guerra, a Fome, a Poluição e a Morte, quando não querem ser vistas, e aperfeiçoou a tal ponto essa capacidade que, muitas vezes consegue manter essa cegueira mesmo quando estão por todo o lado ao seu redor".

Vale a pena ler este livro, se para ele se tiver paciência.

7 estrelas (se tantas merece)

2008/04/12

A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias - Tim Burton

Li este livro de uma assentada, claro! Escusado será dizer que gostei bastante (conhecendo já uma grande parte do trabalho cinematográfico de Tim Burton, sou aquilo a que se pode chamar um praticamente-fã do realizador). É incrível como Tim Burton consegue criar estas histórias (e não estórias como vem na capa do livro - fica a nota feita) de inadaptados que no fundo não têm culpa nenhuma de o ser. Pior mesmo só o facto de serem a maior parte das vezes rejeitados pelos próprios pais e, no fim, por todos os que os rodeiam. Nenhuma das histórias termina com um final feliz. Não há qualquer tipo de redenção e acho que é isso mesmo que diferencia o Tim Burton de todos os outros. Trata os assuntos da morte e da dor tão prosaicamente como outro qualquer autor/realizador trataria o tema do amor. É a inversão quase total dos valores que estamos acostumados a aceitar como garantidos. Aqui não há amor, há o contrário do amor, há "desamor"... Nem os pais amam os seus filhos (num dos contos, chega-se mesmo ao absurdo máximo que é o próprio pai comer o filho para se curar de um problema de impotência), desajustados do mundo sem culpa alguma ("O Rapaz Robô", "A Morte Melancólica do Rapaz Ostra", "O Rapaz Múmia", "O Bebé Âncora") nem os inadaptados amam quem os ama a eles ("A Rapariga Lixo") ou, se os amam, é um amor impossível ("Palitinho e Fosforina Apaixonados", "A Rapariga Vodu"). E há os que são simplesmente inadaptados e vivem (e/ou morrem) sozinhos e tristes ("O Rapaz Nódoa", "A Rapariga que se Transformou numa Cama", "Roy, o Rapaz Pesticida", "A Rainha das Almofadas de Alfinetes", Cabeça de Melancia", "Crispim, o Hediondo Rapaz Pinguim", "O Rapaz Torresmo"). Estranho é igualmente o facto de algumas histórias serem ambientadas na época do Natal, precisamente aquela em que supostamente estamos mais sensíveis aos actos de caridade e amor.

Nota especial também para as ilustrações que ajudam a complementar os poemas (ou será que são os poemas que complementam as ilustrações?). Muito interessante este livro.

7 estrelas

2008/04/06

A Praia - Alex Garland

Demorei mais tempo a acabar este livro do que aquele que à partida seria necessário, mas isso deveu-se ao facto de me ter deixado levar calmamente pela escrita deste Alex Garland. Convenhamos: esta não é uma grande obra-prima literária (nem pouco mais ou menos), mas está escrita de tal forma que nos deixa agarrados desde a primeira frase até à última, muito graças à quantidade incrível de acontecimentos. Por estas razões, não é de estranhar que passado tão pouco tempo após a publicação deste livro, ele tenha sido adaptado ao cinema. E percebe-se perfeitamente que foi escrito no início da década de 90, graças às referências a filmes e especialmente aos jogos de vídeo: quem não se lembra de jogar o Street Fighter, o Super Mario ou o Sonic? Além disso, é ali abordado um tema que começou a tornar-se pertinente naquela altura e que hoje sentimos cada vez mais na pele, que é o do turismo de massa (a este propósito, as observações de Richard no que respeita a ser um viajante são também muito interessantes e dignas de nota).

Infelizmente já vi o filme protagonizado pelo Leonardo DiCaprio mais de uma vez, por isso esta leitura foi sempre um bocado contaminada pelas imagens e pelo que eu já sabia que ia acontecer. No entanto, foi sempre deixado espaço à surpresa, na medida em que nem tudo foi mantido igual na transposição para o grande ecrã. Além disso, consegui perfeitamente dissociar a imagem do Leonardo ao Richard! Preferi muito mais o Richard britânico e moreno do que o americano loiro e de olhos azuis. Em todo o caso, e acho que isto só acontece porque já tinha visto o filme antes de ler o livro - caso contrário seria um feroz crítico de tamanhas liberdades - não acho que as alterações tenham desvirtuado muito a história. Bem, talvez exceptue desta observação os apontamentos românticos e sexuais que não existem na versão literária, o que não deixa de mostrar que o filme foi feito mais a pensar em encher o olho aos adolescentes com as hormonas aos saltos do que propriamente para bem da Sétima Arte.

Julgo que este livro não deva ser incluído junto daqueles que tratam sobre a intrínseca maldade humana (tal como O Deus das Moscas), como me fizeram crer quando mo aconselharam. No entanto, não deixa de surpreender um pouco a violência dos capítulos finais. A única personagem com quem simpatizei verdadeiramente foi Étienne, o mais sensato do grupo. Todos os outros me pareceram excêntricos (Unhygienix), calculistas (Sal), desinteressantes (Keaty), loucos (Richard). Estranho é também a associação que Alex Garland faz entre a Praia e a Guerra do Vietname, fazendo surgir do nada (ou melhor, da loucura de Richard) a personagem Daffy. Sinceramente, acho que não cheguei a perceber muito bem essa associação...

Quanto à ideia de viver num sítio paradisíaco longe de tudo e de todos pode ser bastante apelativa, mas não sei se gostaria de passar pela experiência. Talvez por um curto espaço de tempo fosse interessante, mas poderia tornar-se rapidamente aborrecido. Além disso, como fica ali provado, o paraíso de facto não existe.

7 estrelas

2008/03/10

Neverwhere, Na Terra do Nada - Neil Gaiman

Neil Gaiman anda nos últimos tempos na boca do mundo. É até comum referirem-se a este autor como o mais adaptado ao mundo do cinema. De facto, ele é autor de um livro que recentemente foi adaptado ao grande ecrã com Michelle Pfeiffer, Robert de Niro e Clare Danes nos principais papéis. O filme chama-se "Stardust" e tenho a certeza que já muita gente ouviu falar dele.

Deste autor, a primeira coisa que li foi Sandman (uma BD que sei que me agradou bastante, mas que teria de voltar a ler para me relembrar da história toda) já aqui há uns tempinhos. Posteriormente viria a ler também a BD 1603 - uma adaptação dos heróis da Marvel ao século XVII que faz uma grande misturada (até extra-terrestres lá aparecem), juntando o Daredevil com o Quarteto Fantástico e X-Men, não esquecendo Thor e o Capitão América, mas que não deixa de ter o seu interesse para quem gosta de comics.

Apesar de o autor ter inicaido carreira com argumentos para BD, também escreve livros (e muitos) e como tem tantas opiniões a seu favor, decidi "mergulhar" na sua obra. Vai daí, fui até à biblioteca e requisitei Coraline e a Porta Secreta (livro juvenil de que não guardo grandes memórias) e, mais tarde, o tal Stardust - O Mistério da Estrela Cadente e Neverwhere - Na Terra do Nada. Este terminei-o na semana passada.

Sinceramente, não posso dizer que não gostei dos livros. No entanto, sempre que leio um dos seus livros fico reticente quanto a afirmar categoricamente que gostei. É que não me parece que ele escreva assim muito bem. A sensação com que fico mesmo é a de que são livros escritos para crianças, talvez pelas histórias em si (o narrador é não ominisciente, pelo que nos conta tudo em tempo real, sem se adiantar com explicações ou o que quer que seja, e a personagem principal - que entra invariavelmente num mundo mágico, muito diferente do mundo normal em que anteriormente habitava - e à qual é sempre exigida uma demanda para que consiga regressar à realidade, entendida aqui como a felicidade - embora no fim acabe por descobrir que a felicidade afinal não é aquilo que desejou ao longo do livro todo - é sempre tratada pelas restantes personagens mágicas como uma criança ingénua à qual não vale a pena explicar nada). Bem, quanto ao facto de os livros serem para crianças, é melhor reformular, pois isso não será totalmente verdade... É que certas passagens chegam mesmo a ser um bocadinho violentas (orelhas cortadas, dedos partidos, mortes, etc).

De falta de imaginação não podemos acusar este Neil Gaiman. E a ela podemos perfeitamente acrescentar o seu sentido de humor (bastante sarcástico, um humor negro bastante bem conseguido), que é o que faz com que, se dúvidas houvesse, se deixe de suspeitar que o livro foi escrito para crianças.

O próximo livro que lerei do Neil Gaiman será Bons Augúrios (escrito a meias com Terry Pratchett). É que embora ainda não esteja rendido ao autor e à sua maneira de escrever, os seus livros são de fácil leitura e entretêm bastante. Quanto mais não seja, servem para descansar os neurónios de leituras mais exigentes.

entre as 6 e as 7 estrelas

2008/02/26

Os Casos do Beco das Sardinheiras - Mário de Carvalho

Este é um pequeno livro de contos cheio de humor, recheado de personagens tipicamente alfacinhas, que têm tanto de verosímil como as pequenas histórias têm de inverosímil. A mim agradam-me estas pequenas incursões pelo fantástico, mas ao mesmo tempo gosto de ver no fantástico o espelho de algo mais concreto e, às vezes, isso escapa-me neste livro. Cria-se a oportunidade mas não se segue por ela até ao fim, cria-se o esboço mas falha a imagem. Mas, claro, isso sou eu a complicar, a querer ainda melhor, mais que óptimo. E este livro não é assim. É um livro simples, com personagens simples e histórias simples. É um lindo postal ilustrado de uma Lisboa mourisca, labiríntica, cheia de becos e, claro, de sardinheiras.
Querer mais que isto, está claro, é já confundir género humano com Manuel Germano...

Inés da Minh'Alma - Isabel Allende

Este livro foi para mim o reencontro com a grande escritora da Casa dos Espíritos, do Plano Infinito, do Paula. Senti-a um pouco mais perdida, mais repetida, nos Contos de Eva Luna, no Retrato a Sépia, na Filha da Fortuna. Não gostei da trilogia juvenil que escreveu. Achei interessante o Zorro, embora não tivesse a força de escrita daqueles primeiros livros.

Este Inés é um épico e, melhor ainda, um épico biográfico. Essa noção de tangibilidade das personagens e dos acontecimentos, misturada com ambiente mágico e fantástico que é próprio desta escritora fazem deste um grande livro.
Deu-me um enorme gosto lê-lo, li-o com sofreguidão, como já há muito tempo não lia.
Não é fácil escrever assim, com este rigor e ao mesmo tempo com esta capacidade. Percebe-se claramente que há uma enorme recolha de dados por trás deste livro. A mim fez-me lembrar, precisamente pela informação histórica, a Guerra do Fim do Mundo do Vargas Llosa.

2008/02/09

Sul - Viagens, Miguel Sousa Tavares

Ultimamente tenho andado numa fase em que pouca paciência tenho para as leituras. E, além disso, não sei bem porquê, mas ultimamente só tenho conseguido ler fora de casa (transportes públicos, bancos de jardins, cafés - desde que não sejam muito barulhentos - enfim, qualquer sítio que não seja em casa). Por essas razões, recomendaram-me que lesse livros de viagens. Numa das minhas idas à biblioteca vi lá este livro de MST e como já tinha ouvido falar dele, decidi trazê-lo comigo. Chegado ao fim da sua leitura, posso tirar as seguintes conclusões:

- Trata-se de um livro algo irregular, com diversos textos interessantíssimos e outros que não são nada de extraordinário. Por exemplo, o primeiro texto (o da Amazónia), não me conseguiu prender o interesse. De tal maneira que quase pensei em ler as restantes crónicas de viagens mais na diagonal, sem dar propriamente muita atenção ao que estaria ali escrito. No entanto, os capítulos seguintes foram a pouco e pouco conquistando o meu interesse e, embora tenham continuado a surgir banalidades de estilo jornalístico ao longo do livro, os textos tornaram-se mais entusiasmantes.
- Gostei bastante dos capítulos dedicados às antigas colónias portuguesas. Arrebatou-me o texto "Goa, o sonho impossível", assim como "Um rio há-de correr em Cabo Verde" e "São Tomé e Príncipe: as ilhas maltratadas". Ficou verdadeiramente a vontade de visitar aqueles lugares que parecem tão próximos, mas que estão tão distantes. "Alhambra: os jardins de Alá" também tem o seu interesse, já os textos relativos ao Brasil e à Costa do Marfim não me encantaram.
- A principal razão pela qual não terei gostado tanto deste livro talvez tenha sido porque encontramos aqui, na sua maioria (11 textos de 12) a repescagem de reportagens publicadas na revista Grande Reportagem nos anos 90 (dirigida na altura por ele próprio). Até que ponto se se justifica a edição de um livro propositadamente para as reunir, uma vez que, com o passar do tempo, tudo isto soará (já começa a soar) antigo (da mesma maneira que uma notícia de um jornal se torna antiga)?
- O texto mais bem conseguido é, na minha opinião, o último "A pista para Tamanrasset", verdadeira viagem, mais do que ao e pelo deserto, ao íntimo dele próprio. É neste texto que conseguimos sentir o verdadeiro espírito de aventura e sentimento de desapego total (aos bens materiais e aos bens humanos) que uma viagem implica. Um espírito de aventura que, mais do que nos levar ao nosso destino, nos leva ao interior de nós mesmos. A viagem que vale mesmo a pena realizar. A viagem que se tem vontade de repetir.

7 estrelas

2008/02/03

Equador, Miguel Sousa Tavares

Li o Equador do Miguel Sousa Tavares (a edição ilustrada com postais da época) há já algum tempo e, como foi um livro de que gostei bastante, decidi vir aqui deixar a minha humilde opinião sobre o referido livro.

No geral, gostei bastante. A princípio pensava que ia demorar imenso tempo a acabá-lo, mas até nem demorei assim tanto. Julgo que terá sido porque MST acaba por escrever de uma forma, se por um lado demasiado prolixa e, porventura, descabida (ex: "dotada de atributos que o vasto decote do seu berrante vestido verde abundantemente documentava"), por outro bastante vívida e interessante.

Quanto à personagem principal, é o típico herói bem-parecido, bon-vivant, um verdadeiro gentleman, com o qual não podemos deixar de sentir empatia. No entanto, isso limita demasiado o seu desenvolvimento enquanto personagem, porque a torna plana e entediantemente previsível.

Há ainda uma série de episódios ao longo do livro, os quais, embora ajudem a enquadrar a história, são demasiado longos ou surgem após momentos-chave da narrativa, tornando-a pesada e tirando-lhe ritmo (exemplo disso são as vicissitudes do cônsul britânico ou o julgamento dos serviçais fugidos). Além disso, certos episódios são um tanto ou quanto desnecessários (a visita nocturna ao quarto da proprietárias de uma das roças) ou então previsíveis (os excessos de Ann quando estamos quase a chegar ao fim da história). Mas verdade seja dita que, por outro lado, o acontecimento derradeiro é bastante surpreendente, embora após reflexão se chegue facilmente à conclusão de que a história não podia terminar de maneira diferente... Infelizmente...

Pontos positivos: o tema abordado (resquícios de escravatura na mais pequena colónia portuguesa em África) é mesmo muito bom. Portugal, ainda que "nação civilizadora" está ali representado de forma desencantada e pessimista, verdadeiro retrato do Portugal de inicíos do século XX(I?).
O que chateia um pouquinho no livro é somente o facto de MST querer passar-se, quase à força, por Eça, quando na realidade o mestre é difícil (senão impossível) de igualar.

Em suma: gostei do que li, se bem que fiquei com a pequena sensação de que poderia ter sido melhor. Em todo o caso, não me arrependo do tempo que dispensei a este livro.

8 estrelas (ou será 9? estou indeciso)

2008/02/01

O Mesmo Mar, Amos Oz

Eu arriscaria dizer que as opiniões das pessoas que lêem este livro se poderão dividir entre: aqueles que perceberam o que leram e gostaram, aqueles que perceberam e não gostaram e aqueles que pouco perceberam e mesmo assim gostaram. Eu incluo-me neste último grupo.

Este livro é uma autêntica manta de retalhos, bocados de textos que formam um padrão quase disconexo, mas mesmo assim ligados uns aos outros pelos fios da imaginação (ou será da loucura?) deste autor israelita. Os vários planos narrativos da história intersectam-se todos, inclusive o do narrador (que é assumidamente o autor) que, de forma muito estranha, também participa na acção que ele próprio narra, interagindo com as personagens (ou melhor, as personagens interagem com ele) por ele não-criadas.Tudo é estranho neste livro: Nadia, apesar de morta, continua presente, e mantém ou manteve uma relação quase incestuosa com Rico, o qual por sua vez abandonou a namorada e partiu para o Tibete, e por quem Albert acabará por se apaixonar. Tudo está relacionado entre si, por mais absurdo (ou será surreal) que seja. É uma história que não tem princípio, nem fim, ou em que o fim não é o fim e o princípio dificilmente é o princípio. Cada um que a ler que escolha a opção que mais lhe agradar...

No fundo, gostei bastante deste livro por ser esta coisa meio esquisita, em que o que é pode não ser e em que o que não é, não será. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever.

8 estrelas

2008/01/27

O Códex 632 - José Rodrigues dos Santos

Olá caros amigos amantes das letras. Cá estou eu de novo, desta vez para falar de um livro que, com rigor, não posso dizer que li. Antes mo leram. E quem? Pois nem mais nem menos que o actor português Ricardo Carriço.

O Códex 632 foi o primeiro audiolivro que tive oportunidade de escutar e como gostei bastante da história, não resisti a vir aqui deixar uma breve opinião sobre ele. Para começar, há que salientar que apesar de à primeira vista parecer, este livro não é bem como os do Dan Brown. Sim, é verdade que a personagem principal é um professor universitário. E sim, é verdade que é um especialista em criptografia. E também é verdade que é tratado aqui um tema que se pretende totalmente novo, mas que no fundo já não é assim tão novidade nos mais elevados meios académicos. (Se não leram o livro e não se importam de saber de que trata a história, vejam a título de exemplo este livro de Patrocínio Ribeiro, publicado pela primeira vez em 1927, no qual são referidos os mesmo documentos de que JRS faz uso para compor a sua história).

Mas voltando ao que estava a dizer, embora possamos fazer alguns exercícios de intertextualidade com os livros do Dan Brown, é injusto dizer que se trata do mesmo tipo de literatura. A dizer a verdade, não temos aqui uma corrida contra o tempo (nos livros do Dan Brown, o Robert Langdon consegue resolver todos os mistérios em pouco mais que 24 horas, não sem antes ter de despistar os maus que o querem matar). Não temos aqui um inimigo (pelo menos declarado) que ameace a vida do protagonista. O protagonista não está "disponível" para o amor inconsequente, uma vez que é casado e, surpresa das surpresas, tem uma filha com síndrome de Down! Digo surpresa das supresas, porque este não é de facto o herói típico que estamos à espera de encontrar nas páginas de um livro, ou na tela do cinema (e ainda bem, o livro e a credibilidade do autor só têm a ganhar com isso), embora seja jovem e garboso e não seja indiferente às bombas sexuais suecas que lhe surgem pelo caminho.

Para além disto tudo, é curioso que JRS não se fique pela História e também faça incursões por áreas muito mais abrangentes e interessantes, tais como a Filosofia (como manobra de diversão, claro, para encher umas quantas páginas, quando até era bastante fácil perceber o enigma, pelo menos para quem está habituado a ler e anda atento aos títulos dos livros por aí existentes), pela História das Religiões (nada de muito aprofundado, mas já que está de visita a Jerusalém aproveita-se...), pela Gastronomia (a descrição dos vários pratos que vai comendo nos sítios por onde vai passando não são de todo essenciais para o desenvolvimento da narrativa, mas não deixa de ser interessante), pela Medicina (no que respeita à doença da filha) entre outros exemplos.

Curioso é também o facto de ambientar as diferentes conversas que vai tendo com as diferentes personagens em monumentos ou locais importantes da História portuguesa ou lisboeta. Ele podia falar com eles em qualquer café da cidade, mas combina n'A Brasileira ou no Nicola; no Mosteiro dos Jerónimos, no Castelo de S.Jorge, na Quinta da Regaleira ou no Convento de Cristo em Tomar... Tendo este livro sido traduzido para várias línguas (e estando já previsto um filme baseado nele) parece-me que não foi de todo "inocente" a escolha desses locais, mas ainda bem. Ao menos assim os não portugueses ficam a saber um pouco mais da cultura portuguesa e não lhes faz mal nenhum.

Para concluir, devo dizer que acho que este livro, acima de tudo, demonstra que JRS fez um longo e aprofundado trabalho de casa, dando a conhecer ao grande público um assunto que
curiosamente não está de todo divulgado e que é bastante apelativo ao nosso patriotismo. E tirando uma ou outra parte em que o livro parece deter-se em coisas desinteressantes e que nada acrescentam à história, é bastante cativante. O final decepciona um pouco (e duplamente!), mas depois de reflectirmos sobre a história, não nos sentimos de todo defraudados. Vale a pena.

9 estrelas

2008/01/11

A Relíquia - Eça de Queirós

Caros amigos da Companhia das Letras. Depois de ter sido convidado pelo NCD a colaborar com este blog (o que tentarei fazer sempre que achar conveniente), aqui fica o meu primeiro contributo. A ideia deste espaço é precisamente a troca de ideias e opiniões sobre as leituras que vamos fazendo, por isso não se acanhem e comentem, rebatam, divirtam-se acima de tudo.

Que rica Relíquia que Eça nos oferece nestas pouco mais de 250 páginas. Como de resto, já nos tem habituado em todos os outros seus livros, o autor escreve de maneira absolutamente irrepreensível. A adjectivação inesperada, a crítica social, seja ela directa (através da boca das personagens) ou indirecta (através dos próprios actos das personagens em determinadas situaçõeS), veio reforçar a ideia de que este é realmente um dos meus autores portugueses preferidos de sempre.

No entanto, temo bem que este não seja o livro de Eça de Queirós que mais gostei de ler até hoje. Para isso, contribuiu grande parte do corpo central do livro, especialmente a "jornada ao passado" (como lhe chama Topsius), ou seja, o sonho do Teodorico Raposo à Jerusalém de Jesus. Toda a narração é, sem desprimor para a capacidade narrativa de Eça, maçadoramente desinteressante. Exceptua-se apenas a sua parte final, em que um Eça descrente e ateu, republicano e liberal, narra "a lenda inicial do Cristianismo", o mesmo é dizer a (não) ressureição de Cristo.

Este Teodorico Raposo, a personagem principal, é sem dúvida uma das personagens mais castiças que já tive oportunidade de conhecer. Um fanfarrão, muito orgulhoso das suas barbas viris, mulherengo inveterado, mas mais convencido que bem sucedido (como acabam por demonstrar as infidelidades das mulheres com quem vai conseguindo ter relações amorosas), mas acima de tudo, é ridiculamente cómico. A única coisa que chega a chocar mais nesta personagem rocambolesca é o facto de ser tão interesseiro ao ponto de querer "apressar a obra lenta da morte", chegando mesmo a dar-lhe ganas de "espancar aquela velha". É verdade que ninguém merece uma tia como aquela "horrenda" D.Patrocínio, mas desejar tal sorte à senhora, teria como inevitável desfecho aquele que realmente acaba por suceder. Ainda vemos, quase no fim da história, uma espécie de redenção do ilustre mentiroso, mas não é que Teodorico, mesmo depois de ser visitado pela própria consciência, não aprendeu a lição? (Como não poderia deixar de ser, ou não fosse Eça o mestre na descrição das ironias - pelo menos daquelas em que nos deixamos cair - da vida).

8 estrelas

2007/11/30

O Pequeno Ditador - Javier Urra e A criança e a Disciplina - Brazelton e Sparrow

Já tinha ouvido falar muito bem deste autor e deste livro. É escrito por um psicólogo, sobre crianças e adolescentes malcriados, e porque malcriados, ditadores.
O livro levanta problemas graves. Tão graves que o autor qualifica este tipo de deseducação como maus tratos infantis. E penso que faz bem. Aliás, o autor indica várias situações em que esta deseducação deriva em violência.
Porém, não foi um livro de que eu tivesse gostado ou que tivesse lido com prazer ou proveito. O texto é disperso, confuso, repetitivo. Tenho a sensação - mas claro que posso estar enganado - que o autor terá escrito artigos ou crónicas de jornal sobre estes temas e que foi dessa amálgama, revista e alterada certamente, aumentada talvez, que retirou as extensíssimas 400 páginas com que nos brinda.
Mas o problema principal é que o autor não tem muito para dizer, ou, se tem, diz pouco. Identifica o problema, dá algumas coordenadas genéricas, mas nunca por nunca desce ao concreto, à vida de todos os dias. Indica problemas mas não os resolve. Diz que é preciso por limites mas não exemplifica como é que isso se faz. Se o cavalo vai com o freio nos dentes, serve de bem pouco dizer para puxar as rédeas.
Ficamos com a noção de um livro cheio de moralismos, de preconceitos subreptícios, de ideias politicamente correctas, mas muito, muito pouco prático na sua abordagem, o que não deixa de ser estranho (ou talvez não) tendo em conta o currículo do autor. Nunca me canso de verificar como são perigosos os preconceitos politicamente correctos.
Não posso deixar de fazer a comparação com outro livro, também sobre disciplina, muitíssimo mais modesto, com cerca de um quarto do tamanho deste, e que aborda também o assunto da disciplina de uma forma rigorosa, interessante e, sobretudo, prática. O livro A criança e a Disciplina de Berry Brazelton e Joshua Sparrow, com as devidas diferenças - este destina-se a uma intervenção mais precoce - contrasta claramente com o Pequeno Ditador. É uma importante ajuda para pais e futuros pais, na maravilhosa tarefa de educar os filhos. Longe de dizer o que é que os pais andam a fazer mal, Brazelton e Sparrow vão bem mais longe e explicam o que fazer e como fazer. Os meus parabéns obrigados a estes dois autores.

2007/11/29

A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz

Há autores ímpares. Este é um deles. Tem uma ironia subtil embora seja sério naquilo que escreve. Tem uma escrita muito fresca embora faça, por vezes grandes descrições - que são, paradoxalmente, um importante contributo do narrador para a acção. É um clássico de uma actualidade impressionante. Cada vez que leio um livro do Eça pergunto-me sempre como é possível que tenha deixado passar tantos anos sem ler este livro. Adorei ler a Ilustre Casa de Ramires. Como sempre, fiquei motivado para ler mais e mais Eça.

Diário Escríptico

A ideia partiu do meu irmão: quer um texto por dia. Não importa o tamanho o tema é livre e à falta de tema que conte o dia da personagem que entender.

Muito bem. Vamos a isso. É já a seguir, num blog aqui ao lado.

Uma citação atribuída ao Einstein

If you want your children to be intelligent, read them fairy tales. If you want them to be more intelligent, read them more fairy tales.

(obrigado SoniaCarvalho)

2007/11/07

Cemitério de Pianos

Tinha uma espectativa bastante elevada quando comprei este livro, afinal sou fâ incondicional da poesia de Peixoto e, embora algumas das suas crónicas no JL me deixem uma pontinha de desilusão, estava muito curiosa em relação a este tão publicitado livro.


Francisco Lázaro (personagem inspirado no primeiro português a correr a maratona Olímpica em Estocolmo no ano de 1912, que morreu de insolação ao fim dos primeiros 30 quilómetros), é o centro deste romance, tudo o resto gira elípticamente em redor desta família em sequências alternadas e muito ritmadas.

O livro começa com uma atmosfera pesadíssima, diria mesmo macabra que, embora se vá diluindo, se respira em toda a leitura. Esta sabor azedo é-nos dado por esta família que nos vai revelando catátrofe atrás de catástrofe o alcoolismo, a traição, a violência doméstica, o ciúme, a tristeza, a insegurança, as carências afectivas e a morte, sempre a morte.

Apesar de tudo não posso dizer que não gostei do livro. Gostei muito de algumas ideias como a neta que conversa com o narrador, seu avô falecido, embora me pareça que não passa disso mesmo, uma ideia engraçada mas que se mostra infrutífera no desenrolar do livro. Há também um certo optimismo, apesar de tudo, na renovação expressada na metáfora do título, e nos próprios pianos "mortos" que guardam peças que renovarão outros e na forma cadenciada com que a família se renova. E claro, o ritmo dado pela forma alternada (em alguns momentos quase Lobo Antuniesca) com que avô e neto nos são revelados, levando mesmo em algumas alturas à confusão entre os vários tempos e espaços.

Feitas as contas não gostei muito. As expectativas eram demasiado altas? A atmosfera é demasiado negra para mim? O livro é mesmo um flop?

Deixarei no ar para quem quiser responder.

Continuem em boa companhia!

Desafio da página 161

Então, respondendo ao desafio, aqui está a minha contribuição:

"You'r that sort", he said confidently.

Na verdade nem era preciso ele dizer, eu já desconfiava! ; )

Só falta agora lançar o desafio a mais cinco leitores que nos façam boa companhia...

2007/07/11

Meme da pag. 161

a Loca diz que não passa a ninguém mas depois passou.

Desafio da página 161, segundo estas regras:

1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Colocar a frase no blog
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo
6. Passar o desafio a cinco pessoas.

And the winner is "Se tal objectivo não fôr alcançado, o desenvolvimento da sociedade da informação poderá tornar-se num poderoso factor de exclusão social."

O que é grave, já se vê.

Passo ao resto da Companhia e já chega e mais a quem quiser passar por cá. Quem já respondeu, faça favor de pôr um link nos comentários!

2007/02/27

Em nome do bem comum - Arundhaty Roy

Este livro fala das barragens na India e de como estas grandes engenharias põem em causa o país que lá existe, com o sacrifício daqueles que o habitam. Vale muito a pena lê-lo e reflectir sobre ele.

2007/02/14

Leitores.2


As vestes brancas, a barba cuidada, branca também. Os padrões abstractos, enchendo todo o espaço, criando o espaço à sua passagem, à sua expansão. Sentado no chão, contra o rebordo de uma parede. Não é na parede o seu apoio. Toda a imagem é concentração. Os olhos perdendo-se no que contemplam. Megulhado. A palavra nas mãos, os olhos na palavra.

A Cor da Felicidade - Wei-Wei

Este foi um livro de que gostei muitíssimo. A estrutura é, de alguma forma, típica: a mesma família em duas gerações distintas, que vivem e ilustram dois momentos distintos do mesmo país e que se vão aproximando para um desenlace. A China Tradicional e a China Maoísta. Está muito bem escrito, com descrições muito curiosas de costumes e tradições chinesas e descrições muito fortes e envolventes. Emocionante, interessante, denso sem deixar de ser leve. Gostei mesmo.

Intérpetre de Enfermidades - Jhumpa Lahiri

Magnífico livro!: É um livro de contos que reflecte realidades indianas, sejam elas passadas na Índia ou em comunidades emigrantes. O livro é de uma acidez desconcertante por vezes, mas constrói personagens muito credíveis. Gostei particularmente dos contos Intérprete de Enfermidades e do 'Um problema temporário'. Não é por acaso que um dá o nome ao livro e o outro o abre. Merecidíssimos, os prémios que recolheu.

Obrigado Patiblue!

70 historinhas, Carlos Drumond de Andrade

Gostei de lereste livro. O autor mostra uma facilidade em criar situações e enredos verdadeiramente deliciosa. Por vezes as personagens são um pouco estereotipadas, mas penso que isso é um recurso intencional, para evitar a sua construção e permitir um texto mais sintético. Fica porém a sensação de um mosaico de estilhaços, de fragmentos de escrita. Como se algumas das histórias, para serem consequentes, tivessem de continuar.

Mas gostei muito, repito.

O Impressionista - Hari Kunzru

Este livro foi uma excelente surpresa. A história é verosímil, por muito estranha, por muito dura que seja. A personagem principal torna-se, por força das circunstâncias, um camaleão que se adapta às mais diversas situações. Desta forma, o impressionista é um título rigoroso, muito bem escolhido, tal como todo o livro é muito bem construído, de uma forma igualmente rigorosa.

Faz-nos pensar até que ponto somos a nossa situação.

Gostei muitíssimo de o ler. Obrigado Tuanita.

2007/02/13

Leitores e letras


Iniciamos um novo tema visual: a par de livros e bibliotecas, leitores e letras.

Para começar bem fica um retrato de Chardin, acompanhado de um texto sobre este "leitor incomum".

A ideia partiu de um post da PA.

Sugestões de imagens aceitam-se e agradecem-se.

Quatro, não, cinco livros terminados de rajada.

Demoraram imenso a ler, mas quando terminaram foi todos ao mesmo tempo.

Foram eles: Platero e eu, The time traveler, O impressionista e Não te deixarei morrer, David Crockett e 70 historinhas.

Nos próximos dias farei as respectivas apreciações.

P.S. Aproveitarei ainda para fazer posts de alguns bons livros de 2006, ainda não referidos

2007/01/03

O Estrangeiro - Albert Camus

É a história de Meursault, um homem que vive uma vida, que talvez não devesse ser contada. Pois ele vive vazio de emoções, incapaz de sentir amor, saudade, ódio, medo, ou qualquer outra emoção. A sua vida vai-se desenrolando como se ele fosse um estrangeiro, não em relação a um país, mas em relação à humanidade. No fim o crime que comete não o leva ao fim da sua vida, o que leva ao seu fim é a falta de qualquer emoção aquando da morte da sua mãe. Mostrando-nos Camus que tudo o que fazemos num determinado momento se reflecte durante o resto da nossa vida. Outro ponto curioso deste livro é que a sua história é suspensa, ou seja, nós não sabemos o passado de Meursault, a história começa este personagem a afirmar que “Hoje a mãe morreu”, e Camus, não nos dá nenhuma pista do passado de Meursault. O mesmo acontece com o fim, nós podemos supor o que se vai acontecer, apenas supor porque o autor deixa em aberto o que acontece a Meursault.
Um livro que sempre me despertou a atenção, mas que por ironia do destino nunca tive a oportunidade de ler. Bem, pelo menos até à 1 mês atrás, altura em que o encontrei à venda e não perdi a oportunidade.
A experiência não começou nada bem, por devido a uma grande dose de insensatez, o editor decidiu colocar um critica feita por Jean-Paul Sartre como introdução. Um grande erro, porque a critica de Sartre é aquilo que uma critica deve ser, contando partes do livro, dando-nos conta de sequência, dando-nos conta do que Sartre considera os pontos-chave, a sua interpretação e levando-nos a antever parte do final da obra. Ou seja, antes de ler o livro, eu já sabia o que ia acontecer. Assim à medida que eu ia lendo O Estrangeiro a minha única interrogação era quando é que isto ou aquilo ia acontecer. Enfim, uma grande falta de sensatez, que mata o grande prazer de ler um livro, que é o prazer da descoberta.
O livro em si é estranho em parte devido “àquilo” que Sartre caracteriza como “uma escrita cheia de silêncios”. È o primeiro livro do estudo do absurdo que irá acompanhar Camus durante grande parte da sua carreira.

2006/10/07

O Pêndulo de Foucault – Umberto Eco

Um grupo de amigos decide fazer um estudo. Um estudo de todas as teorias esotéricas que pululam pela imaginação da civilização. Procuram conhecer “estórias” da Maçonaria, dos Rosa-Cruzes, dos Templários, etc. Enfim de todas as sociedades secretas que chamam a curiosidade tão normal, das coisas ditas “secretas”. A grande particularidade do estudo feito pelas personagens é que grande parte do que escrevem é fruto da sua imaginação, ou seja, eles próprios vão construindo o fundamento destas sociedades e utilizando uma lógica muito própria eles vão criando ligações entre tudo o que é esotérico, criando assim um mundo fictício. Até que o impensável acontece, esse mundo existe e eles acabam por se emaranhar nesse mundo, que nada mais é do que a concretização da sua ficção…pode parecer estranho isto que eu disse, para se perceber melhor, só lendo o livro.
Umberto Eco escreveu mais um excelente livro, que nos mostra a visão que ele tem dos esoterismos, sociedades secretas e teorias da conspiração. Que todos não passam de criações de homens sem fé, que têm que sentir um “mundo próprio”, cheio de mistérios tangíveis só por uns eleitos, para que a sua crença faça sentido. Fazendo da vida uma busca infinita de um conhecimento fantástico, que quando se chega a uma meta descobre-se que essa meta foi apenas uma etapa e que esse conhecimento afinal está mais além, sempre mais além. Claro que mais uma vez, Umberto Eco, não perde a oportunidade de voltar a mostrar qual a sua visão de Deus, como aliás faz em vários dos seus livros.
Um livro magnífico, muito denso, mesmo complicado de ler em certos pontos, em que duas passagens são essenciais, mas que no fim todo faz objectivamente sentido, uma obra de mestre que vale a pena ser lida.
Como última consideração apraz-me fazer uma pequena provocação, dizendo que tenho a certeza que Dan Brown leu o O Pêndulo de Foucault, só foi pena que tenha parado a meio…