2009/10/05
A Mulher do Viajante no Tempo - Audrey Niffenegger
Ora bem, na semana passada fui à biblioteca e, ao fazer a pesquisa na base de dados, vi que exisita o livro. Não resisit a trazê-lo comigo. E não é que o despachei duma assentada? Apesar de ser um livro com 400 e tal páginas, entusiasmou-me aquela ideia de Henry (a personagem principal e que viaja no tempo) viver a vida desordenadamente. Apesar de não ter percebido uma ou outra passagem do livro, tudo faz sentido! Tenho de tirar o chapéu a esta Audrey Niffenengger, porque ela realmente conseguiu ter uma ideia fantástica (a de um homem a viajar no tempo, ao encontro daquela que virá a ser a sua mulher no futuro dela) e, acima de tudo, por ter conseguido transmiti-la da melhor forma possível.
Claro que se trata de uma história romanticazeca a puxar para o melodramático lá mais para o fim (e isso provavelmente vai ser enfatizado - infelizmente - no filme, com quase toda a certeza). Mas o resto está bastante interessante e podemos tirar bastante sumo destas quase-filosóficas considerações sobre as relações humanas (o amor, especificamente) inserido (ou não) no tempo cronológico.
Não sou de gostar deste tipo de romances, mas tenho de admitir que a autora me conseguiu "seduzir".
8 estrelas
2009/08/01
Contos de Beedle o Bardo - J.K. Rowling
O que mais me agradou neste livro não foram tanto as histórias, mas sim o humor (aqui veiculado pelas notas do Professor Albus Dumbledore) a que Rowling já nos habituou na série do Harry Potter. É engraçado e lê-se num instantinho (uma hora, se tanto). Um livro que não exige muito de nós, mas que nos deixa com a sensação de saciedade por mais histórias relacionadas com o mundo mágico criado pela autora.
7 estrelas
2009/07/29
Se Isto é um Homem - Primo Levi
Esta época da História mundiasl é das que mais me horroriza e atemoriza. E, por mais filmes que veja e por mais livros que leia acerca deste tema, nunca hei-de conseguir compreender tamanha crueldade.
"Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem."
2009/07/23
O Diário de Zlata - Zlata Filipović
"Quinta-Feira, 19 de Novembro de 1992
(...) Entre os meus colegas, os meus amigos, a nossa família, há sérvios, croatas, muçulmanos. É um grupo muito misturado, e eu nunca soube quem era sérvio, quem era croata, quem era muçulmano. Agora, a política meteu o nariz e pôs um «S» nos sérvios, um «M» nos muçulmanos e um «C» nos croatas. Quer separá-los. E para escrever essas letras, usou o pior, o mais negro dos lápis. O lápis da guerra, que só escreve infelicidade e morte."
Para mim foi ainda mais interessante ler este livro, pois eu próprio, em 2007 (mais de 10 anos depois da guerra!), tive oportunidade de visitar Sarajevo e ver com os meus próprios olhos a destruição que uma guerra originada pela mesma razão estúpida de sempre (o nacionalismo, sempre o nacionalismo) provocou, levando a que inocentes sofressem desnecessariamente.
"Segunda-Feira, 29 de Junho de 1992 Dear Mimmy, ESTOU FARTA DOS TIROS DOS CANHÕES! E DOS OBUSES! E DOS MORTOS! E DO DESESPERO! E DA FOME! E DA TRISTEZA! E DO MEDO! A minha vida é isto! Não se pode criticar uma estudante inocente, de 11 anos, por querer viver. Uma estudante que já não vai à escola, que não tem alegria, que não tem as emoções dos estudantes. Uma criança que já não brinca, que não tem amigos, nem sol, nem pássaros, nem natureza, nem frutos, nem chocolates, nem bombons, só um bocadinho de leite em pó. Em resumo, uma criança que não tem infância, uma criança da guerra. Agora é que de facto compreendo que estou a viver uma guerra, que sou testemunha de uma guerra suja e repugnante (...)"
Gostei de ler este livro, por ser uma leitura em que é fácil embrenharmo-nos.
7,5 estrelas
2009/07/15
Breve História de Quase Tudo - Bill Bryson
A última tentação de Cristo - Nikos Kazantzakis
2009/06/24
Budapeste - Chico Buarque
Linguagem simples, fluida. Lê-se de uma assentada.
Conta-se a história de um escritor que, de forma anónima, empresta os seus escritos a outros para que estes possam publicar obras/textos de qualidade como sendo suas. Personagem contraditória, ou melhor, que vive uma contradição interior. Por um lado, gosta do anonimato mas, por outro, não suporta que os que lhe são próximos elogiem os falsos autores do trabalho que na verdade é seu. Acaba por viver num espaço algures entre a realidade e a ficção, entre aquilo que é e escreve e aquilo que representa ver ou não livros assinados com o seu nome.
Confuso? Talvez, mas garanto que o livro não deixa espaço para confusões. Definitivamente, uma agradável surpresa.
2009/06/12
Um Estranho em Goa - José Eduardo Agualusa
Agradaram-me as descrições, breves mas bem direccionadas: dos locais, das pessoas/personagens, dos hábitos do dia-a-dia. São os pormenores, como a descrição de uma simples refeição por exemplo, que tornam a história verosímil, apesar de nunca sabermos ao certo se o que “vemos” desfilar à nossa frente é realidade (ainda que só na vida das personagens) ou fantasia.
Livro rico em referências bibliográficas e musicais, certamente úteis para descobrir mais um pouco acerca da Índia. Tivesse eu tempo e possibilidade de viajar fisicamente até lá e lê-los-ia e ouvi-los-ia a todos avidamente.
Encantador. No sentido original, na medida em que lança sobre nós um feitiço e nos deixa inebriados com os cheiros, o calor e os sons típicos de locais quentes como a Índia, o Brasil ou África.
“Nenhuma moeda tem apenas um lado. Assim como não há vida sem morte nem luz sem sombra, da mesma forma o bem não faz qualquer sentido se não houver o mal.”
2009/06/05
As Velas Ardem Até ao Fim - Sándor Márai
Para não estragar a surpresa a quem venha a ler o livro, não me posso alongar muito na história, podendo apenas dizer que se trata da história de uma amizade. Não de uma amizade passageira, mas sim de uma amizade profunda entre dois homens que se conheceram nos finais do século XIX, no Império Austro-Húngaro, e que se reencontram muito tempo depois.
O livro está muito bem escrito e, apesar de não parecer muito verosímil (com capítulos seguidos narrados em monólogo, o que nos faz pensar estar a ver um filme de Manoel de Oliveira ou de Ingmar Bergman), acaba por ser muito interessante, pois além de levantar algumas questões filosóficas acerca da ideia de Amizade, ainda nos faz ponderar, de maneira mais pragmática graças aos acontecimentos que depois nos são narrados, se realmente a Amizade existe e se a tudo resiste. Diria que, neste aspecto, o livro acaba por dar uma visão pessimista disso mesmo.
Em termos literários, este é um livro difícil (algumas pessoas dirão 'enfadonho'), pois não acontece (ou demora a acontecer) alguma coisa que justifique o estarmos a lê-lo. Mas como está tão bem escrito, e após a curiosidade inicial, alcançamos a velocidade de cruzeiro e só conseguimos descansar quando chegamos ao momento em que "as velas arderam até ao fim".
Gostei. Acho que este livro vale a pena!
8 estrelas
Crónica de uma Serva - Margaret Atwood
Porém, neste livro, com uma história original passada numa época futura, pós-feminista, apreciei sobretudo a estrutura. Há uma comunicação constante entre a narradora participante e quem a lê/ouve. Esta técnica agrada-me sempre. E há, ainda, o relato dos acontecimentos, que têm lugar no tempo da acção, intercalado com o relato das memórias da personagem que, inevitavelmente, nos fazem reflectir sobre o papel da mulher na sociedade.
2009/05/16
O Velho que Lia Romances de Amor - Luis Sepúlveda
No passado li História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar (um livro com uma mensagem universalista de tolerância para os que são diferentes de nós, mais direccionado para o público infantil) e também Encontro de Amor num País em Guerra (um livro com diversos contos sobre variadíssimos temas, especialmente o amor), mas nenhum me tinha feito fica absolutamente fã do autor. Com este O Velho que Lia Romances de Amor Luis Sepúlveda conseguiu surpreender-me e muito!
Encontramos aqui a história de uma aldeiazinha perdida nos confins da selva amazónica, onde habita um velho viúvo que gosta de ler romances de amor, daqueles "de chorar rios de lágrimas" e "com pessoas que se amam mesmo" e ainda que "sofrem muito", mas sempre com "desfechos felizes". As peripécias vão levar a que este velho, conhecedor da selva, seja obrigado a internar-se nela para trazer paz aos restantes habitantes de El Idilio. Mas com uma forte consciência ecológica e de respeito pela natureza, ele nunca mais será o mesmo depois de cumprir a sua missão.
Não sei se se pode dizer que há nesta história alguns ecos do mais que famoso O Velho e o Mar (não só no título, mas também na demanda levada a cabo por ambos os velhos), mas devo dizer que enquanto o livro do Hemingway não me diz nada, o livro de Sepúlveda conseguiu cativar-me completamente.
10 estrelas
2009/04/16
Cândido - Voltaire
É interessantíssimo ver a crítica mordaz do filósofo francês à "metafísico-teológico-cosmolólogonigologia" (visando sobretudo os filósofos alemães Leibniz e Wolff) e satirizando a ideia de que «quantos mais males particulares houver, mais o bem geral aumentará», visto que «as coisas não podem ser de outra maneira: porque, tendo tudo sido feito para um fim, necessariamente o foi para o melhor dos fins». Curioso é também a personagem principal, no seu périplo pelo mundo, chegar à cidade de Lisboa no fatídico dia 1 de Novembro de 1755 e assistir ao famoso terramoto.
«Enfim, menina, tenho experiência, conheço o mundo. Podeis entreter-vos a pedir a todos os passageiros do navio que contem a sua história, e não encontrareis um só que não maldiga a sua vida e se não julgue muitas vezes o mais infeliz dos homens. Se assim não for, deitem-me ao mar de cabeça para baixo.»
Só não leva mais estrelas, porque sinceramente estava à espera de um livro um bocadinho melhor (tal era a expectativa que tinha em relação a ele) e não tão semelhante ao O Ingénuo.
7 estrelas
2009/04/07
À Procura de Sana - Richard Zimler
No geral, gostei. Na realidade, não tinha grande curiosidade em ler este livro, mas após alguma "insistência" de uma amiga (que me disse para o ler, mas que me avisou que não era tão bom como os outros), decidi-me a dar-lhe alguma atenção. Pelo facto de não estar à espera de uma grande obra literária, as expectativas acabaram por ser superadas.
É uma história um bocado complexa (e a determinadas alturas um pouco desinteressante, especialmente quando é narrada a história da infância de Sana, por exemplo), mas o senhor Zimler já nos habituou a isso mesmo, não é verdade? O que acabou por me cativar mais neste livro foi mais o "ambiente" do que propriamente a história da busca de Sana. Ou seja, achei bastante interessante o retrato das relações entre palestinianos e israelitas e tudo o que está implicado, mais do que do resto (telefonemas e viagens para aqui e para ali e sei lá mais o quê). Quem gosta do Zimler, não se sentirá defraudado com este livro. Mas a quem não conhecer (ou não gostar), não recomendo que este seja um primeiro livro.
7 estrelas
2009/04/06
O Último Minuto na Vida de S. - Miguel Real
Ainda demoramos algum tempo a perceber quem será "ésse ponto" mas após as primeiras pistas, não restam dúvidas. Para não estragar a surpresa a futuros leitores (porque julgo que um dos méritos do livro é precisamente fazer-nos descobrir que personagem é), só posso dizer que é surpreendente a revelação da pessoa que é e que nunca será nomeada no texto (nem ela, nem as pessoas mais próximas que a acompanham), mas de que todos já ouvimos falar quase de certeza, por esta ser uma história sobejamente conhecida.
E no entanto... No entanto, o que não é sobejamente conhecido é o amor que vemos retratado ao longo das páginas deste livro, um amor fortíssimo, mas condenado a não sobreviver. Num espaço de 60 segundos, a vida de "ésse ponto" passa-lhe à frente dos olhos, misturando passado com presente, até ao momento derradeiro. Este é um livro para ler com atenção, não fosse ele também o retrato de um Portugal mergulhado numa ditadura e incapaz de se modernizar (europeízar) após da queda da mesma.
Já tinha ouvido falar de Miguel Real, mas não tinha grande curiosidade em ler nada dele. Agora sei que isso era um erro, pois acabei por ficar bastante surpreendido com a maneira de escrever dele e, só por isso, valeu a pena o tempo que lhe dediquei. E fiquei com vontade de ler mais (apesar de os outros livros parecerem romances históricos pesadões) - Quem sabe se também quanto a isso não estarei igualmente enganado?
7 estrelas
2009/03/17
Nocturno Indiano - Antonio Tabucchi
Este foi o segundo livro que li de Antonio Tabucchi e, apesar de não ter gostado tanto como o Afirma Pereira (mas acho que isso seria muito difícil...), foi uma leitura muito interessante. A narrativa é contada de uma forma que me atraiu particularmente, já que nós, enquanto leitores, somos completamente apanhados desprevenidos à medida que vamos avançando de capítulo em capítulo. Isso acontece especialmente no capítulo final. Acho que é precisamente isso que destaco (essa capacidade de nos deixar completamente desorientados, como se nós próprios estivéssemos a realizar naquele momento uma viagem, tal qual o "protagonista", não do ponto de vista físico ao subcontinente indiano, mas uma viagem à narrativa desordenada daquelas personagens), a par de raras serem as explicações que nos são fornecidas. Afinal, o que faz aquele Português na Índia? E por que razão foi aquele Italiano atrás dele? Quem são Isabel e Magda? Serão aqueles dois homens amigos, ou isso é coisa do passado? Este é um livro de interrogações que não têm resposta. Só nos é dado ver o que «está dentro da moldura» e não nos é dado ver o que aconteceu para lá dela.
A Índia presta-se muito a este tipo de exercício, não é? O de ir em busca de uma identidade que se desconhece ou que está oculta. Esta história fez-me precisamente recordar alguns filmes que já tive oportunidade de ver e que se podem relacionar com ela (The Darjeeling Limited, Lezioni di Volo, etc.) e até mesmo alguns livros que já li.
Entre as 8 e as 9 estrelas
2009/03/05
Não matem o bébé! - Kenzaburo Oé
O livro não trata de um dilema, embora ele esteja sempre presente e acabe por se resolver. Ao mesmo tempo é um livro onde as decisões, as motivações as intenções nunca são inteiramente explícitas, embora o pareçam. Fica sempre algo mais, algo por dizer, algo por fazer. Nunca pode ser tão simples, apesar de obstinadamente o ser, de sucessivamente o ser. Até que.
E mais não posso dizer. Talvez isto não seja muito claro, talvez seja estranho, mas é assim mesmo, este livro, estranho. O livro exibe um distanciamento por parte dos personagens que não parece ser muito normal, no entanto todas as personagens o parecem assumir como se fosse. Então das duas uma: ou todo o livro é pura e simplesmente inverosímil, o que me parece difícil de aceitar, ou mostra uma mentalidade de fundo muito diversa daquela a que estamos habituados. Acredito mais nisto, e isso é o que mais me impressionou, o que mais fica desta leitura: uma mentalidade muito diferente.
2009/03/03
A sombra do Vento - Carlos Ruiz Zafon
8/10 estrelas
2009/02/11
Notas de cozinha de Leonardo da Vinci - Shelag & Jonathan Routh
2009/02/10
O Carteiro de Pablo Neruda - Antonio Skármeta
Este foi, sem dúvida, o melhor livro que li durante o mês de Janeiro. Aliás, passou já para a lista das recomendações, onde estão todos os livros que considero que valem a pena serem lidos. Antonio Skármeta tem uma fantástica capacidade em contar uma história simples, mas ternurenta, vvalendo-se de uma linguagem castiça e que prende desde o início ao fim. O livro tem o tamanho ideal. Felizmente que Skármeta teve consciência em não se alongar demasiado, correndo o risco de tornar maçadora uma história tão bela, acerca da admiração de um carteiro pelo poeta mais famoso do seu país... Ou será da admiração do poeta mais famoso do seu país pelo seu carteiro (um pobre de espírito, mas com um rico coração)?
10 estrelas.
2009/01/24
A Vida Secreta das Abelhas - Sue Monk Kidd
E não é que me surpreendeu? Não sei bem do que é que estava à espera de encontrar nestas páginas, mas de facto as minhas expectativas foram sobejamente superadas. Se primeiro pensava que era um livro levezinho e mais direccionado para o público feminino, enganei-me. Esta história de Sue Monk Kidd vai mais longe do que aquilo que se está à espera, especialmente graças ao pano de fundo histórico utilizado pela autora: década de 60 na Carolina do Sul (um dos Estados segregacionistas e mais racistas dos EUA). As personagens são vítimas de preconceito e injustiça (que hoje nos parecem absolutmanete ridículos e que custa a acreditar que há apenas 50 anos era o que acontecia na principal nação "civilizadora" do mundo). Acho que foi isso que acabei por apreciar mais no livro todo.
Depois temos a parte mais romântica da história: Lily e a sua demanda pela felicidade. Claro que acaba tudo por soar a cliché, além de parecer demasiado folhetinesco e inverosímil, mas pronto, nada que não consigamos perdoar à Sue Monk Kidd, pois, apesar de uma ou outra passagem menos bem conseguida, ela até tem jeito a contar a história.
Concluindo: não dei o tempo a ler este livro como mal empregue, pois no fundo fiquei surpreendido pela história que conta. Não é o meu livro favorito de sempre, mas acho que o relembrarei um dia mais tarde como um livro interessante.
8 estrelas
2009/01/19
Passeios Aleatórios pela ciência do dia a dia - Nuno Crato
2009/01/18
O Périplo de Baldassare - Amin Maalouf
O livro conta a história de um homem que parte numa viagem pelo Mediterrâneo (e não só) em busca de um livro que atenuará os efeitos nefastos do Ano da Besta (1666). Este é o mote para que Amin Maalouf nos faça viajar pelas superstições europeias e médio-orientais, reconstituindo, não com grande rigor, mas ainda assim de forma satisfatória, todo o ambiente social, cultural e resligioso de meados do século XVII, na Europa e especialmente no Médio Oriente, dominado pelos Otomanos.
Claro que parece um pouco irrealista que a viagem de Baldassare seja motivada apenas pela crença supersticiosa de que um livro salve aquele que o possui, e além disso os acontecimentos que impelem o nosso protagonista a viajar cada vez para mais longe sucedem-se de forma algo inverosímil ou até mesmo folhetinesca. Mas conseguimos perfeitamente perdoar isso ao nosso amigo Maalouf, pois se há coisa em que ele tem jeito, é a narrar uma história e, por mais inverosímil que seja, não desilude em nada.
8 estrelas
2009/01/17
Uma Casa no Fim do Mundo - Michael Cunningham
A primeira parte desta livro foi a que realmente me surpreendeu pela forma como os acontecimentos são narrados... Se bem que na segunda parte continuam a ser abordados temas polémicos (SIDA, comportamentos sexuais promíscuos, o amor entre três pessoas, duas delas do mesmo sexo), julgo que não está tão bem arranjada como a primeira, o que torna o ritmo do livro um pouco mais lento, ainda que não necessariamente menos interessante.
No que respeita às personagens, Clare foi a que me pareceu menos verosímil, aquela que tinha uma identidade mais fictícia e sem a profundidade da personagem de Jonathan ou de Alice. Também Bobby acabou por me desiludir um pouco, pois estava à espera que fosse ele a personagem-chave da narrativa. No entanto, devo dizer que, se calhar, o mérito de Michael Cunningham está precisamente no facto de não haver uma personagem que se sobreponha às restantes e cada uma, à sua maneira, constrói uma história contada na primeira pessoa, mas em diferentes perspectivas, como a construção lenta de um puzzle. De facto, admiro qualquer autor que consegue a proeza de escrever um livro inteiro na primeira pessoa do singular, sendo que este Uma Casa no Fim do Mundo vai ainda mais longe com quatro eus a desenrolar o emaranhado novelo da(s) sua(s) vida(s).
Nota especial ainda para o facto da importância das músicas que vão sendo referidas ao longo do livro. É interessante ir confrontando a letra de cada uma com a parte da história em que está inserida para perceber que não foram ali postas ao acaso.
Sem dúvida que este Michael Cunningham foi uma agradável surpresa. Há já muito tempo que um autor americano não me surpreendia desta maneira (acho que o Dan Brown e companhia nos fazem esquecer que os EUA também têm bons escritores).
Por todas essas razões, acho que este é um livro bastante interessante e que vale a pena ler.
9 estrelas
2009/01/15
Os 12 livros que tenciono ler em 2009
1. Guerrilla Learning, John Gatto
2. A última tentação de Cristo, Nikos Kazantzakis
3. O meu Michael, Amos Oz
4. Não matem o bébé, Kenzaburo Oé
5. Os Jardins da memória, Ohran Pamuk
6. Cultivo de Setas y Trufas, Garcia Rollan
7. Plantas Silvestres Comestibles
8. Breve História de Quase Tudo, Bill Bryson
9. A matemática das coisas, Nuno Crato
10. Este ofício de poeta, Jorge Luís Borges
11. Diário I, Miguel Torga
12. Do Espiritual na Arte, Wassily Kandinsky
13. Para Sempre, Vergílio Ferreira
14. A Terra e o Cosmos, Isac Asimov
15. O rochedo de Tanios, Amin Maalouf
16. O Guia do Pai, Kevin Nelson
17. O que farias se tivesses um pincel mágico que desse vida a tudo o que pintasses?, Jane M. Healy
18. Breve História dos Tractores em Ucraniano, Marina Lewycka
20. Sputnik, Meu Amor, Haruki Murakami
21. A vida do Irmão Roger, Kathryn Spink
22. Santo António de Lisboa, Ervino Helmle
23. A ilusão da economia, Karl Polanyi
24. Religião, Estado e Martírio no Islão, Ira M Lapidus e Farhad Khosrokhavar
25. Conversas no Adro da Igreja, JacquesGaillot e Eugene Drewermann
26. Ética, Espinosa
27. Minha vida e minhas experiencias com a verdade, Mohandas Karamchand Gandhi
2009/01/14
2009 Aqui vamos nós!
Desfazer-me da TBR* sem que isso signifique necessariamente desfazer a tbr, ou seja, ler os livros.
Eleger 12 livros que não quero deixar de ler este ano e lê-los.
Ler mais livros de ciência, filosofia e humanidades, por contraposição à ficção.
Ler pelo menos 2 livros por mês, de preferência 3. Seria extraordinário se chegasse a 1 por semana.
Fazer bons comentários, ainda a fresco, quer nas JE´s quer no Companhia das Letras.
* tbr é a lista de livros para ler (to be read). Reservo essa designação para os livro do Bookcrossing.
2008/10/13
Zorro - Isabel Allende
Não faltam ainda muitas aventuras, tanto por terra, como por mar, em contacto com índios, ciganos, piratas, e todas as outras personagens que estamos habituados a ver num livro que se desenvolva na primeira metade do século XIX no Novo Mundo. Que canseira! Mas de alguma maneira Diego tinha de aprender todas as habilidades possíveis e imaginárias (desde o simples truque de ilusionismo de algibeita, até às complicadas acrobacias circenses) se desejava ser um Zorro que se prezasse...
Considerei a parte da infância de Diego bastante empolgante, mas o resto do livro (principalmente a partir do momento em que vai para Espanha) torna-se algo chato, não nos sendo nada mais que uma mera sucessão de acontecimentos, alguns interessantes, outros nem tanto, não passando de bocejos prolongados. O que é um problema para mim, já que não consigo ler na diagonal e saltar as partes mais desinteressantes de seja qual for o livro.
Enfim, permanece em mim a sensação de que Isabel Allende é um pouco sobrevalorizada enquanto escritora, mas o apelido terá sempre o seu peso. Em todo o caso, gostei deste livro por a autora se ter cingido mais ao real e não se aventurar pelo fantástico (como aconteceu n' A Cidade dos Deuses Selvagens, livro que detestei).
Não sei... Aí por volta das 7 estrelas.
2008/10/06
O Último Cabalista de Lisboa - Richard Zimler
Comecemos pelo princípio. Richard Zimler é um escritor norte-americano naturalizado português e radicado actualmente no Porto. Decidiu escrever sobre uma família de judeus portugueses. No entanto, não o fez de forma convencional. Imaginou vários ramos da família ao longo da História e, assim, escreveu a saga da família Zarco desde o início do século XVI até aos finais do século XX. Confusos?
A história da família Zarco começa com o livro O Último Cabalista de Lisboa, policial ambientado no século XVI que, para além de nos dar o mote para os restantes livros, relata de forma um pouco cruel (mas, por isso mesmo, realista), algo que tem sido afastado dos manuais de História: o massacre de judeus que ocorreu na capital portuguesa em 1506, incitado pelos dominicanos no Rossio. Foram mortos nesses dias de Páscoa cerca de 2000 judeus por serem os "culpados" da seca que grassava na cidade.
Esse é o ambiente, mas não o fulcral da narrativa. Berequias Zarco, jovem cristão-novo, descobre o seu tio assassinado no esconderijo da sua casa, em Alfama. Isso leva-o (a ele e a nós, felizmente, diria eu) a passear por uma Lisboa ainda agarrada à ignorância medieval numa busca incessante pelo assassino, enquanto os cristãos-velhos se vão entretendo a queimar judeus ou a decapitá-los.
O que é fantástico de ver neste relato é a capacidade incrível de um escritor norte-americano conseguir reconstruir a Lisboa da época e também os seus arrabaldes (Campolide, Benfica, Belém), mas também o facto de inventar uma história que, não sendo absolutamente verosímil, não deixa de ser interessante. É verdade que existem demasiadas personagens (o que pode confundir um pouco a leitura; a mim confundiu, pois por vezes eram resgatadas na narrativa personagens que tinham aparecido anteriormente, mas que eu já tinha esquecido), mas isso acaba por servir da melhor forma a história, tornando-a mais credível.
Este foi um dos meus livros preferidos da saga Zarco. Porque se passa em Lisboa, porque está magistralmente bem escrito (tudo na primeira pessoa, uma das formas de narrar mais difíceis de concretizar), porque agarra desde o princípio até ao fim, porque trata de um assunto sério nas entrelinhas, porque, apesar disso, consegue ter alguns momentos bastante humorísticos (veja-se o encontro de Berequias com o ferreiro de Benfica), enfim... porque sim. Gostei muito de ler este livro e, por isso, não posso deixar de recomendar a sua leitura.
9,5 estrelas
2008/09/23
Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto - Mário de Carvalho
Desengane-se aquele que acredita nas palavras do narrador quando afirma que quer que este livro seja "mui sisudo e composto". Antes pelo contrário, de sisudo nada tem. Dei comigo a dar valentes gargalhadas, comedidas, porém, porque me encontrava em locais públicos quando lia esta prosa bem disposta. Algumas passagens são hilariantes, como por exemplo aquela em que Eduarda não sabe o que significa 'hediondo' e 'pejorativo'.
Quanto à história em si, não vou dizer que é a mais original que li nos últimos tempos (resumindo: o reencontro de dois colegas da faculdade muitos anos após se terem conhecido, numa altura em que estão a passar por uma crise de meia-idade), mas julgo que isso acaba por provar que, mais importante que contar uma história, é a maneira como ela é contada.
De facto, surpreendeu-me muito esta maneira inovadora de narrar uma história em que, o narrador, omnisciente e omnipotente, acaba por não intervir de forma nenhuma, qual deus demasiado preguiçoso para se imiscuir das desgraças humanas, limitando-se a contar-nos a história, não se abstendo, porém, de fazer os seus comentários, mais do que irónicos e mordazes, terrivelmente cómicos. Penso que só lendo o livro é que se percebe o que quero dizer, já que não faz muito sentido transcrever para aqui parágrafos inteiros que o demonstrem.
Este não terá sido o melhor livro que li nos últimos tempos, mas foi sem dúvida aquele que me surpreendeu mais. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever. Recomendo a sua leitura, para que se fique a conhecer um tipo de humor verdadeiramente delicioso, que não necessita de recorrer ao brejeiro para nos fazer rir.
2008/07/25
A 25ª Hora, C. Virgil Gheorghiu
Este é um daqueles livros que não deve mesmo perder-se.
E isto por diversas razões: Não só porque está muito bem escrito, não só porque a história é interessante, mas também pelo seu valor como documento histórico e como reflexão sobre a nossa sociedade.
Com efeito, no que diz respeito ao holocausto é um documento histórico impressionante. O que mais me chocou ao longo de todo o livro, como uma nota de pedal, ao longo de toda a harmonia do livro, é que ninguém contesta que a personagem principal fosse presa se ele fosse judeu... apenas se reclama que ele não , e que consequentemente a sua prisão era uma injustiça. Note-se que este movimento conjunto das personagens nada parece ter de intencional por parte do autor, que é bastante mais explícito quanto ás contradições que quer por em evidência. Esta nota simplesmente perpassa todas as personagens e a forma como elas actuam.
Por outro lado, este livro faz uma descrição e crítica da "sociedade técnica ocidental", conceito que também define. Neste sentido, este livro é uma reflexão extraordinária, no que tem de actual. A sociedade técnica ocidental de que fala Gheorghiou é hoje em dia uma constante nos mais pequenos assuntos da nossa vida, desde as relações com as empresas até à relação com as administrações públicas, os call centers, os protocolos, médicos e não só... Não quero entrar em grandes pormenores porque não poderia fazê-lo com a competência do autor, mas quero apenas dizer que este livro é para mim um livro essencial para a compreensão da nossa sociedade.
Além disto queria ainda chamar a atenção para um pormenor: trata-se de uma tradução feita pelo Vitorino Nemésio, também ela muito interessante na forma como utiliza o português.
2008/07/07
Todos os Nomes - José Saramago
A certa altura, diz o Sr. José (personagem principal deste livro) ao seu tecto (!) o seguinte: "Vivia em paz antes desta obsessão absurda, andar à procura de uma mulher que nem sabe que existo" (pág.158). Precisamente! Quem é que se lembra de escrever um livro sobre um homem que trabalha numa Conservatória Geral do Registo Civil e que, de repente, se sente impelido a procurar uma mulher da qual não sabe nada e, chegado ao fim, pouco fica a saber dela? Essa é a premissa do livro, a qual não achei especialmente genial, o que me fez ficar com o pé atrás à medida que ia lendo o livro.
No entanto, não se pense que só encontrei aqui aspectos negativos. De facto, houve alguns aspectos do ponto de vista literário e não só que me agradaram. Achei curioso todo o espaço físico em que a história foi ambientada, numa cidade cujo nome nunca ficamos a saber, onde existe um cemitério gigantesco e de estranha configuração e uma Conservatória Geral do Registo Civil enorme e em constante expansão. Eu diria, não sei porquê, que esta história se passa por alturas dos anos 30, talvez porque Saramago imprima esse universo às suas obras, quando não é declarada a data exacta dos acontecimentos que narra.Também não deixa de ser interessante o facto de Saramago ter conseguido escrever um livro em que a única personagem que tem efectivamente nome seja o Sr. José (penso que no Ensaio Sobre a Cegueira, livro que pretendo ler brevemente, vai ainda mais longe a absolutamente ninguém que lá surge tem nome!).
Depois achei também interessantes algumas críticas subjacentes à organização hierárquica do trabalho ("A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de uma categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte."), à fama, à burocracia, até mesmo aos debates estéreis entre a elite cultural, a par de muitas outras e diversas considerações sobre a morte ("O que está para além da morte, nunca ninguém viu nem verá, de tantos que para lá foram, nunca nenhum voltou cá") e, mais especificamente sobre o suicídio (representado pelo pastor que o Sr. José encontra no cemitério) e de todo um pessimismo que atravessa o livro, a que Saramago de certo modo, já nos foi habituando. "(...) o que deves pensar é os pesadelos da infância nunca se realizam, muito menos se realizam os sonhos".
No entanto, isto tudo não foi suficiente para que, no geral, o livro me agradasse e o considerasse uma das melhores leituras dos últimos tempos. No fundo, esta é a história de um homem que inicia uma busca por uma mulher que nunca encontrará, para além de contar inúmeras situações e episódios completamente desnecessários e maçudos, que nada acrescentam (bons exemplos disso são o diálogo absurdo entre o Sr. José e o enfermeiro ou quando ele assalta a escola e fica lá a dormir uma noite), para além de longos parágrafos em que não abunda a pontuação.
Quero, contudo, deixar aqui a salvaguarda que considero Saramago um dos autores mais inspirados na literartura portuguesa contemporânea. É um facto que não gostei muito deste livro, mas é de salientar que o mesmo foi publicado em 1997, o ano anterior em que o autor recebeu o Prémio Nobel, pelo que inevitavelmente faz parte das obras que contribuíram para que ele o recebesse. E sem dúvida que mereceu receber o referido prémio. Ler Saramago é algo que não me cansarei de recomendar, porque vale sempre a pena, quanto mias não seja para conhecer a sua maneira de escrever, que se adora ou se detesta.
6 estrelas
2008/06/24
Inês de Portugal - João Aguiar
Muito bem escrito, eu arriscaria dizer que este foi um dos melhores livros que li nos últimos meses. Nos últimos tempos li dois livros que tratavam o mesmo assunto que este, mas nenhum dos dois me deixou preso até ao final para saber como iria tudo acabar. Digamos que a história de Inês e Pedro é sobejamente conhecida e que, por isso, pode deixar pouco espaço à inovação. Mas aqui isso não acontece, pois a forma como a história é narrada (Inês já está morta e apenas tomamos contacto com ela através de analepses que nos transportam ao passado) permite uma visão nova de toda a história e até mesmo das personagens. Veja-se o caso de Pedro que, como é habitual, é aqui abordado de forma bastante dramática e amargurada. Contudo, vai-se um bocadinho mais longe, na sua sede de justiça (ou será melhor dizer 'vingança'?). Mais do que justiceiro, ele é cruel e isso deve-se ao facto de lhe terem tirado a mulher que mais amava em vida. E Inês? O cálculo político também aqui está visivelmente presente, mas como não nos deixarmos enternecer por tal figura, mero peão num jogo de xadrez de alcance muito mais difícil de explicar, porque muito mais vasto que isso, do que a simples ambição de ser rainha?
9 estrelas
O Milagre Segundo Salomé, José Rodrigues Miguéis
O Milagre Segundo Salomé é um livro dividido em 2 volumes e nele encontramos vários planos (a adolescência de Severino Zambujeira, algures em finais do século XIX; os artigos de jornal de Gabriel Arcanjo; e a história de Salomé propriamente dita, desde a sua chegada a Lisboa, o bordel, o seu encontro com Zambujeira e finalmente com Gabriel, não esquecendo o "milagre"). Como se percebe, todos os planos acabam por se entrecruzar e, enquanto que a vida de Salomé se apresenta mais interessante (ainda que algo prolixa demais), a infância e os artigos de jornal de Gabriel Arcanjo parecem deslocados e algo desnecessários para a história de fundo que se pretende contar.
Enfim... Considero que este livro está muito bem escrito. No entanto, não posso dizer que este tenha sido um dos melhores livros que li até hoje. Para isso contribuiu o facto de José Rodrigues Miguéis perder muito tempo com contextualiazações históricas demasiado pormenorizadas. Se por um lado, não é desnecessária uma contextualização histórica de toda a Primeira República, por outro acho que isso acaba por tornar muito maçuda a leitura do livro, dando-se demasiada importância a factos que desmotivam para o resto da história. É igualmente pena que os nomes das personagens e dos locais não tenham sido mantidas, embora o autor tenha afirmado que esta sua obra não tinha qualquer objectivo iconoclasta
Como conclusão, o que posso dizer é que este é um daqueles livros que, na minha opinião, estão bem escritos e que trabalham uma ideia muito boa, mas não da melhor forma. O que quero dizer é que José Rodrigues Miguéis poderia ter aproveitado melhor esta ideia de "reintrepretação" das aparições de Fátima (e uma forma interessante teria sido mesmo não alterando o nome da localidade em que se deu o referido "milagre", bem como das restantes personagens).
entre as 5 e as 6 estrelas
2008/06/23
A Voz dos Deuses - João Aguiar
Este livro foi o primeiro romance de João Aguiar, o que de certa maneira pode explicar a razão pela qual a msua maneira de escrever não me ter encantado muito por aí além. De facto, não achei que estivesse escrito de forma inovadora ou até mesmo interessante, do ponto de vista literário. Trata-se de uma história normalzinha, sem nada de significante a realçar: Tôngio, sacerdote do Templo de Endovélico (um dos principais locais de culto ibéricos à época a que a narrativa nos remete) conta, no fim da sua vida, a forma como nasceu, cresceu e viveu numa Península Ibérica invadida pelos romanos, na tentativa de expandirem o seu Império até ao Atlântico. Vai daí, deambula pela Península até encontrar Viriato, famosa figura de que todos nós estamos habituados a ouvir falar desde que somos pequenos e ao qual é dado o epíteto de fundador, mais mítico que histórico, da nacionalidade portuguesa (como se à época houvesse essa coisa dos nacionalismos e como se ele imaginasse que alguma vez aqui, no extremo ocidental da Península, haveria de se formar um país chamado Portugal).
Curioso é o facto de João Aguiar, logo na advertência inicial, dar conta de que o seu objectivo com esta história é retratar um Viriato não mítico, mas mais de acordo com aquilo que se pode extrair dos documentos históricos que existem e que falam desta personagem tão famosa. Ora, o que acaba por acontecer é precisamente o contrário. João Aguiar faz-nos tomar contacto com um herói romantizado que almejava ser rei de toda a Ibéria e que é simultaneamente um general exímio, um diplomata exemplar, sóbrio no que respeitava a reclamar para si os espólios de guerra, fidelíssimo à sua mulher, entre outros aspectos do seu carácter que o tornavam... perfeito.
Pois bem, o resultado final ficou um pouco aquém daquilo que eu estava à espera, mas aparentemente essa foi precisamente a razão pela qual se incluiu esta obra numa cadeira que trata de literatura portuguesa pós-1974.
7 estrelas (para ser bonzinho)
2008/06/11
Bons Augúrios - Neil Gaiman & Terry Pratchett
Ora bem, este livro não deixa de ser engraçado, como é o exemplo de atribuir a invenção da nouvelle cuisine à Fome (um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse) aquando de uma visita a Paris. Eu incluo esse 'episódio', na primeira parte do livro (até aí cerca da página 100), o qual não seixa de ser muito divertido e com um humor negro muito refinado e simultaneamente muito bem disposto. A partir daí, o livro deixa de entreter e divertir para se tornar verdadeiramente um bocejo, salvando-se apenas as notas de rodapé (que mantêm o tom humorístico do princípio do livro) e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (figuras que demonstram verdadeira capacidade de imaginação por parte dos autores, que os souberam adaptar muito bem a esta realidade em que o Anti-Cristo está vivo entre os seres humanos). No que a essas 4 figuras respeita, há apenas que fazer uma pequena correcção: o terceiro Cavaleiro do Apocalipse (aqui representado pela Poluição, mas originalmente a Pestilência) deveria transportar consigo um arco (e não uma coroa, como aqui acontece), para ser coerente com os versículos 4-6 do Capítulo 6 do Livro do Apocalipse. Mas isso não é grave, pois como já tive oportunidade de dizer, são os únicos rasgos de criatividade nestas 300 e tal páginas.
Este não foi, sem dúvida um dos melhores livros que tive oportunidade de ler nos últimos tempos, no entanto o que eventualmente saliento nele, para além do tom bem-diposto em que está escrito e que já referi, é o facto curioso de que a abordagem ao Mal nunca se poderá fazer sem a abordagem ao Bem. Crowley um demónio? Parecia tão anjo quanto Aziráfalo!
Além disso, o livro não deixa de ser interessante também por ser, a determinadas alturas, bastante crítico e mordaz, por exemplo, para com as cadeias americanas de fast food ou até mesmo para com os seres humanos como nós, como se pode atentar na seguinte citação: "Porque o cérebro humano não está equipado para ver a Guerra, a Fome, a Poluição e a Morte, quando não querem ser vistas, e aperfeiçoou a tal ponto essa capacidade que, muitas vezes consegue manter essa cegueira mesmo quando estão por todo o lado ao seu redor".
Vale a pena ler este livro, se para ele se tiver paciência.
7 estrelas (se tantas merece)
2008/04/12
A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias - Tim Burton
Nota especial também para as ilustrações que ajudam a complementar os poemas (ou será que são os poemas que complementam as ilustrações?). Muito interessante este livro.
7 estrelas
2008/04/06
A Praia - Alex Garland
Infelizmente já vi o filme protagonizado pelo Leonardo DiCaprio mais de uma vez, por isso esta leitura foi sempre um bocado contaminada pelas imagens e pelo que eu já sabia que ia acontecer. No entanto, foi sempre deixado espaço à surpresa, na medida em que nem tudo foi mantido igual na transposição para o grande ecrã. Além disso, consegui perfeitamente dissociar a imagem do Leonardo ao Richard! Preferi muito mais o Richard britânico e moreno do que o americano loiro e de olhos azuis. Em todo o caso, e acho que isto só acontece porque já tinha visto o filme antes de ler o livro - caso contrário seria um feroz crítico de tamanhas liberdades - não acho que as alterações tenham desvirtuado muito a história. Bem, talvez exceptue desta observação os apontamentos românticos e sexuais que não existem na versão literária, o que não deixa de mostrar que o filme foi feito mais a pensar em encher o olho aos adolescentes com as hormonas aos saltos do que propriamente para bem da Sétima Arte.
Julgo que este livro não deva ser incluído junto daqueles que tratam sobre a intrínseca maldade humana (tal como O Deus das Moscas), como me fizeram crer quando mo aconselharam. No entanto, não deixa de surpreender um pouco a violência dos capítulos finais. A única personagem com quem simpatizei verdadeiramente foi Étienne, o mais sensato do grupo. Todos os outros me pareceram excêntricos (Unhygienix), calculistas (Sal), desinteressantes (Keaty), loucos (Richard). Estranho é também a associação que Alex Garland faz entre a Praia e a Guerra do Vietname, fazendo surgir do nada (ou melhor, da loucura de Richard) a personagem Daffy. Sinceramente, acho que não cheguei a perceber muito bem essa associação...
Quanto à ideia de viver num sítio paradisíaco longe de tudo e de todos pode ser bastante apelativa, mas não sei se gostaria de passar pela experiência. Talvez por um curto espaço de tempo fosse interessante, mas poderia tornar-se rapidamente aborrecido. Além disso, como fica ali provado, o paraíso de facto não existe.
7 estrelas
2008/03/10
Neverwhere, Na Terra do Nada - Neil Gaiman
Deste autor, a primeira coisa que li foi Sandman (uma BD que sei que me agradou bastante, mas que teria de voltar a ler para me relembrar da história toda) já aqui há uns tempinhos. Posteriormente viria a ler também a BD 1603 - uma adaptação dos heróis da Marvel ao século XVII que faz uma grande misturada (até extra-terrestres lá aparecem), juntando o Daredevil com o Quarteto Fantástico e X-Men, não esquecendo Thor e o Capitão América, mas que não deixa de ter o seu interesse para quem gosta de comics.
Apesar de o autor ter inicaido carreira com argumentos para BD, também escreve livros (e muitos) e como tem tantas opiniões a seu favor, decidi "mergulhar" na sua obra. Vai daí, fui até à biblioteca e requisitei Coraline e a Porta Secreta (livro juvenil de que não guardo grandes memórias) e, mais tarde, o tal Stardust - O Mistério da Estrela Cadente e Neverwhere - Na Terra do Nada. Este terminei-o na semana passada.
Sinceramente, não posso dizer que não gostei dos livros. No entanto, sempre que leio um dos seus livros fico reticente quanto a afirmar categoricamente que gostei. É que não me parece que ele escreva assim muito bem. A sensação com que fico mesmo é a de que são livros escritos para crianças, talvez pelas histórias em si (o narrador é não ominisciente, pelo que nos conta tudo em tempo real, sem se adiantar com explicações ou o que quer que seja, e a personagem principal - que entra invariavelmente num mundo mágico, muito diferente do mundo normal em que anteriormente habitava - e à qual é sempre exigida uma demanda para que consiga regressar à realidade, entendida aqui como a felicidade - embora no fim acabe por descobrir que a felicidade afinal não é aquilo que desejou ao longo do livro todo - é sempre tratada pelas restantes personagens mágicas como uma criança ingénua à qual não vale a pena explicar nada). Bem, quanto ao facto de os livros serem para crianças, é melhor reformular, pois isso não será totalmente verdade... É que certas passagens chegam mesmo a ser um bocadinho violentas (orelhas cortadas, dedos partidos, mortes, etc).
De falta de imaginação não podemos acusar este Neil Gaiman. E a ela podemos perfeitamente acrescentar o seu sentido de humor (bastante sarcástico, um humor negro bastante bem conseguido), que é o que faz com que, se dúvidas houvesse, se deixe de suspeitar que o livro foi escrito para crianças.
O próximo livro que lerei do Neil Gaiman será Bons Augúrios (escrito a meias com Terry Pratchett). É que embora ainda não esteja rendido ao autor e à sua maneira de escrever, os seus livros são de fácil leitura e entretêm bastante. Quanto mais não seja, servem para descansar os neurónios de leituras mais exigentes.
entre as 6 e as 7 estrelas
2008/02/26
Os Casos do Beco das Sardinheiras - Mário de Carvalho
Querer mais que isto, está claro, é já confundir género humano com Manuel Germano...
Inés da Minh'Alma - Isabel Allende
Este Inés é um épico e, melhor ainda, um épico biográfico. Essa noção de tangibilidade das personagens e dos acontecimentos, misturada com ambiente mágico e fantástico que é próprio desta escritora fazem deste um grande livro.
Deu-me um enorme gosto lê-lo, li-o com sofreguidão, como já há muito tempo não lia.
Não é fácil escrever assim, com este rigor e ao mesmo tempo com esta capacidade. Percebe-se claramente que há uma enorme recolha de dados por trás deste livro. A mim fez-me lembrar, precisamente pela informação histórica, a Guerra do Fim do Mundo do Vargas Llosa.
2008/02/09
Sul - Viagens, Miguel Sousa Tavares
- Trata-se de um livro algo irregular, com diversos textos interessantíssimos e outros que não são nada de extraordinário. Por exemplo, o primeiro texto (o da Amazónia), não me conseguiu prender o interesse. De tal maneira que quase pensei em ler as restantes crónicas de viagens mais na diagonal, sem dar propriamente muita atenção ao que estaria ali escrito. No entanto, os capítulos seguintes foram a pouco e pouco conquistando o meu interesse e, embora tenham continuado a surgir banalidades de estilo jornalístico ao longo do livro, os textos tornaram-se mais entusiasmantes.
- Gostei bastante dos capítulos dedicados às antigas colónias portuguesas. Arrebatou-me o texto "Goa, o sonho impossível", assim como "Um rio há-de correr em Cabo Verde" e "São Tomé e Príncipe: as ilhas maltratadas". Ficou verdadeiramente a vontade de visitar aqueles lugares que parecem tão próximos, mas que estão tão distantes. "Alhambra: os jardins de Alá" também tem o seu interesse, já os textos relativos ao Brasil e à Costa do Marfim não me encantaram.
- A principal razão pela qual não terei gostado tanto deste livro talvez tenha sido porque encontramos aqui, na sua maioria (11 textos de 12) a repescagem de reportagens publicadas na revista Grande Reportagem nos anos 90 (dirigida na altura por ele próprio). Até que ponto se se justifica a edição de um livro propositadamente para as reunir, uma vez que, com o passar do tempo, tudo isto soará (já começa a soar) antigo (da mesma maneira que uma notícia de um jornal se torna antiga)?
- O texto mais bem conseguido é, na minha opinião, o último "A pista para Tamanrasset", verdadeira viagem, mais do que ao e pelo deserto, ao íntimo dele próprio. É neste texto que conseguimos sentir o verdadeiro espírito de aventura e sentimento de desapego total (aos bens materiais e aos bens humanos) que uma viagem implica. Um espírito de aventura que, mais do que nos levar ao nosso destino, nos leva ao interior de nós mesmos. A viagem que vale mesmo a pena realizar. A viagem que se tem vontade de repetir.
7 estrelas
2008/02/03
Equador, Miguel Sousa Tavares
No geral, gostei bastante. A princípio pensava que ia demorar imenso tempo a acabá-lo, mas até nem demorei assim tanto. Julgo que terá sido porque MST acaba por escrever de uma forma, se por um lado demasiado prolixa e, porventura, descabida (ex: "dotada de atributos que o vasto decote do seu berrante vestido verde abundantemente documentava"), por outro bastante vívida e interessante.
Quanto à personagem principal, é o típico herói bem-parecido, bon-vivant, um verdadeiro gentleman, com o qual não podemos deixar de sentir empatia. No entanto, isso limita demasiado o seu desenvolvimento enquanto personagem, porque a torna plana e entediantemente previsível.
Há ainda uma série de episódios ao longo do livro, os quais, embora ajudem a enquadrar a história, são demasiado longos ou surgem após momentos-chave da narrativa, tornando-a pesada e tirando-lhe ritmo (exemplo disso são as vicissitudes do cônsul britânico ou o julgamento dos serviçais fugidos). Além disso, certos episódios são um tanto ou quanto desnecessários (a visita nocturna ao quarto da proprietárias de uma das roças) ou então previsíveis (os excessos de Ann quando estamos quase a chegar ao fim da história). Mas verdade seja dita que, por outro lado, o acontecimento derradeiro é bastante surpreendente, embora após reflexão se chegue facilmente à conclusão de que a história não podia terminar de maneira diferente... Infelizmente...
Pontos positivos: o tema abordado (resquícios de escravatura na mais pequena colónia portuguesa em África) é mesmo muito bom. Portugal, ainda que "nação civilizadora" está ali representado de forma desencantada e pessimista, verdadeiro retrato do Portugal de inicíos do século XX(I?).
O que chateia um pouquinho no livro é somente o facto de MST querer passar-se, quase à força, por Eça, quando na realidade o mestre é difícil (senão impossível) de igualar.
Em suma: gostei do que li, se bem que fiquei com a pequena sensação de que poderia ter sido melhor. Em todo o caso, não me arrependo do tempo que dispensei a este livro.
8 estrelas (ou será 9? estou indeciso)
2008/02/01
O Mesmo Mar, Amos Oz
Este livro é uma autêntica manta de retalhos, bocados de textos que formam um padrão quase disconexo, mas mesmo assim ligados uns aos outros pelos fios da imaginação (ou será da loucura?) deste autor israelita. Os vários planos narrativos da história intersectam-se todos, inclusive o do narrador (que é assumidamente o autor) que, de forma muito estranha, também participa na acção que ele próprio narra, interagindo com as personagens (ou melhor, as personagens interagem com ele) por ele não-criadas.Tudo é estranho neste livro: Nadia, apesar de morta, continua presente, e mantém ou manteve uma relação quase incestuosa com Rico, o qual por sua vez abandonou a namorada e partiu para o Tibete, e por quem Albert acabará por se apaixonar. Tudo está relacionado entre si, por mais absurdo (ou será surreal) que seja. É uma história que não tem princípio, nem fim, ou em que o fim não é o fim e o princípio dificilmente é o princípio. Cada um que a ler que escolha a opção que mais lhe agradar...
No fundo, gostei bastante deste livro por ser esta coisa meio esquisita, em que o que é pode não ser e em que o que não é, não será. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever.
8 estrelas
2008/01/27
O Códex 632 - José Rodrigues dos Santos
O Códex 632 foi o primeiro audiolivro que tive oportunidade de escutar e como gostei bastante da história, não resisti a vir aqui deixar uma breve opinião sobre ele. Para começar, há que salientar que apesar de à primeira vista parecer, este livro não é bem como os do Dan Brown. Sim, é verdade que a personagem principal é um professor universitário. E sim, é verdade que é um especialista em criptografia. E também é verdade que é tratado aqui um tema que se pretende totalmente novo, mas que no fundo já não é assim tão novidade nos mais elevados meios académicos. (Se não leram o livro e não se importam de saber de que trata a história, vejam a título de exemplo este livro de Patrocínio Ribeiro, publicado pela primeira vez em 1927, no qual são referidos os mesmo documentos de que JRS faz uso para compor a sua história).
Mas voltando ao que estava a dizer, embora possamos fazer alguns exercícios de intertextualidade com os livros do Dan Brown, é injusto dizer que se trata do mesmo tipo de literatura. A dizer a verdade, não temos aqui uma corrida contra o tempo (nos livros do Dan Brown, o Robert Langdon consegue resolver todos os mistérios em pouco mais que 24 horas, não sem antes ter de despistar os maus que o querem matar). Não temos aqui um inimigo (pelo menos declarado) que ameace a vida do protagonista. O protagonista não está "disponível" para o amor inconsequente, uma vez que é casado e, surpresa das surpresas, tem uma filha com síndrome de Down! Digo surpresa das supresas, porque este não é de facto o herói típico que estamos à espera de encontrar nas páginas de um livro, ou na tela do cinema (e ainda bem, o livro e a credibilidade do autor só têm a ganhar com isso), embora seja jovem e garboso e não seja indiferente às bombas sexuais suecas que lhe surgem pelo caminho.
Para além disto tudo, é curioso que JRS não se fique pela História e também faça incursões por áreas muito mais abrangentes e interessantes, tais como a Filosofia (como manobra de diversão, claro, para encher umas quantas páginas, quando até era bastante fácil perceber o enigma, pelo menos para quem está habituado a ler e anda atento aos títulos dos livros por aí existentes), pela História das Religiões (nada de muito aprofundado, mas já que está de visita a Jerusalém aproveita-se...), pela Gastronomia (a descrição dos vários pratos que vai comendo nos sítios por onde vai passando não são de todo essenciais para o desenvolvimento da narrativa, mas não deixa de ser interessante), pela Medicina (no que respeita à doença da filha) entre outros exemplos.
Curioso é também o facto de ambientar as diferentes conversas que vai tendo com as diferentes personagens em monumentos ou locais importantes da História portuguesa ou lisboeta. Ele podia falar com eles em qualquer café da cidade, mas combina n'A Brasileira ou no Nicola; no Mosteiro dos Jerónimos, no Castelo de S.Jorge, na Quinta da Regaleira ou no Convento de Cristo em Tomar... Tendo este livro sido traduzido para várias línguas (e estando já previsto um filme baseado nele) parece-me que não foi de todo "inocente" a escolha desses locais, mas ainda bem. Ao menos assim os não portugueses ficam a saber um pouco mais da cultura portuguesa e não lhes faz mal nenhum.
Para concluir, devo dizer que acho que este livro, acima de tudo, demonstra que JRS fez um longo e aprofundado trabalho de casa, dando a conhecer ao grande público um assunto que
curiosamente não está de todo divulgado e que é bastante apelativo ao nosso patriotismo. E tirando uma ou outra parte em que o livro parece deter-se em coisas desinteressantes e que nada acrescentam à história, é bastante cativante. O final decepciona um pouco (e duplamente!), mas depois de reflectirmos sobre a história, não nos sentimos de todo defraudados. Vale a pena.
9 estrelas
2008/01/11
A Relíquia - Eça de Queirós
Que rica Relíquia que Eça nos oferece nestas pouco mais de 250 páginas. Como de resto, já nos tem habituado em todos os outros seus livros, o autor escreve de maneira absolutamente irrepreensível. A adjectivação inesperada, a crítica social, seja ela directa (através da boca das personagens) ou indirecta (através dos próprios actos das personagens em determinadas situaçõeS), veio reforçar a ideia de que este é realmente um dos meus autores portugueses preferidos de sempre.
No entanto, temo bem que este não seja o livro de Eça de Queirós que mais gostei de ler até hoje. Para isso, contribuiu grande parte do corpo central do livro, especialmente a "jornada ao passado" (como lhe chama Topsius), ou seja, o sonho do Teodorico Raposo à Jerusalém de Jesus. Toda a narração é, sem desprimor para a capacidade narrativa de Eça, maçadoramente desinteressante. Exceptua-se apenas a sua parte final, em que um Eça descrente e ateu, republicano e liberal, narra "a lenda inicial do Cristianismo", o mesmo é dizer a (não) ressureição de Cristo.
Este Teodorico Raposo, a personagem principal, é sem dúvida uma das personagens mais castiças que já tive oportunidade de conhecer. Um fanfarrão, muito orgulhoso das suas barbas viris, mulherengo inveterado, mas mais convencido que bem sucedido (como acabam por demonstrar as infidelidades das mulheres com quem vai conseguindo ter relações amorosas), mas acima de tudo, é ridiculamente cómico. A única coisa que chega a chocar mais nesta personagem rocambolesca é o facto de ser tão interesseiro ao ponto de querer "apressar a obra lenta da morte", chegando mesmo a dar-lhe ganas de "espancar aquela velha". É verdade que ninguém merece uma tia como aquela "horrenda" D.Patrocínio, mas desejar tal sorte à senhora, teria como inevitável desfecho aquele que realmente acaba por suceder. Ainda vemos, quase no fim da história, uma espécie de redenção do ilustre mentiroso, mas não é que Teodorico, mesmo depois de ser visitado pela própria consciência, não aprendeu a lição? (Como não poderia deixar de ser, ou não fosse Eça o mestre na descrição das ironias - pelo menos daquelas em que nos deixamos cair - da vida).
8 estrelas
2007/11/30
O Pequeno Ditador - Javier Urra e A criança e a Disciplina - Brazelton e Sparrow
O livro levanta problemas graves. Tão graves que o autor qualifica este tipo de deseducação como maus tratos infantis. E penso que faz bem. Aliás, o autor indica várias situações em que esta deseducação deriva em violência.
Porém, não foi um livro de que eu tivesse gostado ou que tivesse lido com prazer ou proveito. O texto é disperso, confuso, repetitivo. Tenho a sensação - mas claro que posso estar enganado - que o autor terá escrito artigos ou crónicas de jornal sobre estes temas e que foi dessa amálgama, revista e alterada certamente, aumentada talvez, que retirou as extensíssimas 400 páginas com que nos brinda.
Mas o problema principal é que o autor não tem muito para dizer, ou, se tem, diz pouco. Identifica o problema, dá algumas coordenadas genéricas, mas nunca por nunca desce ao concreto, à vida de todos os dias. Indica problemas mas não os resolve. Diz que é preciso por limites mas não exemplifica como é que isso se faz. Se o cavalo vai com o freio nos dentes, serve de bem pouco dizer para puxar as rédeas.
Ficamos com a noção de um livro cheio de moralismos, de preconceitos subreptícios, de ideias politicamente correctas, mas muito, muito pouco prático na sua abordagem, o que não deixa de ser estranho (ou talvez não) tendo em conta o currículo do autor. Nunca me canso de verificar como são perigosos os preconceitos politicamente correctos.
Não posso deixar de fazer a comparação com outro livro, também sobre disciplina, muitíssimo mais modesto, com cerca de um quarto do tamanho deste, e que aborda também o assunto da disciplina de uma forma rigorosa, interessante e, sobretudo, prática. O livro A criança e a Disciplina de Berry Brazelton e Joshua Sparrow, com as devidas diferenças - este destina-se a uma intervenção mais precoce - contrasta claramente com o Pequeno Ditador. É uma importante ajuda para pais e futuros pais, na maravilhosa tarefa de educar os filhos. Longe de dizer o que é que os pais andam a fazer mal, Brazelton e Sparrow vão bem mais longe e explicam o que fazer e como fazer. Os meus parabéns obrigados a estes dois autores.
2007/11/29
A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz
Diário Escríptico
Muito bem. Vamos a isso. É já a seguir, num blog aqui ao lado.
Uma citação atribuída ao Einstein
(obrigado SoniaCarvalho)
2007/11/07
Cemitério de Pianos
Tinha uma espectativa bastante elevada quando comprei este livro, afinal sou fâ incondicional da poesia de Peixoto e, embora algumas das suas crónicas no JL me deixem uma pontinha de desilusão, estava muito curiosa em relação a este tão publicitado livro.Deixarei no ar para quem quiser responder.
Desafio da página 161
"You'r that sort", he said confidently.
Na verdade nem era preciso ele dizer, eu já desconfiava! ; )
Só falta agora lançar o desafio a mais cinco leitores que nos façam boa companhia...
2007/07/11
Meme da pag. 161
Desafio da página 161, segundo estas regras:
1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Colocar a frase no blog
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo
6. Passar o desafio a cinco pessoas.
And the winner is "Se tal objectivo não fôr alcançado, o desenvolvimento da sociedade da informação poderá tornar-se num poderoso factor de exclusão social."
O que é grave, já se vê.
Passo ao resto da Companhia e já chega e mais a quem quiser passar por cá. Quem já respondeu, faça favor de pôr um link nos comentários!
2007/02/27
Em nome do bem comum - Arundhaty Roy
2007/02/14
Leitores.2

As vestes brancas, a barba cuidada, branca também. Os padrões abstractos, enchendo todo o espaço, criando o espaço à sua passagem, à sua expansão. Sentado no chão, contra o rebordo de uma parede. Não é na parede o seu apoio. Toda a imagem é concentração. Os olhos perdendo-se no que contemplam. Megulhado. A palavra nas mãos, os olhos na palavra.
A Cor da Felicidade - Wei-Wei
Intérpetre de Enfermidades - Jhumpa Lahiri
Obrigado Patiblue!
70 historinhas, Carlos Drumond de Andrade
Mas gostei muito, repito.
O Impressionista - Hari Kunzru
Faz-nos pensar até que ponto somos a nossa situação.
Gostei muitíssimo de o ler. Obrigado Tuanita.
2007/02/13
Leitores e letras

Iniciamos um novo tema visual: a par de livros e bibliotecas, leitores e letras.
Para começar bem fica um retrato de Chardin, acompanhado de um texto sobre este "leitor incomum".
A ideia partiu de um post da PA.
Sugestões de imagens aceitam-se e agradecem-se.
Quatro, não, cinco livros terminados de rajada.
Foram eles: Platero e eu, The time traveler, O impressionista e Não te deixarei morrer, David Crockett e 70 historinhas.
Nos próximos dias farei as respectivas apreciações.
P.S. Aproveitarei ainda para fazer posts de alguns bons livros de 2006, ainda não referidos
2007/01/03
O Estrangeiro - Albert Camus
É a história de Meursault, um homem que vive uma vida, que talvez não devesse ser contada. Pois ele vive vazio de emoções, incapaz de sentir amor, saudade, ódio, medo, ou qualquer outra emoção. A sua vida vai-se desenrolando como se ele fosse um estrangeiro, não em relação a um país, mas em relação à humanidade. No fim o crime que comete não o leva ao fim da sua vida, o que leva ao seu fim é a falta de qualquer emoção aquando da morte da sua mãe. Mostrando-nos Camus que tudo o que fazemos num determinado momento se reflecte durante o resto da nossa vida. Outro ponto curioso deste livro é que a sua história é suspensa, ou seja, nós não sabemos o passado de Meursault, a história começa este personagem a afirmar que “Hoje a mãe morreu”, e Camus, não nos dá nenhuma pista do passado de Meursault. O mesmo acontece com o fim, nós podemos supor o que se vai acontecer, apenas supor porque o autor deixa em aberto o que acontece a Meursault.Um livro que sempre me despertou a atenção, mas que por ironia do destino nunca tive a oportunidade de ler. Bem, pelo menos até à 1 mês atrás, altura em que o encontrei à venda e não perdi a oportunidade.
A experiência não começou nada bem, por devido a uma grande dose de insensatez, o editor decidiu colocar um critica feita por Jean-Paul Sartre como introdução. Um grande erro, porque a critica de Sartre é aquilo que uma critica deve ser, contando partes do livro, dando-nos conta de sequência, dando-nos conta do que Sartre considera os pontos-chave, a sua interpretação e levando-nos a antever parte do final da obra. Ou seja, antes de ler o livro, eu já sabia o que ia acontecer. Assim à medida que eu ia lendo O Estrangeiro a minha única interrogação era quando é que isto ou aquilo ia acontecer. Enfim, uma grande falta de sensatez, que mata o grande prazer de ler um livro, que é o prazer da descoberta.
O livro em si é estranho em parte devido “àquilo” que Sartre caracteriza como “uma escrita cheia de silêncios”. È o primeiro livro do estudo do absurdo que irá acompanhar Camus durante grande parte da sua carreira.
2006/10/07
O Pêndulo de Foucault – Umberto Eco
Um grupo de amigos decide fazer um estudo. Um estudo de todas as teorias esotéricas que pululam pela imaginação da civilização. Procuram conhecer “estórias” da Maçonaria, dos Rosa-Cruzes, dos Templários, etc. Enfim de todas as sociedades secretas que chamam a curiosidade tão normal, das coisas ditas “secretas”. A grande particularidade do estudo feito pelas personagens é que grande parte do que escrevem é fruto da sua imaginação, ou seja, eles próprios vão construindo o fundamento destas sociedades e utilizando uma lógica muito própria eles vão criando ligações entre tudo o que é esotérico, criando assim um mundo fictício. Até que o impensável acontece, esse mundo existe e eles acabam por se emaranhar nesse mundo, que nada mais é do que a concretização da sua ficção…pode parecer estranho isto que eu disse, para se perceber melhor, só lendo o livro.Umberto Eco escreveu mais um excelente livro, que nos mostra a visão que ele tem dos esoterismos, sociedades secretas e teorias da conspiração. Que todos não passam de criações de homens sem fé, que têm que sentir um “mundo próprio”, cheio de mistérios tangíveis só por uns eleitos, para que a sua crença faça sentido. Fazendo da vida uma busca infinita de um conhecimento fantástico, que quando se chega a uma meta descobre-se que essa meta foi apenas uma etapa e que esse conhecimento afinal está mais além, sempre mais além. Claro que mais uma vez, Umberto Eco, não perde a oportunidade de voltar a mostrar qual a sua visão de Deus, como aliás faz em vários dos seus livros.
Um livro magnífico, muito denso, mesmo complicado de ler em certos pontos, em que duas passagens são essenciais, mas que no fim todo faz objectivamente sentido, uma obra de mestre que vale a pena ser lida.
Como última consideração apraz-me fazer uma pequena provocação, dizendo que tenho a certeza que Dan Brown leu o O Pêndulo de Foucault, só foi pena que tenha parado a meio…
2006/09/18
Alafce?! Prefiro rúcula!
Na verdade repugnou-me um bocado a ideia de eu, que não sou nenhuma especialista, vir aqui dizer mal do que outros escreveram e alguém publicou. O que, a juntar à insegurança de nascença, sempre apoiada pela frase familiar “esta miúda tem cá um mau feitio!”, me fez sempre recuar perante a ideia de assumir as minhas desventuras literárias por escrito e à vista de quantos por aqui passam.
No entanto, chame-lhe mau feitio quem assim o entender, algo abalou estas convicções este fim-de-semana...
Alface... conhecem?
Eu desconhecia, ao que parece é o pseudónimo de João Alfacinha da Silva, emprestaram-me o último livro dele, “A mais nova profissão do mundo”, com a melhor das intenções - “vais ficar surpreendida, pelo que dizem é uma descoberta, reinventa o Português e é divertidíssimo.” - expectativas elevadas portanto, pensei eu que desconfio sempre do que os críticos da nossa praça dizem até prova em contrário. Já 'de pé atrás' pego no livro e começo a ler os pequenos contos, tentando disfarçar a desilusão crescente no meu espírito (afinal o livro tinha sido comprado pelo meu marido, com a intenção de o lermos no fim-de-semana que se cria de boa disposição).
Avancei, li mais uma, outra, e ainda outra à procura do tal “português reinventado e divertidíssimo”, mas nada... a meio do livro acabei por desistir “isto, de facto, não faz mesmo o meu estilo e quanto ao português a única coisa que encontro é o uso corrente de uma linguagem brejeira, vulgar, e expressões ordinarias, que compreendo seja muito divertido para alguns, mas a mim, não me diz nada”, e passei para o meu “Kafka – Na corda bamba” mas não sem um certo amargo de boca e uma interrogação que não me largava, terei sido presunçosa?
A resposta veio em breve quando o meu marido, depois de uma tentativa de descobrir o escritor do século pousou silenciosamente o livro na mesa de cabeceira e sussurou “de facto não tem nada de especial”.
Mau feitio ou não Alface, não faz o meu género!
Continuem em Boa Companhia!
2006/09/13
70 histórinhas - Carlos Drummond de Andrade

Esta é uma compilação de contos dos mais variados temas e de todos os géneros. É um livro 'leve', facil de ler, daqueles que todos (ou quase todos) conseguem, sem esforço, começar e acabar.
Pessoalmente gosto muito de Contos e, embora algumas das histórias aqui apresentadas não cheguem às duas páginas de texto, todas têm uma estrutura lógica, o que prova que não é a quantidade que conta, mas sim a mestria com que se consegue relatar um acontecimento sem entrar em grandes enredos novelescos que, às vezes, só complicam e não beneficiam em nada a obra.
De todas estas 'histórinhas', como lhes chama o autor, a que me ficou a ecoar na cabeça dias sem fim (quiça por identificação com os personagens) foi a segunda 'Nascer' que conta a história de um casal...
"O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado(...) tudo isto o menino tinha, mas não havia nascido." Pág. 5
Como a maioria de compilações de Contos, é um livro tão agradável como inconstante, capaz de nos levar do riso ao amargo de boca num simples virar de página. Vale a pena ler.
Continuem em 'boa Companhia'!
2006/09/04
Astronomia
Livros e bibliotecas
Editado para acrescentar: ó pra ele o centésimo post do Companhia!
2006/08/16
António no outro lado do mundo - Malachy Doyle
Terapia do Amor Conjugal - Valerio Albiseti
Este não é um qualquer livro de auto-ajuda, assente em vulgaridades e vacuidades. Com um discurso muito centrado na experiência do autor na terapia de inúmeros casais, as suas propostas não só fazem sentido como parecem ir ao essencial de uma forma muito acutilante: o desenvolvimento de competências de comunicação no casal, o valor da verdade, o crescimento comum, são pontos marcantes deste livro que podem ajudar a limar arestas e a construir melhores relações.
Vendidas - Zana Muhsen
Mais do que a brutalidade da ideia de alguém vender as próprias filhas, coloca-se aqui um problema de direitos humanos e de liberdade.
Uma visão superficial das relações entre civiliações pode levar-nos a partir do princípio que haverá entendimento mínimo em relação a determinadas matérias, que parecem adquiridas: direitos do Homem, igualdade entre sexos, liberdade.
O problema é que claramente não é assim. Será que estes valores - que nos parecem essenciais - não são superiores à "civilização" ou "maneira de viver" de um regime que não os respeite?
Que formas de pressão podem ser utilizadas nesse sentido?
Pensamentos Secretos - David Lodge
Por um lado eu gosto imenso da sua forma de escrever:
- é um escritor informado (nota-se que os livros dele passam por uma pesquisa e uma reflexão profundas)o que vai sendo pouco habitual na maior parte dos livros e autores que para aí andam;
- é um escritor versátil quanto à forma (escreve através de diálogos, cartas, diários, guiões, narrações na terceira pessoa, etc), o que dá novas dimensões aos seus livros, na medida em que apresenta "diferentes lados" da história, vistos das perspectivas de outras tantas personagens;
- é um escritor cheio de humor, de um humor mordaz, difícil por vezes, por vezes amargo, irónico. Não são muitos os escritores sérios que sabem rir-se de si e das suas personagens. David Lodge é, a este nível um excelente cómico!
Por outro lado, parece-me que a sua visão do mundo, da religião, da sexualidade, pretendendo mostrar-se madura , é, na realidade, simplesmente distorcida. Todas as relações monogâmicas tendem a "evoluir" para o adultério, todos os crentes são velhos ou se o não são andam com dúvidas e se não andam com dúvidas é porque ainda não leu o suficiente. É um universo de relações muito áridas, muito superficiais e, ao mesmo tempo, muito insatisfeito. Não há personagens felizes nos livros do David Lodge.
Porque será?
2006/08/11
To Kill a Mockingbird - Harper Lee
Foi um livro que gostei imenso de ler. É daqueles que entrará para a minha lista de favoritos sem a menor dúvida. Daqueles que gostava de ser lembrado por recomendar aos meus filhos.
Há três registos distintos que gostei particularmente no livro.
A crónica de costumes, onde ressalta a questão do racismo, parece uma realidade tão distante e tão antiga que quando às tantas há uma referência ao Einstein senti aquilo como um anacronismo. Depois realizei que não, não havia qualquer anacronismo: era no sec. XX que a acção se passava.
A infância e a forma como a narradora escreve desde uma mentalidade infantil. Está muitíssimo bem escrito, sob este ponto de vista. São poucos os escritores que o conseguem fazer bem. Assim de repente só me ocorre o José Mauro de Vasconcelos!
E finalmente, aquela figura parental. Impressionante a forma como educa e como se relaciona. Este tema é-me muito caro, hoje em dia, e o Atticus é uma personagem - tenta-me escrever uma personalidade - muito completa.
Gostei muito de ler este livro, Conto, mais uma vez muito obrigado.
Livro da Treta - Filipe Homem Fonseca; Eduardo Madeira; Rui Cardoso Martins
O livro é óptimo, verdadeiramente hilariante. Altamente desaconselhado para ler em sítios públicos. Dei por mim várias vezes a não conseguir conter o riso. O que vale é que não me importo: rir é bom.
O regresso do Menino Nicolau - Sempé/Goscinny
Fico ansioso pelo nº 2 - Eu sou o maior - que já tenho lá em casa. Estou só a espaçá-los um bocadinho - para durar mais!
Optimismo - Francesco Alberoni
Ao mesmo tempo tenho que dizer que os textos são assim uma mistura de calda de açucar com canja de galinha que não chega propriamente a merecer discordância. Ninguém discorda de um discurso vago, assente no senso comum. Mas para quê lê-lo? Se o livro fosse maior, tinha focado a meio. Tem essa qualidade: é pequeno.
Sinceramente, não gostei do livro e foi para mim uma enorme desilusão porque já ouvi bons comentários sobre outros livros dele, que ainda não me dei ao trabalho de ler. Mas depois deste fiquei sem muita vontade...
Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma - Irene Lisboa
O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo - Germano Almeida
2006/08/08
A Misteriosa Chama da Rainha Loana - Umberto Eco
O tema deste livro é a história de Yamo, um homem que acorda após um AVC. Quando recupera lembra-se de tudo sobre história, literatura, cinema, música, pois toda a memória semântica de Yamo está perfeita. O único problema é que não se lembra de si próprio, ou da sua família, amigos e colegas, em suma, não se lembra da sua própria história. Encorajado por sua mulher, parte ao encontro da sua vida para a casa dos seus avós, onde não voltava desde a morte dos seus país e avô. Ai no meio de brinquedos, livros de banda desenhada e discos de vinil de 78 rotações tenta reencontrar-se. Uma sucessão de acontecimentos levam Yamo a uma recaída e sofre outro AVC, mas desta vez mais forte. É durante o seu coma que se recorda de tudo e volta a reencontrar-se com a sua história, levando-nos a viver as aventuras da sua infância e a história do período da queda de Mussolini. Fazendo no meio de tudo isto, o leitor sentir um pouco da cultura dos meados da década de 40.Eu já sabia que Umberto Eco é um dos poucos que pinta com as palavras! E esta obra é bom exemplo disso mesmo, pois as imagens que nos são descritas nada devem às gravuras do livro. Penso até que a presença das gravuras servem para reafirmar a genialidade e superioridade da escrita de Umberto Eco. De referir, que ao contrário de outros livro de Umberto Eco que eu li, este é aquele que tem a escrita menos densa, sendo portanto de mais fácil leitura.
2006/07/27
O sumiço da Santa, uma história de feitiçaria – Jorge Amado
O romance é muito divertido, por vezes sinto que perco um pouco o pé por desconhecer pessoalmente a realidade de que ele fala, a Bahia e todos os seus mitos. Ele também não explica muito, como se o mistério fosse o mais importante e mesmo assim, quase nada, quase nada, deixa para lá, entra no ritmo, dois para cá dois para lá: isso aqui é um pedacinho de Brasil, desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz ...
2006/07/21
O Senhor Ferdinand - Agnès Guldemont e Carll Cneut

Este livro em belíssimas ilustrações, não posso dizer o mesmo da história. A este nível ficamos sempre à espera de algo que se perdeu e que continua perdido ad infinitum.
Nenhuma das linguagens - nem a visual nem a verbal - me parecem adequadas para crianças.
Catarina e o urso sem rumo pelo mundo - Christiane Pieper

Este livro é um encanto. Tem ilustrações deliciosas e vale sobretudo por elas: são vivas, expressivas, interessantes! A história sofre (ou participa?) da falta de rumo da Catarina (e do urso) mas quem é que disse que todos os passeios servem para chegar a algum lugar? Era tão bom às vezes poder sair, assim, com a companhia de um urso amigo, sem rumo pelo mundo... :)
Editado para acrescentar: o meu filho, que tem 22 meses, já me anda a ensinar a ler livros. Ontem ensinou-me que este livro se pode ler com o corpo, imitando as posturas da Catarina (ele) e do Urso (eu!). Nunca tal me teria passado pela cabeça. As virtualidades de um olhar sem preconceitos!
O Confessor - Daniel Silva
O enredo é bastante óbvio e o desenlace também.
A propósito da história ressaltam duas ideias, repetidas à exaustão:
a) o silêncio do Vaticano quanto ao holocausto;
b) a justificação do Estado de Israel.
Nenhuma das questões em causa é tão simples como o autor quer fazer parecer. A "desculpa" de que estamos perante um romance também não colhe: quem quer fazer um romance histórico - e não há dúvidas quanto a tais pretensões neste caso - deve ser exacto quanto aos dados que promove e às teorias que defende. Neste livro não há rigor histórico Apenas páginas e páginas de propaganda.
Talvez um dia se escreva um livro sobre o silêncio do Ocidente diante do conflito do Médio Oriente.
Se eu fosse muito alto – texto de António Mota ilustrações de André Letria
Este é um tipo de pergunta que estimula muitíssimo a imaginação. O tipo de variações são virtualmente ilimitadas: se eu fosse muito baixo, se eu voasse, se eu fosse um animal, se eu fosse rei, se eu fosse pai, se eu fosse... e por aí adiante. Estes exercícios obrigam as crianças a uma ginástica mental óptima: chama-se imaginação. Neste caso obriga-os a colocar-se naquela situação e a imaginar como seria o mundo para elas nesse caso. Os pais até podem fazer a história ao desafio: cada um dá uma ideia do que faria ou aconteceria naquela situação.
Gostei deste livro ainda por outra coisa: é que a maior parte das coisas que o autor faria, se fosse alto, era pôr a sua altura ao serviço dos outros: compôr antenas, limpar chaminés, apanhar balões... e esta ideia é muito interessante, também, para explorar com os miúdos: o autor se tivesse aquela qualidade punha-a ao serviço. E tu? Quais são as tuas qualidades? Como é que as podes pôr ao serviço? As características de cada um podem até parecer ser defeitos e tornarem-se qualidades, se encontrarmos a sua utilidade, a forma de as pôr ao serviço. É uma questão de optimismo: se uma garrafa estiver completamente vazia, um optimista não se concentra nesse vazio mas na possibilidade de mandar com ela uma mensagem, de com ela recolher água na fonte, de todas as utilidades que ela pode trazer.
O Meu e o Teu

Este fantástico livro é para se visto de olhos bem abertos (como dizia o outro) para não deixar escapar nem um bocadinho da genialidade das ilustrações de Almud Kunert que joga com o texto de Peter Geißler às mil maravilhas.
2006/07/18
Os Lugares de Maria - Margarida Botelho
2006/07/17
Ainda nada?

"De manhã, bem cedo o Senhor Luís abriu um buraco ENORME na terra(...)"
Imaginem que plantam uma semente na terra e que têm tanta, tanta, mas tanta vontade de a ver crescer que não querem perder nem um bocadinho do seu crescimento...
Assim estava o senhor Luís, cheinho de vontade de ver a sua semente creser e virar flor! Mas de tanto esperar a sua paciência começou a faltar e a cada manhã que a ela se abeirava maior era o seu desânimo: "Ainda nada?"
Esta é uma história para ensinar a esperar que o tempo corra e com ele as mudanças aconteçam. Para miúdos e graúdos, para contar, inventar, acrescentar, brincar, enfim... ler de preferência em voz alta e bem acompanhado!
De Christian Voltz com ilustrações bem ao estilo da Kalandraka.
Comtinuem em boa Companhia!
2006/06/28
Fiz das Pernas Coração

Esta é uma antologia de Contos Tradicionais Portugueses, ‘nascidos’ da tradição oral cada vez mais adormecida nos nossos dias. Alguns destes contos fazem mesmo parte da memória de histórias contadas durante a infância do autor (José António Gomes) por ‘tias’ e outras figuras que tanta falta fazem hoje no imaginário das nossas crianças.
É um livro engraçado pela diversidade e originalidade de contos onde coabitam saudavelmente os ‘tontos’ tão comuns na nossa literatura oral, com o com as Mouras e os seus encantos. É de referir que o autor é do Algarve e a infância algarvia adivinha-se nas suas escolhas, coisa que não prejudica em nada o livro, até porque o próprio faz referência à sua terra natal.
“Na selecção dos textos, procurei contemplar diferentes tipos de narrativas, nomeadamente os contos de encantamento, as histórias de animais, as lendas e as facécias. Sendo esta última uma categoria em que a nossa tradição oral é, a meu ver, particularmente rica, optei por lhe dar algum relevo, na convicção também de que o carácter jocoso e burlesco de tais contos poderia conferir à colectânea uma tonalidade mais humorística do que é habitual em obras deste tipo.” Pág. 4
Dos contos deste livro, deixo uma refência especial para dois que, a mim, me encantaram.
“As Senhoras da Mantinha de Seda” - Pág. 27
“Conto da Pêra de Ouro” - Pág. 33
Continuem em boa companhia!
2006/06/22
Um ano em boa companhia
Agora, ao soprar as velas, gostava de pedir mais participação, mais comentários, mais livros. Espero que seja do interesse de quem nos lê, gostava de ter maior feed-back.
Sei alguns dos erros que temos: posts muito espaçados, com uma avalanche repentina quando há tempo para isso. Vamos tentar ser mais constantes.
Para que saibam: gostámos muito de estar na vossa companhia.
Coelhinho branco - Conto popular adaptado por Xosé Ballesteros
2006/06/21
Eu não tenho sono e não vou para a cama - Lauren Child
Carlota Barbosa, a bruxa medrosa - Layn Marlow
Onde perdeu a lua o riso? – Miriam Sanchez
O trocadilho é um bocadinho forçado, já que lua não é propriamente um nome usual para dar às crianças e tão pouco é bem explorado ao longo do livro (não se desenvolvem paralelismos entre a menina e astro que justifiquem aquela identificação). É, apesar de tudo, um livro que fala das relações familiares, em particular entre irmãos, de uma forma agradável. Mas fica aquém daquilo que promete.
A Maior Flor do Mundo - José Saramago
Histórias para contar em 1 minuto e ½ - Isabel Stilwell, com a colaboração especial de Francisco e Madalena Stilwell
Ao mesmo tempo, e sempre fugindo à tentação das histórias moralistas, o livro vai resolvendo pequeninas questões: o medo do escuro, as birras á noite, não ter nada para vestir – apesar dos armários estarem cheios. É um livro a guardar perto de nós. Uma última nota: o Manual de instruções é muito interessante.
Outra nota ainda, esta já não sobre o livro: a edição é muito boa, de uma editora que eu não conhecia mas que espero que mantenha este nível de qualidade, literária e de edição.
Tio Lobo – Conto popular adaptado por Xosé Ballesteros
Sinceramente, fiquei perplexo. Depois vi o nome da colecção e não pode deixar de rir com a ironia... chama-se livros para sonhar!
Avós – Chema Heras
Uma história de valores sem falar de valores, que procura o essencial, que às vezes queremos esconder. Vale mesmo a pena.
Conspiração – Dan Brown
Depois li – não comprei - o Anjos e Demónios que achei burlesco. O estilo de escrita é o mesmo, o enredo é de uma proximidade exasperante, a única diferença – para muitíssimo pior está - no final, espalhafatoso, hollywoodesco, americanado.
Pura literatura de aeroporto.
A Conspiração – curiosamente lido em grande parte em Aeroportos – é fiel ao seu autor: a história é a mesma, as personagens andam muito próximas, o mau da fita é o mais óbvio, sinceramente, é tão idêntico aos outros que nem se pode dizer que decepcione.
Há dias em que me apetece comer hamburgueres. Faz sentido queixar-me de não me servirem bife da vazia? Os hamburgueres sabem sempre ao mesmo. E depois?
O que eu não estou disposto a fazer – e já não fiz com este livro – é comprar um hamburguer ao preço de um bife ou mais caro, e ainda dizer que é a melhor coisa que já comi. Não: é junk food e ponto final.
A Conspiração é literatura de plástico, feita para formato de bolso. Só é pena ser tamanho bigmac – e estou a falar da extensão do texto, não da edição, feita como se de um livro a sério se tratasse.
Casamento para um tempo novo - Antonio Vasquez
Ensinar a pensar - António Jiménez Guerrero
Grande parte deste problema tem sem dúvida a haver com a incapacidade de compreender e se expressar em português.
Mas outra grande parte tem a ver com falta de bases lógicas e com aceitação acrítica dos argumentos, sem questionar as suas permissas de base.
Não posso dizer que concorde com cada palavra do que está escrito neste livro, mas também é um facto que ele tem muitos méritos. Desde logo, o mérito de abordar este tema, tão inusual nos dias de hoje. Também o facto de estar escrito de forma simples com variadíssimos exemplos ajuda uma fácil leitura e aquisição do seu conteúdo. Finalmente, as técnicas descritas são, na sua maioria muito úteis.
Tem também alguns defeitos: por vezes parte de um sistema algo “fechado” de abordagem das coisas e deixa algumas “promessas por cumprir”. Gostaria de ter visto mais desenvolvidos algumas questões como por exemplo a das falácias e da sua desmontagem, ou outras abordagens como a do pensamento criativo, a imaginação, a capacidade de descrição.
Quem lida diariamente com miúdos sabe até que ponto estas capacidades estão pouco estimuladas e consequentemente pouco exercitada e pouco desenvolvidas.
Outros autores falam, a este propósito em obesidade mental.
2006/06/16
A criança em ruínas

Posso dizer que a leitura não é simples e está longe de ligeira (o que, na minha opinião, só abona a favor do livro). Pelo contrário, é trabalhosa e requer uma grande envolvência, quase íntima, com cada palavra.
Este livro não se deixa florir com o simples gesto de folhear as páginas, é preciso tempo para ler até ouvir o ritmo certo de cada estrofe, que não se impõe, deixa-se descobrir a quem o quer encontrar. Mas não essa, afinal, a magia da verdadeira Poesia?!
É como se José Luís Peixoto quisesse ter a certeza que quem lê os seus poemas se dá ao trabalho de realmente os ‘ouvir’. O hábito de ler silenciosamente é razoavelmente recente e no caso deste livro, e porque não dizer em todos (ou pelo menos quase todos) essa modernidade fez perder parte do encanto do texto escrito. Dá muito mais trabalho e é muito mais difícil ouvir palavras ditas de lábios cerrados...
Como sempre, tive de lutar com a minha dificuldade em escolher uma pequena amostra “Como isolar um sabor de um bolo de várias camadas feito?” A escolha inicial era o poema que já referi, mas essa por tão óbvia peca pela facilidade. Assim deixo aqui este raminho de cheiros para aguçar o apetite.
“ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre no
mesmo sítio se fecharmos os olhos
serás sempre tu e tu que me ensinarás
a nadar seremos sempre nós sob
o sol morno de julho e o véu ténue
do nosso silêncio será sempre o
teu e o teu e o meu sorrizo a cair (...)” Pág. 14
2006/06/01
O Fio Da Navalha - Somerset Maugham
Laurence Darrel é um combatente da primeira guerra mundial que viu morrer o seu melhor amigo por ele. Este choque provocou em Larry o desejo de compreender o sentido da vida e partir da vida confortável que o conformismo lhe oferecia. Desfaz o noivado com Isabel e parte por esse mundo fora. Na busca do seu objectivo começa por frequentar obsessivamente bibliotecas, vive num mosteiro, trabalha numa mina de carvão, trabalha como lavrador à jorna e chega até a viver na Índia como eremita onde atinge a "iluminação".Os outros personagens representam os outros contrastes do mundo, desde aqueles que consideram a cultura uma posse exclusiva de uma elite estanque, em que ser culto é uma condição que se deve ao “status” e não por ter conhecimentos, considerando todos fora da sua esfera como pobres analfabetos. Até aqueles que buscam a autodestruição devido às agruras que a vida lhes ofereceu. Maugham expõem aqui toda a mesquinhez e futilidade de um “jet-set” do inicio do século XX, cujo sofrimento é banal e insignificante face a quem realmente sofre e que também por isso, caminhava a passos largos para a decadência, numa América do Norte e Europa em constante mudança e instabilidade.
Numa visão mais ampla este livro é um confronto de um mundo velho contra aquilo em que se transforma, um instável mundo novo que busca novos caminhos em diferentes direcções. Partindo desde o fim do primeiro conflito mundial e os “loucos anos vinte”, passando pela crise de 29 e chegando até aos meados da década de 30 do século XX.
O autor Somerset Maugham é um dos personagens que estabelece a ponte entre todos os outros personagens numa escrita fantástica, que nada deixa ao acaso. Brinca com todos os pormenores, mas sem fazer descrições maçadoras, conseguindo fazer com que o leitor sinta todos os ambientes descritos no livro, que acaba por se tornar numa agradável companhia.
2006/05/31
A Invenção do Dia Claro - Almada Negreiros

O meu maior problema com este comentário é lutar contra a vontade emergente de transcrever na totalidade os textos de Almada sem deixar uma só palavra de fora. Isto porque o livro é um todo formado por III Partes seguidas pelas "Démarches para a Invenção" e acompanhadas por "Confidencias mais Intimidades Geraes" que, se tiradas do seu contexto perdem não só em significado, como em termos rítmicos e até metafóricos. Além disso, a minha vontade era mesmo partilhar com todos o prazer imenso que retiro desta leitura!
"Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
2006/05/18
Se Numa Noite de Inverno Um Viajante - Italo Calvino

2006/05/15
Un papá a la medida - Davide Calí
É um livro delicioso, daqueles que se lêm com todos os sentidos! É daqueles que pede para ser contado com o livro bem pertinho para que quem ouve se possa maravilhar com as belíssimas ilustrações de Anna Laura Cantone.
Continuem em Boa Companhia!

Canto de Mim Mesmo - Walt Whitman
De alguma forma tenho que admitir: é uma realidade que sinto alheia.
2006/05/10
Eu não fui - Christian Voltz
A história é simples, as ilustrações são deliciosas... aconselho vivamente!
O Circo da Lua - André Gago
Estorvo - Chico Buarque
O pai no tecto - Maria Teresa Maia Gonzales
2006/05/04
The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton
Já tenho este comentário 'pensado' há algum tempo, mas deparo-me sempre com uma dúvida existencial incontornável:-Como explicar o que sinto sobre este livro?!
Para mim este pequeníssimo livro é genial embora de uma crueldade mordaz, é fantástico (em toda a amplitude da palavra) embora não deixe de ser bizarro, posso mesmo dizer que chega a ser mórbido sem, contudo, deixar de ser simplesmente lindo...
Mas esta é a minha opinião ou melhor, esta é provavelmente a opinião de todos os que se identificam com o imaginário do homem que criou filmes, como por exemplo, Big Fish, Eduardo Mãos de Tesoura, O Estranho de Mundo de Jack ou A Noiva Cadáver...
E os outros, o que acharão os outros (aquelas pessoas estranhíssimas que não estão dentro da órbita deste planeta fantástico povoado por seres estranhos e onde a maldade é vizinha do acaso, que por sua vez é irmão da beleza...)?!
Bem, na verdade, a opinião desses é-me indiferente...
Fiquem em boa companhia!
2006/05/03
Grávida no Coração - Paula Pinto da Silva

Publicado pela Campo das Letras, este livro vai directo ao assunto: de que massa se faz a maternidade e a paternidade. A leitura do livro é muito rápida, o texto sintético, organizado em pequenos diálogos mãe/filho. Aconselho vivamente. A mim tocou-me muito. A outros não, pelos vistos. Concedo que as ideias não são novas: são provavelmente tão velhas como a maternidade e a paternidade mas - que querem? - é exactamente assim que eu me sinto - grávido no coração - em relação a todos aqueles que assumi como filhos.
2006/04/26
José Afonso - Textos e Canções
Esta é uma referência que não poderia deixar de fazer. Com ela festejo Abril e a liberdade de ler, publicar ou tão pouco comentar.É uma compilação da obra poética de José Afonso organizada cronologicamente (por Elfriede Engelmayer) que nos presenteia, não só com os poemas que nos povoam o imaginário colectivo das Canções de Intervenção, mas com tantos outros textos/poemas 'não musicados' e, por isso desconhecidos.
A leitura destes últimos, permite um olhar muito mais profundo, mais íntimo e a descoberta do poeta para além do cantor.
"A possibilidade de acesso à obra de um artista é a condição «material» para que elenos seja presente(...)" (Nota Prévia - Pág. 8)
Aqui deixo um cheirinho (de alecrim) :
A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
investe
perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se e organiza-se
A palavra precisa de ternura
(A Palavra - Pág. 151)
***** ***** ***** *****
Nefretite não tinha papeira
Tuthankamon apetite
Já minha avó me dizia
Olha que a sopa arrefece
Nos funerais de antanho
As capicuas gritavam
E às escuras na cozinha
Já as galinhas dormiam
Manolo era o rei do fandango
Do fandaguilho picado
Maria se fores ao baile
Leva o casaco castanho
O rei João era dos tesos
Chamavam-lhe João dos Quintos
Lá na terra brasileira
Vinham quintais de Ouro Preto
Em suma a soma interessava
A quem interessa algum dia
De lingotes e pimentas
Ainda vamos ao fundo
Lá para o reino da Arábia
Havia amêndoas aos centos
Que grande rebaldaria
E a Palestina às escuras
Os Sheikes israelitas
Já que estou com a mão na massa
Lembram-me os Sheikes das fitas
Que dão porrada a quem passa
(Nefretite não tinha papeira - Venham mais cinco- Pág. 242)
Fiquem em boa companhia!
2006/04/20
Quando Nietzsche chorou - Irvin D. Yalom

Há muito que dizer sobre este livro e o seu escritor Irvin D.Yalom, que eu desconhecia em completo. Tentarei ser concisa (coisa que me é difícil) e não estragar futuras leituras...
Começo por dizer que a leitura se torna, eventualmente, mais estimulante para quem já se encontrou com Nietzche e, em algum ponto da sua vida, teve o tempo e a vontade necessários para conhecer o Super-Homem e o Zaratustra. Mas, por outro lado, quem os desconhece ficará, por ventura, com vontade de os procurar.
Adorei a discussão filosófica transversal a todo o livro, que desvenda aos poucos o estranho, cruel e áspero Nietzche "É preciso ter caos e frenesim dentro de si para dar à luz uma estrela dançarina." (Pág.191)
Eu diria mesmo que é este o ponto alto do livro, a dialéctica entre o homem que matou Deus e leva esse peso às costas e o homem comum (que "tem mulher e filho e tralha e tal") com as questões e dúvidas existenciais comuns dos homens de quarenta anos. E essa discussão é feita, magistralmente, mantendo a força dos monólogos intercalados nos diálogos, dando-nos a possibilidade de 'ouvir' cada interveniente sem perder o seu diálogo interior.
Claro que a rota final do livro é uma verdadeira montanha-russa de emoções, mas quanto a mim acaba por pecar um pouco pelo simplismo com que é dada a volta final.
Pareceu-me que a questão da 'descoberta de um tratamento para o desespero através da conversa’ e a participação de um tal aspirante a médico de nome Freud funcionam mais como estandartes publicitários para o romance do que propriamente parte integrante da acção.
A abordagem das relações humanas, como a amizade, o amor e a sexualidade baseadas numa relação de poder dominante/dominado; a solidão e a capacidade de viver em sociedade sem nos deixarmos 'levar ou afogar' por ela são, para mim, as verdadeiras pérolas deste livro.
Fiquem em 'boa companhia'!
Adeus às Armas

Devo também dizer que achei estranho o facto de ao ler este livro ir encontrando umas certas semelhanças com outra obra comentada neste blog. Uma obra que gostei bastante, mas que depois de ler o “Adeus às Armas” senti uma certa desilusão, porque me pareceu que José Rodrigues dos Santos mostra um profundo conhecimento da obra de Hemingway, ou pelo menos desta obra de Hemingway
Mas deixo para os nossos leitores a curiosidade e o juízo. Termino dizendo que esta foi a 3ª obra de Hemingway que li e que até agora gostei de todas. Como as anteriores “Adeus às Armas” vale a pena.
2006/04/18
Ish - Peter Reynolds

Bem, esta é a primeira vez que faço companhia às letras (ou será, tenho a companhia das letras?!) e por isso estou um tanto perdida sem saber bem que letras escolher para acompanhar as que por aqui costumam passar...
Assim, escolhi a companhia de um livro que me mostrou que não devemos ter medo de tentar, de avançar, de nos mostrar. Se isto não for bem um Post, será certamente um "quase-post"!
Em espanhol chama-se 'Cuasi', em português seria (caso estivesse traduzido) 'Quase' e é a história de um menino que adora desenhar mas que um dia, provocado pelo gozo do seu irmão mais velho, percebe que não consegue desenhar as coisas como elas realmente são e decide pousar o lápis. Até que a sua irmã mais nova...
É um livro aparentemente infantil (como quase todos os que assim são classificados), mas que leva uma mensagem que toca a todos. Não tem muitas letras, é certo, é óptimo para contar (ou ler) eu diria mesmo que é daquelas histórias - sucesso garantido.
Obrigada pelo convite e fiquem em boa companhia!
2006/04/04
Gaveta das nuvens - José Gomes Ferreira
Harry Potter e o Príncipe Mestiço - J.K.Rowning
O Lado Negro da Internet - Ivo Dias de Sousa
De todo o modo, gostei de ter lido este livro. Ajudou-me a criticar algumas coisas, a ver a evolução histórica de outras, a pensar outras ainda. É particularmente interessante ver que, efectivamente, as maiores "ameaças" da net são também as suas oportunidades mais emergentes.
DOIDÃO - José Mauro de Vasconcelos
Em abono do livro algumas notas: a personagem central é muito bonita, grande, não se contém no espaço nem no tempo da narrativa. Os barcos, a geografia, a falta de laços dão-lhe uma dimensão especial. As temáticas do namoro e da relação com o pai, como sempre, abordadas com uma enorme ternura. Finalmente, notar que este livro não é sentimentalista.
Valeu muito a pena tê-lo lido. Veio confirmar o óbvio: o enorme escritor que é o JMV.
Intensidade - Dean Koontz
Não é um policial, uma vez que não há qualquer mistério a resolver, não se pode dizer que tenha muitas surpresas, porque tudo parece desenrolar-se naturalmente, ligeira excepção aos veados da história, que eram dispensáveis.
Ainda assim a tensão é constante, vibrante, crescente.
Intenso.
Gostei muito, fiquei com vontade de conhecer melhor este autor.
Conselhos do Coração - Dalai Lama
Gostei muito da maneira como está escrito, por ser uma forma simples, divertida, leve de falar com rigor da vida de cada um.
Penso que a Igreja, em especial a Igreja Católica tem muito a aprender com esta forma simples de escrever. É óbvio que não é um texto para iniciados. É um texto dirigido a "leigos e gentios". É um texto muito inteligente.
E = mc2 - A Biografia da Equação mais Famosa do Mundo - David Bodanis
Excepcional por ser um livro de ciência acessível a qualquer leigo.
Excepcional por conseguir colocar os cientistas como parte da própria ciência.
Excepcional por fazer parecer trivial, óbvias, as maiores descobertas científicas da humanidade.
Fiquei várias vezes a pensar "mas como é que eles não pensaram nisto antes"?
Fiquei no entanto com algumas dúvidas e curiosidades. Mas sei que as limitações são minhas. Para ir além disto, eu teria de ter outros conhecimentos, muitos mais conhecimentos.
Por exemplo, a questão da velocidade: ainda não percebi muito bem porque é que temos este limite de velocidade: a da luz.
Por exemplo, a transformação da energia em massa, parece muito para além daquilo que efectivamente consigo imaginar. (Curiosamente o contrário, a transformação da massa em energia, já me é relativamente fácil de aceitar)
Por exemplo, os efeitos da velocidade sobre os passageiros e os elementos estáticos fora do veículo...
É o costume... quando percebemos um pouco mais temos muito mais perguntas!!!!
Paraíso na Outra Esquina - Mario Vargas Llosa
Foi interessante de ler. Apreciei sobretudo a descrição do trabalho na época de Flora. Gostaria de ter visto as suas histórias um pouco mais entrelaçadas, penso que isso não seria difícil, apoiado em ideias chave para cada binómio A-B.
O travo mais amargo do livro é, sem dúvida a vida do Paul Gaugin. Pintor brilhante, esse tipo era um completo idiota, irresponsável, criminoso. Que pena ter lido o livro, estragou-mo um pouquinho dos quadros.
Origens - Amin Maalouf
Gostei também do Médio Oriente que podia ter sido, de que o autor quer falar, ao referir-se ao seu avô.
Tive pena que a história se cingisse a um homem - ou melhor a uma geração. Esperava, pelo início, que o autor tivesse ido além, procurasse outras gerações, deixasse um retrato de família mais completo.
Gostei particularmente da história cubana da família e da sua visita a essa história.
O início fez-me pensar um pouco nas histórias de família que deixamos entregues à erosão da "tradição oral". Restam-me dois avós e é tanto que eu desconheço das minhas origens. Tantas histórias que ouço, ainda hoje pela primeira vez. Tantas que eu ouço e relembro sem que verdadeiramente as conhecesse...! Há que aproveitar as vozes dos vivos enquanto as podemos ouvir. Depois apenas restarão as vozes dos mortos, e nem todos temos uma mala de arquivo familiar escrupulosamente desarrumado!
Pequeno Formato - Eugénio de Andrade
Vendedor de Passados - José Eduardo Agualusa
Deus das Formigas Deus das Estrelas - Remy Chauvin
Muito interessante a sua forma de chegar a Deus.
Embora nunca o tenha lido completamente, este livro fez-me lembrar o Universo Inteligente, de Fred Hoyle. Será certamente uma das minhas leituras seguintes, e fica desde já disponível (logo que eu o encontre) para quem queira completar este livro com aquele Universo Inteligente.
Vinho Mágico - Joanne Harris
Historia dos Açores - Visão Geral (secs xv a xix) - Luís Mendonça
Ajudou-me a fazer um apanhado geral da história dos Açores, mas não é um livro que eu possa recomendar. Demasiado miserabilista, fica-se sempre com a ideia de que os Açores se desenvolveram apesar da sua classe dirigente e contra ela - o que me parece um disparate completo.
Uma Cana de Pesca para o meu Avô - Gao Xingjian
Na Noite do Ventre, o Diamante - Moacir Sclair
Não gostei particularmente do fim, embora admita que não deixa de ser um final curioso.
Gostei muito, também, da ideia da editora: um livro para cada dedo da mão. Gostava de ler os restantes dedos, confesso.
Crimes exemplares - Max Aub
Este livro, confirmando inteiramente a regra, não deixa porém de ser a excepção. A descrição crua de diversos crimes, agresssões, homicídios, confere-lhe características de agressividade muito forte, de uma forma absolutamente gratuita.
Porém há que dizer duas coisas em seu favor: em primeiro lugar, que este livro é um documento interessante, que nos mostra o quanto a vida é efémera (e todos aschamos de uma forma ou de outra que ela dura a eternidade dos nossos dias). Em segundo lugar, que a escrita que os testemunhos são muito intensos. Breves trechos muito impressivos - ou não fosse o facto de cada um deles significar um homicídio. Impressionam sobretudo aqueles relatos em que claramente não houve premeditação. Houve alguém que teve um "momentary lapse of reason".
O pior é termos a sensação que podia acontecer a todos, estar de qualquer dos lados: dos que morrem e dos que matam.
Uma história suja - Luís Sepúlveda
Diz a contracapa que "LS não é um escritor neutro". Obviamente tem razão.
Independentemente de se concordar ou não com algumas das referências, críticas e opiniões do autor, fica claro que essas críticas são feitas com apelo à paixão muito mais do que à razão, ao sentimento muito mais do que ao argumento, ao fait divers muito mais do que ao facto.
LS não é um escritor neutro e as suas opiniões perdem força por causa disso. E não mereciam, muitas delas não mereciam perder força pela falta de lucidez, pela parcialidade com que estão formuladas.
Gostei particularmente das crónicas "Desculpe, D. Miguel", "As palavras e a razão" "O enigma das percentagens e dos pontos" e "Acerca da Luz"
Diário - Sebastião da Gama
De todo o modo, penso que há muito de bom a retirar deste livro. Para falar a verdade, gostei tanto dele que quero que um dia destes faça parte da minha biblioteca pessoal.
O país do Carnaval*Cacau*Suor
A descrição de uma luta - Franz Kafka
Gostava sinceramente de poder ler comentários de quem já o tenha lido.
Jaime Bunda, Agente Secreto - Pepetela
Não se pode dizer que o policial seja muito interessante, mas afinal, ele é só um pretexto.
Depois seguem-se dois registos, mais profundos, por esta ordem.
A paródia aos policiais encarnada - e bastante encarnada - em Jaime Bunda, o anti-herói.
A sociedade angolana, a viver em paralelo a ela própria , o Roque Santeiro, o mercado a sério, paralelo aos mercados oficiais, menos sériosm concerteza.
Gostei muito. O Pepetela já me vai habituando a isso.
2006/01/16
Terapia - David Lodge
Em David Lodge há uma razão fundamental pela qual eu o leio: o excelente humor, inteligente, tenso, denso, profundo com que ele escreve.
Além disto os livros dele juntam algo que vai sendo cada vez mais extraordinário nos tempos que correm: uma excelente cultura, com particular referência à literatura inglesa.
Neste livro ele demonstra um pouco de tudo isto. E muito mais.
O início do livro é de tal forma enfadonho (embora divertido) que estive quase a deixá-lo a meio. Precisamente no momento em que me preparava para dizer "não aguento mais" o livro faz uma enorme viragem (no final da primeira parte) e eu percebo finalmente um artifício, uma figura de estilo que até hoje desconhecia na literatura: a de escrever de tal forma que se induza no leitor o estado de alma que permita compreender o enredo.
Daí por diante o livro ganha asas: tudo o que se passa de seguida é alucinantemente interessante, e vários dias atrasámo o pequeno-almoço até aos limites do razoável para poder terminá-lo.
Brilhante.
2006/01/11
A Desgraça - J.M. Coetzee
Lê-se de uma penada, com gosto, com vontade de chegar ao fim. Mas o fim tem precisamente este toque ácido que acompanha todo o livro. Não se sente que desenvolva. Como se David fosse o único ponto estático.
É um livro estranho: queria que não fosse assim, mas percebo que este era, talvez o único caminho que não o desvirtuasse, que não traísse David na sua miséria autoinfligida.
A temática do morto/matado é, sem dúvida, central a este texto.
Talvez fizesse sentido falar também de castigo-perdão-misericórdia. Os castigos autoinflingidos. A forma como o perdão permite seguir em frente apesar das desgraças, construir sobre os escombros. Não falo da misericórdia. Desvendaria demasiado para quem não tenha lido. Digo só que me parece uma palavra chave deste livro, posta em sistema com as outras duas.
Ficou aquém do que eu esperava quanto ao retrato da África do Sul. Foi muto além como escritor. Que força nas personagens!
Excelente livro.
2006/01/04
A arte da guerra - Sun Tzu
A arte da guerra é um livro interessante. O problema é tentar-se extrapolar dele demasiado. É um livro de instrução militar. Qualquer extrapolação é mera coincidência ou, em alguns casos, a afloração de uma regra de prudência mais lata.
Faz lembrar o Príncipe do Maquiavel.
"Viena" e "Amsterdão" - Guias American Express
Porém, pela primeira vez notei algumas falhas: edifícios interessantes que não estão assinalados, percursos de eléctrico que não estão descritos e deviam estar. Estes guias (em particular o de Viena) merecia ser revisto.
A árvore dos tesouros - Henri Gougaud
A julgar pelas zonas do globo que conheço melhor, nada disto. E nada mais. Por isso, é um punhado de gãos de areia por sedimentar: não fazem uma praia, porque são apenas uma ínfima parte da praia, não fazem uma pedra por não terem unidade. E depois do vento da memória, o que fica?
História Secreta de uma Novela - Mário Vargas Llosa (BM)
Leitura muito agradável (e curta).
2005/11/23
Nenhum Olhar - José Luís Peixoto
Uma escrita triste, uma história triste, uma opção pela tristeza, falando sempre do que corre mal mais do que do que corre bem, enfatizando os problemas, os dramas, a tristeza. É um livro deprimido.
A capa é muito bem escolhida (dá gosto passear um livro com uma capa tão bonita) e curiosamente a escrita de JLP tem afinidades claras com a pintura de Paula Rego no que ambas têm de cuidado, de força e de tristeza, de uma tristeza intencional, irremível, irreal.
Não, não gostei, sobretudo porque podia ter gostado muito.
2005/11/14
Memorias de Mis Putas Tristes
Ficamos sempre à espera de um momento de rasgo, de uma centelha de génio. Nada. Começo a duvidar que o Cem Anos de Solidão tenha sido escrito por Garcia Marquez.
2005/10/31

Desde criança que gosto de tourada e talvez por essa razão Verão Perigoso tenha sido o primeiro livro de Ernest Hemingway que eu li. Um bom ensaio, em que Hemingway descreve a Espanha da década de 50 e em particular as touradas. A razão de ser deste livro explica-se pelo convite feito pela conceituada revista Life para Hemingway fazer a cobertura do confronto entre António Ordóñes e Luís Miguel Dominguin, dois dos maiores toureiros de todos os tempos, que se iriam defrontar no Verão de 53. Um pequeno aparte para referir que este foi o derradeiro livro de Hemingway.
A forma como está escrito, com excelentes descrições, como convém a qualquer ensaio, faz com que o leitor possa “sentir” a Espanha de 50 e o fervor que Hemingway sentia pelas touradas. Para quem gosta de tourada ou para quem gosta do ambiente mediterrânico, dois factores pelos quais eu sinto um encanto muito particular, este é certamente um livro a não perder.

Ensaio publicado em 1997, De Profundis, Valsa Lenta é um livro muito particular escrito por José Cardoso Pires. Muito particular porque foi escrito depois de José Cardoso Pires ter recuperado de um acidente vascular cerebral. Talvez a única obra, é definitivamente a única que eu li, em que a pessoa que sobreviveu a um AVC decidiu escrever sobre esta experiência que deve ser certamente angustiante e dolorosa. Desde que li este livro que o considerei como um dos melhores ensaios que já li, tanto pela forma como está escrito, de uma forma sóbria que demonstra que o génio de José Cardoso Pires não saiu afectado, como pelo tema em questão e a vontade de descrever algo a que poucos sobrevivem. Mas para além do que eu posso dizer deste livro, penso que os dois prémios que a obra recebeu, o “Prémio D. Dinis” e o “ Prémio da Critica” atribuído pela Associação Internacional de Críticos Literários, demonstram a qualidade deste livro.
2005/10/10
Bookcrossing
Já agora fica a indicação de um site explicativo em português
Fantasia para dois coronéis e uma piscina - Mário de Carvalho
Vale muito a pena.
2005/09/10
Fernão Capelo Gaivota

Um pequeno grande livro é o mínimo que se pode dizer de “Fernão Capelo Gaivota” de Richard Bach. É a história de uma gaivota que decidiu aprender a voar, não se limitando a viver para comer, mas a voar para alargar o seu conhecimento. Excluída por ser considerada diferente e por ir contra as regras estabelecidas, Fernão Capelo Gaivota viaja e alarga os seus horizontes. Um dia percebe que mais gaivotas gostavam de aprender a voar e por isso ensina-as os segredos do voo, até que consegue fazer com que todas aprendam e que continuem a evoluir.
O voo que Fernão Capelo Gaivota queria é o inconformismo com as regras pré estabelecidas que nos limitam o conhecimento e a vontade de querer saber sempre mais, algo natural em todos os Homens, mas que devido a várias barreiras em que a principal é o auto-conformismo, acabam por matar essa condição natural. Este pequeno conto de Richard Bach tem a intenção de fazer perceber as pessoas que este conformismo não é natural e que deve ser abandonado. Os Homens devem usar as "asas" que Deus lhes deu para voar, voar até onde a imaginação alcança, até ao infinito!
2005/09/01
Baudolino
Baudolino é mais um magnifico livro de Umberto Eco. Um livro como outros deste autor, em que as descrições sobre a vida real da Idade Média são simplesmente brilhantes. Onde os acontecimentos reais estão presentes ao lado da fantasia.O fio condutor deste livro é a história e as aventuras de Baudolino, um plebeu com uma imaginação prodigiosa, nascido na Franscheta, e que por ironia irá integrar a corte do Sacro-Império como filho adoptivo do Imperador Frederico, o Barba Roxa.
Durante as aventuras de Baudolino e os seus amigos podemos contemplar a História real das lutas entre Frederico e o Papa, as cruzadas, a tomada de Constantinopla e etc…. Podemos também saborear as mitologias da época que culminam com a busca do Reino do Prestes João.
Um livro que qualquer pessoa que goste da Idade Media ou simplesmente de uma boa história deve ler.
2005/08/18
Da Carta de Taizé 2005 III
"No Evangelho, podemos descobrir esta realidade surpreendente: Deus não provoca nem medo nem inquietação, Deus só pode amar-nos.
Pela presença do seu Espírito Santo, Deus vem transfigurar os nossos corações.
E através de uma oração muito simples, podemos pressentir que nunca estamos sós: o Espírito Santo é em nós o amparo de uma comunhão com Deus, não apenas por um instante, mas até à vida que não tem fim."
Irmão Roger de Taizé
Da Carta de Taizé 2005 II
"É verdade que ao longo da história, os cristãos conheceram múltiplos abalos: surgiram separações entre os que, afinal, se referiam ao mesmo Deus de amor.
Restabelecer a comunhão é hoje urgente, não se pode adiar permanentemente até ao fim dos tempos.15 Será que fazemos tudo para que os cristãos despertem para o espírito de comunhão?16
Há cristãos que, sem mais demoras, vivem já em comunhão uns com os outros onde quer que estejam, muito humildemente, de forma muito simples.17
Através da sua própria vida, desejam tornar Cristo presente a muitos outros. Sabem que a Igreja não existe para ela própria mas para o mundo, para depositar nele um fermento de paz."
Irmão Roger de Taizé
Da Carta de Taizé 2005 I
"Vivemos num período em que muitos se interrogam: o que é a fé? A fé é uma confiança muito simples em Deus, um indispensável impulso de confiança, permanentemente retomado ao longo da vida.
Em cada um de nós, pode haver dúvidas. Elas não têm nada de inquietante. Queremos sobretudo ouvir Cristo murmurar nos nossos corações: «Tens hesitações? Não te inquietes, pois o Espírito Santo permanece em ti.»
Há quem tenha feito esta descoberta surpreendente: o amor de Deus pode também desabrochar num coração marcado pela dúvida."
Irmão Roger de Taizé
2005/08/16
Irmão Roger de Taizé

Não são só os responsáveis dos povos que constroem o
futuro.O mais humilde dos humildes pode contribuir para a
construção de um futuro de paz e de confiança.
Por muito poucos meios que tenhamos, Deus concede-
nos levar reconciliação aonde há oposições e esperança
aonde há inquietação. Convida-nos a tornarmos acessível,
através da nossa vida, a sua própria compaixão pelo ser
humano.
Se houver jovens que se tornem, através da sua própria
vida, artesãos de paz, haverá luz à sua volta.
Irmão Roger de Taizé, da Carta de Taizé 2004
Por ocasião da sua morte, recordo a confiança e a paz do seu sorriso, a força da sua oração, a simpatia da sua presença.
Para conhecer a Comunidade de Taizé
2005/08/14
Recordar Aljubarrota
De Deus guiada só, e de santa estrela,
Só pode o que impossível parecia:
Vencer o povo ingente de Castela.
Vês, por indústria, esforço e valentia,
Outro estrago e vitória clara e bela,
Na gente, assim feroz como infinita,
Que entre o Tarteso e Goadiana habita?” (Os Lusíadas, Canto VIII)
Apenas para recordar o 14 de Agosto de 1385.
2005/08/11
Garfield
Só fica tempo para as coisas instantâneas, como o Garfield, editado agora a acompanhar um jornal.
Fica uma tira, para abrir o apetite.
2005/08/02

Este é o título da última obra de José Rodrigues dos Santos. Um livro que nos conta o romance entre um Capitão do CEP e uma Belga. As descrições do percurso de cada uma destas personagens até ao seu encontro durante a Primeira Grande Guerra são excelentes. Durante a leitura torna-se evidente que o autor fez bastante trabalho de pesquisa, pois descrever a vida nas trincheiras não é fácil, tal como não é fácil descrever detalhadamente a vida rural de Portugal do séc. XIX.
António Manuel P. Silvério Guimarães
2005/08/01
Tanta mãos, a mesma Primavera
A sombra da mão
Rasguei tantos papéis
Tantos lumes
Só para o poema ser luz
E nele ver
A sombra da minha mão.
Izidro Alves
2005/07/29
Madre Teresa de Calcutá III - Aborto
Renovo este voto, em meu nome e da minha família: Quem não quiser as crianças que vão nascer, que as dê a mim. Não rejeitarei uma só delas.
Madre Teresa de Calcutá II - Família
Madre Teresa de Calcutá
2005/07/20
Madre Teresa de Calcutá
Recomendo vivamente.
Quem mexeu no meu queijo? - Dr. Spencer Jonhson
Tenho que dar o braço a torcer. O livro é simples e prático, e acredito que pode ajudar a olhar para a vida de outra maneira. Não contém verdades absolutas, não vai revolucionar nada, levá-lo ao extremo seria obviamente um exagero, mas pode ser uma boa ajuda para rever a nossa vida e as nossas atitudes.
Vale a pena ler.
2005/07/06
Pouco tempo para letras.
Além disto, um livro de pequeno contos, para preparar o sono "A árvore dos tesouros", uma recolha de lendas e contos do mundo inteiro. Alguns são interessantes, outros nem por isso.
Li entretanto o "Outono do Patriarca", do Gabriel Garcia Marquez, pequena novela da qual não gostei. Das várias coisas que li dele apenas sobressai um livro, sendo que esse é monumental. Falo, naturalmente, dos "Cem anos de Solidão".
2005/06/14
O ponto final de Eugénio de Andrade
Ficam as amoras, o fruto mais bravio, que não pede licença à terra.
As Amoras
O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul
Eugénio de Andrade


