2008/10/13
Zorro - Isabel Allende
Não faltam ainda muitas aventuras, tanto por terra, como por mar, em contacto com índios, ciganos, piratas, e todas as outras personagens que estamos habituados a ver num livro que se desenvolva na primeira metade do século XIX no Novo Mundo. Que canseira! Mas de alguma maneira Diego tinha de aprender todas as habilidades possíveis e imaginárias (desde o simples truque de ilusionismo de algibeita, até às complicadas acrobacias circenses) se desejava ser um Zorro que se prezasse...
Considerei a parte da infância de Diego bastante empolgante, mas o resto do livro (principalmente a partir do momento em que vai para Espanha) torna-se algo chato, não nos sendo nada mais que uma mera sucessão de acontecimentos, alguns interessantes, outros nem tanto, não passando de bocejos prolongados. O que é um problema para mim, já que não consigo ler na diagonal e saltar as partes mais desinteressantes de seja qual for o livro.
Enfim, permanece em mim a sensação de que Isabel Allende é um pouco sobrevalorizada enquanto escritora, mas o apelido terá sempre o seu peso. Em todo o caso, gostei deste livro por a autora se ter cingido mais ao real e não se aventurar pelo fantástico (como aconteceu n' A Cidade dos Deuses Selvagens, livro que detestei).
Não sei... Aí por volta das 7 estrelas.
2008/10/06
O Último Cabalista de Lisboa - Richard Zimler
Comecemos pelo princípio. Richard Zimler é um escritor norte-americano naturalizado português e radicado actualmente no Porto. Decidiu escrever sobre uma família de judeus portugueses. No entanto, não o fez de forma convencional. Imaginou vários ramos da família ao longo da História e, assim, escreveu a saga da família Zarco desde o início do século XVI até aos finais do século XX. Confusos?
A história da família Zarco começa com o livro O Último Cabalista de Lisboa, policial ambientado no século XVI que, para além de nos dar o mote para os restantes livros, relata de forma um pouco cruel (mas, por isso mesmo, realista), algo que tem sido afastado dos manuais de História: o massacre de judeus que ocorreu na capital portuguesa em 1506, incitado pelos dominicanos no Rossio. Foram mortos nesses dias de Páscoa cerca de 2000 judeus por serem os "culpados" da seca que grassava na cidade.
Esse é o ambiente, mas não o fulcral da narrativa. Berequias Zarco, jovem cristão-novo, descobre o seu tio assassinado no esconderijo da sua casa, em Alfama. Isso leva-o (a ele e a nós, felizmente, diria eu) a passear por uma Lisboa ainda agarrada à ignorância medieval numa busca incessante pelo assassino, enquanto os cristãos-velhos se vão entretendo a queimar judeus ou a decapitá-los.
O que é fantástico de ver neste relato é a capacidade incrível de um escritor norte-americano conseguir reconstruir a Lisboa da época e também os seus arrabaldes (Campolide, Benfica, Belém), mas também o facto de inventar uma história que, não sendo absolutamente verosímil, não deixa de ser interessante. É verdade que existem demasiadas personagens (o que pode confundir um pouco a leitura; a mim confundiu, pois por vezes eram resgatadas na narrativa personagens que tinham aparecido anteriormente, mas que eu já tinha esquecido), mas isso acaba por servir da melhor forma a história, tornando-a mais credível.
Este foi um dos meus livros preferidos da saga Zarco. Porque se passa em Lisboa, porque está magistralmente bem escrito (tudo na primeira pessoa, uma das formas de narrar mais difíceis de concretizar), porque agarra desde o princípio até ao fim, porque trata de um assunto sério nas entrelinhas, porque, apesar disso, consegue ter alguns momentos bastante humorísticos (veja-se o encontro de Berequias com o ferreiro de Benfica), enfim... porque sim. Gostei muito de ler este livro e, por isso, não posso deixar de recomendar a sua leitura.
9,5 estrelas
2008/09/23
Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto - Mário de Carvalho
Desengane-se aquele que acredita nas palavras do narrador quando afirma que quer que este livro seja "mui sisudo e composto". Antes pelo contrário, de sisudo nada tem. Dei comigo a dar valentes gargalhadas, comedidas, porém, porque me encontrava em locais públicos quando lia esta prosa bem disposta. Algumas passagens são hilariantes, como por exemplo aquela em que Eduarda não sabe o que significa 'hediondo' e 'pejorativo'.
Quanto à história em si, não vou dizer que é a mais original que li nos últimos tempos (resumindo: o reencontro de dois colegas da faculdade muitos anos após se terem conhecido, numa altura em que estão a passar por uma crise de meia-idade), mas julgo que isso acaba por provar que, mais importante que contar uma história, é a maneira como ela é contada.
De facto, surpreendeu-me muito esta maneira inovadora de narrar uma história em que, o narrador, omnisciente e omnipotente, acaba por não intervir de forma nenhuma, qual deus demasiado preguiçoso para se imiscuir das desgraças humanas, limitando-se a contar-nos a história, não se abstendo, porém, de fazer os seus comentários, mais do que irónicos e mordazes, terrivelmente cómicos. Penso que só lendo o livro é que se percebe o que quero dizer, já que não faz muito sentido transcrever para aqui parágrafos inteiros que o demonstrem.
Este não terá sido o melhor livro que li nos últimos tempos, mas foi sem dúvida aquele que me surpreendeu mais. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever. Recomendo a sua leitura, para que se fique a conhecer um tipo de humor verdadeiramente delicioso, que não necessita de recorrer ao brejeiro para nos fazer rir.
2008/07/25
A 25ª Hora, C. Virgil Gheorghiu
Este é um daqueles livros que não deve mesmo perder-se.
E isto por diversas razões: Não só porque está muito bem escrito, não só porque a história é interessante, mas também pelo seu valor como documento histórico e como reflexão sobre a nossa sociedade.
Com efeito, no que diz respeito ao holocausto é um documento histórico impressionante. O que mais me chocou ao longo de todo o livro, como uma nota de pedal, ao longo de toda a harmonia do livro, é que ninguém contesta que a personagem principal fosse presa se ele fosse judeu... apenas se reclama que ele não , e que consequentemente a sua prisão era uma injustiça. Note-se que este movimento conjunto das personagens nada parece ter de intencional por parte do autor, que é bastante mais explícito quanto ás contradições que quer por em evidência. Esta nota simplesmente perpassa todas as personagens e a forma como elas actuam.
Por outro lado, este livro faz uma descrição e crítica da "sociedade técnica ocidental", conceito que também define. Neste sentido, este livro é uma reflexão extraordinária, no que tem de actual. A sociedade técnica ocidental de que fala Gheorghiou é hoje em dia uma constante nos mais pequenos assuntos da nossa vida, desde as relações com as empresas até à relação com as administrações públicas, os call centers, os protocolos, médicos e não só... Não quero entrar em grandes pormenores porque não poderia fazê-lo com a competência do autor, mas quero apenas dizer que este livro é para mim um livro essencial para a compreensão da nossa sociedade.
Além disto queria ainda chamar a atenção para um pormenor: trata-se de uma tradução feita pelo Vitorino Nemésio, também ela muito interessante na forma como utiliza o português.
2008/07/07
Todos os Nomes - José Saramago
A certa altura, diz o Sr. José (personagem principal deste livro) ao seu tecto (!) o seguinte: "Vivia em paz antes desta obsessão absurda, andar à procura de uma mulher que nem sabe que existo" (pág.158). Precisamente! Quem é que se lembra de escrever um livro sobre um homem que trabalha numa Conservatória Geral do Registo Civil e que, de repente, se sente impelido a procurar uma mulher da qual não sabe nada e, chegado ao fim, pouco fica a saber dela? Essa é a premissa do livro, a qual não achei especialmente genial, o que me fez ficar com o pé atrás à medida que ia lendo o livro.
No entanto, não se pense que só encontrei aqui aspectos negativos. De facto, houve alguns aspectos do ponto de vista literário e não só que me agradaram. Achei curioso todo o espaço físico em que a história foi ambientada, numa cidade cujo nome nunca ficamos a saber, onde existe um cemitério gigantesco e de estranha configuração e uma Conservatória Geral do Registo Civil enorme e em constante expansão. Eu diria, não sei porquê, que esta história se passa por alturas dos anos 30, talvez porque Saramago imprima esse universo às suas obras, quando não é declarada a data exacta dos acontecimentos que narra.Também não deixa de ser interessante o facto de Saramago ter conseguido escrever um livro em que a única personagem que tem efectivamente nome seja o Sr. José (penso que no Ensaio Sobre a Cegueira, livro que pretendo ler brevemente, vai ainda mais longe a absolutamente ninguém que lá surge tem nome!).
Depois achei também interessantes algumas críticas subjacentes à organização hierárquica do trabalho ("A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de uma categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte."), à fama, à burocracia, até mesmo aos debates estéreis entre a elite cultural, a par de muitas outras e diversas considerações sobre a morte ("O que está para além da morte, nunca ninguém viu nem verá, de tantos que para lá foram, nunca nenhum voltou cá") e, mais especificamente sobre o suicídio (representado pelo pastor que o Sr. José encontra no cemitério) e de todo um pessimismo que atravessa o livro, a que Saramago de certo modo, já nos foi habituando. "(...) o que deves pensar é os pesadelos da infância nunca se realizam, muito menos se realizam os sonhos".
No entanto, isto tudo não foi suficiente para que, no geral, o livro me agradasse e o considerasse uma das melhores leituras dos últimos tempos. No fundo, esta é a história de um homem que inicia uma busca por uma mulher que nunca encontrará, para além de contar inúmeras situações e episódios completamente desnecessários e maçudos, que nada acrescentam (bons exemplos disso são o diálogo absurdo entre o Sr. José e o enfermeiro ou quando ele assalta a escola e fica lá a dormir uma noite), para além de longos parágrafos em que não abunda a pontuação.
Quero, contudo, deixar aqui a salvaguarda que considero Saramago um dos autores mais inspirados na literartura portuguesa contemporânea. É um facto que não gostei muito deste livro, mas é de salientar que o mesmo foi publicado em 1997, o ano anterior em que o autor recebeu o Prémio Nobel, pelo que inevitavelmente faz parte das obras que contribuíram para que ele o recebesse. E sem dúvida que mereceu receber o referido prémio. Ler Saramago é algo que não me cansarei de recomendar, porque vale sempre a pena, quanto mias não seja para conhecer a sua maneira de escrever, que se adora ou se detesta.
6 estrelas
2008/06/24
Inês de Portugal - João Aguiar
Muito bem escrito, eu arriscaria dizer que este foi um dos melhores livros que li nos últimos meses. Nos últimos tempos li dois livros que tratavam o mesmo assunto que este, mas nenhum dos dois me deixou preso até ao final para saber como iria tudo acabar. Digamos que a história de Inês e Pedro é sobejamente conhecida e que, por isso, pode deixar pouco espaço à inovação. Mas aqui isso não acontece, pois a forma como a história é narrada (Inês já está morta e apenas tomamos contacto com ela através de analepses que nos transportam ao passado) permite uma visão nova de toda a história e até mesmo das personagens. Veja-se o caso de Pedro que, como é habitual, é aqui abordado de forma bastante dramática e amargurada. Contudo, vai-se um bocadinho mais longe, na sua sede de justiça (ou será melhor dizer 'vingança'?). Mais do que justiceiro, ele é cruel e isso deve-se ao facto de lhe terem tirado a mulher que mais amava em vida. E Inês? O cálculo político também aqui está visivelmente presente, mas como não nos deixarmos enternecer por tal figura, mero peão num jogo de xadrez de alcance muito mais difícil de explicar, porque muito mais vasto que isso, do que a simples ambição de ser rainha?
9 estrelas
O Milagre Segundo Salomé, José Rodrigues Miguéis
O Milagre Segundo Salomé é um livro dividido em 2 volumes e nele encontramos vários planos (a adolescência de Severino Zambujeira, algures em finais do século XIX; os artigos de jornal de Gabriel Arcanjo; e a história de Salomé propriamente dita, desde a sua chegada a Lisboa, o bordel, o seu encontro com Zambujeira e finalmente com Gabriel, não esquecendo o "milagre"). Como se percebe, todos os planos acabam por se entrecruzar e, enquanto que a vida de Salomé se apresenta mais interessante (ainda que algo prolixa demais), a infância e os artigos de jornal de Gabriel Arcanjo parecem deslocados e algo desnecessários para a história de fundo que se pretende contar.
Enfim... Considero que este livro está muito bem escrito. No entanto, não posso dizer que este tenha sido um dos melhores livros que li até hoje. Para isso contribuiu o facto de José Rodrigues Miguéis perder muito tempo com contextualiazações históricas demasiado pormenorizadas. Se por um lado, não é desnecessária uma contextualização histórica de toda a Primeira República, por outro acho que isso acaba por tornar muito maçuda a leitura do livro, dando-se demasiada importância a factos que desmotivam para o resto da história. É igualmente pena que os nomes das personagens e dos locais não tenham sido mantidas, embora o autor tenha afirmado que esta sua obra não tinha qualquer objectivo iconoclasta
Como conclusão, o que posso dizer é que este é um daqueles livros que, na minha opinião, estão bem escritos e que trabalham uma ideia muito boa, mas não da melhor forma. O que quero dizer é que José Rodrigues Miguéis poderia ter aproveitado melhor esta ideia de "reintrepretação" das aparições de Fátima (e uma forma interessante teria sido mesmo não alterando o nome da localidade em que se deu o referido "milagre", bem como das restantes personagens).
entre as 5 e as 6 estrelas
2008/06/23
A Voz dos Deuses - João Aguiar
Este livro foi o primeiro romance de João Aguiar, o que de certa maneira pode explicar a razão pela qual a msua maneira de escrever não me ter encantado muito por aí além. De facto, não achei que estivesse escrito de forma inovadora ou até mesmo interessante, do ponto de vista literário. Trata-se de uma história normalzinha, sem nada de significante a realçar: Tôngio, sacerdote do Templo de Endovélico (um dos principais locais de culto ibéricos à época a que a narrativa nos remete) conta, no fim da sua vida, a forma como nasceu, cresceu e viveu numa Península Ibérica invadida pelos romanos, na tentativa de expandirem o seu Império até ao Atlântico. Vai daí, deambula pela Península até encontrar Viriato, famosa figura de que todos nós estamos habituados a ouvir falar desde que somos pequenos e ao qual é dado o epíteto de fundador, mais mítico que histórico, da nacionalidade portuguesa (como se à época houvesse essa coisa dos nacionalismos e como se ele imaginasse que alguma vez aqui, no extremo ocidental da Península, haveria de se formar um país chamado Portugal).
Curioso é o facto de João Aguiar, logo na advertência inicial, dar conta de que o seu objectivo com esta história é retratar um Viriato não mítico, mas mais de acordo com aquilo que se pode extrair dos documentos históricos que existem e que falam desta personagem tão famosa. Ora, o que acaba por acontecer é precisamente o contrário. João Aguiar faz-nos tomar contacto com um herói romantizado que almejava ser rei de toda a Ibéria e que é simultaneamente um general exímio, um diplomata exemplar, sóbrio no que respeitava a reclamar para si os espólios de guerra, fidelíssimo à sua mulher, entre outros aspectos do seu carácter que o tornavam... perfeito.
Pois bem, o resultado final ficou um pouco aquém daquilo que eu estava à espera, mas aparentemente essa foi precisamente a razão pela qual se incluiu esta obra numa cadeira que trata de literatura portuguesa pós-1974.
7 estrelas (para ser bonzinho)
2008/06/11
Bons Augúrios - Neil Gaiman & Terry Pratchett
Ora bem, este livro não deixa de ser engraçado, como é o exemplo de atribuir a invenção da nouvelle cuisine à Fome (um dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse) aquando de uma visita a Paris. Eu incluo esse 'episódio', na primeira parte do livro (até aí cerca da página 100), o qual não seixa de ser muito divertido e com um humor negro muito refinado e simultaneamente muito bem disposto. A partir daí, o livro deixa de entreter e divertir para se tornar verdadeiramente um bocejo, salvando-se apenas as notas de rodapé (que mantêm o tom humorístico do princípio do livro) e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse (figuras que demonstram verdadeira capacidade de imaginação por parte dos autores, que os souberam adaptar muito bem a esta realidade em que o Anti-Cristo está vivo entre os seres humanos). No que a essas 4 figuras respeita, há apenas que fazer uma pequena correcção: o terceiro Cavaleiro do Apocalipse (aqui representado pela Poluição, mas originalmente a Pestilência) deveria transportar consigo um arco (e não uma coroa, como aqui acontece), para ser coerente com os versículos 4-6 do Capítulo 6 do Livro do Apocalipse. Mas isso não é grave, pois como já tive oportunidade de dizer, são os únicos rasgos de criatividade nestas 300 e tal páginas.
Este não foi, sem dúvida um dos melhores livros que tive oportunidade de ler nos últimos tempos, no entanto o que eventualmente saliento nele, para além do tom bem-diposto em que está escrito e que já referi, é o facto curioso de que a abordagem ao Mal nunca se poderá fazer sem a abordagem ao Bem. Crowley um demónio? Parecia tão anjo quanto Aziráfalo!
Além disso, o livro não deixa de ser interessante também por ser, a determinadas alturas, bastante crítico e mordaz, por exemplo, para com as cadeias americanas de fast food ou até mesmo para com os seres humanos como nós, como se pode atentar na seguinte citação: "Porque o cérebro humano não está equipado para ver a Guerra, a Fome, a Poluição e a Morte, quando não querem ser vistas, e aperfeiçoou a tal ponto essa capacidade que, muitas vezes consegue manter essa cegueira mesmo quando estão por todo o lado ao seu redor".
Vale a pena ler este livro, se para ele se tiver paciência.
7 estrelas (se tantas merece)
2008/04/12
A Morte Melancólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias - Tim Burton
Nota especial também para as ilustrações que ajudam a complementar os poemas (ou será que são os poemas que complementam as ilustrações?). Muito interessante este livro.
7 estrelas
2008/04/06
A Praia - Alex Garland
Infelizmente já vi o filme protagonizado pelo Leonardo DiCaprio mais de uma vez, por isso esta leitura foi sempre um bocado contaminada pelas imagens e pelo que eu já sabia que ia acontecer. No entanto, foi sempre deixado espaço à surpresa, na medida em que nem tudo foi mantido igual na transposição para o grande ecrã. Além disso, consegui perfeitamente dissociar a imagem do Leonardo ao Richard! Preferi muito mais o Richard britânico e moreno do que o americano loiro e de olhos azuis. Em todo o caso, e acho que isto só acontece porque já tinha visto o filme antes de ler o livro - caso contrário seria um feroz crítico de tamanhas liberdades - não acho que as alterações tenham desvirtuado muito a história. Bem, talvez exceptue desta observação os apontamentos românticos e sexuais que não existem na versão literária, o que não deixa de mostrar que o filme foi feito mais a pensar em encher o olho aos adolescentes com as hormonas aos saltos do que propriamente para bem da Sétima Arte.
Julgo que este livro não deva ser incluído junto daqueles que tratam sobre a intrínseca maldade humana (tal como O Deus das Moscas), como me fizeram crer quando mo aconselharam. No entanto, não deixa de surpreender um pouco a violência dos capítulos finais. A única personagem com quem simpatizei verdadeiramente foi Étienne, o mais sensato do grupo. Todos os outros me pareceram excêntricos (Unhygienix), calculistas (Sal), desinteressantes (Keaty), loucos (Richard). Estranho é também a associação que Alex Garland faz entre a Praia e a Guerra do Vietname, fazendo surgir do nada (ou melhor, da loucura de Richard) a personagem Daffy. Sinceramente, acho que não cheguei a perceber muito bem essa associação...
Quanto à ideia de viver num sítio paradisíaco longe de tudo e de todos pode ser bastante apelativa, mas não sei se gostaria de passar pela experiência. Talvez por um curto espaço de tempo fosse interessante, mas poderia tornar-se rapidamente aborrecido. Além disso, como fica ali provado, o paraíso de facto não existe.
7 estrelas
2008/03/10
Neverwhere, Na Terra do Nada - Neil Gaiman
Deste autor, a primeira coisa que li foi Sandman (uma BD que sei que me agradou bastante, mas que teria de voltar a ler para me relembrar da história toda) já aqui há uns tempinhos. Posteriormente viria a ler também a BD 1603 - uma adaptação dos heróis da Marvel ao século XVII que faz uma grande misturada (até extra-terrestres lá aparecem), juntando o Daredevil com o Quarteto Fantástico e X-Men, não esquecendo Thor e o Capitão América, mas que não deixa de ter o seu interesse para quem gosta de comics.
Apesar de o autor ter inicaido carreira com argumentos para BD, também escreve livros (e muitos) e como tem tantas opiniões a seu favor, decidi "mergulhar" na sua obra. Vai daí, fui até à biblioteca e requisitei Coraline e a Porta Secreta (livro juvenil de que não guardo grandes memórias) e, mais tarde, o tal Stardust - O Mistério da Estrela Cadente e Neverwhere - Na Terra do Nada. Este terminei-o na semana passada.
Sinceramente, não posso dizer que não gostei dos livros. No entanto, sempre que leio um dos seus livros fico reticente quanto a afirmar categoricamente que gostei. É que não me parece que ele escreva assim muito bem. A sensação com que fico mesmo é a de que são livros escritos para crianças, talvez pelas histórias em si (o narrador é não ominisciente, pelo que nos conta tudo em tempo real, sem se adiantar com explicações ou o que quer que seja, e a personagem principal - que entra invariavelmente num mundo mágico, muito diferente do mundo normal em que anteriormente habitava - e à qual é sempre exigida uma demanda para que consiga regressar à realidade, entendida aqui como a felicidade - embora no fim acabe por descobrir que a felicidade afinal não é aquilo que desejou ao longo do livro todo - é sempre tratada pelas restantes personagens mágicas como uma criança ingénua à qual não vale a pena explicar nada). Bem, quanto ao facto de os livros serem para crianças, é melhor reformular, pois isso não será totalmente verdade... É que certas passagens chegam mesmo a ser um bocadinho violentas (orelhas cortadas, dedos partidos, mortes, etc).
De falta de imaginação não podemos acusar este Neil Gaiman. E a ela podemos perfeitamente acrescentar o seu sentido de humor (bastante sarcástico, um humor negro bastante bem conseguido), que é o que faz com que, se dúvidas houvesse, se deixe de suspeitar que o livro foi escrito para crianças.
O próximo livro que lerei do Neil Gaiman será Bons Augúrios (escrito a meias com Terry Pratchett). É que embora ainda não esteja rendido ao autor e à sua maneira de escrever, os seus livros são de fácil leitura e entretêm bastante. Quanto mais não seja, servem para descansar os neurónios de leituras mais exigentes.
entre as 6 e as 7 estrelas
2008/02/26
Os Casos do Beco das Sardinheiras - Mário de Carvalho
Querer mais que isto, está claro, é já confundir género humano com Manuel Germano...
Inés da Minh'Alma - Isabel Allende
Este Inés é um épico e, melhor ainda, um épico biográfico. Essa noção de tangibilidade das personagens e dos acontecimentos, misturada com ambiente mágico e fantástico que é próprio desta escritora fazem deste um grande livro.
Deu-me um enorme gosto lê-lo, li-o com sofreguidão, como já há muito tempo não lia.
Não é fácil escrever assim, com este rigor e ao mesmo tempo com esta capacidade. Percebe-se claramente que há uma enorme recolha de dados por trás deste livro. A mim fez-me lembrar, precisamente pela informação histórica, a Guerra do Fim do Mundo do Vargas Llosa.
2008/02/09
Sul - Viagens, Miguel Sousa Tavares
- Trata-se de um livro algo irregular, com diversos textos interessantíssimos e outros que não são nada de extraordinário. Por exemplo, o primeiro texto (o da Amazónia), não me conseguiu prender o interesse. De tal maneira que quase pensei em ler as restantes crónicas de viagens mais na diagonal, sem dar propriamente muita atenção ao que estaria ali escrito. No entanto, os capítulos seguintes foram a pouco e pouco conquistando o meu interesse e, embora tenham continuado a surgir banalidades de estilo jornalístico ao longo do livro, os textos tornaram-se mais entusiasmantes.
- Gostei bastante dos capítulos dedicados às antigas colónias portuguesas. Arrebatou-me o texto "Goa, o sonho impossível", assim como "Um rio há-de correr em Cabo Verde" e "São Tomé e Príncipe: as ilhas maltratadas". Ficou verdadeiramente a vontade de visitar aqueles lugares que parecem tão próximos, mas que estão tão distantes. "Alhambra: os jardins de Alá" também tem o seu interesse, já os textos relativos ao Brasil e à Costa do Marfim não me encantaram.
- A principal razão pela qual não terei gostado tanto deste livro talvez tenha sido porque encontramos aqui, na sua maioria (11 textos de 12) a repescagem de reportagens publicadas na revista Grande Reportagem nos anos 90 (dirigida na altura por ele próprio). Até que ponto se se justifica a edição de um livro propositadamente para as reunir, uma vez que, com o passar do tempo, tudo isto soará (já começa a soar) antigo (da mesma maneira que uma notícia de um jornal se torna antiga)?
- O texto mais bem conseguido é, na minha opinião, o último "A pista para Tamanrasset", verdadeira viagem, mais do que ao e pelo deserto, ao íntimo dele próprio. É neste texto que conseguimos sentir o verdadeiro espírito de aventura e sentimento de desapego total (aos bens materiais e aos bens humanos) que uma viagem implica. Um espírito de aventura que, mais do que nos levar ao nosso destino, nos leva ao interior de nós mesmos. A viagem que vale mesmo a pena realizar. A viagem que se tem vontade de repetir.
7 estrelas
2008/02/03
Equador, Miguel Sousa Tavares
No geral, gostei bastante. A princípio pensava que ia demorar imenso tempo a acabá-lo, mas até nem demorei assim tanto. Julgo que terá sido porque MST acaba por escrever de uma forma, se por um lado demasiado prolixa e, porventura, descabida (ex: "dotada de atributos que o vasto decote do seu berrante vestido verde abundantemente documentava"), por outro bastante vívida e interessante.
Quanto à personagem principal, é o típico herói bem-parecido, bon-vivant, um verdadeiro gentleman, com o qual não podemos deixar de sentir empatia. No entanto, isso limita demasiado o seu desenvolvimento enquanto personagem, porque a torna plana e entediantemente previsível.
Há ainda uma série de episódios ao longo do livro, os quais, embora ajudem a enquadrar a história, são demasiado longos ou surgem após momentos-chave da narrativa, tornando-a pesada e tirando-lhe ritmo (exemplo disso são as vicissitudes do cônsul britânico ou o julgamento dos serviçais fugidos). Além disso, certos episódios são um tanto ou quanto desnecessários (a visita nocturna ao quarto da proprietárias de uma das roças) ou então previsíveis (os excessos de Ann quando estamos quase a chegar ao fim da história). Mas verdade seja dita que, por outro lado, o acontecimento derradeiro é bastante surpreendente, embora após reflexão se chegue facilmente à conclusão de que a história não podia terminar de maneira diferente... Infelizmente...
Pontos positivos: o tema abordado (resquícios de escravatura na mais pequena colónia portuguesa em África) é mesmo muito bom. Portugal, ainda que "nação civilizadora" está ali representado de forma desencantada e pessimista, verdadeiro retrato do Portugal de inicíos do século XX(I?).
O que chateia um pouquinho no livro é somente o facto de MST querer passar-se, quase à força, por Eça, quando na realidade o mestre é difícil (senão impossível) de igualar.
Em suma: gostei do que li, se bem que fiquei com a pequena sensação de que poderia ter sido melhor. Em todo o caso, não me arrependo do tempo que dispensei a este livro.
8 estrelas (ou será 9? estou indeciso)
2008/02/01
O Mesmo Mar, Amos Oz
Este livro é uma autêntica manta de retalhos, bocados de textos que formam um padrão quase disconexo, mas mesmo assim ligados uns aos outros pelos fios da imaginação (ou será da loucura?) deste autor israelita. Os vários planos narrativos da história intersectam-se todos, inclusive o do narrador (que é assumidamente o autor) que, de forma muito estranha, também participa na acção que ele próprio narra, interagindo com as personagens (ou melhor, as personagens interagem com ele) por ele não-criadas.Tudo é estranho neste livro: Nadia, apesar de morta, continua presente, e mantém ou manteve uma relação quase incestuosa com Rico, o qual por sua vez abandonou a namorada e partiu para o Tibete, e por quem Albert acabará por se apaixonar. Tudo está relacionado entre si, por mais absurdo (ou será surreal) que seja. É uma história que não tem princípio, nem fim, ou em que o fim não é o fim e o princípio dificilmente é o princípio. Cada um que a ler que escolha a opção que mais lhe agradar...
No fundo, gostei bastante deste livro por ser esta coisa meio esquisita, em que o que é pode não ser e em que o que não é, não será. Se eu fosse escritor, era assim que gostava de escrever.
8 estrelas
2008/01/27
O Códex 632 - José Rodrigues dos Santos
O Códex 632 foi o primeiro audiolivro que tive oportunidade de escutar e como gostei bastante da história, não resisti a vir aqui deixar uma breve opinião sobre ele. Para começar, há que salientar que apesar de à primeira vista parecer, este livro não é bem como os do Dan Brown. Sim, é verdade que a personagem principal é um professor universitário. E sim, é verdade que é um especialista em criptografia. E também é verdade que é tratado aqui um tema que se pretende totalmente novo, mas que no fundo já não é assim tão novidade nos mais elevados meios académicos. (Se não leram o livro e não se importam de saber de que trata a história, vejam a título de exemplo este livro de Patrocínio Ribeiro, publicado pela primeira vez em 1927, no qual são referidos os mesmo documentos de que JRS faz uso para compor a sua história).
Mas voltando ao que estava a dizer, embora possamos fazer alguns exercícios de intertextualidade com os livros do Dan Brown, é injusto dizer que se trata do mesmo tipo de literatura. A dizer a verdade, não temos aqui uma corrida contra o tempo (nos livros do Dan Brown, o Robert Langdon consegue resolver todos os mistérios em pouco mais que 24 horas, não sem antes ter de despistar os maus que o querem matar). Não temos aqui um inimigo (pelo menos declarado) que ameace a vida do protagonista. O protagonista não está "disponível" para o amor inconsequente, uma vez que é casado e, surpresa das surpresas, tem uma filha com síndrome de Down! Digo surpresa das supresas, porque este não é de facto o herói típico que estamos à espera de encontrar nas páginas de um livro, ou na tela do cinema (e ainda bem, o livro e a credibilidade do autor só têm a ganhar com isso), embora seja jovem e garboso e não seja indiferente às bombas sexuais suecas que lhe surgem pelo caminho.
Para além disto tudo, é curioso que JRS não se fique pela História e também faça incursões por áreas muito mais abrangentes e interessantes, tais como a Filosofia (como manobra de diversão, claro, para encher umas quantas páginas, quando até era bastante fácil perceber o enigma, pelo menos para quem está habituado a ler e anda atento aos títulos dos livros por aí existentes), pela História das Religiões (nada de muito aprofundado, mas já que está de visita a Jerusalém aproveita-se...), pela Gastronomia (a descrição dos vários pratos que vai comendo nos sítios por onde vai passando não são de todo essenciais para o desenvolvimento da narrativa, mas não deixa de ser interessante), pela Medicina (no que respeita à doença da filha) entre outros exemplos.
Curioso é também o facto de ambientar as diferentes conversas que vai tendo com as diferentes personagens em monumentos ou locais importantes da História portuguesa ou lisboeta. Ele podia falar com eles em qualquer café da cidade, mas combina n'A Brasileira ou no Nicola; no Mosteiro dos Jerónimos, no Castelo de S.Jorge, na Quinta da Regaleira ou no Convento de Cristo em Tomar... Tendo este livro sido traduzido para várias línguas (e estando já previsto um filme baseado nele) parece-me que não foi de todo "inocente" a escolha desses locais, mas ainda bem. Ao menos assim os não portugueses ficam a saber um pouco mais da cultura portuguesa e não lhes faz mal nenhum.
Para concluir, devo dizer que acho que este livro, acima de tudo, demonstra que JRS fez um longo e aprofundado trabalho de casa, dando a conhecer ao grande público um assunto que
curiosamente não está de todo divulgado e que é bastante apelativo ao nosso patriotismo. E tirando uma ou outra parte em que o livro parece deter-se em coisas desinteressantes e que nada acrescentam à história, é bastante cativante. O final decepciona um pouco (e duplamente!), mas depois de reflectirmos sobre a história, não nos sentimos de todo defraudados. Vale a pena.
9 estrelas
2008/01/11
A Relíquia - Eça de Queirós
Que rica Relíquia que Eça nos oferece nestas pouco mais de 250 páginas. Como de resto, já nos tem habituado em todos os outros seus livros, o autor escreve de maneira absolutamente irrepreensível. A adjectivação inesperada, a crítica social, seja ela directa (através da boca das personagens) ou indirecta (através dos próprios actos das personagens em determinadas situaçõeS), veio reforçar a ideia de que este é realmente um dos meus autores portugueses preferidos de sempre.
No entanto, temo bem que este não seja o livro de Eça de Queirós que mais gostei de ler até hoje. Para isso, contribuiu grande parte do corpo central do livro, especialmente a "jornada ao passado" (como lhe chama Topsius), ou seja, o sonho do Teodorico Raposo à Jerusalém de Jesus. Toda a narração é, sem desprimor para a capacidade narrativa de Eça, maçadoramente desinteressante. Exceptua-se apenas a sua parte final, em que um Eça descrente e ateu, republicano e liberal, narra "a lenda inicial do Cristianismo", o mesmo é dizer a (não) ressureição de Cristo.
Este Teodorico Raposo, a personagem principal, é sem dúvida uma das personagens mais castiças que já tive oportunidade de conhecer. Um fanfarrão, muito orgulhoso das suas barbas viris, mulherengo inveterado, mas mais convencido que bem sucedido (como acabam por demonstrar as infidelidades das mulheres com quem vai conseguindo ter relações amorosas), mas acima de tudo, é ridiculamente cómico. A única coisa que chega a chocar mais nesta personagem rocambolesca é o facto de ser tão interesseiro ao ponto de querer "apressar a obra lenta da morte", chegando mesmo a dar-lhe ganas de "espancar aquela velha". É verdade que ninguém merece uma tia como aquela "horrenda" D.Patrocínio, mas desejar tal sorte à senhora, teria como inevitável desfecho aquele que realmente acaba por suceder. Ainda vemos, quase no fim da história, uma espécie de redenção do ilustre mentiroso, mas não é que Teodorico, mesmo depois de ser visitado pela própria consciência, não aprendeu a lição? (Como não poderia deixar de ser, ou não fosse Eça o mestre na descrição das ironias - pelo menos daquelas em que nos deixamos cair - da vida).
8 estrelas
2007/11/30
O Pequeno Ditador - Javier Urra e A criança e a Disciplina - Brazelton e Sparrow
O livro levanta problemas graves. Tão graves que o autor qualifica este tipo de deseducação como maus tratos infantis. E penso que faz bem. Aliás, o autor indica várias situações em que esta deseducação deriva em violência.
Porém, não foi um livro de que eu tivesse gostado ou que tivesse lido com prazer ou proveito. O texto é disperso, confuso, repetitivo. Tenho a sensação - mas claro que posso estar enganado - que o autor terá escrito artigos ou crónicas de jornal sobre estes temas e que foi dessa amálgama, revista e alterada certamente, aumentada talvez, que retirou as extensíssimas 400 páginas com que nos brinda.
Mas o problema principal é que o autor não tem muito para dizer, ou, se tem, diz pouco. Identifica o problema, dá algumas coordenadas genéricas, mas nunca por nunca desce ao concreto, à vida de todos os dias. Indica problemas mas não os resolve. Diz que é preciso por limites mas não exemplifica como é que isso se faz. Se o cavalo vai com o freio nos dentes, serve de bem pouco dizer para puxar as rédeas.
Ficamos com a noção de um livro cheio de moralismos, de preconceitos subreptícios, de ideias politicamente correctas, mas muito, muito pouco prático na sua abordagem, o que não deixa de ser estranho (ou talvez não) tendo em conta o currículo do autor. Nunca me canso de verificar como são perigosos os preconceitos politicamente correctos.
Não posso deixar de fazer a comparação com outro livro, também sobre disciplina, muitíssimo mais modesto, com cerca de um quarto do tamanho deste, e que aborda também o assunto da disciplina de uma forma rigorosa, interessante e, sobretudo, prática. O livro A criança e a Disciplina de Berry Brazelton e Joshua Sparrow, com as devidas diferenças - este destina-se a uma intervenção mais precoce - contrasta claramente com o Pequeno Ditador. É uma importante ajuda para pais e futuros pais, na maravilhosa tarefa de educar os filhos. Longe de dizer o que é que os pais andam a fazer mal, Brazelton e Sparrow vão bem mais longe e explicam o que fazer e como fazer. Os meus parabéns obrigados a estes dois autores.
2007/11/29
A Ilustre Casa de Ramires - Eça de Queiroz
Diário Escríptico
Muito bem. Vamos a isso. É já a seguir, num blog aqui ao lado.
Uma citação atribuída ao Einstein
(obrigado SoniaCarvalho)
2007/11/07
Cemitério de Pianos
Tinha uma espectativa bastante elevada quando comprei este livro, afinal sou fâ incondicional da poesia de Peixoto e, embora algumas das suas crónicas no JL me deixem uma pontinha de desilusão, estava muito curiosa em relação a este tão publicitado livro.Deixarei no ar para quem quiser responder.
Desafio da página 161
"You'r that sort", he said confidently.
Na verdade nem era preciso ele dizer, eu já desconfiava! ; )
Só falta agora lançar o desafio a mais cinco leitores que nos façam boa companhia...
2007/07/11
Meme da pag. 161
Desafio da página 161, segundo estas regras:
1. Pegar no livro mais próximo
2. Abri-lo na página 161
3. Procurar a 5ª frase completa
4. Colocar a frase no blog
5. Não vale procurar o melhor livro que têm, usem o mais próximo
6. Passar o desafio a cinco pessoas.
And the winner is "Se tal objectivo não fôr alcançado, o desenvolvimento da sociedade da informação poderá tornar-se num poderoso factor de exclusão social."
O que é grave, já se vê.
Passo ao resto da Companhia e já chega e mais a quem quiser passar por cá. Quem já respondeu, faça favor de pôr um link nos comentários!
2007/02/27
Em nome do bem comum - Arundhaty Roy
2007/02/14
Leitores.2

As vestes brancas, a barba cuidada, branca também. Os padrões abstractos, enchendo todo o espaço, criando o espaço à sua passagem, à sua expansão. Sentado no chão, contra o rebordo de uma parede. Não é na parede o seu apoio. Toda a imagem é concentração. Os olhos perdendo-se no que contemplam. Megulhado. A palavra nas mãos, os olhos na palavra.
A Cor da Felicidade - Wei-Wei
Intérpetre de Enfermidades - Jhumpa Lahiri
Obrigado Patiblue!
70 historinhas, Carlos Drumond de Andrade
Mas gostei muito, repito.
O Impressionista - Hari Kunzru
Faz-nos pensar até que ponto somos a nossa situação.
Gostei muitíssimo de o ler. Obrigado Tuanita.
2007/02/13
Leitores e letras

Iniciamos um novo tema visual: a par de livros e bibliotecas, leitores e letras.
Para começar bem fica um retrato de Chardin, acompanhado de um texto sobre este "leitor incomum".
A ideia partiu de um post da PA.
Sugestões de imagens aceitam-se e agradecem-se.
Quatro, não, cinco livros terminados de rajada.
Foram eles: Platero e eu, The time traveler, O impressionista e Não te deixarei morrer, David Crockett e 70 historinhas.
Nos próximos dias farei as respectivas apreciações.
P.S. Aproveitarei ainda para fazer posts de alguns bons livros de 2006, ainda não referidos
2007/01/03
O Estrangeiro - Albert Camus
É a história de Meursault, um homem que vive uma vida, que talvez não devesse ser contada. Pois ele vive vazio de emoções, incapaz de sentir amor, saudade, ódio, medo, ou qualquer outra emoção. A sua vida vai-se desenrolando como se ele fosse um estrangeiro, não em relação a um país, mas em relação à humanidade. No fim o crime que comete não o leva ao fim da sua vida, o que leva ao seu fim é a falta de qualquer emoção aquando da morte da sua mãe. Mostrando-nos Camus que tudo o que fazemos num determinado momento se reflecte durante o resto da nossa vida. Outro ponto curioso deste livro é que a sua história é suspensa, ou seja, nós não sabemos o passado de Meursault, a história começa este personagem a afirmar que “Hoje a mãe morreu”, e Camus, não nos dá nenhuma pista do passado de Meursault. O mesmo acontece com o fim, nós podemos supor o que se vai acontecer, apenas supor porque o autor deixa em aberto o que acontece a Meursault.Um livro que sempre me despertou a atenção, mas que por ironia do destino nunca tive a oportunidade de ler. Bem, pelo menos até à 1 mês atrás, altura em que o encontrei à venda e não perdi a oportunidade.
A experiência não começou nada bem, por devido a uma grande dose de insensatez, o editor decidiu colocar um critica feita por Jean-Paul Sartre como introdução. Um grande erro, porque a critica de Sartre é aquilo que uma critica deve ser, contando partes do livro, dando-nos conta de sequência, dando-nos conta do que Sartre considera os pontos-chave, a sua interpretação e levando-nos a antever parte do final da obra. Ou seja, antes de ler o livro, eu já sabia o que ia acontecer. Assim à medida que eu ia lendo O Estrangeiro a minha única interrogação era quando é que isto ou aquilo ia acontecer. Enfim, uma grande falta de sensatez, que mata o grande prazer de ler um livro, que é o prazer da descoberta.
O livro em si é estranho em parte devido “àquilo” que Sartre caracteriza como “uma escrita cheia de silêncios”. È o primeiro livro do estudo do absurdo que irá acompanhar Camus durante grande parte da sua carreira.
2006/10/07
O Pêndulo de Foucault – Umberto Eco
Um grupo de amigos decide fazer um estudo. Um estudo de todas as teorias esotéricas que pululam pela imaginação da civilização. Procuram conhecer “estórias” da Maçonaria, dos Rosa-Cruzes, dos Templários, etc. Enfim de todas as sociedades secretas que chamam a curiosidade tão normal, das coisas ditas “secretas”. A grande particularidade do estudo feito pelas personagens é que grande parte do que escrevem é fruto da sua imaginação, ou seja, eles próprios vão construindo o fundamento destas sociedades e utilizando uma lógica muito própria eles vão criando ligações entre tudo o que é esotérico, criando assim um mundo fictício. Até que o impensável acontece, esse mundo existe e eles acabam por se emaranhar nesse mundo, que nada mais é do que a concretização da sua ficção…pode parecer estranho isto que eu disse, para se perceber melhor, só lendo o livro.Umberto Eco escreveu mais um excelente livro, que nos mostra a visão que ele tem dos esoterismos, sociedades secretas e teorias da conspiração. Que todos não passam de criações de homens sem fé, que têm que sentir um “mundo próprio”, cheio de mistérios tangíveis só por uns eleitos, para que a sua crença faça sentido. Fazendo da vida uma busca infinita de um conhecimento fantástico, que quando se chega a uma meta descobre-se que essa meta foi apenas uma etapa e que esse conhecimento afinal está mais além, sempre mais além. Claro que mais uma vez, Umberto Eco, não perde a oportunidade de voltar a mostrar qual a sua visão de Deus, como aliás faz em vários dos seus livros.
Um livro magnífico, muito denso, mesmo complicado de ler em certos pontos, em que duas passagens são essenciais, mas que no fim todo faz objectivamente sentido, uma obra de mestre que vale a pena ser lida.
Como última consideração apraz-me fazer uma pequena provocação, dizendo que tenho a certeza que Dan Brown leu o O Pêndulo de Foucault, só foi pena que tenha parado a meio…
2006/09/18
Alafce?! Prefiro rúcula!
Na verdade repugnou-me um bocado a ideia de eu, que não sou nenhuma especialista, vir aqui dizer mal do que outros escreveram e alguém publicou. O que, a juntar à insegurança de nascença, sempre apoiada pela frase familiar “esta miúda tem cá um mau feitio!”, me fez sempre recuar perante a ideia de assumir as minhas desventuras literárias por escrito e à vista de quantos por aqui passam.
No entanto, chame-lhe mau feitio quem assim o entender, algo abalou estas convicções este fim-de-semana...
Alface... conhecem?
Eu desconhecia, ao que parece é o pseudónimo de João Alfacinha da Silva, emprestaram-me o último livro dele, “A mais nova profissão do mundo”, com a melhor das intenções - “vais ficar surpreendida, pelo que dizem é uma descoberta, reinventa o Português e é divertidíssimo.” - expectativas elevadas portanto, pensei eu que desconfio sempre do que os críticos da nossa praça dizem até prova em contrário. Já 'de pé atrás' pego no livro e começo a ler os pequenos contos, tentando disfarçar a desilusão crescente no meu espírito (afinal o livro tinha sido comprado pelo meu marido, com a intenção de o lermos no fim-de-semana que se cria de boa disposição).
Avancei, li mais uma, outra, e ainda outra à procura do tal “português reinventado e divertidíssimo”, mas nada... a meio do livro acabei por desistir “isto, de facto, não faz mesmo o meu estilo e quanto ao português a única coisa que encontro é o uso corrente de uma linguagem brejeira, vulgar, e expressões ordinarias, que compreendo seja muito divertido para alguns, mas a mim, não me diz nada”, e passei para o meu “Kafka – Na corda bamba” mas não sem um certo amargo de boca e uma interrogação que não me largava, terei sido presunçosa?
A resposta veio em breve quando o meu marido, depois de uma tentativa de descobrir o escritor do século pousou silenciosamente o livro na mesa de cabeceira e sussurou “de facto não tem nada de especial”.
Mau feitio ou não Alface, não faz o meu género!
Continuem em Boa Companhia!
2006/09/13
70 histórinhas - Carlos Drummond de Andrade

Esta é uma compilação de contos dos mais variados temas e de todos os géneros. É um livro 'leve', facil de ler, daqueles que todos (ou quase todos) conseguem, sem esforço, começar e acabar.
Pessoalmente gosto muito de Contos e, embora algumas das histórias aqui apresentadas não cheguem às duas páginas de texto, todas têm uma estrutura lógica, o que prova que não é a quantidade que conta, mas sim a mestria com que se consegue relatar um acontecimento sem entrar em grandes enredos novelescos que, às vezes, só complicam e não beneficiam em nada a obra.
De todas estas 'histórinhas', como lhes chama o autor, a que me ficou a ecoar na cabeça dias sem fim (quiça por identificação com os personagens) foi a segunda 'Nascer' que conta a história de um casal...
"O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado(...) tudo isto o menino tinha, mas não havia nascido." Pág. 5
Como a maioria de compilações de Contos, é um livro tão agradável como inconstante, capaz de nos levar do riso ao amargo de boca num simples virar de página. Vale a pena ler.
Continuem em 'boa Companhia'!
2006/09/04
Astronomia
Livros e bibliotecas
Editado para acrescentar: ó pra ele o centésimo post do Companhia!
2006/08/16
António no outro lado do mundo - Malachy Doyle
Terapia do Amor Conjugal - Valerio Albiseti
Este não é um qualquer livro de auto-ajuda, assente em vulgaridades e vacuidades. Com um discurso muito centrado na experiência do autor na terapia de inúmeros casais, as suas propostas não só fazem sentido como parecem ir ao essencial de uma forma muito acutilante: o desenvolvimento de competências de comunicação no casal, o valor da verdade, o crescimento comum, são pontos marcantes deste livro que podem ajudar a limar arestas e a construir melhores relações.
Vendidas - Zana Muhsen
Mais do que a brutalidade da ideia de alguém vender as próprias filhas, coloca-se aqui um problema de direitos humanos e de liberdade.
Uma visão superficial das relações entre civiliações pode levar-nos a partir do princípio que haverá entendimento mínimo em relação a determinadas matérias, que parecem adquiridas: direitos do Homem, igualdade entre sexos, liberdade.
O problema é que claramente não é assim. Será que estes valores - que nos parecem essenciais - não são superiores à "civilização" ou "maneira de viver" de um regime que não os respeite?
Que formas de pressão podem ser utilizadas nesse sentido?
Pensamentos Secretos - David Lodge
Por um lado eu gosto imenso da sua forma de escrever:
- é um escritor informado (nota-se que os livros dele passam por uma pesquisa e uma reflexão profundas)o que vai sendo pouco habitual na maior parte dos livros e autores que para aí andam;
- é um escritor versátil quanto à forma (escreve através de diálogos, cartas, diários, guiões, narrações na terceira pessoa, etc), o que dá novas dimensões aos seus livros, na medida em que apresenta "diferentes lados" da história, vistos das perspectivas de outras tantas personagens;
- é um escritor cheio de humor, de um humor mordaz, difícil por vezes, por vezes amargo, irónico. Não são muitos os escritores sérios que sabem rir-se de si e das suas personagens. David Lodge é, a este nível um excelente cómico!
Por outro lado, parece-me que a sua visão do mundo, da religião, da sexualidade, pretendendo mostrar-se madura , é, na realidade, simplesmente distorcida. Todas as relações monogâmicas tendem a "evoluir" para o adultério, todos os crentes são velhos ou se o não são andam com dúvidas e se não andam com dúvidas é porque ainda não leu o suficiente. É um universo de relações muito áridas, muito superficiais e, ao mesmo tempo, muito insatisfeito. Não há personagens felizes nos livros do David Lodge.
Porque será?
2006/08/11
To Kill a Mockingbird - Harper Lee
Foi um livro que gostei imenso de ler. É daqueles que entrará para a minha lista de favoritos sem a menor dúvida. Daqueles que gostava de ser lembrado por recomendar aos meus filhos.
Há três registos distintos que gostei particularmente no livro.
A crónica de costumes, onde ressalta a questão do racismo, parece uma realidade tão distante e tão antiga que quando às tantas há uma referência ao Einstein senti aquilo como um anacronismo. Depois realizei que não, não havia qualquer anacronismo: era no sec. XX que a acção se passava.
A infância e a forma como a narradora escreve desde uma mentalidade infantil. Está muitíssimo bem escrito, sob este ponto de vista. São poucos os escritores que o conseguem fazer bem. Assim de repente só me ocorre o José Mauro de Vasconcelos!
E finalmente, aquela figura parental. Impressionante a forma como educa e como se relaciona. Este tema é-me muito caro, hoje em dia, e o Atticus é uma personagem - tenta-me escrever uma personalidade - muito completa.
Gostei muito de ler este livro, Conto, mais uma vez muito obrigado.
Livro da Treta - Filipe Homem Fonseca; Eduardo Madeira; Rui Cardoso Martins
O livro é óptimo, verdadeiramente hilariante. Altamente desaconselhado para ler em sítios públicos. Dei por mim várias vezes a não conseguir conter o riso. O que vale é que não me importo: rir é bom.
O regresso do Menino Nicolau - Sempé/Goscinny
Fico ansioso pelo nº 2 - Eu sou o maior - que já tenho lá em casa. Estou só a espaçá-los um bocadinho - para durar mais!
Optimismo - Francesco Alberoni
Ao mesmo tempo tenho que dizer que os textos são assim uma mistura de calda de açucar com canja de galinha que não chega propriamente a merecer discordância. Ninguém discorda de um discurso vago, assente no senso comum. Mas para quê lê-lo? Se o livro fosse maior, tinha focado a meio. Tem essa qualidade: é pequeno.
Sinceramente, não gostei do livro e foi para mim uma enorme desilusão porque já ouvi bons comentários sobre outros livros dele, que ainda não me dei ao trabalho de ler. Mas depois deste fiquei sem muita vontade...
Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma - Irene Lisboa
O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo - Germano Almeida
2006/08/08
A Misteriosa Chama da Rainha Loana - Umberto Eco
O tema deste livro é a história de Yamo, um homem que acorda após um AVC. Quando recupera lembra-se de tudo sobre história, literatura, cinema, música, pois toda a memória semântica de Yamo está perfeita. O único problema é que não se lembra de si próprio, ou da sua família, amigos e colegas, em suma, não se lembra da sua própria história. Encorajado por sua mulher, parte ao encontro da sua vida para a casa dos seus avós, onde não voltava desde a morte dos seus país e avô. Ai no meio de brinquedos, livros de banda desenhada e discos de vinil de 78 rotações tenta reencontrar-se. Uma sucessão de acontecimentos levam Yamo a uma recaída e sofre outro AVC, mas desta vez mais forte. É durante o seu coma que se recorda de tudo e volta a reencontrar-se com a sua história, levando-nos a viver as aventuras da sua infância e a história do período da queda de Mussolini. Fazendo no meio de tudo isto, o leitor sentir um pouco da cultura dos meados da década de 40.Eu já sabia que Umberto Eco é um dos poucos que pinta com as palavras! E esta obra é bom exemplo disso mesmo, pois as imagens que nos são descritas nada devem às gravuras do livro. Penso até que a presença das gravuras servem para reafirmar a genialidade e superioridade da escrita de Umberto Eco. De referir, que ao contrário de outros livro de Umberto Eco que eu li, este é aquele que tem a escrita menos densa, sendo portanto de mais fácil leitura.
2006/07/27
O sumiço da Santa, uma história de feitiçaria – Jorge Amado
O romance é muito divertido, por vezes sinto que perco um pouco o pé por desconhecer pessoalmente a realidade de que ele fala, a Bahia e todos os seus mitos. Ele também não explica muito, como se o mistério fosse o mais importante e mesmo assim, quase nada, quase nada, deixa para lá, entra no ritmo, dois para cá dois para lá: isso aqui é um pedacinho de Brasil, desse Brasil que canta e é feliz, feliz, feliz ...
2006/07/21
O Senhor Ferdinand - Agnès Guldemont e Carll Cneut
Catarina e o urso sem rumo pelo mundo - Christiane Pieper

Este livro é um encanto. Tem ilustrações deliciosas e vale sobretudo por elas: são vivas, expressivas, interessantes! A história sofre (ou participa?) da falta de rumo da Catarina (e do urso) mas quem é que disse que todos os passeios servem para chegar a algum lugar? Era tão bom às vezes poder sair, assim, com a companhia de um urso amigo, sem rumo pelo mundo... :)
Editado para acrescentar: o meu filho, que tem 22 meses, já me anda a ensinar a ler livros. Ontem ensinou-me que este livro se pode ler com o corpo, imitando as posturas da Catarina (ele) e do Urso (eu!). Nunca tal me teria passado pela cabeça. As virtualidades de um olhar sem preconceitos!
O Confessor - Daniel Silva
O enredo é bastante óbvio e o desenlace também.
A propósito da história ressaltam duas ideias, repetidas à exaustão:
a) o silêncio do Vaticano quanto ao holocausto;
b) a justificação do Estado de Israel.
Nenhuma das questões em causa é tão simples como o autor quer fazer parecer. A "desculpa" de que estamos perante um romance também não colhe: quem quer fazer um romance histórico - e não há dúvidas quanto a tais pretensões neste caso - deve ser exacto quanto aos dados que promove e às teorias que defende. Neste livro não há rigor histórico Apenas páginas e páginas de propaganda.
Talvez um dia se escreva um livro sobre o silêncio do Ocidente diante do conflito do Médio Oriente.
Se eu fosse muito alto – texto de António Mota ilustrações de André Letria
Este é um tipo de pergunta que estimula muitíssimo a imaginação. O tipo de variações são virtualmente ilimitadas: se eu fosse muito baixo, se eu voasse, se eu fosse um animal, se eu fosse rei, se eu fosse pai, se eu fosse... e por aí adiante. Estes exercícios obrigam as crianças a uma ginástica mental óptima: chama-se imaginação. Neste caso obriga-os a colocar-se naquela situação e a imaginar como seria o mundo para elas nesse caso. Os pais até podem fazer a história ao desafio: cada um dá uma ideia do que faria ou aconteceria naquela situação.
Gostei deste livro ainda por outra coisa: é que a maior parte das coisas que o autor faria, se fosse alto, era pôr a sua altura ao serviço dos outros: compôr antenas, limpar chaminés, apanhar balões... e esta ideia é muito interessante, também, para explorar com os miúdos: o autor se tivesse aquela qualidade punha-a ao serviço. E tu? Quais são as tuas qualidades? Como é que as podes pôr ao serviço? As características de cada um podem até parecer ser defeitos e tornarem-se qualidades, se encontrarmos a sua utilidade, a forma de as pôr ao serviço. É uma questão de optimismo: se uma garrafa estiver completamente vazia, um optimista não se concentra nesse vazio mas na possibilidade de mandar com ela uma mensagem, de com ela recolher água na fonte, de todas as utilidades que ela pode trazer.
O Meu e o Teu

Este fantástico livro é para se visto de olhos bem abertos (como dizia o outro) para não deixar escapar nem um bocadinho da genialidade das ilustrações de Almud Kunert que joga com o texto de Peter Geißler às mil maravilhas.
2006/07/18
Os Lugares de Maria - Margarida Botelho
2006/07/17
Ainda nada?

"De manhã, bem cedo o Senhor Luís abriu um buraco ENORME na terra(...)"
Imaginem que plantam uma semente na terra e que têm tanta, tanta, mas tanta vontade de a ver crescer que não querem perder nem um bocadinho do seu crescimento...
Assim estava o senhor Luís, cheinho de vontade de ver a sua semente creser e virar flor! Mas de tanto esperar a sua paciência começou a faltar e a cada manhã que a ela se abeirava maior era o seu desânimo: "Ainda nada?"
Esta é uma história para ensinar a esperar que o tempo corra e com ele as mudanças aconteçam. Para miúdos e graúdos, para contar, inventar, acrescentar, brincar, enfim... ler de preferência em voz alta e bem acompanhado!
De Christian Voltz com ilustrações bem ao estilo da Kalandraka.
Comtinuem em boa Companhia!
2006/06/28
Fiz das Pernas Coração

Esta é uma antologia de Contos Tradicionais Portugueses, ‘nascidos’ da tradição oral cada vez mais adormecida nos nossos dias. Alguns destes contos fazem mesmo parte da memória de histórias contadas durante a infância do autor (José António Gomes) por ‘tias’ e outras figuras que tanta falta fazem hoje no imaginário das nossas crianças.
É um livro engraçado pela diversidade e originalidade de contos onde coabitam saudavelmente os ‘tontos’ tão comuns na nossa literatura oral, com o com as Mouras e os seus encantos. É de referir que o autor é do Algarve e a infância algarvia adivinha-se nas suas escolhas, coisa que não prejudica em nada o livro, até porque o próprio faz referência à sua terra natal.
“Na selecção dos textos, procurei contemplar diferentes tipos de narrativas, nomeadamente os contos de encantamento, as histórias de animais, as lendas e as facécias. Sendo esta última uma categoria em que a nossa tradição oral é, a meu ver, particularmente rica, optei por lhe dar algum relevo, na convicção também de que o carácter jocoso e burlesco de tais contos poderia conferir à colectânea uma tonalidade mais humorística do que é habitual em obras deste tipo.” Pág. 4
Dos contos deste livro, deixo uma refência especial para dois que, a mim, me encantaram.
“As Senhoras da Mantinha de Seda” - Pág. 27
“Conto da Pêra de Ouro” - Pág. 33
Continuem em boa companhia!
2006/06/22
Um ano em boa companhia
Agora, ao soprar as velas, gostava de pedir mais participação, mais comentários, mais livros. Espero que seja do interesse de quem nos lê, gostava de ter maior feed-back.
Sei alguns dos erros que temos: posts muito espaçados, com uma avalanche repentina quando há tempo para isso. Vamos tentar ser mais constantes.
Para que saibam: gostámos muito de estar na vossa companhia.
Coelhinho branco - Conto popular adaptado por Xosé Ballesteros
2006/06/21
Eu não tenho sono e não vou para a cama - Lauren Child
Carlota Barbosa, a bruxa medrosa - Layn Marlow
Onde perdeu a lua o riso? – Miriam Sanchez
O trocadilho é um bocadinho forçado, já que lua não é propriamente um nome usual para dar às crianças e tão pouco é bem explorado ao longo do livro (não se desenvolvem paralelismos entre a menina e astro que justifiquem aquela identificação). É, apesar de tudo, um livro que fala das relações familiares, em particular entre irmãos, de uma forma agradável. Mas fica aquém daquilo que promete.
A Maior Flor do Mundo - José Saramago
Histórias para contar em 1 minuto e ½ - Isabel Stilwell, com a colaboração especial de Francisco e Madalena Stilwell
Ao mesmo tempo, e sempre fugindo à tentação das histórias moralistas, o livro vai resolvendo pequeninas questões: o medo do escuro, as birras á noite, não ter nada para vestir – apesar dos armários estarem cheios. É um livro a guardar perto de nós. Uma última nota: o Manual de instruções é muito interessante.
Outra nota ainda, esta já não sobre o livro: a edição é muito boa, de uma editora que eu não conhecia mas que espero que mantenha este nível de qualidade, literária e de edição.
Tio Lobo – Conto popular adaptado por Xosé Ballesteros
Sinceramente, fiquei perplexo. Depois vi o nome da colecção e não pode deixar de rir com a ironia... chama-se livros para sonhar!
Avós – Chema Heras
Uma história de valores sem falar de valores, que procura o essencial, que às vezes queremos esconder. Vale mesmo a pena.
Conspiração – Dan Brown
Depois li – não comprei - o Anjos e Demónios que achei burlesco. O estilo de escrita é o mesmo, o enredo é de uma proximidade exasperante, a única diferença – para muitíssimo pior está - no final, espalhafatoso, hollywoodesco, americanado.
Pura literatura de aeroporto.
A Conspiração – curiosamente lido em grande parte em Aeroportos – é fiel ao seu autor: a história é a mesma, as personagens andam muito próximas, o mau da fita é o mais óbvio, sinceramente, é tão idêntico aos outros que nem se pode dizer que decepcione.
Há dias em que me apetece comer hamburgueres. Faz sentido queixar-me de não me servirem bife da vazia? Os hamburgueres sabem sempre ao mesmo. E depois?
O que eu não estou disposto a fazer – e já não fiz com este livro – é comprar um hamburguer ao preço de um bife ou mais caro, e ainda dizer que é a melhor coisa que já comi. Não: é junk food e ponto final.
A Conspiração é literatura de plástico, feita para formato de bolso. Só é pena ser tamanho bigmac – e estou a falar da extensão do texto, não da edição, feita como se de um livro a sério se tratasse.
Casamento para um tempo novo - Antonio Vasquez
Ensinar a pensar - António Jiménez Guerrero
Grande parte deste problema tem sem dúvida a haver com a incapacidade de compreender e se expressar em português.
Mas outra grande parte tem a ver com falta de bases lógicas e com aceitação acrítica dos argumentos, sem questionar as suas permissas de base.
Não posso dizer que concorde com cada palavra do que está escrito neste livro, mas também é um facto que ele tem muitos méritos. Desde logo, o mérito de abordar este tema, tão inusual nos dias de hoje. Também o facto de estar escrito de forma simples com variadíssimos exemplos ajuda uma fácil leitura e aquisição do seu conteúdo. Finalmente, as técnicas descritas são, na sua maioria muito úteis.
Tem também alguns defeitos: por vezes parte de um sistema algo “fechado” de abordagem das coisas e deixa algumas “promessas por cumprir”. Gostaria de ter visto mais desenvolvidos algumas questões como por exemplo a das falácias e da sua desmontagem, ou outras abordagens como a do pensamento criativo, a imaginação, a capacidade de descrição.
Quem lida diariamente com miúdos sabe até que ponto estas capacidades estão pouco estimuladas e consequentemente pouco exercitada e pouco desenvolvidas.
Outros autores falam, a este propósito em obesidade mental.
2006/06/16
A criança em ruínas

Posso dizer que a leitura não é simples e está longe de ligeira (o que, na minha opinião, só abona a favor do livro). Pelo contrário, é trabalhosa e requer uma grande envolvência, quase íntima, com cada palavra.
Este livro não se deixa florir com o simples gesto de folhear as páginas, é preciso tempo para ler até ouvir o ritmo certo de cada estrofe, que não se impõe, deixa-se descobrir a quem o quer encontrar. Mas não essa, afinal, a magia da verdadeira Poesia?!
É como se José Luís Peixoto quisesse ter a certeza que quem lê os seus poemas se dá ao trabalho de realmente os ‘ouvir’. O hábito de ler silenciosamente é razoavelmente recente e no caso deste livro, e porque não dizer em todos (ou pelo menos quase todos) essa modernidade fez perder parte do encanto do texto escrito. Dá muito mais trabalho e é muito mais difícil ouvir palavras ditas de lábios cerrados...
Como sempre, tive de lutar com a minha dificuldade em escolher uma pequena amostra “Como isolar um sabor de um bolo de várias camadas feito?” A escolha inicial era o poema que já referi, mas essa por tão óbvia peca pela facilidade. Assim deixo aqui este raminho de cheiros para aguçar o apetite.
“ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre no
mesmo sítio se fecharmos os olhos
serás sempre tu e tu que me ensinarás
a nadar seremos sempre nós sob
o sol morno de julho e o véu ténue
do nosso silêncio será sempre o
teu e o teu e o meu sorrizo a cair (...)” Pág. 14


