2008/04/12

A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias - Tim Burton

Li este livro de uma assentada, claro! Escusado será dizer que gostei bastante (conhecendo já uma grande parte do trabalho cinematográfico de Tim Burton, sou aquilo a que se pode chamar um praticamente-fã do realizador). É incrível como Tim Burton consegue criar estas histórias (e não estórias como vem na capa do livro - fica a nota feita) de inadaptados que no fundo não têm culpa nenhuma de o ser. Pior mesmo só o facto de serem a maior parte das vezes rejeitados pelos próprios pais e, no fim, por todos os que os rodeiam. Nenhuma das histórias termina com um final feliz. Não há qualquer tipo de redenção e acho que é isso mesmo que diferencia o Tim Burton de todos os outros. Trata os assuntos da morte e da dor tão prosaicamente como outro qualquer autor/realizador trataria o tema do amor. É a inversão quase total dos valores que estamos acostumados a aceitar como garantidos. Aqui não há amor, há o contrário do amor, há "desamor"... Nem os pais amam os seus filhos (num dos contos, chega-se mesmo ao absurdo máximo que é o próprio pai comer o filho para se curar de um problema de impotência), desajustados do mundo sem culpa alguma ("O Rapaz Robô", "A Morte Melancólica do Rapaz Ostra", "O Rapaz Múmia", "O Bebé Âncora") nem os inadaptados amam quem os ama a eles ("A Rapariga Lixo") ou, se os amam, é um amor impossível ("Palitinho e Fosforina Apaixonados", "A Rapariga Vodu"). E há os que são simplesmente inadaptados e vivem (e/ou morrem) sozinhos e tristes ("O Rapaz Nódoa", "A Rapariga que se Transformou numa Cama", "Roy, o Rapaz Pesticida", "A Rainha das Almofadas de Alfinetes", Cabeça de Melancia", "Crispim, o Hediondo Rapaz Pinguim", "O Rapaz Torresmo"). Estranho é igualmente o facto de algumas histórias serem ambientadas na época do Natal, precisamente aquela em que supostamente estamos mais sensíveis aos actos de caridade e amor.

Nota especial também para as ilustrações que ajudam a complementar os poemas (ou será que são os poemas que complementam as ilustrações?). Muito interessante este livro.

7 estrelas

2008/04/06

A Praia - Alex Garland

Demorei mais tempo a acabar este livro do que aquele que à partida seria necessário, mas isso deveu-se ao facto de me ter deixado levar calmamente pela escrita deste Alex Garland. Convenhamos: esta não é uma grande obra-prima literária (nem pouco mais ou menos), mas está escrita de tal forma que nos deixa agarrados desde a primeira frase até à última, muito graças à quantidade incrível de acontecimentos. Por estas razões, não é de estranhar que passado tão pouco tempo após a publicação deste livro, ele tenha sido adaptado ao cinema. E percebe-se perfeitamente que foi escrito no início da década de 90, graças às referências a filmes e especialmente aos jogos de vídeo: quem não se lembra de jogar o Street Fighter, o Super Mario ou o Sonic? Além disso, é ali abordado um tema que começou a tornar-se pertinente naquela altura e que hoje sentimos cada vez mais na pele, que é o do turismo de massa (a este propósito, as observações de Richard no que respeita a ser um viajante são também muito interessantes e dignas de nota).

Infelizmente já vi o filme protagonizado pelo Leonardo DiCaprio mais de uma vez, por isso esta leitura foi sempre um bocado contaminada pelas imagens e pelo que eu já sabia que ia acontecer. No entanto, foi sempre deixado espaço à surpresa, na medida em que nem tudo foi mantido igual na transposição para o grande ecrã. Além disso, consegui perfeitamente dissociar a imagem do Leonardo ao Richard! Preferi muito mais o Richard britânico e moreno do que o americano loiro e de olhos azuis. Em todo o caso, e acho que isto só acontece porque já tinha visto o filme antes de ler o livro - caso contrário seria um feroz crítico de tamanhas liberdades - não acho que as alterações tenham desvirtuado muito a história. Bem, talvez exceptue desta observação os apontamentos românticos e sexuais que não existem na versão literária, o que não deixa de mostrar que o filme foi feito mais a pensar em encher o olho aos adolescentes com as hormonas aos saltos do que propriamente para bem da Sétima Arte.

Julgo que este livro não deva ser incluído junto daqueles que tratam sobre a intrínseca maldade humana (tal como O Deus das Moscas), como me fizeram crer quando mo aconselharam. No entanto, não deixa de surpreender um pouco a violência dos capítulos finais. A única personagem com quem simpatizei verdadeiramente foi Étienne, o mais sensato do grupo. Todos os outros me pareceram excêntricos (Unhygienix), calculistas (Sal), desinteressantes (Keaty), loucos (Richard). Estranho é também a associação que Alex Garland faz entre a Praia e a Guerra do Vietname, fazendo surgir do nada (ou melhor, da loucura de Richard) a personagem Daffy. Sinceramente, acho que não cheguei a perceber muito bem essa associação...

Quanto à ideia de viver num sítio paradisíaco longe de tudo e de todos pode ser bastante apelativa, mas não sei se gostaria de passar pela experiência. Talvez por um curto espaço de tempo fosse interessante, mas poderia tornar-se rapidamente aborrecido. Além disso, como fica ali provado, o paraíso de facto não existe.

7 estrelas

2008/03/10

Neverwhere, Na Terra do Nada - Neil Gaiman

Neil Gaiman anda nos últimos tempos na boca do mundo. É até comum referirem-se a este autor como o mais adaptado ao mundo do cinema. De facto, ele é autor de um livro que recentemente foi adaptado ao grande ecrã com Michelle Pfeiffer, Robert de Niro e Clare Danes nos principais papéis. O filme chama-se "Stardust" e tenho a certeza que já muita gente ouviu falar dele.

Deste autor, a primeira coisa que li foi Sandman (uma BD que sei que me agradou bastante, mas que teria de voltar a ler para me relembrar da história toda) já aqui há uns tempinhos. Posteriormente viria a ler também a BD 1603 - uma adaptação dos heróis da Marvel ao século XVII que faz uma grande misturada (até extra-terrestres lá aparecem), juntando o Daredevil com o Quarteto Fantástico e X-Men, não esquecendo Thor e o Capitão América, mas que não deixa de ter o seu interesse para quem gosta de comics.

Apesar de o autor ter inicaido carreira com argumentos para BD, também escreve livros (e muitos) e como tem tantas opiniões a seu favor, decidi "mergulhar" na sua obra. Vai daí, fui até à biblioteca e requisitei Coraline e a Porta Secreta (livro juvenil de que não guardo grandes memórias) e, mais tarde, o tal Stardust - O Mistério da Estrela Cadente e Neverwhere - Na Terra do Nada. Este terminei-o na semana passada.

Sinceramente, não posso dizer que não gostei dos livros. No entanto, sempre que leio um dos seus livros fico reticente quanto a afirmar categoricamente que gostei. É que não me parece que ele escreva assim muito bem. A sensação com que fico mesmo é a de que são livros escritos para crianças, talvez pelas histórias em si (o narrador é não ominisciente, pelo que nos conta tudo em tempo real, sem se adiantar com explicações ou o que quer que seja, e a personagem principal - que entra invariavelmente num mundo mágico, muito diferente do mundo normal em que anteriormente habitava - e à qual é sempre exigida uma demanda para que consiga regressar à realidade, entendida aqui como a felicidade - embora no fim acabe por descobrir que a felicidade afinal não é aquilo que desejou ao longo do livro todo - é sempre tratada pelas restantes personagens mágicas como uma criança ingénua à qual não vale a pena explicar nada). Bem, quanto ao facto de os livros serem para crianças, é melhor reformular, pois isso não será totalmente verdade... É que certas passagens chegam mesmo a ser um bocadinho violentas (orelhas cortadas, dedos partidos, mortes, etc).

De falta de imaginação não podemos acusar este Neil Gaiman. E a ela podemos perfeitamente acrescentar o seu sentido de humor (bastante sarcástico, um humor negro bastante bem conseguido), que é o que faz com que, se dúvidas houvesse, se deixe de suspeitar que o livro foi escrito para crianças.

O próximo livro que lerei do Neil Gaiman será Bons Augúrios (escrito a meias com Terry Pratchett). É que embora ainda não esteja rendido ao autor e à sua maneira de escrever, os seus livros são de fácil leitura e entretêm bastante. Quanto mais não seja, servem para descansar os neurónios de leituras mais exigentes.

entre as 6 e as 7 estrelas

2008/02/26

Os Casos do Beco das Sardinheiras - Mário de Carvalho

Este é um pequeno livro de contos cheio de humor, recheado de personagens tipicamente alfacinhas, que têm tanto de verosímil como as pequenas histórias têm de inverosímil. A mim agradam-me estas pequenas incursões pelo fantástico, mas ao mesmo tempo gosto de ver no fantástico o espelho de algo mais concreto e, às vezes, isso escapa-me neste livro. Cria-se a oportunidade mas não se segue por ela até ao fim, cria-se o esboço mas falha a imagem. Mas, claro, isso sou eu a complicar, a querer ainda melhor, mais que óptimo. E este livro não é assim. É um livro simples, com personagens simples e histórias simples. É um lindo postal ilustrado de uma Lisboa mourisca, labiríntica, cheia de becos e, claro, de sardinheiras.
Querer mais que isto, está claro, é já confundir género humano com Manuel Germano...

Inés da Minh'Alma - Isabel Allende

Este livro foi para mim o reencontro com a grande escritora da Casa dos Espíritos, do Plano Infinito, do Paula. Senti-a um pouco mais perdida, mais repetida, nos Contos de Eva Luna, no Retrato a Sépia, na Filha da Fortuna. Não gostei da trilogia juvenil que escreveu. Achei interessante o Zorro, embora não tivesse a força de escrita daqueles primeiros livros.

Este Inés é um épico e, melhor ainda, um épico biográfico. Essa noção de tangibilidade das personagens e dos acontecimentos, misturada com ambiente mágico e fantástico que é próprio desta escritora fazem deste um grande livro.
Deu-me um enorme gosto lê-lo, li-o com sofreguidão, como já há muito tempo não lia.
Não é fácil escrever assim, com este rigor e ao mesmo tempo com esta capacidade. Percebe-se claramente que há uma enorme recolha de dados por trás deste livro. A mim fez-me lembrar, precisamente pela informação histórica, a Guerra do Fim do Mundo do Vargas Llosa.

2008/02/09

Sul - Viagens, Miguel Sousa Tavares

Ultimamente tenho andado numa fase em que pouca paciência tenho para as leituras. E, além disso, não sei bem porquê, mas ultimamente só tenho conseguido ler fora de casa (transportes públicos, bancos de jardins, cafés - desde que não sejam muito barulhentos - enfim, qualquer sítio que não seja em casa). Por essas razões, recomendaram-me que lesse livros de viagens. Numa das minhas idas à biblioteca vi lá este livro de MST e como já tinha ouvido falar dele, decidi trazê-lo comigo. Chegado ao fim da sua leitura, posso tirar as seguintes conclusões:

- Trata-se de um livro algo irregular, com diversos textos interessantíssimos e outros que não são nada de extraordinário. Por exemplo, o primeiro texto (o da Amazónia), não me conseguiu prender o interesse. De tal maneira que quase pensei em ler as restantes crónicas de viagens mais na diagonal, sem dar propriamente muita atenção ao que estaria ali escrito. No entanto, os capítulos seguintes foram a pouco e pouco conquistando o meu interesse e, embora tenham continuado a surgir banalidades de estilo jornalístico ao longo do livro, os textos tornaram-se mais entusiasmantes.
- Gostei bastante dos capítulos dedicados às antigas colónias portuguesas. Arrebatou-me o texto "Goa, o sonho impossível", assim como "Um rio há-de correr em Cabo Verde" e "São Tomé e Príncipe: as ilhas maltratadas". Ficou verdadeiramente a vontade de visitar aqueles lugares que parecem tão próximos, mas que estão tão distantes. "Alhambra: os jardins de Alá" também tem o seu interesse, já os textos relativos ao Brasil e à Costa do Marfim não me encantaram.
- A principal razão pela qual não terei gostado tanto deste livro talvez tenha sido porque encontramos aqui, na sua maioria (11 textos de 12) a repescagem de reportagens publicadas na revista Grande Reportagem nos anos 90 (dirigida na altura por ele próprio). Até que ponto se se justifica a edição de um livro propositadamente para as reunir, uma vez que, com o passar do tempo, tudo isto soará (já começa a soar) antigo (da mesma maneira que uma notícia de um jornal se torna antiga)?
- O texto mais bem conseguido é, na minha opinião, o último "A pista para Tamanrasset", verdadeira viagem, mais do que ao e pelo deserto, ao íntimo dele próprio. É neste texto que conseguimos sentir o verdadeiro espírito de aventura e sentimento de desapego total (aos bens materiais e aos bens humanos) que uma viagem implica. Um espírito de aventura que, mais do que nos levar ao nosso destino, nos leva ao interior de nós mesmos. A viagem que vale mesmo a pena realizar. A viagem que se tem vontade de repetir.

7 estrelas

2008/02/03

Equador, Miguel Sousa Tavares

Li o Equador do Miguel Sousa Tavares (a edição ilustrada com postais da época) há já algum tempo e, como foi um livro de que gostei bastante, decidi vir aqui deixar a minha humilde opinião sobre o referido livro.

No geral, gostei bastante. A princípio pensava que ia demorar imenso tempo a acabá-lo, mas até nem demorei assim tanto. Julgo que terá sido porque MST acaba por escrever de uma forma, se por um lado demasiado prolixa e, porventura, descabida (ex: "dotada de atributos que o vasto decote do seu berrante vestido verde abundantemente documentava"), por outro bastante vívida e interessante.

Quanto à personagem principal, é o típico herói bem-parecido, bon-vivant, um verdadeiro gentleman, com o qual não podemos deixar de sentir empatia. No entanto, isso limita demasiado o seu desenvolvimento enquanto personagem, porque a torna plana e entediantemente previsível.

Há ainda uma série de episódios ao longo do livro, os quais, embora ajudem a enquadrar a história, são demasiado longos ou surgem após momentos-chave da narrativa, tornando-a pesada e tirando-lhe ritmo (exemplo disso são as vicissitudes do cônsul britânico ou o julgamento dos serviçais fugidos). Além disso, certos episódios são um tanto ou quanto desnecessários (a visita nocturna ao quarto da proprietárias de uma das roças) ou então previsíveis (os excessos de Ann quando estamos quase a chegar ao fim da história). Mas verdade seja dita que, por outro lado, o acontecimento derradeiro é bastante surpreendente, embora após reflexão se chegue facilmente à conclusão de que a história não podia terminar de maneira diferente... Infelizmente...

Pontos positivos: o tema abordado (resquícios de escravatura na mais pequena colónia portuguesa em África) é mesmo muito bom. Portugal, ainda que "nação civilizadora" está ali representado de forma desencantada e pessimista, verdadeiro retrato do Portugal de inicíos do século XX(I?).
O que chateia um pouquinho no livro é somente o facto de MST querer passar-se, quase à força, por Eça, quando na realidade o mestre é difícil (senão impossível) de igualar.

Em suma: gostei do que li, se bem que fiquei com a pequena sensação de que poderia ter sido melhor. Em todo o caso, não me arrependo do tempo que dispensei a este livro.

8 estrelas (ou será 9? estou indeciso)

2008/02/01

O Mesmo Mar, Amos Oz

Eu arriscaria dizer que as opiniões das pessoas que lêem este livro se poderão dividir entre: aqueles que perceberam o que leram e gostaram, aqueles que perceberam e não gostaram e aqueles que pouco perceberam e mesmo assim gostaram. Eu incluo-me neste último grupo.

Este livro é uma autêntica manta de retalhos, bocados de textos que formam um padrão quase disconexo, mas mesmo assim ligados uns aos outros pelos fios da imaginação (ou será da loucura?) deste autor israelita. Os vários planos narrativos da história intersectam-se todos, inclusive o do narrador (que é assumidamente o autor) que, de forma muito estranha, também participa na acção que ele próprio narra, interagindo com as personagens (ou melhor, as personagens interagem com ele) por ele não-criadas.Tudo é estranho neste livro: Nadia, apesar de morta, continua presente, e mantém ou manteve uma relação quase incestuosa com Rico, o qual por sua vez abandonou a namorada e partiu para o Tibete, e por quem Albert acabará por se apaixonar. Tudo está relacionado entre si, por mais absurdo (ou será surreal) que seja. É uma história que não tem princípio, nem fim, ou em que o fim não é o fim e o princípio dificilmente é o princípio. Cada um que a ler que escolha a opção que mais lhe agradar...

No fundo, gostei bastante deste livro por ser esta coisa meio esquisita, em que o que é pode não ser e em que o que não é, não será. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever.

8 estrelas

2008/01/27

O Códex 632 - José Rodrigues dos Santos

Olá caros amigos amantes das letras. Cá estou eu de novo, desta vez para falar de um livro que, com rigor, não posso dizer que li. Antes mo leram. E quem? Pois nem mais nem menos que o actor português Ricardo Carriço.

O Códex 632 foi o primeiro audiolivro que tive oportunidade de escutar e como gostei bastante da história, não resisti a vir aqui deixar uma breve opinião sobre ele. Para começar, há que salientar que apesar de à primeira vista parecer, este livro não é bem como os do Dan Brown. Sim, é verdade que a personagem principal é um professor universitário. E sim, é verdade que é um especialista em criptografia. E também é verdade que é tratado aqui um tema que se pretende totalmente novo, mas que no fundo já não é assim tão novidade nos mais elevados meios académicos. (Se não leram o livro e não se importam de saber de que trata a história, vejam a título de exemplo este livro de Patrocínio Ribeiro, publicado pela primeira vez em 1927, no qual são referidos os mesmo documentos de que JRS faz uso para compor a sua história).

Mas voltando ao que estava a dizer, embora possamos fazer alguns exercícios de intertextualidade com os livros do Dan Brown, é injusto dizer que se trata do mesmo tipo de literatura. A dizer a verdade, não temos aqui uma corrida contra o tempo (nos livros do Dan Brown, o Robert Langdon consegue resolver todos os mistérios em pouco mais que 24 horas, não sem antes ter de despistar os maus que o querem matar). Não temos aqui um inimigo (pelo menos declarado) que ameace a vida do protagonista. O protagonista não está "disponível" para o amor inconsequente, uma vez que é casado e, surpresa das surpresas, tem uma filha com síndrome de Down! Digo surpresa das supresas, porque este não é de facto o herói típico que estamos à espera de encontrar nas páginas de um livro, ou na tela do cinema (e ainda bem, o livro e a credibilidade do autor só têm a ganhar com isso), embora seja jovem e garboso e não seja indiferente às bombas sexuais suecas que lhe surgem pelo caminho.

Para além disto tudo, é curioso que JRS não se fique pela História e também faça incursões por áreas muito mais abrangentes e interessantes, tais como a Filosofia (como manobra de diversão, claro, para encher umas quantas páginas, quando até era bastante fácil perceber o enigma, pelo menos para quem está habituado a ler e anda atento aos títulos dos livros por aí existentes), pela História das Religiões (nada de muito aprofundado, mas já que está de visita a Jerusalém aproveita-se...), pela Gastronomia (a descrição dos vários pratos que vai comendo nos sítios por onde vai passando não são de todo essenciais para o desenvolvimento da narrativa, mas não deixa de ser interessante), pela Medicina (no que respeita à doença da filha) entre outros exemplos.

Curioso é também o facto de ambientar as diferentes conversas que vai tendo com as diferentes personagens em monumentos ou locais importantes da História portuguesa ou lisboeta. Ele podia falar com eles em qualquer café da cidade, mas combina n'A Brasileira ou no Nicola; no Mosteiro dos Jerónimos, no Castelo de S.Jorge, na Quinta da Regaleira ou no Convento de Cristo em Tomar... Tendo este livro sido traduzido para várias línguas (e estando já previsto um filme baseado nele) parece-me que não foi de todo "inocente" a escolha desses locais, mas ainda bem. Ao menos assim os não portugueses ficam a saber um pouco mais da cultura portuguesa e não lhes faz mal nenhum.

Para concluir, devo dizer que acho que este livro, acima de tudo, demonstra que JRS fez um longo e aprofundado trabalho de casa, dando a conhecer ao grande público um assunto que
curiosamente não está de todo divulgado e que é bastante apelativo ao nosso patriotismo. E tirando uma ou outra parte em que o livro parece deter-se em coisas desinteressantes e que nada acrescentam à história, é bastante cativante. O final decepciona um pouco (e duplamente!), mas depois de reflectirmos sobre a história, não nos sentimos de todo defraudados. Vale a pena.

9 estrelas

2008/01/11

A Relíquia - Eça de Queirós

Caros amigos da Companhia das Letras. Depois de ter sido convidado pelo NCD a colaborar com este blog (o que tentarei fazer sempre que achar conveniente), aqui fica o meu primeiro contributo. A ideia deste espaço é precisamente a troca de ideias e opiniões sobre as leituras que vamos fazendo, por isso não se acanhem e comentem, rebatam, divirtam-se acima de tudo.

Que rica Relíquia que Eça nos oferece nestas pouco mais de 250 páginas. Como de resto, já nos tem habituado em todos os outros seus livros, o autor escreve de maneira absolutamente irrepreensível. A adjectivação inesperada, a crítica social, seja ela directa (através da boca das personagens) ou indirecta (através dos próprios actos das personagens em determinadas situaçõeS), veio reforçar a ideia de que este é realmente um dos meus autores portugueses preferidos de sempre.

No entanto, temo bem que este não seja o livro de Eça de Queirós que mais gostei de ler até hoje. Para isso, contribuiu grande parte do corpo central do livro, especialmente a "jornada ao passado" (como lhe chama Topsius), ou seja, o sonho do Teodorico Raposo à Jerusalém de Jesus. Toda a narração é, sem desprimor para a capacidade narrativa de Eça, maçadoramente desinteressante. Exceptua-se apenas a sua parte final, em que um Eça descrente e ateu, republicano e liberal, narra "a lenda inicial do Cristianismo", o mesmo é dizer a (não) ressureição de Cristo.

Este Teodorico Raposo, a personagem principal, é sem dúvida uma das personagens mais castiças que já tive oportunidade de conhecer. Um fanfarrão, muito orgulhoso das suas barbas viris, mulherengo inveterado, mas mais convencido que bem sucedido (como acabam por demonstrar as infidelidades das mulheres com quem vai conseguindo ter relações amorosas), mas acima de tudo, é ridiculamente cómico. A única coisa que chega a chocar mais nesta personagem rocambolesca é o facto de ser tão interesseiro ao ponto de querer "apressar a obra lenta da morte", chegando mesmo a dar-lhe ganas de "espancar aquela velha". É verdade que ninguém merece uma tia como aquela "horrenda" D.Patrocínio, mas desejar tal sorte à senhora, teria como inevitável desfecho aquele que realmente acaba por suceder. Ainda vemos, quase no fim da história, uma espécie de redenção do ilustre mentiroso, mas não é que Teodorico, mesmo depois de ser visitado pela própria consciência, não aprendeu a lição? (Como não poderia deixar de ser, ou não fosse Eça o mestre na descrição das ironias - pelo menos daquelas em que nos deixamos cair - da vida).

8 estrelas

2007/11/30

O Pequeno Ditador - Javier Urra e A criança e a Disciplina - Brazelton e Sparrow

Já tinha ouvido falar muito bem deste autor e deste livro. É escrito por um psicólogo, sobre crianças e adolescentes malcriados, e porque malcriados, ditadores.
O livro levanta problemas graves. Tão graves que o autor qualifica este tipo de deseducação como maus tratos infantis. E penso que faz bem. Aliás, o autor indica várias situações em que esta deseducação deriva em violência.
Porém, não foi um livro de que eu tivesse gostado ou que tivesse lido com prazer ou proveito. O texto é disperso, confuso, repetitivo. Tenho a sensação - mas claro que posso estar enganado - que o autor terá escrito artigos ou crónicas de jornal sobre estes temas e que foi dessa amálgama, revista e alterada certamente, aumentada talvez, que retirou as extensíssimas 400 páginas com que nos brinda.
Mas o problema principal é que o autor não tem muito para dizer, ou, se tem, diz pouco. Identifica o problema, dá algumas coordenadas genéricas, mas nunca por nunca desce ao concreto, à vida de todos os dias. Indica problemas mas não os resolve. Diz que é preciso por limites mas não exemplifica como é que isso se faz. Se o cavalo vai com o freio nos dentes, serve de bem pouco dizer para puxar as rédeas.
Ficamos com a noção de um livro cheio de moralismos, de preconceitos subreptícios, de ideias politicamente correctas, mas muito, muito pouco prático na sua abordagem, o que não deixa de ser estranho (ou talvez não) tendo em conta o currículo do autor. Nunca me canso de verificar como são perigosos os preconceitos politicamente correctos.
Não posso deixar de fazer a comparação com outro livro, também sobre disciplina, muitíssimo mais modesto, com cerca de um quarto do tamanho deste, e que aborda também o assunto da disciplina de uma forma rigorosa, interessante e, sobretudo, prática. O livro A criança e a Disciplina de Berry Brazelton e Joshua Sparrow, com as devidas diferenças - este destina-se a uma intervenção mais precoce - contrasta claramente com o Pequeno Ditador. É uma importante ajuda para pais e futuros pais, na maravilhosa tarefa de educar os filhos. Longe de dizer o que é que os pais andam a fazer mal, Brazelton e Sparrow vão bem mais longe e explicam o que fazer e como fazer. Os meus parabéns obrigados a estes dois autores.

2007/11/29

A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz

Há autores ímpares. Este é um deles. Tem uma ironia subtil embora seja sério naquilo que escreve. Tem uma escrita muito fresca embora faça, por vezes grandes descrições - que são, paradoxalmente, um importante contributo do narrador para a acção. É um clássico de uma actualidade impressionante. Cada vez que leio um livro do Eça pergunto-me sempre como é possível que tenha deixado passar tantos anos sem ler este livro. Adorei ler a Ilustre Casa de Ramires. Como sempre, fiquei motivado para ler mais e mais Eça.

Diário Escríptico

A ideia partiu do meu irmão: quer um texto por dia. Não importa o tamanho o tema é livre e à falta de tema que conte o dia da personagem que entender.

Muito bem. Vamos a isso. É já a seguir, num blog aqui ao lado.

Uma citação atribuída ao Einstein

If you want your children to be intelligent, read them fairy tales. If you want them to be more intelligent, read them more fairy tales.

(obrigado SoniaCarvalho)

2007/11/07

Cemitério de Pianos

Tinha uma espectativa bastante elevada quando comprei este livro, afinal sou fâ incondicional da poesia de Peixoto e, embora algumas das suas crónicas no JL me deixem uma pontinha de desilusão, estava muito curiosa em relação a este tão publicitado livro.


Francisco Lázaro (personagem inspirado no primeiro português a correr a maratona Olímpica em Estocolmo no ano de 1912, que morreu de insolação ao fim dos primeiros 30 quilómetros), é o centro deste romance, tudo o resto gira elípticamente em redor desta família em sequências alternadas e muito ritmadas.

O livro começa com uma atmosfera pesadíssima, diria mesmo macabra que, embora se vá diluindo, se respira em toda a leitura. Esta sabor azedo é-nos dado por esta família que nos vai revelando catátrofe atrás de catástrofe o alcoolismo, a traição, a violência doméstica, o ciúme, a tristeza, a insegurança, as carências afectivas e a morte, sempre a morte.

Apesar de tudo não posso dizer que não gostei do livro. Gostei muito de algumas ideias como a neta que conversa com o narrador, seu avô falecido, embora me pareça que não passa disso mesmo, uma ideia engraçada mas que se mostra infrutífera no desenrolar do livro. Há também um certo optimismo, apesar de tudo, na renovação expressada na metáfora do título, e nos próprios pianos "mortos" que guardam peças que renovarão outros e na forma cadenciada com que a família se renova. E claro, o ritmo dado pela forma alternada (em alguns momentos quase Lobo Antuniesca) com que avô e neto nos são revelados, levando mesmo em algumas alturas à confusão entre os vários tempos e espaços.

Feitas as contas não gostei muito. As expectativas eram demasiado altas? A atmosfera é demasiado negra para mim? O livro é mesmo um flop?

Deixarei no ar para quem quiser responder.

Continuem em boa companhia!

Desafio da página 161

Então, respondendo ao desafio, aqui está a minha contribuição:

"You'r that sort", he said confidently.

Na verdade nem era preciso ele dizer, eu já desconfiava! ; )

Só falta agora lançar o desafio a mais cinco leitores que nos façam boa companhia...

2007/07/11

Meme da pag. 161

a Loca diz que não passa a ninguém mas depois passou.

Desafio da página 161, segundo estas regras:

1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Colocar a frase no blog
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo
6. Passar o desafio a cinco pessoas.

And the winner is "Se tal objectivo não fôr alcançado, o desenvolvimento da sociedade da informação poderá tornar-se num poderoso factor de exclusão social."

O que é grave, já se vê.

Passo ao resto da Companhia e já chega e mais a quem quiser passar por cá. Quem já respondeu, faça favor de pôr um link nos comentários!

2007/02/27

Em nome do bem comum - Arundhaty Roy

Este livro fala das barragens na India e de como estas grandes engenharias põem em causa o país que lá existe, com o sacrifício daqueles que o habitam. Vale muito a pena lê-lo e reflectir sobre ele.

2007/02/14

Leitores.2


As vestes brancas, a barba cuidada, branca também. Os padrões abstractos, enchendo todo o espaço, criando o espaço à sua passagem, à sua expansão. Sentado no chão, contra o rebordo de uma parede. Não é na parede o seu apoio. Toda a imagem é concentração. Os olhos perdendo-se no que contemplam. Megulhado. A palavra nas mãos, os olhos na palavra.

A Cor da Felicidade - Wei-Wei

Este foi um livro de que gostei muitíssimo. A estrutura é, de alguma forma, típica: a mesma família em duas gerações distintas, que vivem e ilustram dois momentos distintos do mesmo país e que se vão aproximando para um desenlace. A China Tradicional e a China Maoísta. Está muito bem escrito, com descrições muito curiosas de costumes e tradições chinesas e descrições muito fortes e envolventes. Emocionante, interessante, denso sem deixar de ser leve. Gostei mesmo.

Intérpetre de Enfermidades - Jhumpa Lahiri

Magnífico livro!: É um livro de contos que reflecte realidades indianas, sejam elas passadas na Índia ou em comunidades emigrantes. O livro é de uma acidez desconcertante por vezes, mas constrói personagens muito credíveis. Gostei particularmente dos contos Intérprete de Enfermidades e do 'Um problema temporário'. Não é por acaso que um dá o nome ao livro e o outro o abre. Merecidíssimos, os prémios que recolheu.

Obrigado Patiblue!

70 historinhas, Carlos Drumond de Andrade

Gostei de lereste livro. O autor mostra uma facilidade em criar situações e enredos verdadeiramente deliciosa. Por vezes as personagens são um pouco estereotipadas, mas penso que isso é um recurso intencional, para evitar a sua construção e permitir um texto mais sintético. Fica porém a sensação de um mosaico de estilhaços, de fragmentos de escrita. Como se algumas das histórias, para serem consequentes, tivessem de continuar.

Mas gostei muito, repito.

O Impressionista - Hari Kunzru

Este livro foi uma excelente surpresa. A história é verosímil, por muito estranha, por muito dura que seja. A personagem principal torna-se, por força das circunstâncias, um camaleão que se adapta às mais diversas situações. Desta forma, o impressionista é um título rigoroso, muito bem escolhido, tal como todo o livro é muito bem construído, de uma forma igualmente rigorosa.

Faz-nos pensar até que ponto somos a nossa situação.

Gostei muitíssimo de o ler. Obrigado Tuanita.

2007/02/13

Leitores e letras


Iniciamos um novo tema visual: a par de livros e bibliotecas, leitores e letras.

Para começar bem fica um retrato de Chardin, acompanhado de um texto sobre este "leitor incomum".

A ideia partiu de um post da PA.

Sugestões de imagens aceitam-se e agradecem-se.

Quatro, não, cinco livros terminados de rajada.

Demoraram imenso a ler, mas quando terminaram foi todos ao mesmo tempo.

Foram eles: Platero e eu, The time traveler, O impressionista e Não te deixarei morrer, David Crockett e 70 historinhas.

Nos próximos dias farei as respectivas apreciações.

P.S. Aproveitarei ainda para fazer posts de alguns bons livros de 2006, ainda não referidos

2007/01/03

O Estrangeiro - Albert Camus

É a história de Meursault, um homem que vive uma vida, que talvez não devesse ser contada. Pois ele vive vazio de emoções, incapaz de sentir amor, saudade, ódio, medo, ou qualquer outra emoção. A sua vida vai-se desenrolando como se ele fosse um estrangeiro, não em relação a um país, mas em relação à humanidade. No fim o crime que comete não o leva ao fim da sua vida, o que leva ao seu fim é a falta de qualquer emoção aquando da morte da sua mãe. Mostrando-nos Camus que tudo o que fazemos num determinado momento se reflecte durante o resto da nossa vida. Outro ponto curioso deste livro é que a sua história é suspensa, ou seja, nós não sabemos o passado de Meursault, a história começa este personagem a afirmar que “Hoje a mãe morreu”, e Camus, não nos dá nenhuma pista do passado de Meursault. O mesmo acontece com o fim, nós podemos supor o que se vai acontecer, apenas supor porque o autor deixa em aberto o que acontece a Meursault.
Um livro que sempre me despertou a atenção, mas que por ironia do destino nunca tive a oportunidade de ler. Bem, pelo menos até à 1 mês atrás, altura em que o encontrei à venda e não perdi a oportunidade.
A experiência não começou nada bem, por devido a uma grande dose de insensatez, o editor decidiu colocar um critica feita por Jean-Paul Sartre como introdução. Um grande erro, porque a critica de Sartre é aquilo que uma critica deve ser, contando partes do livro, dando-nos conta de sequência, dando-nos conta do que Sartre considera os pontos-chave, a sua interpretação e levando-nos a antever parte do final da obra. Ou seja, antes de ler o livro, eu já sabia o que ia acontecer. Assim à medida que eu ia lendo O Estrangeiro a minha única interrogação era quando é que isto ou aquilo ia acontecer. Enfim, uma grande falta de sensatez, que mata o grande prazer de ler um livro, que é o prazer da descoberta.
O livro em si é estranho em parte devido “àquilo” que Sartre caracteriza como “uma escrita cheia de silêncios”. È o primeiro livro do estudo do absurdo que irá acompanhar Camus durante grande parte da sua carreira.

2006/10/07

O Pêndulo de Foucault – Umberto Eco

Um grupo de amigos decide fazer um estudo. Um estudo de todas as teorias esotéricas que pululam pela imaginação da civilização. Procuram conhecer “estórias” da Maçonaria, dos Rosa-Cruzes, dos Templários, etc. Enfim de todas as sociedades secretas que chamam a curiosidade tão normal, das coisas ditas “secretas”. A grande particularidade do estudo feito pelas personagens é que grande parte do que escrevem é fruto da sua imaginação, ou seja, eles próprios vão construindo o fundamento destas sociedades e utilizando uma lógica muito própria eles vão criando ligações entre tudo o que é esotérico, criando assim um mundo fictício. Até que o impensável acontece, esse mundo existe e eles acabam por se emaranhar nesse mundo, que nada mais é do que a concretização da sua ficção…pode parecer estranho isto que eu disse, para se perceber melhor, só lendo o livro.
Umberto Eco escreveu mais um excelente livro, que nos mostra a visão que ele tem dos esoterismos, sociedades secretas e teorias da conspiração. Que todos não passam de criações de homens sem fé, que têm que sentir um “mundo próprio”, cheio de mistérios tangíveis só por uns eleitos, para que a sua crença faça sentido. Fazendo da vida uma busca infinita de um conhecimento fantástico, que quando se chega a uma meta descobre-se que essa meta foi apenas uma etapa e que esse conhecimento afinal está mais além, sempre mais além. Claro que mais uma vez, Umberto Eco, não perde a oportunidade de voltar a mostrar qual a sua visão de Deus, como aliás faz em vários dos seus livros.
Um livro magnífico, muito denso, mesmo complicado de ler em certos pontos, em que duas passagens são essenciais, mas que no fim todo faz objectivamente sentido, uma obra de mestre que vale a pena ser lida.
Como última consideração apraz-me fazer uma pequena provocação, dizendo que tenho a certeza que Dan Brown leu o O Pêndulo de Foucault, só foi pena que tenha parado a meio…

2006/09/18

Alafce?! Prefiro rúcula!

Nunca escrevi, aqui no Companhia, comentários negativos sobre um livro ou autor do qual não goste. Foi uma opção que tomei logo no início de não mal dizer, afinal posso até não gostar, mas há de certeza quem goste e como se costuma dizer “gostos são gostos” ou “o que seria do amarelo se não fosse o mau gosto” e por aí adiante.

Na verdade repugnou-me um bocado a ideia de eu, que não sou nenhuma especialista, vir aqui dizer mal do que outros escreveram e alguém publicou. O que, a juntar à insegurança de nascença, sempre apoiada pela frase familiar “esta miúda tem cá um mau feitio!”, me fez sempre recuar perante a ideia de assumir as minhas desventuras literárias por escrito e à vista de quantos por aqui passam.

No entanto, chame-lhe mau feitio quem assim o entender, algo abalou estas convicções este fim-de-semana...

Alface... conhecem?

Eu desconhecia, ao que parece é o pseudónimo de João Alfacinha da Silva, emprestaram-me o último livro dele, “A mais nova profissão do mundo”, com a melhor das intenções - “vais ficar surpreendida, pelo que dizem é uma descoberta, reinventa o Português e é divertidíssimo.” - expectativas elevadas portanto, pensei eu que desconfio sempre do que os críticos da nossa praça dizem até prova em contrário. Já 'de pé atrás' pego no livro e começo a ler os pequenos contos, tentando disfarçar a desilusão crescente no meu espírito (afinal o livro tinha sido comprado pelo meu marido, com a intenção de o lermos no fim-de-semana que se cria de boa disposição).

Avancei, li mais uma, outra, e ainda outra à procura do tal “português reinventado e divertidíssimo”, mas nada... a meio do livro acabei por desistir “isto, de facto, não faz mesmo o meu estilo e quanto ao português a única coisa que encontro é o uso corrente de uma linguagem brejeira, vulgar, e expressões ordinarias, que compreendo seja muito divertido para alguns, mas a mim, não me diz nada”, e passei para o meu “Kafka – Na corda bamba” mas não sem um certo amargo de boca e uma interrogação que não me largava, terei sido presunçosa?

A resposta veio em breve quando o meu marido, depois de uma tentativa de descobrir o escritor do século pousou silenciosamente o livro na mesa de cabeceira e sussurou “de facto não tem nada de especial”.

Mau feitio ou não Alface, não faz o meu género!

Continuem em Boa Companhia!

2006/09/13

70 histórinhas - Carlos Drummond de Andrade



Esta é uma compilação de contos dos mais variados temas e de todos os géneros. É um livro 'leve', facil de ler, daqueles que todos (ou quase todos) conseguem, sem esforço, começar e acabar.

Pessoalmente gosto muito de Contos e, embora algumas das histórias aqui apresentadas não cheguem às duas páginas de texto, todas têm uma estrutura lógica, o que prova que não é a quantidade que conta, mas sim a mestria com que se consegue relatar um acontecimento sem entrar em grandes enredos novelescos que, às vezes, só complicam e não beneficiam em nada a obra.

De todas estas 'histórinhas', como lhes chama o autor, a que me ficou a ecoar na cabeça dias sem fim (quiça por identificação com os personagens) foi a segunda 'Nascer' que conta a história de um casal...

"O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado(...) tudo isto o menino tinha, mas não havia nascido." Pág. 5

Como a maioria de compilações de Contos, é um livro tão agradável como inconstante, capaz de nos levar do riso ao amargo de boca num simples virar de página. Vale a pena ler.

Continuem em 'boa Companhia'!

2006/09/04

Astronomia

Fica uma indicação de excelentes imagens de livros antigos sobre astronomia. São ilustrações maravilhosas. Obras de arte, sem dúvida.

Livros e bibliotecas

Sem qualquer objectivo de originalidade, mas apenas pelo muito que gosto do tema, vou iniciar aqui no blog uma pequenina colecção de imagens sobre livros e bibliotecas. Começo com a Vieira da Silva e uma das suas brilhantes bibliotecas. Estão todos convidados a sugerir novas imagens!

Editado para acrescentar: ó pra ele o centésimo post do Companhia!

2006/08/16

António no outro lado do mundo - Malachy Doyle

É um livro engraçado, com umas excelentes ilustrações. A história não tem o mesmo nível das ilustrações mas apenas porque estas últimas são deslumbrantes.

Terapia do Amor Conjugal - Valerio Albiseti

O livro está preparado como uma reflexão e ao mesmo tempo um programa terapeutico sobre o casamento. Gostei de o ler, e penso que é muito útil para ser lido por casais que estejam a passar fases difíceis.
Este não é um qualquer livro de auto-ajuda, assente em vulgaridades e vacuidades. Com um discurso muito centrado na experiência do autor na terapia de inúmeros casais, as suas propostas não só fazem sentido como parecem ir ao essencial de uma forma muito acutilante: o desenvolvimento de competências de comunicação no casal, o valor da verdade, o crescimento comum, são pontos marcantes deste livro que podem ajudar a limar arestas e a construir melhores relações.

Vendidas - Zana Muhsen

Este livro é muito interessante, nas questões que coloca. É uma narração na primeira pessoa, da história de duas irmãs que vão parar ao Iemen.
Mais do que a brutalidade da ideia de alguém vender as próprias filhas, coloca-se aqui um problema de direitos humanos e de liberdade.
Uma visão superficial das relações entre civiliações pode levar-nos a partir do princípio que haverá entendimento mínimo em relação a determinadas matérias, que parecem adquiridas: direitos do Homem, igualdade entre sexos, liberdade.
O problema é que claramente não é assim. Será que estes valores - que nos parecem essenciais - não são superiores à "civilização" ou "maneira de viver" de um regime que não os respeite?
Que formas de pressão podem ser utilizadas nesse sentido?

Pensamentos Secretos - David Lodge

Os livros do David Lodge desenvolvem em mim uma verdadeira relação de amor-ódio.

Por um lado eu gosto imenso da sua forma de escrever:
- é um escritor informado (nota-se que os livros dele passam por uma pesquisa e uma reflexão profundas)o que vai sendo pouco habitual na maior parte dos livros e autores que para aí andam;

- é um escritor versátil quanto à forma (escreve através de diálogos, cartas, diários, guiões, narrações na terceira pessoa, etc), o que dá novas dimensões aos seus livros, na medida em que apresenta "diferentes lados" da história, vistos das perspectivas de outras tantas personagens;

- é um escritor cheio de humor, de um humor mordaz, difícil por vezes, por vezes amargo, irónico. Não são muitos os escritores sérios que sabem rir-se de si e das suas personagens. David Lodge é, a este nível um excelente cómico!

Por outro lado, parece-me que a sua visão do mundo, da religião, da sexualidade, pretendendo mostrar-se madura , é, na realidade, simplesmente distorcida. Todas as relações monogâmicas tendem a "evoluir" para o adultério, todos os crentes são velhos ou se o não são andam com dúvidas e se não andam com dúvidas é porque ainda não leu o suficiente. É um universo de relações muito áridas, muito superficiais e, ao mesmo tempo, muito insatisfeito. Não há personagens felizes nos livros do David Lodge.

Porque será?

2006/08/11

To Kill a Mockingbird - Harper Lee

Estava um pouco apreensivo, quanto ao meu inglês (e sobretudo quanto ao meu americano!) mas surpreendentemente o livro tornou-se claro como água! As primeiras páginas talvez tenham sido um pouco mais lentas, mas depois, quando embalei não conseguia despegar.

Foi um livro que gostei imenso de ler. É daqueles que entrará para a minha lista de favoritos sem a menor dúvida. Daqueles que gostava de ser lembrado por recomendar aos meus filhos.

Há três registos distintos que gostei particularmente no livro.

A crónica de costumes, onde ressalta a questão do racismo, parece uma realidade tão distante e tão antiga que quando às tantas há uma referência ao Einstein senti aquilo como um anacronismo. Depois realizei que não, não havia qualquer anacronismo: era no sec. XX que a acção se passava.

A infância e a forma como a narradora escreve desde uma mentalidade infantil. Está muitíssimo bem escrito, sob este ponto de vista. São poucos os escritores que o conseguem fazer bem. Assim de repente só me ocorre o José Mauro de Vasconcelos!

E finalmente, aquela figura parental. Impressionante a forma como educa e como se relaciona. Este tema é-me muito caro, hoje em dia, e o Atticus é uma personagem - tenta-me escrever uma personalidade - muito completa.

Gostei muito de ler este livro, Conto, mais uma vez muito obrigado.

Livro da Treta - Filipe Homem Fonseca; Eduardo Madeira; Rui Cardoso Martins

É verdade que estas não são as personagens que eu mais gosto dos actores que as encarnam - o António Feio e o José Pedro Gomes. Mas isto diz mais da qualidade destes actores que fizeram outra personagens ainda melhores - veja-se o Arte, o Último a Rir, o Jantar de Idiotas - do que propriamente deste livro. Aliás é do livro, e não das peças que eu estava a falar, não era? Mas na realidade são indissociáveis: uma pessoa lê os diálogos como se estivesse a ouvir estes dois actores.

O livro é óptimo, verdadeiramente hilariante. Altamente desaconselhado para ler em sítios públicos. Dei por mim várias vezes a não conseguir conter o riso. O que vale é que não me importo: rir é bom.

O regresso do Menino Nicolau - Sempé/Goscinny

Aqui está um livro que eu adorei. Não traz novidades, é um facto: o menino Nicolau continua igual a si próprio tal como os seus colegas de escola. Mas é exactamente assim que eu gosto deles! Foi delicioso, voltar a estas peripécias, das crianças e dos adultos! É que muitas vezes os motivos de confusão não estão nas crianças mas nos professores e encarregados ou mesmo nos pais. Neste contexto, há verdadeiras pérolas neste livro.

Fico ansioso pelo nº 2 - Eu sou o maior - que já tenho lá em casa. Estou só a espaçá-los um bocadinho - para durar mais!

Optimismo - Francesco Alberoni

Eu esperava uma monografia sobre o optimismo, saiu-me uma colecção de crónicas "morais" (?). Eu esperava uma reflexão profunda e cuidada, saiu-me um conjunto de lugares comuns que exploram assuntos tão interessantes como saber se as nossas impressões à primeira visata estão ou não correctas... para chegar à conclusão que às vezes sim, às vezes não. Os exemplos, as inferências são de uma displicência que me fazem colocar em causa não apenas o texto mas o próprio autor. Quem pensa assim neste livro, como pode ter modelos de pensamento rigorosos e racionais noutros livros?
Ao mesmo tempo tenho que dizer que os textos são assim uma mistura de calda de açucar com canja de galinha que não chega propriamente a merecer discordância. Ninguém discorda de um discurso vago, assente no senso comum. Mas para quê lê-lo? Se o livro fosse maior, tinha focado a meio. Tem essa qualidade: é pequeno.
Sinceramente, não gostei do livro e foi para mim uma enorme desilusão porque já ouvi bons comentários sobre outros livros dele, que ainda não me dei ao trabalho de ler. Mas depois deste fiquei sem muita vontade...

Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma - Irene Lisboa

Este foi daqueles livros de que sempre fui ouvindo falar, mas que nunca tinha lido. Sinceramente, não gostei. Talvez seja um documento interessante, enquanto testemunho de uma particular forma de vida, de uma mentalidade do início do século passado. Mas como livro, não me entusiasmou. Fica o título, de que gosto imenso, os contos deixaram-me esta mesma sensação: "Uma mão cheia de nada... "

O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo - Germano Almeida

Gostei da escrita escorreita do Germano de Almeida - que não conhecia. O livro é engraçado, as personagens curiosas. O final é que não me parece particularmente conseguido: o livro morre de causa natural, sem que nada se desenlace, como se tivesse acabado o papel. É pena. Mas é uma leitura agradável, sem dúvida! Fiquei com vontade de ler outros livros do mesmo autor.

2006/08/08

A Misteriosa Chama da Rainha Loana - Umberto Eco

O tema deste livro é a história de Yamo, um homem que acorda após um AVC. Quando recupera lembra-se de tudo sobre história, literatura, cinema, música, pois toda a memória semântica de Yamo está perfeita. O único problema é que não se lembra de si próprio, ou da sua família, amigos e colegas, em suma, não se lembra da sua própria história. Encorajado por sua mulher, parte ao encontro da sua vida para a casa dos seus avós, onde não voltava desde a morte dos seus país e avô. Ai no meio de brinquedos, livros de banda desenhada e discos de vinil de 78 rotações tenta reencontrar-se. Uma sucessão de acontecimentos levam Yamo a uma recaída e sofre outro AVC, mas desta vez mais forte. É durante o seu coma que se recorda de tudo e volta a reencontrar-se com a sua história, levando-nos a viver as aventuras da sua infância e a história do período da queda de Mussolini. Fazendo no meio de tudo isto, o leitor sentir um pouco da cultura dos meados da década de 40.
Eu já sabia que Umberto Eco é um dos poucos que pinta com as palavras! E esta obra é bom exemplo disso mesmo, pois as imagens que nos são descritas nada devem às gravuras do livro. Penso até que a presença das gravuras servem para reafirmar a genialidade e superioridade da escrita de Umberto Eco. De referir, que ao contrário de outros livro de Umberto Eco que eu li, este é aquele que tem a escrita menos densa, sendo portanto de mais fácil leitura.

2006/07/27

O sumiço da Santa, uma história de feitiçaria – Jorge Amado

Este livro só podia ser deste autor. Capítulos curtos, ao sambar da pena, sempre brincando, requebrando os temas, sem pressas e com muito humor. Sinceramente, este é daqueles escritores que eu invejo, pela capacidade de escrever do nada, com um encolher de ombros, deixando-nos impressões fortes, como se nada fosse.
O romance é muito divertido, por vezes sinto que perco um pouco o pé por desconhecer pessoalmente a realidade de que ele fala, a Bahia e todos os seus mitos. Ele também não explica muito, como se o mistério fosse o mais importante e mesmo assim, quase nada, quase nada, deixa para lá, entra no ritmo, dois para cá dois para lá: isso aqui é um pedacinho de Brasil, desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz ...

2006/07/21

O Senhor Ferdinand - Agnès Guldemont e Carll Cneut



Este livro em belíssimas ilustrações, não posso dizer o mesmo da história. A este nível ficamos sempre à espera de algo que se perdeu e que continua perdido ad infinitum.
Nenhuma das linguagens - nem a visual nem a verbal - me parecem adequadas para crianças.

Catarina e o urso sem rumo pelo mundo - Christiane Pieper


Este livro é um encanto. Tem ilustrações deliciosas e vale sobretudo por elas: são vivas, expressivas, interessantes! A história sofre (ou participa?) da falta de rumo da Catarina (e do urso) mas quem é que disse que todos os passeios servem para chegar a algum lugar? Era tão bom às vezes poder sair, assim, com a companhia de um urso amigo, sem rumo pelo mundo... :)

Editado para acrescentar: o meu filho, que tem 22 meses, já me anda a ensinar a ler livros. Ontem ensinou-me que este livro se pode ler com o corpo, imitando as posturas da Catarina (ele) e do Urso (eu!). Nunca tal me teria passado pela cabeça. As virtualidades de um olhar sem preconceitos!

O Confessor - Daniel Silva

este livro é um policial mediano: não traz novidades; não deixa saudades.
O enredo é bastante óbvio e o desenlace também.
A propósito da história ressaltam duas ideias, repetidas à exaustão:
a) o silêncio do Vaticano quanto ao holocausto;
b) a justificação do Estado de Israel.
Nenhuma das questões em causa é tão simples como o autor quer fazer parecer. A "desculpa" de que estamos perante um romance também não colhe: quem quer fazer um romance histórico - e não há dúvidas quanto a tais pretensões neste caso - deve ser exacto quanto aos dados que promove e às teorias que defende. Neste livro não há rigor histórico Apenas páginas e páginas de propaganda.

Talvez um dia se escreva um livro sobre o silêncio do Ocidente diante do conflito do Médio Oriente.

Se eu fosse muito alto – texto de António Mota ilustrações de André Letria

Este livro tem a enorme virtualidade de nos pôr a imaginar. Um texto muito simples – uma ou duas frases por ilustração, ilustrações curiosas, bem dispostas e fica no ar esta pergunta: se fosses muito alto, o que é que fazias?

Este é um tipo de pergunta que estimula muitíssimo a imaginação. O tipo de variações são virtualmente ilimitadas: se eu fosse muito baixo, se eu voasse, se eu fosse um animal, se eu fosse rei, se eu fosse pai, se eu fosse... e por aí adiante. Estes exercícios obrigam as crianças a uma ginástica mental óptima: chama-se imaginação. Neste caso obriga-os a colocar-se naquela situação e a imaginar como seria o mundo para elas nesse caso. Os pais até podem fazer a história ao desafio: cada um dá uma ideia do que faria ou aconteceria naquela situação.

Gostei deste livro ainda por outra coisa: é que a maior parte das coisas que o autor faria, se fosse alto, era pôr a sua altura ao serviço dos outros: compôr antenas, limpar chaminés, apanhar balões... e esta ideia é muito interessante, também, para explorar com os miúdos: o autor se tivesse aquela qualidade punha-a ao serviço. E tu? Quais são as tuas qualidades? Como é que as podes pôr ao serviço? As características de cada um podem até parecer ser defeitos e tornarem-se qualidades, se encontrarmos a sua utilidade, a forma de as pôr ao serviço. É uma questão de optimismo: se uma garrafa estiver completamente vazia, um optimista não se concentra nesse vazio mas na possibilidade de mandar com ela uma mensagem, de com ela recolher água na fonte, de todas as utilidades que ela pode trazer.

O Meu e o Teu


Este fantástico livro é para se visto de olhos bem abertos (como dizia o outro) para não deixar escapar nem um bocadinho da genialidade das ilustrações de Almud Kunert que joga com o texto de Peter Geißler às mil maravilhas.
Não é um livro vulgar, não se limita à primeira vista de olhos, é para ser visto e relido várias vezes, e, ainda assim, até encontrarmos o "Meu" e o conseguirmos distinguir do "Teu" serão necessárias muitas visitas!
Também não é um livro para os mais ortodoxos (é possível que se percam no meio de tanta liberdade criativa e de interpretação). Quanto aos outros, mais novos ou mais velhos, mais literatos ou menos, mais artísticos ou azelhas, enfim, aqueles que ainda não perderam o dom de sonhar com os olhos abertos, esses sim vão, sem dúvida deliciar-se com esta busca!
"O Teu não gosta de se deixar encontrar.
O Meu posso atar."
"O Teu sabe ler livros grandes.
O Meu, antes era pequeno"
Uma belíssima edição d'O Bichinho de Conto, a não perder.
Continuem, sempre, em boa companhia!

2006/07/18

Os Lugares de Maria - Margarida Botelho

Os lugares de Maria são maravilhosos. É um livro para crianças muito bem ilustrado que abre caixinhas mágicas com palavras diferentes feitas de números e desenhos. São caixas muito diferentes, as que se dizem e as que se vêem. As que se lêem e as que se ouvem. Muitíssimo recomendado. Todos devíamos ter caixas daquelas!

2006/07/17

Ainda nada?



"De manhã, bem cedo o Senhor Luís abriu um buraco ENORME na terra(...)"

Imaginem que plantam uma semente na terra e que têm tanta, tanta, mas tanta vontade de a ver crescer que não querem perder nem um bocadinho do seu crescimento...

Assim estava o senhor Luís, cheinho de vontade de ver a sua semente creser e virar flor! Mas de tanto esperar a sua paciência começou a faltar e a cada manhã que a ela se abeirava maior era o seu desânimo: "Ainda nada?"

Esta é uma história para ensinar a esperar que o tempo corra e com ele as mudanças aconteçam. Para miúdos e graúdos, para contar, inventar, acrescentar, brincar, enfim... ler de preferência em voz alta e bem acompanhado!

De Christian Voltz com ilustrações bem ao estilo da Kalandraka.

Comtinuem em boa Companhia!

2006/06/28

Fiz das Pernas Coração


Esta é uma antologia de Contos Tradicionais Portugueses, ‘nascidos’ da tradição oral cada vez mais adormecida nos nossos dias. Alguns destes contos fazem mesmo parte da memória de histórias contadas durante a infância do autor (José António Gomes) por ‘tias’ e outras figuras que tanta falta fazem hoje no imaginário das nossas crianças.

É um livro engraçado pela diversidade e originalidade de contos onde coabitam saudavelmente os ‘tontos’ tão comuns na nossa literatura oral, com o com as Mouras e os seus encantos. É de referir que o autor é do Algarve e a infância algarvia adivinha-se nas suas escolhas, coisa que não prejudica em nada o livro, até porque o próprio faz referência à sua terra natal.

“Na selecção dos textos, procurei contemplar diferentes tipos de narrativas, nomeadamente os contos de encantamento, as histórias de animais, as lendas e as facécias. Sendo esta última uma categoria em que a nossa tradição oral é, a meu ver, particularmente rica, optei por lhe dar algum relevo, na convicção também de que o carácter jocoso e burlesco de tais contos poderia conferir à colectânea uma tonalidade mais humorística do que é habitual em obras deste tipo.” Pág. 4

Dos contos deste livro, deixo uma refência especial para dois que, a mim, me encantaram.
“As Senhoras da Mantinha de Seda” - Pág. 27
“Conto da Pêra de Ouro” - Pág. 33


Continuem em boa companhia!

2006/06/22

Um ano em boa companhia

Este é um blog de letras e não de números mas, ainda assim aqui fica: ao final de um ano de existência (passou no último dia 14) mais de 3.200 entradas. Não está mal de todo.

Agora, ao soprar as velas, gostava de pedir mais participação, mais comentários, mais livros. Espero que seja do interesse de quem nos lê, gostava de ter maior feed-back.

Sei alguns dos erros que temos: posts muito espaçados, com uma avalanche repentina quando há tempo para isso. Vamos tentar ser mais constantes.

Para que saibam: gostámos muito de estar na vossa companhia.

Coelhinho branco - Conto popular adaptado por Xosé Ballesteros

É a história da formiga rabiga, sem tirar nem pôr. Eu gosto da história, menos das ilustrações. E pronto, pouco mais a dizer.

2006/06/21

Eu não tenho sono e não vou para a cama - Lauren Child

Uma história sobre uma menina difícil de fazer chegar à cama. Ilustrações muito ao estilo pop, não deixa contudo de ser um livro engraçado, mas sem muito sumo para espremer. Afinal, também aí bastante pop. A capa promete mais do que dá. Pop?

Carlota Barbosa, a bruxa medrosa - Layn Marlow

Um livro sobre medos e coragem. Sobre como os medos nos podem perturbar e como os momentos de decisão nos podem ajudar a ultrapassar os medos. Quero que o meu filho o leia, não faço questão que o tenha.

Onde perdeu a lua o riso? – Miriam Sanchez

Não gostei particularmente deste livro. Joga à volta do trocadilho entre o nome do astro (lua) e o de uma menina (lua), que perdeu – esta última e não aquela – o riso.
O trocadilho é um bocadinho forçado, já que lua não é propriamente um nome usual para dar às crianças e tão pouco é bem explorado ao longo do livro (não se desenvolvem paralelismos entre a menina e astro que justifiquem aquela identificação). É, apesar de tudo, um livro que fala das relações familiares, em particular entre irmãos, de uma forma agradável. Mas fica aquém daquilo que promete.

A Maior Flor do Mundo - José Saramago

Quando li alguns dos seus romances, pensei que Saramago seria um bom escritor de contos, visto que tinha boas ideias que esticava à exaustão, sem extrair delas tudo o que elas poderiam dar. Veja-se o exemplo do Ensaio sobre a Cegueira ou de Todos os Nomes. Com a Maior Flor do Mundo verifico que não é verdade. A maior flor do mundo, é um livro cansado: desenvolve-se numa estrutura circular, cansada de tanto ser usada, usa imagens cansadas, não traz nada de novo, nada de nada. Talvez a dificuldade seja escrever para crianças, talvez a dificuldade seja ser simples – que é sempre tão difícil. Se escreve contos assim, antes os romances, que dariam bons contos e deram romances sofríveis.

Histórias para contar em 1 minuto e ½ - Isabel Stilwell, com a colaboração especial de Francisco e Madalena Stilwell

Este é um livro muito inteligente. Histórias simples e curtas – como prometido – com uma lógica muito própria das crianças, mais simples, mais directa mas também menos realista do que a lógica “adulta”. Dou um exemplo: o que fazer se o pai tem um chefe de quem não gosta e o filho um professor de educação física de quem não gosta? É simples e óbvio: o professor troca de lugar com o pai e ficam todos felizes!
Ao mesmo tempo, e sempre fugindo à tentação das histórias moralistas, o livro vai resolvendo pequeninas questões: o medo do escuro, as birras á noite, não ter nada para vestir – apesar dos armários estarem cheios. É um livro a guardar perto de nós. Uma última nota: o Manual de instruções é muito interessante.
Outra nota ainda, esta já não sobre o livro: a edição é muito boa, de uma editora que eu não conhecia mas que espero que mantenha este nível de qualidade, literária e de edição.

Tio Lobo – Conto popular adaptado por Xosé Ballesteros

Este é daqueles livros inexplicáveis. Como é que uma história desta se forma? É suposto ser um conto popular... como é que uma história de tanto mau gosto não morre, já não digo à nascença mas pelo menos à terceira... vá, à quarta vez que é contada? E mais: porque é que alguém se lembra de a adaptar para um livro? É que sinceramente, uma história destas é daquelas que eu não quero que os meus filhos leiam! Pães com cimento lá dentro? Bolinhos de excremento de burro? Água de poças a saber a urina de cão? O lobo acaba a comer a menina, mas talvez isso não seja tão dramático como o medo que é inspirado pela sua ameaça... a menina vai-se deitar e não consegue dormir à espera do lobo.
Sinceramente, fiquei perplexo. Depois vi o nome da colecção e não pode deixar de rir com a ironia... chama-se livros para sonhar!

Avós – Chema Heras

Um livro delicioso, sobre uma história de amor para toda a vida. O envelhecimento e a relação amorosa. Apresentado de uma forma muito simples, muito bonita, sob a forma de uma lenga-lenga, as comparações são de uma originalidade e de uma frescura muito ternas. As ilustrações são muitíssimo cuidadas e sugestivas.
Uma história de valores sem falar de valores, que procura o essencial, que às vezes queremos esconder. Vale mesmo a pena.

Conspiração – Dan Brown

Estou a ficar francamente farto deste senhor. Não é que ele escreva mal aquilo que escreve, mas escreve sempre igual. Por isso está a tornar-se previsível, cada vez mais previsível. Comprei o Código Da Vinci, que li com gosto. Também o considero, como o Cardeal Patriarca de Lisboa, “um policial bem urdido”. Também o considero, como ele, um livro falacioso, de um ponto de vista teológico. O que me espanta é que se espere tanto de um autor que não tem qualquer autoridade nesta matéria e de um livro de ficção.
Depois li – não comprei - o Anjos e Demónios que achei burlesco. O estilo de escrita é o mesmo, o enredo é de uma proximidade exasperante, a única diferença – para muitíssimo pior está - no final, espalhafatoso, hollywoodesco, americanado.
Pura literatura de aeroporto.
A Conspiração – curiosamente lido em grande parte em Aeroportos – é fiel ao seu autor: a história é a mesma, as personagens andam muito próximas, o mau da fita é o mais óbvio, sinceramente, é tão idêntico aos outros que nem se pode dizer que decepcione.
Há dias em que me apetece comer hamburgueres. Faz sentido queixar-me de não me servirem bife da vazia? Os hamburgueres sabem sempre ao mesmo. E depois?
O que eu não estou disposto a fazer – e já não fiz com este livro – é comprar um hamburguer ao preço de um bife ou mais caro, e ainda dizer que é a melhor coisa que já comi. Não: é junk food e ponto final.
A Conspiração é literatura de plástico, feita para formato de bolso. Só é pena ser tamanho bigmac – e estou a falar da extensão do texto, não da edição, feita como se de um livro a sério se tratasse.

Casamento para um tempo novo - Antonio Vasquez

Este é mais um livro da colecção “Fazer família”. É nalguns pontos um livro bem escrito e inteligente. Noutros “tropeça” no enunciar de ideias esparsas sem as fundamentar ou delas retirar consequências. De todo o modo é um bom livro, um livro que vale a pena ler, por quem está a preparar-se ou a viver um casamento. Como sempre, poderá não se concordar com todas as ideias descritas, mas também é um facto que um livro onde se concorda com todas as ideias descritas raramente significa um apoio ou uma ajuda: torna-se demasiado complacente, conformado, conformista. Poderá até – quem sabe? – chegar a best-seller! Este livro não corre esse perigo.

Ensinar a pensar - António Jiménez Guerrero

É um assunto que me preocupa imenso, a perda de capacidade crítica que noto nas pessoas. As pessoas não aprendem a pensar, têm preguiça de pensar e caem em erros e omissões facílimas de desmontar.
Grande parte deste problema tem sem dúvida a haver com a incapacidade de compreender e se expressar em português.

Mas outra grande parte tem a ver com falta de bases lógicas e com aceitação acrítica dos argumentos, sem questionar as suas permissas de base.

Não posso dizer que concorde com cada palavra do que está escrito neste livro, mas também é um facto que ele tem muitos méritos. Desde logo, o mérito de abordar este tema, tão inusual nos dias de hoje. Também o facto de estar escrito de forma simples com variadíssimos exemplos ajuda uma fácil leitura e aquisição do seu conteúdo. Finalmente, as técnicas descritas são, na sua maioria muito úteis.

Tem também alguns defeitos: por vezes parte de um sistema algo “fechado” de abordagem das coisas e deixa algumas “promessas por cumprir”. Gostaria de ter visto mais desenvolvidos algumas questões como por exemplo a das falácias e da sua desmontagem, ou outras abordagens como a do pensamento criativo, a imaginação, a capacidade de descrição.

Quem lida diariamente com miúdos sabe até que ponto estas capacidades estão pouco estimuladas e consequentemente pouco exercitada e pouco desenvolvidas.

Outros autores falam, a este propósito em obesidade mental.

2006/06/16

A criança em ruínas


Foi pela voz de um grande contador de histórias ( Filipe Lopes ) que conheci a poesia de José Luís Peixoto e posso dizer que o “embate” foi forte. O Filipe leu o poema “na hora de pôr a mesa, éramos cinco” e eu fiquei atordoada, apertando as mãos à força das lágrimas que teimavam em espreitar (acho que não fui muito bem sucedida no disfarce...). Daí à leitura integral do livro foi “o passo de um anão”...

Posso dizer que a leitura não é simples e está longe de ligeira (o que, na minha opinião, só abona a favor do livro). Pelo contrário, é trabalhosa e requer uma grande envolvência, quase íntima, com cada palavra.

Este livro não se deixa florir com o simples gesto de folhear as páginas, é preciso tempo para ler até ouvir o ritmo certo de cada estrofe, que não se impõe, deixa-se descobrir a quem o quer encontrar. Mas não essa, afinal, a magia da verdadeira Poesia?!

É como se José Luís Peixoto quisesse ter a certeza que quem lê os seus poemas se dá ao trabalho de realmente os ‘ouvir’. O hábito de ler silenciosamente é razoavelmente recente e no caso deste livro, e porque não dizer em todos (ou pelo menos quase todos) essa modernidade fez perder parte do encanto do texto escrito. Dá muito mais trabalho e é muito mais difícil ouvir palavras ditas de lábios cerrados...

Como sempre, tive de lutar com a minha dificuldade em escolher uma pequena amostra “Como isolar um sabor de um bolo de várias camadas feito?” A escolha inicial era o poema que já referi, mas essa por tão óbvia peca pela facilidade. Assim deixo aqui este raminho de cheiros para aguçar o apetite.

“ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre no
mesmo sítio se fecharmos os olhos
serás sempre tu e tu que me ensinarás
a nadar seremos sempre nós sob
o sol morno de julho e o véu ténue
do nosso silêncio será sempre o
teu e o teu e o meu sorrizo a cair (...)” Pág. 14
Continuem em "boa Companhia"!

2006/06/01

O Fio Da Navalha - Somerset Maugham

Laurence Darrel é um combatente da primeira guerra mundial que viu morrer o seu melhor amigo por ele. Este choque provocou em Larry o desejo de compreender o sentido da vida e partir da vida confortável que o conformismo lhe oferecia. Desfaz o noivado com Isabel e parte por esse mundo fora. Na busca do seu objectivo começa por frequentar obsessivamente bibliotecas, vive num mosteiro, trabalha numa mina de carvão, trabalha como lavrador à jorna e chega até a viver na Índia como eremita onde atinge a "iluminação".
Os outros personagens representam os outros contrastes do mundo, desde aqueles que consideram a cultura uma posse exclusiva de uma elite estanque, em que ser culto é uma condição que se deve ao “status” e não por ter conhecimentos, considerando todos fora da sua esfera como pobres analfabetos. Até aqueles que buscam a autodestruição devido às agruras que a vida lhes ofereceu. Maugham expõem aqui toda a mesquinhez e futilidade de um “jet-set” do inicio do século XX, cujo sofrimento é banal e insignificante face a quem realmente sofre e que também por isso, caminhava a passos largos para a decadência, numa América do Norte e Europa em constante mudança e instabilidade.
Numa visão mais ampla este livro é um confronto de um mundo velho contra aquilo em que se transforma, um instável mundo novo que busca novos caminhos em diferentes direcções. Partindo desde o fim do primeiro conflito mundial e os “loucos anos vinte”, passando pela crise de 29 e chegando até aos meados da década de 30 do século XX.
O autor Somerset Maugham é um dos personagens que estabelece a ponte entre todos os outros personagens numa escrita fantástica, que nada deixa ao acaso. Brinca com todos os pormenores, mas sem fazer descrições maçadoras, conseguindo fazer com que o leitor sinta todos os ambientes descritos no livro, que acaba por se tornar numa agradável companhia.

2006/05/31

A Invenção do Dia Claro - Almada Negreiros


O meu maior problema com este comentário é lutar contra a vontade emergente de transcrever na totalidade os textos de Almada sem deixar uma só palavra de fora. Isto porque o livro é um todo formado por III Partes seguidas pelas "Démarches para a Invenção" e acompanhadas por "Confidencias mais Intimidades Geraes" que, se tiradas do seu contexto perdem não só em significado, como em termos rítmicos e até metafóricos. Além disso, a minha vontade era mesmo partilhar com todos o prazer imenso que retiro desta leitura!
Assim, e na impossibilidade de vos deixar aqui a imensidão poética deste 'dia claro', derramo apenas um pouco do muito que nos dá a beber Almada Negreiros, apenas o necessário para humedecer os lábios de vontade de ler o todo desta belíssima edição fac-similada do "primeiro milhar" impresso "aos trinta dias do mez de novembro de mil novecentos e vinte e um, nas Oficinas da Sociedade Nacional de Tipografia".
"Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido."
Pág. 11 (O Livro)
" O preço de uma pessôa vê-se na maneira como gosta de usar as palavras. Lê-se nos olhos das pessôas . As palavras dançam nos olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um."
Pág. 19 (As Palvras)
" Quando copiei pela ultima vez a Invenção do Dia Claro, sobejou uma frase que não me recordo a que alturas pertence. A frase é esta:
Ha systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não ha systemas para saber amar!"
Pág. 44 (Uma frase que sobejou)
Para finalizar, que o dia já vai alto, gostava muito de deixar mais um cheirinho, o magnífico texto "A Verdade" (Pág. 45) mas como é extenso (e antes que acabe mesmo por copiar todo o livro) terei de me ficar pela menção da sua genialidade!
Continuem em boa companhia!

2006/05/18

Se Numa Noite de Inverno Um Viajante - Italo Calvino



É um livro diferente de todos os livros que li até agora. Entra-nos pelas folhas fora (sim é mesmo isso que quero dizer) sem pedir licença e trata-nos por tu.
"Estás a comecer a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um Viajante de Italo Calvino. Descontrai. Recolhe-te." (Pág.7)
Depois envolve-nos numa teia de histórias, personagens, lugares, cheiros, sabores e, enquanto se vai perdendo neste enredo de enredos (o que acaba mesmo por acontecer) começam a adivinhar-se os verdadeiros personagens - O Livro, A Editora, e por último o leitor e a leitora. E, embora a certa altura seja inevitavel que uma certa frustração nos comece a afastar a vontade de continuar a ler, vale a pena mantermo-nos fieis e ficarmos até ao fim.
"Ler (...) é sempre isto: há uma coisa que ali está, uma coisa feita de escrita, um objecto sólido, material, que não se pode alterar, e através dessa coisa comparamo-nos com outra coisa qualquer que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é só pensável, imaginável, ou porque existiu e já não existe (...) ou que não está presente porque ainda não existe (...) ler é ir ao encontro de qualquer coisa que está para ser e que ainda ninguém sabe o que será..." (pág. 63)
Fiquem em boa companhia!

2006/05/15

Un papá a la medida - Davide Calí


















Esta é a história de uma mamã estupenda e da procura de um papá que esteja à altura das suas qualidades...

Essa busca começa com um anúncio nos Classificados que (caso estivesse traduzido em Português) diria o seguinte:

"Procura-se Papá tão estupendo como a Mamã, quem não tiver as qualidades necessárias escusa de aparecer"

É um livro delicioso, daqueles que se lêm com todos os sentidos! É daqueles que pede para ser contado com o livro bem pertinho para que quem ouve se possa maravilhar com as belíssimas ilustrações de Anna Laura Cantone.

Continuem em Boa Companhia!



Canto de Mim Mesmo - Walt Whitman

Gostei, não posso dizer que tenha delirado. Tem momentos francamente bons.

De alguma forma tenho que admitir: é uma realidade que sinto alheia.

2006/05/10

Eu não fui - Christian Voltz

Este livro é daquelas histórias em cadeia que explica em poucos minutos porque é que tudo está ligado a tudo, dando um exemplo.
A história é simples, as ilustrações são deliciosas... aconselho vivamente!

O Circo da Lua - André Gago

Este livro é muito interessante, não apenas pelas ilustrações, que são muito boas, mas sobretudo por uma história que mostra como podemos escolher o melhor ao pior desde que saibamos construí-lo. Diz-nos a análise SWOT que todas as ameaças são oportunidades. Há pouco tempo lia que as pessoas a quem tudo corre bem são as que conseguem aproveitar melhor as circunstâncias. Este livro diz isso mesmo, com imagens e mensagens adaptadas à idade a que se destina. Não gostei muito da parte do lobo. Paciência. Mas vale a pena lê-lo!

Estorvo - Chico Buarque

Esperava mais e melhor, confesso. É um artista bem mais completo quando compõe.

O pai no tecto - Maria Teresa Maia Gonzales

O livro está muito engraçado e o tema diz-me muito. A autora faz um truque que resulta muito bem: começar por explicar que o Tito não é um miúdo vulgar. Isto permite-lhe uma série de liberdades que de outra forma se tornariam fantasiosas. De resto está muito bem escrito, muito acessível, ou não fosse este um livro "infanto-juvenil". É daqueles que faço questão que conste da estante dos meus filhos. Um pormenor técnico, em particular: a autora domina muito bem os diálogos!

2006/05/04

The Melancholy Death of Oyster Boy & Other Stories - Tim Burton

Já tenho este comentário 'pensado' há algum tempo, mas deparo-me sempre com uma dúvida existencial incontornável:

-Como explicar o que sinto sobre este livro?!

Para mim este pequeníssimo livro é genial embora de uma crueldade mordaz, é fantástico (em toda a amplitude da palavra) embora não deixe de ser bizarro, posso mesmo dizer que chega a ser mórbido sem, contudo, deixar de ser simplesmente lindo...

Mas esta é a minha opinião ou melhor, esta é provavelmente a opinião de todos os que se identificam com o imaginário do homem que criou filmes, como por exemplo, Big Fish, Eduardo Mãos de Tesoura, O Estranho de Mundo de Jack ou A Noiva Cadáver...

E os outros, o que acharão os outros (aquelas pessoas estranhíssimas que não estão dentro da órbita deste planeta fantástico povoado por seres estranhos e onde a maldade é vizinha do acaso, que por sua vez é irmão da beleza...)?!

Bem, na verdade, a opinião desses é-me indiferente...

Fiquem em boa companhia!

2006/05/03

Grávida no Coração - Paula Pinto da Silva


Publicado pela Campo das Letras, este livro vai directo ao assunto: de que massa se faz a maternidade e a paternidade. A leitura do livro é muito rápida, o texto sintético, organizado em pequenos diálogos mãe/filho. Aconselho vivamente. A mim tocou-me muito. A outros não, pelos vistos. Concedo que as ideias não são novas: são provavelmente tão velhas como a maternidade e a paternidade mas - que querem? - é exactamente assim que eu me sinto - grávido no coração - em relação a todos aqueles que assumi como filhos.

2006/04/26

José Afonso - Textos e Canções

Esta é uma referência que não poderia deixar de fazer. Com ela festejo Abril e a liberdade de ler, publicar ou tão pouco comentar.

É uma compilação da obra poética de José Afonso organizada cronologicamente (por Elfriede Engelmayer) que nos presenteia, não só com os poemas que nos povoam o imaginário colectivo das Canções de Intervenção, mas com tantos outros textos/poemas 'não musicados' e, por isso desconhecidos.

A leitura destes últimos, permite um olhar muito mais profundo, mais íntimo e a descoberta do poeta para além do cantor.
"A possibilidade de acesso à obra de um artista é a condição «material» para que elenos seja presente(...)" (Nota Prévia - Pág. 8)

Aqui deixo um cheirinho (de alecrim) :

A palavra gatinha
Sem nada por cima
A palavra rompe
investe
perfura
Comprida a palavra perde-se
Em redor da mesa reveste-se e organiza-se

A palavra precisa de ternura

(A Palavra - Pág. 151)

***** ***** ***** *****

Nefretite não tinha papeira
Tuthankamon apetite
Já minha avó me dizia
Olha que a sopa arrefece

Nos funerais de antanho
As capicuas gritavam
E às escuras na cozinha
Já as galinhas dormiam

Manolo era o rei do fandango
Do fandaguilho picado
Maria se fores ao baile
Leva o casaco castanho

O rei João era dos tesos
Chamavam-lhe João dos Quintos
Lá na terra brasileira
Vinham quintais de Ouro Preto

Em suma a soma interessava
A quem interessa algum dia
De lingotes e pimentas
Ainda vamos ao fundo

Lá para o reino da Arábia
Havia amêndoas aos centos
Que grande rebaldaria
E a Palestina às escuras

Os Sheikes israelitas
Já que estou com a mão na massa
Lembram-me os Sheikes das fitas
Que dão porrada a quem passa
(Nefretite não tinha papeira - Venham mais cinco- Pág. 242)

Fiquem em boa companhia!

2006/04/20

Quando Nietzsche chorou - Irvin D. Yalom


Há muito que dizer sobre este livro e o seu escritor Irvin D.Yalom, que eu desconhecia em completo. Tentarei ser concisa (coisa que me é difícil) e não estragar futuras leituras...

Começo por dizer que a leitura se torna, eventualmente, mais estimulante para quem já se encontrou com Nietzche e, em algum ponto da sua vida, teve o tempo e a vontade necessários para conhecer o Super-Homem e o Zaratustra. Mas, por outro lado, quem os desconhece ficará, por ventura, com vontade de os procurar.

Adorei a discussão filosófica transversal a todo o livro, que desvenda aos poucos o estranho, cruel e áspero Nietzche "É preciso ter caos e frenesim dentro de si para dar à luz uma estrela dançarina." (Pág.191)
Eu diria mesmo que é este o ponto alto do livro, a dialéctica entre o homem que matou Deus e leva esse peso às costas e o homem comum (que "tem mulher e filho e tralha e tal") com as questões e dúvidas existenciais comuns dos homens de quarenta anos. E essa discussão é feita, magistralmente, mantendo a força dos monólogos intercalados nos diálogos, dando-nos a possibilidade de 'ouvir' cada interveniente sem perder o seu diálogo interior.

Claro que a rota final do livro é uma verdadeira montanha-russa de emoções, mas quanto a mim acaba por pecar um pouco pelo simplismo com que é dada a volta final.

Pareceu-me que a questão da 'descoberta de um tratamento para o desespero através da conversa’ e a participação de um tal aspirante a médico de nome Freud funcionam mais como estandartes publicitários para o romance do que propriamente parte integrante da acção.

A abordagem das relações humanas, como a amizade, o amor e a sexualidade baseadas numa relação de poder dominante/dominado; a solidão e a capacidade de viver em sociedade sem nos deixarmos 'levar ou afogar' por ela são, para mim, as verdadeiras pérolas deste livro.

Fiquem em 'boa companhia'!

Adeus às Armas


Um excelente retrato de duas vidas por trás da primeira guerra mundial. Há quem diga que este livro foi inspirado na própria vida de Hemingway e na sua passagem pela primeira grande guerra, eu pessoalmente acredito que sim, especialmente devido à forte carga de sentimentos transmitida, em especial nas últimas linhas da obra. Confesso que inicialmente achei que a obra era um quanto tanto fraca, achava especialmente que os diálogos iniciais eram fracos e repetitivos, mas à medida que vamos avançando o interesse vai aumentando e compreendemos que os diálogos não são fracos, são apenas aquilo que têm que ser, incisivos e densos.
Devo também dizer que achei estranho o facto de ao ler este livro ir encontrando umas certas semelhanças com outra obra comentada neste blog. Uma obra que gostei bastante, mas que depois de ler o “Adeus às Armas” senti uma certa desilusão, porque me pareceu que José Rodrigues dos Santos mostra um profundo conhecimento da obra de Hemingway, ou pelo menos desta obra de Hemingway
Mas deixo para os nossos leitores a curiosidade e o juízo. Termino dizendo que esta foi a 3ª obra de Hemingway que li e que até agora gostei de todas. Como as anteriores “Adeus às Armas” vale a pena.

2006/04/18

Ish - Peter Reynolds


Bem, esta é a primeira vez que faço companhia às letras (ou será, tenho a companhia das letras?!) e por isso estou um tanto perdida sem saber bem que letras escolher para acompanhar as que por aqui costumam passar...

Assim, escolhi a companhia de um livro que me mostrou que não devemos ter medo de tentar, de avançar, de nos mostrar. Se isto não for bem um Post, será certamente um "quase-post"!


Em espanhol chama-se 'Cuasi', em português seria (caso estivesse traduzido) 'Quase' e é a história de um menino que adora desenhar mas que um dia, provocado pelo gozo do seu irmão mais velho, percebe que não consegue desenhar as coisas como elas realmente são e decide pousar o lápis. Até que a sua irmã mais nova...

É um livro aparentemente infantil (como quase todos os que assim são classificados), mas que leva uma mensagem que toca a todos. Não tem muitas letras, é certo, é óptimo para contar (ou ler) eu diria mesmo que é daquelas histórias - sucesso garantido.

Obrigada pelo convite e fiquem em boa companhia!